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quinta-feira, 22 de agosto de 2024

DOIS POEMAS RECRIADOS EM VÍDEO

    O inquieto, criativo, superativo - numa palavra, MULTI - chapa Felipe Ivanicska, lá das Minas Gerais, anda aprontando com textos meus.  O que só posso agradecer.   Aqui ele trabalhou em vídeo dois poemas do meu Despreparaação para a morte (Rio: Texto Território, 2017), cujo resultado, para mim excepcional, posto agora, junto com os textos. 

   Em tempo: a voz leitora é de Carlos Tuviequizal, a quem só posso parabenizar e agradecer. 



HOJE É QUINTA

Hoje é quinta, amanhã é menos,

súbito a conta é subtração.

Enquanto vivemos, a ponta

da seta sempre aponta

em nossa direção:

É o de somenos

é um truísmo

rebarba que redonda

mente ao nosso medo

de dissipação. O diapasão

dá a nota rombuda

que o ouvido não capta

- melhor: capta e deixa

vazio, eco ao fim

de fundo sem som.

Célere não percebemos

o quanto o tempo

desacelera e o que a espera

não cumpre e fica

baldio, resquício

quintal dos fundos

caco de entulho

quarto imprestável

onde se adentra

só pra saber

que não se encontra

o que faria falta

se não fosse menos.

Amanhã é menos

hoje é quinta

de ontem não lembraremos. 







AUTO

a última

auto-

-ironia

 

 

o último

 

no esgar

do auto-

-engano

 

sorriso

 

ao perceber

o erro de

cálculo

e lembrar

do anjo

perverso

ausente

no banco

vazio

 

do carona



sábado, 8 de junho de 2024

CAMPEÃO DO BRASILEIRO, GUTO LEITE


 

E OUTROS POEMAS, O IMENSO LIVRINHO DO GUTO LEITE QUE ME CHEGA DO RIO GRANDE DO SUL

         A questão fulcral da poesia que se quer “do tempo presente”, creio, creem – e assim devem sentir – os poetas é:   como ferir a carne dos dias com a palavra.   Falemos por enquanto metaforicamente.  Começa pela contingência que leva  o poeta a escrever o poema, por certo.  Mas lógico que a questão não é essa, e sim, e sempre  é o resultado.  Melhor dizendo:  ronda o perigo de o resultado, o poema (ou o que se pretendeu que fosse) acabar sendo insuficiente, datado, ficar preso ao circunstancial, no sentido mais flébil do termo. O poeta olhará  frustrado, se tiver bom senso de autocrítica, o seu poema logrado. 

         Não chego a me considerar poeta.  Digo em termos de resultados do que escrevo ou tento escrever.  Nem sombra de falsa modéstia, é senso de meus limites mesmo,  ante o terrível poder da palavra poética, que me subjuga.  Embora, às vezes até ache que acerto a mão (não disse que não era falsa modéstia?).   Por exemplo: reativei este blog, que estava parado desde 2018, porque me assaltou a urgência de escrever ante os tempos funestos que vivemos e que se pintam – ou se maquiam, vá saber – com tintas de eternidade. Maquiagem ou máscara, como advertiu em célebre conferência Mário de Andrade, da necessidade de “pegar a máscara do tempo e esbofeteá-la como ela merece”.   Tenho escrito esses poemas últimos que publiquei neste blog premido por essas circunstâncias, premido pela necessidade –que tenho certeza de que não é vã – de responder ao tempo presente.   Esta necessidade não é vã, embora os resultados a que chego muitas vezes ou quase sempre o sejam.  Aí só o leitor avaliará.

         Ferir a carne dos dias com a palavra... escrevi a frase acima em registro, claro, metafórico. E acabei desdobrando-a em mais metáforas, mesmo alheias.   Para tentar ficar mais claro, mas no fundo tergiversando, passo para alguns exemplos:  poemas de Brecht e de Maiakovski conseguiam fazê-lo, feriam a carne dos dias.  O Drummond de A rosa do povo (Quem não entra com o russo em Berlim?) e de mais alguns poemas próximos cronologicamente a esse livro magistral, certamente.  O Mário de Andrade de Lira paulistana, idem (“Terremoto que a porta do pobre arromba”),  O Chico Buarque assertivo de “Construção” e “Deus lhe pague”,  cruel de “As caravanas”, divinatório de “A flor da terra”, o Caetano de “Um índio”, “Fora da ordem” e da letra de “Haiti” (a melodia é de Gil), o Gil de “Um sonho”...são alguns exemplos.   Talvez esses poucos sejam quase todos, pra falar a verdade, porque não é coisa fácil conseguir esse efeito de que falo.   E antes que me leiam errado: não estou dizendo que esses são, qualitativamente, os melhores poetas, ou que são os melhores poemas e canções desses criadores.   O que quer dizer:  ferir a carne dos dias com a palavra, responder com poesia ao tempo presente à altura, não é O critério de avaliação de um poema ou de uma canção.   Mas é sem dúvida um atestado de se ter atingido um grau de excelência no que foi proposto, a ser confirmado tão somente pelo escrito que o leitor atualiza.

         Não sei se me faço entender.  Mas eis que abro um livrinho umas 60 páginas do Guto Leite, chamado E outros poemas (Editora Zouk, 2024) e me deparo com um poema inicial já atordoante.  Em seguida vem este, que me nocauteia:


         o time que matou meninos em fevereiro

será mais uma vez campeão do brasileiro

 

trouxe de portugal um treinador tarimbado

         faltou para a revisão do ar-condicionado

 

uma zaga segura um meio-campo entertainer

         os garotos da base ficavam num container

 

centroavantes mortais em um esquema  que amassa

         é difícil enxergar quando tem tanta fumaça

 

a cada gol do artilheiro a galera delira

         não deu pra socorrer os moleques, que dormiam

 

aumenta a distância pro segundo colocado

         christian athila arthur rykelmo pablo bernardo

 

         gedson jorge samuel vitor morreram dez

todos sabem o que fazer com a bola nos pés

 

será mais uma vez campeão do brasileiro

         o time que matou meninos em fevereiro

 

         É um poema desconcertante, é um dos tais poemas que ferem a carne dos dias.  Tento ser um pouco mais preciso:  um poema capaz de dizer do tempo presente em sua concisão verbal, em sua precisão formal ao mesmo tempo em que,  justo por isso,  flagra este presente em visada capaz  de abranger em imagens terrificantes o esgoto, o esgoto calcinante em que vamos mais e mais nos tornando,  como país, como humanidade, que sei eu, como seres vinculados ao que chamamos modernidade, ao que chamamos Ocidente, ao que chamamos capitalismo.  Que começa, o poema,  por ser à queima-roupa em quem gosta de futebol, em quem tem um time, ou já gostou ou já teve e hoje não mais – volto a meu próprio exemplo.  E como não chorar, a não ser que se seja um canalha, com o absurdo fato da morte dos dez adolescentes da base de futebol do Flamengo em fevereiro de 2019?  Mas o magistral desempenho com que os versos se desnovelam ante nossos olhos, em um virtuosismo de craque poeta que fala ao mesmo tempo de futebol, de poesia e do medonho que nos cerca.   O belo da criação estética não se perde na indignação, o belo se faz  e se queima dentro do horror que contemplamos: “uma zaga segura, um meio campo entertainer/os garotos da base ficavam num container”.  Me tirou o fôlego.   Os dez meninos mortos nomeados em impressionantes  versos de 13 sílabas – chamados “bárbaros”, será um acaso? – , que se mantêm ao longo de todo o texto.  Guto não perde o andamento.

         E o pior, digo, o melhor.  Ou: o melhor é o pior.   O livrinho está cheio de poemas assim, de igual excelência. Que inclusive dialogam amorosa e asperamente com o melhor legado nosso em poemas, de Drummond (“ó louça infinita, Aleph de vasilhas,/se em espasmos de tempo sumires inaudita//nós vos recriaremos”) e outros poetas, em canções de Caetano (“o fim do mundo será por extenso//o menino do rio/derreteu”) e outros cancionistas (Guto também o é, com três CDs gravados).   São poemas de impressionante potência e – atenção – , Guto é um poeta residente em Porto Alegre, na Porto Alegre destes dias trágicos.   Seus poemas premonitórios são espantosos,  sem nada terem de divinatórios: são poemas de um poeta atento, leitor de seu tempo em suas implicações concretas, sociais, ecológicas. Capaz de poetizar o fato na medida mesmo em que sabe que fato e fatalidade não podem ser confundidos.

Por exemplo, no admirável e já citado “causas naturais”, dividido em nove segmentos, o poeta nos diz no segmento 2:

 

         os cabelos são arrancados

         à mão

         e um fio d’água

         correndo o cocoruto

 

         se espalha

 

         imagine então

         as margens

         desarvoradas

         de um rio

 

         E no encerramento do mesmo poema, no segmento 9:

        

            não há outro tema que não o fim do mundo

            é obsceno fazer poema sobre o fim do mundo

 

         A vontade que tenho, para fechar estas páginas de justo elogio disfarçado de crítica impressionista, é poder me estender a cada um dos poemas o quanto eles- todos eles –  merecem.  Quem sabe, me empenho dia desses,  num texto de maior fôlego.  Por ora, deixo aqui com vocês o também atordoante “A anoa” (que me remete a Murilo Mendes em sua modernização do arcaico num livro como Convergência), como um testemunho de que o tempo presente é sempre, como as pinturas rupestres a que o texto alude.  E que a poesia tem de estar sempre à sua altura. 

         Guto Leite, querido, professor doutor Carlos Augusto Bonifácio Leite, muito obrigado por estes e outros poemas e canções.

 

A ANOA

 

na parede de uma caverna

em leang bulu’sipong

uma anoa resiste

a caçadores com lanças

 

sobrevinda às crianças

de homens antes dos homens

às quilhas de brilhantes barcos

da frota srivijaya

às velas e caravelas

de dom francisco serrão

à companhia  holandesa

às bombas de hiroito

 

a anoa que não se rende

a quarenta e quatro mil rotas

como o gesto de seu artista

impresso na tez da rocha

está já por todo o tempo

que vir a ser o futuro

 

 

(Aqui uma postagem anterior sobre o mesmo poeta: https://robertobozzetti.blogspot.com/2018/02/guto-leite.html)

 



quinta-feira, 6 de junho de 2024

SONETO DO GATO MORTO, de Vinícius de Moraes

 



SONETO DO GATO MORTO

                        Vinícius de Moraes

Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selvas sinuosas da saudade
 
De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de eletricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade.
 
Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e a morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto
 
Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.

 

Florença, novembro de 1963


MORAES, Vinícius de.  Obra reunida v. 1.  Org. Eucanaã Ferraz.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017. 




sexta-feira, 24 de maio de 2024

CANÇÃO SEM VELÓRIO


 

CANÇÃO SEM VELÓRIO
 
Tanto faz onde me enterrem
a água vai levar tudo
as cinzas, se me cremarem
tomarão rumo de esgoto
engarrafando o emissário
 
ou chegarei lá nas Cagarras
ou qualquer outro arquipélago
agregado a mil dejetos
cumprindo a fatalidade
deste tempo em mim inscrita.
 
Deste tempo em mim inscrito
a água vai levar tudo
cravejado de adesivos
QR codes, códigos
indícios de assassinatos
 
tempos idos e vividos
encharcados e afogados
chegarão lá nas Cagarras
tudo imenso arquipélago
no pélago das mandíbulas
 
de assassinos  planetários
cumprindo a fatalidade
tanto faz onde me enterrem
melhor que me deixem à tona
em cardume de podridos
 
descurado do planeta
negligente do universo
trânsfuga de igrejas
desertor de falsos deuses
tanto que me empenhei
 
pra água me colher cedo
liquefazer remotos ossos
revestidos de adiposes
de carvão fóssil derivados
povoado de adjetivos.
 
De toda matéria extinta
o amálgama se incompleta
a água levará tudo
tanto faz que não me enterrem
tanto tempo acreditamos
 
em rituais benfazejos
encomendas a divindades
ritos de passagem tolos
magias do insondável
luto a ser respeitado
 
e tudo era só um lixão
retratos assinaturas
eletrodomésticos joias
documentos em braile
conversas criptografadas
 
divindades de encomenda
enquanto também na torrente
a coroa mais cara enviada
saudades eternas inscritas 
 segue o périplo do nada.

 

quinta-feira, 16 de maio de 2024

CAVALHEIRO SÓ, Pablo Neruda


 

    É extraordinário este poema do chileno Pablo Neruda (1904-1973), pela capacidade de falar por um eu poético perverso, reprimido sexualmente, que se enxerga solitário, punido, cercado de demônios libertinos.  


CAVALHEIRO SÓ

 



PAES, José Paulo (sel. org. tradução e notas), Poesia erótica em tradução. São Paulo:

Companhia das letras, 1990.






sábado, 11 de maio de 2024

DIONISIO MORRE, Alberto Lins Caldas


 








Alberto Lins Caldas é pernambucano, com formação em Geografia e Arqueologia, professor aposentado da UFPE.   É autor de vasta obra, tanto na teoria quanto na narrativa ficcional (contos e romances).  Publicou os seguintes livros de poesia:  No Interior da Serpente (Pindorama, Recife, 1987), senhor krauze (Revan, Rio de Janeiro, 2009), Minos (Íbis Libris, Rio de Janeiro, 2011) e De Corpo Presente (Íbis Libris, Rio de Janeiro, 2013), 4x3 - Trílogo in Traduções (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2014,  com Tavinho Paes e João José de Melo Franco), a perversa migração das baleias azuis (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2015), a pequena metafisica dos babuinos de gibraltar (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2016), minha pessoa sob o dominio dos barbaros (Íbis Libris, Rio de Janeiro, 2018), tantalo (Flan deTal, Vila do Conde-Portugal, 2019) corpos de troia (Íbis Libris, Rio de Janeiro, 2021). Publicou ainda poemas em jornais, blogs e revistas como Coyote, Escamandro, Intempestiva, Eutomia, Continente Multicultural, Flanzine, Rascunho, Caliban, Gueto, Blecaute, Incomunidade, Ruído Manifesto, Cândido, Conexão Literatura, Germina, Quatetê, Pausa, Zona de Impacto, Caderno de Criação, Literatura e Fechadura, Zona da Palavra, Alagunas, Diversos Afins, Gratuita, Mallarmargens, Tlön, Vallejo and Company, Gazeta de Poesia Inedita, plaquetes pela Galileu Edições.   Participou ainda das antologias: Fandago, Simultâneos Pulsando: Uma antologia fescenina da poesia brasileira contemporânea, Poetas Siglo XXI, Pandemoinhos, Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos, Escriptonita: Pop/Poesia, Mitologia-Remix & Super-Heróis de Gibi, Lula Livre*Lula Livro, Atlas da Literatura Digital Brasileira, Poesia Viva do Recife, 70 Poemas  para Adorno.

 

Para conhecimento de sua poesia, que a mim muito impressiona, eis o link:www.poemasalbertolinscaldas.blogspot.com.br


quinta-feira, 9 de maio de 2024

GRANDE DO SUL


 


GRANDE DO SUL

 

O rio volta a seu leito
 
na cozinha os utensílios
voltam a cada gancho
e prateleiras
assim os livros no mesmo instante
os filamentos da lâmpada um a um
luz
gotejam como a água em cada bica
a viúva é ex-viúva
o viúvo é ex-viúvo
no 3 x 4 a identidade
recupera a dignidade
na escola de novo pintada
a uva viu Ivo
a partida é retomada
no ovo do 0 a 0
o gato volta a seu peixe
o peixe volta a seu rio
 

o pesadelo é acordar.


 


quarta-feira, 1 de maio de 2024

PRIMEIRO DE MAIO

 



PRIMEIRO DE MAIO
 
 
Vão pelo acostamento
quando há acostamento
pela calçada quando há
calçada
 
as portas metálicas ao lado uma da outra
baixadas
da oficina
da venda
do mercado
dos escritórios das repartições do cartório
 
as ruas se colorem desde cedo
de gatos pingados
pais mães crianças
gastos
pingados
tivessem trazido consigo os dentes
talvez fosse dia de festa
mas não haveria o que comer nem como
na rua
 
os caminhões passam e nem um sequer tomba
para o saque
 
na rua
vendedores ambulantes parecem esquecidos junto a velhas peças de museu
 
ficaram os dentes em casa
quando há dentes
quando há o que comer

quando há casa.


 


domingo, 28 de abril de 2024



JOCA E AS CIRCUNSTÂNCIAS DE ABRIL




 

JOCA
                   “o sorriso do cachorro está no rabo”
                        (Walter Franco)
 
No setor de cargas de um aeroporto se encerra
o cruel abril
 
Joca morreu mais de 5000 vezes
e morre de novo e de novo
como as celebridades midiáticas
a cada vez que o vemos
e o vemos aguardando o embarque
dos caixotes – ele caixote -
a abanar o rabo da alegria  
o olhar expectante talvez de bons augúrios
- afinal é um golden retriever
essa absoluta segurança de bom astral -
 
O olhar de Joca quase que nos dá certeza
de que tudo dará certo e mais
nos assegura que assim como nós
 
Joca nada sabe de Gaza
de Africa de Ásia
dos oceanos e rios vermelhos
da crosta vermelha
da Terra ferida
das crianças mortas
de fome
de fel
de parto ou de balas a esmo
lá e ao nosso lado  
de bala envenenada
nada sabe dos homens de lodo e ferrugem
nada
sabe dos morticínios
na penúria
de mulheres de milhares e sequer é capaz de avaliar
daqui a pouco
o ensuredecedor zunido das turbinas
em seus sentidos que sofrem
- o que sabemos –
dos punhais gélidos
do calor de soda cáustica
das estatísticas que nos condenam
do nosso ódio e de nossa indiferença
enquanto ele vai morrer de medo
 - vai morrer de medo! -
e acima dele mãos viajam em seus braços
numa ilusão de inteireza
 
Apenas nos olha
querendo – tsk –  ter os nossos olhos
que agora não suportam a dor de vê-lo mais uma vez morrer
 

mas ele de nada sabe.                                     

 

As circunstâncias de abril

                Relevem, por favor, a alusão a Eliot quando qualifico no verso 2 abril como cruel.  Tentei mesmo não aludir por sincera modéstia, para não me tomarem por pretensioso, se me creem.  O importante para mim, o que quis deixar registrado, é que o mês de abril, que vai se findando, me atingiu com notícias tão cruéis do mundo, do mundo próximo e do distante, que acabou por me levar a escrever resolutamente textos (hesito ainda chama-los poemas) de circunstância. Entre outros efeitos, para compensar a crueldade do mês, esse conjunto de dores me levou a reativar este blog, há seis anos parado.  E me animou ainda a reativar o blog com a leitura de poemas em vídeos, o que pretendo manter. Claro que me refiro aos três textos recentes  aqui postados: “Em que nasceste”, “Eu seria um deus corruptível” (Incidente em Bangu) e “Em que morreste”, que ganharam também suas versões em vídeo.

                O olhar do Golden retriever Joca,  que desgraçadamente captei numa de suas 5000 mortes –  nas telas de TV e PC e celular – foi o mais recente acontecimento triste que levou a tentar escrever a partir de circunstâncias.  Claro que o desafio maior que me impus ao fazê-lo foi fugir do lacrimejante fácil.  Do lacrimejante propriamente dito  fugi a cada vez que ouvia falar no acontecimento do pobre cão a morrer num depósito de cargas em pleno voo. O fato de vivermos todos muito próximos da morte, condição que me captou muito decisivamente neste abril de que falo, parece ter encontrado sua condensação para mim na morte do animal.   Vou postar “Joca” aqui, na esperança de que o texto  tenha ganho sua forma definitiva.

                Há ainda duas alusões intencionais (é possível ainda que haja outras, que podem ter se insinuado sem que eu percebesse):  uma a Cabral, outra a Drummond.   Delas não fujo, não procurei fugir, foram mesmo buscadas.

                Fechemos o mês de abril.


quarta-feira, 24 de abril de 2024









 

EM QUE NASCESTE

         Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!

           País nenhum como este

           Vê que vida que há no chão, que multidão de insetos!

                                      (apud Olavo Bilac)

 

o meu país devora braços e orelhas de poetas
mas primeiro os dilacera e depois ainda
os incinera junto com os livros que escreveram
os cachorros que não os leram não os lerão
nem há como como comer é o que importa
 
não há janela não há porta capaz de detê-los

 

o meu país anda de porsche descarrega
AR 15 kalashnikov funda estilingue 9 mm
AI-5 artigo 142 besta besta-fera bota fora
o ódio sobre a cruz sobre o padre sobre o pastor
quer ver o babalorixá com a boca cheia
 
de formiga formicida feminicida é o meu país
 
enquanto rouba galinhas no quintal vizinho
levando numa mala que lança ao rio
o corpo da mulher e do seu filho e o do vizinho
e o da mulher do vizinho e do filho do vizinho
numa mesa com rícino e vinho uma emulsão
 
de porra e bílis e fezes muco e as veias e varizes
 
promessa de vida eterna promessa de futuro
felicidade ereta ereção infinita tanto eu olho
a linha do horizonte onde ainda vejo num navio
o  meu país quem sabe quem me viu quem nos viu
no passado dum futuro que nunca se construiu
 
lamentação num muro o meu país sem vulcão
 
sem terremoto o meu país de pauis de jurisconsultos
generais sacrossantos fundassentados em vasos
onde trocam boquetes e coitos de escopeta
fissurados nas fressuras  o meu país de finos manjares
derramados como sal sobre a mesa  da santa ceia
 

a pátria do desperdício o meu país de cano duplo.

                                                       

domingo, 21 de abril de 2024





                Depois de seis anos fora de atividade, retomei este meu blog na semana passada com um poema em elaboração, conforme frisei.  Trabalhei mais nele e apresento aqui aos leitores uma segunda versão, que talvez venha a ser a definitiva.   Serão bem vindos os comentários, pareceres, impressões que tomem a comparação entre os textos.  Ou não.  Que queiram comentar apenas este novo poema a que cheguei.

                Ei-lo:

 

EM QUE MORRESTE

Eu poderia me chamar João Cabral de Melo
Neto e estudar ciências abstrusas, números irracionais, letras
apagadas e ter amor ao que faço ou finjo
fazer, criar corvos ou urubus,  entrar e sair de tretas
ir ao mercado comprar maçãs, apostar no bicho
jogar o peixe pescado aos gatos
e nem de longe pensar em nada parecido com assassinatos
ao redor de mim
e eu não teria por que ser morto
 
Eu gostaria mesmo é que meu nome de fato
fosse Marcus Vinícius da Cruz de Mello
Moraes e ainda que eu fosse ruim de bola
a ponto de  ser barrado até no gol, mas bom da bola,
dedicaria  meu tempo a organizar os comerciários
contra comerciantes argentários
ainda que me ameaçassem em vão com assassinato
meu provável fim
eu não teria por que ser morto
 
Eu quereria me chamar Joaquim Maria Machado
de Assis  e ser herdeiro de um vasto latifúndio de infortúnios
e de tanto me esforçar tornar-me exemplo
exímio construtor de pontes e túneis e expulsar
de tantos outros templos os vendilhões de sempre
a atender para todo o sempre orações mediante depósitos
para encomendar assassinatos
sem fim
e eu não teria por que ser morto
 
E se eu me chamasse Edson Arantes do Nascimento
e demonstrasse desde a mais tenra idade
um talento invulgar para a geometria euclidiana
e as especulações de fundo pitagórico
ou fosse eu um mero Afonso Henriques de
Lima Barreto e traçasse a geometria do espanto e do descalabro
de todo o meu país de inutilidades e pegasse
o trem às 5 da tarde, sonhando topografias trocando
ideias infindas em conversas intermináveis
com Caetano Emanoel Vianna Telles Veloso
e Heitor Villa-Lobos, e súbito entrassem no trem
Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho e Olavo Brás Martins dos
Guimarães Bilac, amigos de turma e boemia
e aguardássemos ansiosos a hora de nos encontrarmos
com Cecília e Clarice e Hilda e Adélia
Vera, Maria da Graça, Conceição, Tamires
vindas todas das dimensões nada etéreas
mas muito concretas portadoras de imensas sabedorias
e dedicássemos nossos tempos e nossos futuros
a passar verões à beira-mar e invernos entre serros
e não
não teríamos por que sermos mortos
 
Mas me chamaram Bernardo e entre uma aula e outra
uma gôndola e outra um cheetos e um hambúrguer
entre ser o Pedro ou o Rafael a Stéphanie ou a Gioconda
o Vitor ou o Valber o Kássio ou a Helga a Sandra ou
o Leo ou o Roberto
eu fui eu e não
o outro

e fui morto.