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domingo, 6 de julho de 2014

GOTTFRIED BENN



A BELA JUVENTUDE

 

A boca da moça que longo tempo jazera em meio aos juncos estava toda roída.
Quando lhe abriram o peito, o esôfago era só buracos.
Acabaram achando numa arcada abaixo do diafragma
um ninho de ratos novos.
Uma das ratinhas morrera.
Seus irmãos viviam do fígado e dos rins;
bebiam sangue frio e tinham
passado ali uma bela juventude.
E bela e pronta foi também a morte deles:
jogaram-nos todos na água.
Ah, como os focinhozinhos guinchavam!

 
                                               Tradução de José Paulo Paes


Ilustração de Talarico




SCHOENE JUGEND

 
Der Mund eines Mädchens, das lange im Schilf gelegen hatte,
sah so angeknabbert aus.
Als man die Brust aufbrach, was die Speisröhre so löcherig.
Schliebflich in einer Laube unter dem Zwerchfell
fand man ein Nest von jungen Ratten.
Ein kleines Schwesterchen lag tot.
Die andern lebten von Leber und Niere,
tranken das kalte Blut und hatten
hier eine schöne Jugend verblebt.
Und schön und schnell kam auch ihr Tod:
Man warf sie allesant ins Wasser.
Ach, wue die kleinen Schnauzen quietschten!
 
           

In: José Paulo Paes: Gaveta de tradutor.  Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1996.                     
 


 

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

GOTTFRIED BENN

TREM RÁPIDO
(1912)


Marrom de conhaque.  Marrom de folhagem.  Marrom avermelhado.
                                                                      [Amarelo malaio.
Trem rápido Berlim-Trelleborg e estâncias no mar Báltico.

Carne que ia nua:
Até a boca queimada do mar.
Maduramente mergulhada.  Para a felicidade grega.
Em saudade-crescente: quão longe está o verão!
Já é o penúltimo dia do nono mês!

Restolho e última amêndoa são nossos desejos.
Ostentações, o sangue, as fadigas.
A proximidade das dálias entorpece.

Marrom-de-homem atira-se em marrom-de-mulher:

Uma mulher é algo para a noite.
E se foi bom, ainda para a próxima!
Ah! e então de novo aquele estar-consigo-próprio!
Esses mutismos! Esse ser-levado!
Uma mulher é algo com cheiro.
Indizível! Agonize! Resedá.
Para lá é Sul, pastor e mar.
Em cada declive se encosta uma sorte.

Marrom-claro-de-mulher cambaleia em marrom-escuro-de-homem:

Pare-me! ei, estou caindo!
Sinto a nuca tão cansada.
Ah, este febril doce
último cheiro dos jardins.

"O abraço", Egon Schiele, 1917
D-ZUG

Braun wie Kognak.
Braun wie Laub. Rotbraun. Malaiengelb.
D-Zug Berlin - Trelleborg und die Ostseeb
äder.

Fleisch, das nackt ging.
Bis in den Mund gebräunt vom Meer.
Reif gesenkt. Zu griechischem Glück.
In Sichel-Sehnsucht: wie weit der Sommer ist!
Vorletzter Tag des neunten Monats schon!

Stoppel und letzte Mandel lechzt in uns.
Enthaltungen, das Blut, die Müdigkeiten,
Die Georginennähe macht uns wirr.

Männerbraun stürzt sich auf Frauenbraun:

Eine Frau ist etwas für eine Nacht.
Und wenn es schön war, noch für die nächste!
Und dann wieder dies Bei-sich-selbst-sein!
Diese Stummheiten. Dies Getriebenwerden!
Eine Frau ist etwas mit Geruch.
Unsäglisches. Stirb hin. Resede.
Darin ist Süden, Hirt und Meer.
An jedem Abhang lehnt ein Glück.

Frauenhellbraun taumelt an Männerdunkelbraun:

Halte mich! Du, ich falle!
Ich bin im Nacken so müde.
O dieser fiebernde süße
Letzte Geruch aus den Gärten.
in: Poesia expressionista alemã: uma antologia.  Org. e tradução de Claudia Cavalcanti. Estação Liberdade, 2000.