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terça-feira, 15 de março de 2016

JAYRO JOSÉ XAVIER, 1936

      O grande e querido poeta completará em junho 80 anos.  Mais uma vez posto poema seu  aqui.

Ilustração de Talarico
 
 

 
 
DOIS CANTARES COM ENVOI
 
I
 
Só a carne é sábia
só a carne é santa
só a carne
saciada
pode subir aos céus
(para perder-se
e achar
nos labirintos
de Deus)
 
Ó meu amor
ouve o meu canto
e vem
 
Vem com o ondear
de teu negro rebanho
de cabras,
                   vem
com teu púbis
de velcro
 
Aleluia
 
A alegria da carne que goza alça vôo mais alto
que as aladas
asceses
da alma
 
Vem, pastora,
vem
mais nua
- vem sem a pele de loba
da alma
 
Só a carne
é pura
 
palpitação de pássaro
 
 
II


Finda a amorosa batalha,
a  carne em paz, satisfeita.
                                      Deita
teu filho, exausto, no colo.
 
Há um grande medo na noite.
Como o sol não se levanta,
                                      canta
- nina quem se fez menino
 
e adormece, adormeceu
com a cabeça em teu ventre,
                                      entre
(...psiu) a vida e a morte
 
 
 
L’ENVOI

A Glória
eterna
está
em ti
 
que estás
em mim
Senhora
minha
 
Oh dá
que eu morra
e viva
 
no céu
da tua
bainha
 
Jayro José Xavier.  Poemas.  Niterói:  Ed. Do Autor, 2007
 
 
 



sexta-feira, 1 de março de 2013

AH, UM SONETO... DE JAYRO JOSÉ XAVIER

Passado é outro nome de memória
e é vertical no espaço, poço fundo.
Quem debruça na borda deste outubro
colhe avencas-de-maio, aqui e agora.
O que Amanhã supomos não se move
em nossa direção.  Nem vamos rumo
senão do que é presente e nos mergulha
na lembrança, e diremos ser história.
A estrada é que perpassa, não a hora.
Coevos do que fomos e seremos,
chamemos de paisagem, não de tempo,
esse fluir sem fim que nos devora
− ou chamaremos de vento, e chamaremos
os ramos destas árvores de remos. 

Jayro José Xavier. Poemas. 2007.



sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

EXÍLIO

No sexto andar daquele edifício não medravam morangos
apenas quatro apartamentos por andar dois banheiros azulejos
decorados vista para o parque etc. mas não
não medravam morangos nem corriam rios de néctar e leite
apenas quatro por andar e da janela debruçados para fora
uma nesga, até quando? da baía
e uma fuga de Bach para abafar lá dentro o pânico da rua
o riso rouco

Assim foi que se passou aquele ano até novembro
e, de repente, saídas não se sabe de onde,
inesperadas borboletas amarelas invadindo toda a casa
aquela praga – amarelas e brancas – miudinhas
devastando famintas os pesados tomos das obras de Marx e Marcuse

Foi então que Anita retomou a leitura dos cantos de Davi
e eu me senti sem pátria como quem perde a memória da infância
e às vésperas do Natal compramos flores
amarelas e brancas
para enfeitar o prato de amêndoas e miséria
de um mundo vazio de deuses

                Jayro José Xavier (in: Enquanto vivemos, 1980)