sábado, 30 de julho de 2016

Do cancioneiro galego-português



Afonso Anes de Cotom (século XIII)

Abadessa, ouvi dizer
Que éreis muito sabedora
Em tudo; por Deus, senhora,
Querei de mim vos condoer
Pois este ano me casei,
Mas juro que ainda não sei
Mais  do que um asno a foder.

Porque me disseram ora
Que vós muito conheceis
De foder e bem no fazeis,
Ensinai-me bem, senhora,
Como foder, pois nem mãe
Nem pai me ensinaram bem
E nada sei até agora.
 
Se eu por vós for ensinado,
Senhora, nesse mester
De foder e foder souber
Por vós, que Deus me indicou,
Sempre que foder, direi
Pater Noster, e rezarei
Pela alma de quem me ensinou.
 
Com isso podeis ganhar
Senhora, o reino de Deus,
Ensinando os filhos seus
Tereis outro jejuar
Se ensinardes a mulher
Coitada, que a vós vier
Por não saber fornicar.

 

                (Adaptado para o português moderno por Orlando Neves)
 

In: Orlando Neves (sel. e org.) . Cantigas de escárnio e maldizer. Lisboa: Editorial Notícias, 2004.

 

 
 
 
 
Segundo o registro a partir dos manuscritos compilados (sem atualização), disponível na excelente base de dados online Cantigas medievais galego-portuguesas (referência ao final)
 
   Abadessa, oí dizer  
   que érades mui sabedor
   de tod'o bem; e, por amor
   de Deus, querede-vos doer
   de mim, que ogano casei,
   que bem vos juro que nom sei
   mais que um asno de foder.
 
   Ca me fazem en sabedor
   de vós que havedes bom sem
   de foder e de tod'o bem;
   ensinade-me mais, senhor,
   como foda, ca o nom sei,
   nem padre nem madre nom hei
   que m'ensin'e fic'i pastor.
  
    E se eu ensinado vou
    de vós, senhor, deste mester
    de foder e foder souber
    per vós, que me Deus aparou,
    cada que per foder direi
    Pater Noster e enmentarei
    a alma de quem m'ensinou.
 
   E per i podedes gaar,
   mia senhor, o reino de Deus,
   per ensinar os pobres seus
   mais ca por outro jajũar;
   e per ensinar a molher
   coitada, que a vós veer,
   senhor, que nom souber ambrar.
 
Lopes, Graça Videira; Ferreira, Manuel Pedro et al. (2011-), Cantigas Medievais Galego Portuguesas [base de dados online]. Lisboa: Instituto de Estudos Medievais, FCSH/NOVA. [Consulta em 30 de julho de 2016] Disponível em: <http://cantigas.fcsh.unl.pt>.
 
 
  
 
 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 22 de julho de 2016

JOSÉ PAULO PAES (1926-1998), 90 ANOS





Neste 22 de julho celebram-se os 90 anos do poeta, crítico e tradutor paulista José Paulo Paes. 

 

OLÍMPICA

ufa ufa ufa ufa
por ufa ufa ufa
ufa que ufa ufa
ufa ufa me ufa
ufa ufa ufa ufa
no  ufa ufa ufa
ufa do ufa  ufa
ufa ufa meu ufa
ufa ufa ufa  pa
is   ufa  uff   fff

 

 

 

CANÇÃO DE EXÍLIO FACILITADA

 

lá?
ah!

sabiá…
papá…
maná…
sofa…
sinhá…

cá?
bah!

 

 

AUTO-ESCOLA VÊNUS

 
contato

para trás
(devagar)
para frente
(devagar)
para trás
(ACELERE)
para frente
(ACELERE)
 
pode desligar

 

 

KIPLING REVISITADO

 
se etc
se etc
se etc
se etc
se etc
se etc
se etc

serás um teorema
meu filho






METAMORFOSE DOIS

 
quando lhe veio à lembrança
que bicho é pai de bicho
o pai de gregório samsa
juntou-se ao filho no lixo

 
 
 
 

 

José Paulo Paes.  Poesia completa. SP: Companhia das Letras, 2008.

 

 

 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

RAINER MARIA RILKE (1875-1926)


Ali vivem homens, pálida florada
que morre pasma do mundo e sua agrura;
ninguém enxerga a careta indisfarçada
que o sorriso de uma raça delicada
ao fim de noites sem nome desfigura.

Vão por aí degradados pela lida
de servir, apáticos, a desrazão;
as suas roupas estão sempre puídas
e logo se enrugam suas belas mãos.

A multidão os empurra sem notar
seu andar incerto e seu ar de doentes –
apenas cachorros tímidos, sem lar,
os seguem por algum tempo, mudamente.
 
A mil atormentadores os atiram,
cada hora que bate é um brutal chamado,
em torno dos hospitais ei-los que giram
à espera de internar-se, angustiados.

    Lá está a morte.  Não a que, esplendor,
os tocou na infância, quando os saudou, mas
a pequena morte (como a entendem lá)
que ora dentro deles, verde, sem dulçor,
é fruto que não amadurece mais.

 

                                               Tradução de José Paulo Paes

 

 

 in: Rainer Maria Rilke [poemas].  Tradução e introd. José Paulo Paes. Companhia das Letras, 2009.

 

Beelitz Heilstätten Hospital, Berlim
 

 

 

domingo, 3 de julho de 2016

ALBERTO CAEIRO: DO GUARDADOR DE REBANHOS


III

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...
 
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como que anda no campo
É triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...

 

 

XLIV

 

Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído,
E esta pequena cousa de engrenagens que  está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me a sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única coisa que meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez...
 
 

 

Fernando Pessoa. Obra poética.  RJ: Aguilar, 1963

quarta-feira, 29 de junho de 2016

PABLO NERUDA (1901-1975) : QUATRO POEMAS DE AÚN

Neruda em Araucânia



VI
Perdão, se quando quero
contar minha vida
é terra o que conto.
Esta é a terra.
Cresce em teu sangue
e cresces.
Se se apaga em teu sangue
te apagas.

 

 

XV
 
Nós, os perecíveis, tocamos metais,
vento, margens do oceano, pedras,
sabendo que continuarão, imóveis ou ardentes,
 e eu fui descobrindo, nomeando todas as coisas:
foi meu destino amar e despedir-me.
 

 


XXV

Vai-se o hoje: uma cápsula
de fria luz que volta a seu recinto,
à sua mãe sombria, renascendo.
Deixo-o agora envolto em sua linhagem.
Dia, é verdade que participei na luz?
Tempo, sou parte de tua catarata?
Areias minhas, solidões!
 
Se é verdade que partimos,
fomos nos consumindo
em pleno sal marinho
e a golpes de relâmpago.
Minha razão tem vivido na intempérie,
entreguei ao mar meu coração calcário.
 
 



XXVI

Se há uma pedra destroçada
dela faço parte:
estive na ventania,
na onda,
no incêndio terrestre.
 
Respeita essa pedra perdida.
 
Se encontras num caminho
um menino
roubando maçãs
e um velho surdo
com um acordeon,
recorda que eu sou
o menino, as maçãs e o ancião.
Não me magoes perseguindo o menino,
não batas no velho vagabundo,
não atires ao rio as maçãs.
 

                            Tradução de Olga Savary

 
 
 
Pablo Neruda.  Ainda (Aún).  4 ed.  RJ: José Olympio, 1984.
 
 
 

quinta-feira, 9 de junho de 2016

"CEGA DE SAUDADE": UMA PARCERIA NO NOVO CD DE PAULINHO LÊMOS






         Amigo  querido de longa data, Paulinho Lêmos músico e cancionista – para usar o termo criado por Luiz Tatit para designar o fazedor de canções – de primeira, há muitos anos está radicado na Europa, de onde volta e meia nos alegra com trabalhos excepcionais e eventuais visitas ao Rio, onde costuma se apresentar.

          Pois ele vem de lançar um ótimo CD, todo de voz e violão, chamado Outra dimensão, no qual há uma parceria nossa, “Cega de saudade”, uma meio que toada quase caipira, de costura melódica delicada e meticulosa.  No CD há preciosidades compostas por Paulinho com seus parceiros habituais, como o ótimo Rogério Batalha, além de Moacyr Luz, Agenor de Oliveira e outros mais.   O CD está disponível para ser adquirido online (em Bandcamp, e também em   Apple Music, Amazon, CdBaby, Spotify, Google play, etc.), além de haver uma tiragem limitada em vinil a sair no fim deste mês de junho.

          Eis a letra da nossa CEGA DE SAUDADE





Ela me olha no olho
acho que cheia de mim
eu bem que tento e não vejo
nem sombra de ser feliz
ali

Se bem que não tou ali
onde ela atenta me fita
também nela não me vejo
quando  sorrindo me diz
ah, sim

que tá cega de saudade
mas é verdade
não é saudade de mim

De dentro do seu retrato
sorri tão cheia de si
ela me tira do sério
quando me chega  chorando
infeliz

 Com a minha falta de tato
penso que ela tá de fita
claro que não, que mau-trato
pois já me disse  e eu não
ouvi

que tá cega de saudade
mas é verdade
não é saudade de mim 

Lhe compro os olhos da cara
para que olhem pra mim
retoco no photoshop
me desarranco do siso
é o fim

sentir  como é que me sinto
pensar se pensou em mim
saber que é só vaidade
dizer chega de saudade
e ouvir

 que tá cega de saudade
mas é verdade
não é saudade de mim

 A seguir o link para o CD Outra dimensão no Bandcamp de Paulinho Lêmoshttp://paulinholemos.bandcamp.com/releases

 

 
 

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Um poema novo, para conjurar os nossos dias contra os nossos dias





OS DESVISÍVEIS

 

Onde não havia ninguém

          - nem vestígio

                    indício 

                             perdido de vista no fundo do

                             precipício

só silêncio abafando

          o suplício de todo

          dia até o fim desde

o início

dos tempos coloniais

 

-  então quando os invisíveis se tornam

visíveis

 

impossível será torná-los

desvisíveis

 

não mais