Mostrando postagens com marcador João Cabral de Melo Neto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador João Cabral de Melo Neto. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 29 de abril de 2016

JOÃO CABRAL DE MELO NETO (1920-1999)





A CRIADORA DE URUBUS
 

A mulher de Seu Costa
(com medo se sabia)
criava urubus no galinheiro
junto com a criação comezinha.

Decepção ao saber
a correta razão:
não era pelo gosto doentio
de criar tais bichos do Cão,

nem pelo exercício
do estranho e seus desvãos:
mas sim porque o urubu protege,
é padre, abençoa a criação.

João Cabral de Melo Neto.  Obra completa.  RJ: Nova Aguilar, 2003.

 

 

Oswaldo Goeldi, "Urubus e casa ao fundo"

 

 

 

 

domingo, 19 de abril de 2015

Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto: sobre pureza e puros.



CARTA AOS “PUROS”

Ó vós, homens sem sol, que vos dizeis os Puros
E em cujos olhos queima um lento fogo frio
Vós de nervos de nylon e de músculos duros
Capazes de não rir durante anos a fio.

Ó vós, homens sem sal, em cujos corpos tensos
Corre um sangue incolor, da cor alva dos lírios
Vós que almejais na carne o estigma dos martírios
E desejais ser fuzilados sem o lenço.

Ó vós, homens iluminados a néon
Seres extraordinariamente rarefeitos
Vós que vos bem-amais e vos julgais perfeitos
E vos ciliciais à idéia do que é bom.

Ó vós, a quem os bons amam chamar de os Puros
E vos julgais os portadores da verdade
Quando nada mais sois, à luz da realidade,
Que os súcubos dos sentimentos mais escuros.

Ó vós que só viveis nos vórtices da morte
E vos enclausurais no instinto que vos ceva
Vós que vedes na luz o antônimo da treva
E acreditais que o amor é o túmulo do forte.

Ó vós que pedis pouco à vida que dá muito
E erigis a esperança em bandeira aguerrida
Sem saber que a esperança é um simples dom da vida
E tanto mais porque é um dom público e gratuito.

Ó vós que vos negais à escuridão dos bares
Onde o homem que ama oculta o seu segredo
Vós que viveis a mastigar os maxilares
E temeis a mulher e a noite, e dormis cedo.

Ó vós, os curiais; ó vós, os ressentidos
Que tudo equacionais em termos de conflito
E não sabeis pedir sem ter recurso ao grito
E não sabeis vencer se não houver vencidos.

Ó vós que vos comprais com a esmola feita aos pobres
Que vos dão Deus de graça em troca de alguns restos
E maiusculizais os sentimentos nobres
E gostais de dizer que sois homens honestos. 

Ó vós, falsos Catões, chichisbéus de mulheres
Que só articulais para emitir conceitos
E pensais que o credor tem todos os direitos
E o pobre devedor tem todos os deveres.

Ó vós que desprezais a mulher e o poeta
Em nome de vossa vã sabedoria
Vós que tudo comeis mas viveis de dieta
E achais que o bem do alheio é a melhor iguaria.

Ó vós, homens da sigla; ó vós, homens da cifra
Falsos chimangos, calabares, sinecuros
Tende cuidado porque a Esfinge vos decifra...
E eis que é chegada a vez dos verdadeiros puros.

Vinícius de Moraes.  Poesia completa e prosa. RJ: Nova Aguilar, 1987

 

 


        Somente os muito tolos ou inexperientes no quesito vida estranhariam a amizade entre dois poetas praticamente antípodas, Vinícius e João Cabral.  A partir da antítese que fundou suas poéticas, eu mesmo durante muito tempo estranhava sempre que lia que eram muito amigos.  Ponha-se isso em parte na minha pouca vivência, pouca compreensão das relações humanas, em especial da amizade; de outra parte, ponha-se no fato de ter vivido boa parte da vida num ambiente em que o campo da poesia brasileira era muito faccionalizado.  Acho mesmo que deve continuar sendo – a rigor não sei, pois quero distância de “vida literária” - , mas é que durante muito tempo João Cabral era lido como um dos esteios do paideuma concretista e Vinícius como um neo-romântico, ou pior, um desleixado “poetinha”. Os meandros disso, bom, é só se inteirar um pouco da história de nossa poesia que se vão descobrindo coisas e coisas.

         O fato é que cultivaram a amizade, apesar de suas poéticas serem de fato duas águas da poética brasileira modernista. Não lembro onde li que ao ler “Morte e vida severina”, Vinícius teria se mostrado empolgado, ao que Cabral retrucara: “Vinícius, esse poema não é pra você não, eu escrevi pra operário, você é intelectual, tem que gostar é de ‘Uma faca só lâmina’”.  O excelente filme de Bebeto Abrantes Recife Sevilha: João Cabral de Meo Neto, documentário de 2003, tem passagem saborosíssima a respeito da amizade dos dois (vale anotar ainda a amizade de vida inteira de Cabral com Ledo Ivo, seu companheiro de geração e de poética bem distinta e mesmo oposta – também nisso o filme de Abrantes toca): numa gravação em fita de rolo em reunião social, Vinícius canta acompanhando-se ao violão, quando se ouve a voz de Cabral: “Sem ser de amor você não sabe fazer não, não é?  Você só canta o coração, não sabe cantar outra víscera?”  Vinícius reage bem humorado,  dizendo que vai musicar os poemas bem “cerebrinos” do pernambucano, “Vou musicar aqueles poemas da cabra, você vai ver...”  De permeio não se pode deixar de frisar que Vinícius -  “um lírico”, como de forma desdenhosamente divertida Cabral a ele se referia, ou melhor, se referia a todos os poetas que não fossem ele próprio, Cabral – é um dos pilares da nada santíssima trindade bossanovista, ao lado de Tom Jobim e João Gilberto, constituindo-se pois no grande pai poético da instituição MPB…  Aos passo que para João Cabral a música não passava do “menos desagradável dos ruídos”, como ouvi de viva voz o poeta dizê-lo nos pilotis da PUC na Expoesia em 1975.  Sobre o Cabral antimúsico,  Caetano Veloso  lhe dedicou – e a João Donato, o músico antipoeta – sua canção “Outro retrato” do CD Estrangeiro.

         Me lembrei dessas coisas todas ao topar dia desses com um poema de Vinícius que anda bem a calhar para nossos tempos de obscurantismo, hipocrisia falsamente pura, sacripantas vivendo em felicidade de maré montante.  E ao reler a “Carta aos ‘Puros’”, lembrei ainda da exegese poética  rigorosa a que lhe submete Cabral com seu “Ilustração para a Carta aos Puros”, de A educação pela pedra, livro de 1966 (o poema de Vinicius é da década de 1950, parece).  Aqui Cabral lhe impõe o rigor do puro e do “puro”,  através da depuração não purista de dois tipos de cal.  Dois belíssimos poemas.

         Não poderia deixar de ilustrar esta postagem com uma foto que amo – não sei quem é o fotógrafo – dos dois poetas, no meio de suas andanças de diplomatas, que ambos eram, numa Paris do anos 1960 com um icônico Citroën-sapo ao fundo.

 

ILUSTRAÇÃO PARA A “CARTA AOS PUROS” DE VINÍCIUS DE MORAES

 A uma se diz cal viva: a uma, morta;
uma, de ação até o ponto de ativista,
passa de pura a purista e daí passa
a depurar (destruindo o que purifica).
E uma, nada purista e só construtora,
trabalha apagadamente e sem cronista:
mais modesta que servente de pedreiro
aquém de salário mínimo, de nortista

Uma cal sai por aí tudo, vestindo tudo
com o algodãozinho alvo de sua camisa,
de uma camisa que, ao vestir de fresco,
veste de claro e de novo, e reperfila;
e nas vezes de vestir parede de adobe,
ou de taipa, de terra crua ou de argila,  
essa cal lhe constrói um perfil afiado,
uma quina pura, quase de pedra cantaria.
Uma cal não sai: se referve em caieiras
se apurando sem fim a corrosão e a ira,
o purismo e a intolerância inquisidora,
de beata e gramatical, somente punitiva;
se a deixassem sair, sairia roendo tudo
(de tudo, e até de coisas nem nascidas),
e no fim roídas as fichas e indicadores,
se roeria os dentes: enfim autopolícia.


João Cabral de Melo Neto.  Obra completa. RJ: Nova Aguilar, 2003.



sábado, 6 de julho de 2013

GRACILIANO


            Uma das primeiras postagens deste blog foi sobre Graciliano Ramos, visto por seu filho, o também escritor Ricardo Ramos, num valioso livro dedicado às lembranças de seu convívio com o velho,  Retrato fragmentado. 
http://robertobozzetti.blogspot.com.br/2010/12/graciliano-em-dois-fragmentos.html Arrumando estantes aqui,  e aproveitando que a FLIP deste ano é dedicada a Graciliano,  um dos escritores do meu fatal lado esquerdo, resolvi vadiar um pouco pelo livro de Ricardo.  E por outras páginas, alusivas ao mestre alagoano.   Ficam sendo fragmentos dos fragmentos e de outros fragmentos...

             Na página 32 de Retrato fragmentado leio:

             “A linguagem, para Graciliano, era um problema.  Ou casos a resolver, e não dos mais corriqueiros.  Tanto que demandava pesquisa, de raízes ou eufonias, sem muito a ver com as tendências de época…  meu cunhado James Amado me relembra um diálogo, bastante longo, em que ele descartava o modernista “me dê”, por não encontrar base na sua realidade oral, nem na gramática, em benefício de um “dê cá”, real e fluente.
            Há outros exemplos, inúmeros, que pedem somente esforço de memória.  Um deles meu pai me contou, reconstituindo o tempo em que escrevia São Bernardo na língua de Paulo Honório.  Estava sentado na varanda da casa de Palmeira dos Índios, trabalhando, quando chega Clóvis, um dos seus irmãos mais moços, fazendeiro, eventual consultor para assuntos do agreste e se apeia afogueado, suando. Papai o chama. Esbaforido meu tio o atende, ouve a pergunta que o surpreende, dá de ombros, responde atravessado:
            - Ora, Grace! Quem pariu mateus que o balance!
            Ele dá uma gargalhada e agradece:
            - Obrigado, Clóvis. Era isso que eu queria.”

 

 


Mais adiante, na 191:
   

            “Logo após sua morte foi publicado “Máscara mortuária de Graciliano Ramos” soneto de Vinícius de Moraes; o poema “Graciliano Ramos”, de João Cabral de Melo Neto, saiu a seguir.

            O verso inicial de Vinícius, “Feito só, sua máscara paterna”, diz bem das suas relações com Graciliano.  Durante a doença do Velho, ele nos visitava regularmente.  Chegava educado, atencioso, encantador, ficava o tempo requerido, nem muito nem pouco, a nos entreter amável e inteligente.  Era uma presença que fazia bem a meu pai, a todos nós.  E continuou além dele, ainda que mais espaçada, no convívio conosco.  Bar, livraria, jantar de amigos.  Um dos nossos últimos encontros, já vivia sua temporada baiana, aconteceu num almoço na casa de Jenner Augusto, com muita bebida, piscina, comida, interminável e caloroso. Ele me convidou, fosse vê-lo, matar saudades.  Deu o endereço, combinamos.  Eu de férias, pouco depois ia procurá-lo, em Itapuã.  Cheguei, toquei a campainha, passei o portão.  E me surgiu um cachorro enorme, ladrando, ameaçador.  Congelei, de susto ou medo, quando ouvi o grito:
           - Graciliano!
            O bicho aquietou-se, Vinícius apareceu.  Fomos entrando.  Ainda meio arisco, perguntei:
            - Ele se chama Graciliano?
            E Vinícius, no seu natural carinhoso:
            - Claro.  É um São Bernardo.”  
        
 
           Aqui o belo soneto de Vinícius, que, não sei por que, ao relê-lo agora, me ecoou um tanto o  “Le tombeau d’Edgar Poe”, de Mallarmé - releio-o de novo: não.  Acho que só o motivo.  Talvez o primeiro verso.   Eis o  soneto de Vinícius:


MÁSCARA MORTUÁRIA DE GRACILIANO RAMOS

Feito só, sua máscara paterna,
Sua máscara tosca, de acre-doce
Feição, sua máscara austerizou-se
Numa preclara decisão eterna.

Feito só, feito pó, desencantou-se
Nele o íntimo arcanjo, a chama interna
Da paixão em que sempre se queimou
Seu duro corpo que ora longe inverna.

Feito pó, feito pólen, feito fibra
Feito pedra, feito o que é morto e vibra
Sua máscara enxuta de homem forte.

Isto revela em seu silêncio à escuta:
Numa severa afirmação da luta,
Uma impassível negação da morte.

 

 

          Na seqüência, leio ainda no belo livro de Ricardo Ramos:


           "João Cabral de Melo Neto, apesar de visível desde os meus começos, sempre foi mais uma admiração a distância que um particular de pessoal, entretanto alimentado na substância das afinidades.  Aquilo de nordestino afiado, só lâmina, que apura a palavra escrita e a esgota, quase nunca a diz.  Um errante por profissão, um erradio por formação ou destino.  Atribuí os nossos desencontros a tais fados, que nos evitavam, limitavam  meus desejados contatos a breves encontros no Rio, quatro dias no Porto, ligeiras aparições em São Paulo.  E no entanto, para mim, tudo era ontem.
            O poema sobre Graciliano é definitivo.  Como iluminação do escritor, como sentido e afirmação da obra.  Somente um oficial do mesmo ofício, irmão de opa, seria tão preciso.  A precisão, aliás, marca de João Cabral.  Ou de Graciliano. Esse despojamento, que despreza os enfeites, emblema de um e outro.  Irmanados, João Cabral e Graciliano, um interpreta o outro.  ‘Falo somente com o que falo:/Falo somente do que falo:/Falo somente por quem falo:/Falo somente para quem falo.’ Os dois pontos dão seqüências.  Mínimas, essenciais.  Do seco e de suas paisagens.
            Sentados num corredor de hotel, enquanto lá dentro jantavam, animados, escritores de várias instâncias literárias, João Cabral e eu nos abstínhamos, enfastiados.  Um pelo temperamento, outro pela rotina.  Aí falamos de meu pai.  E João Cabral, inesperado, me declarou:
            - Eu não o conheci.
            Surpreso, pois até eu vinha com João desde longe, reagi:
            - Não é possível!
            João Cabral simplesmente declarou:
            - Eu o via na José Olympio e não me aproximava. Por mais que quisesse, era inatingível.  Nunca cheguei nem perto.
            Eu disse o que devia, ou podia.  Duas almas gêmeas.  Muito possivelmente, íntimas.  Se Graciliano fosse poeta, estaria próximo de João Cabral.  Se João Cabral fosse prosador, se avizinharia de Graciliano.  Entre um e outro, os imponderáveis.  Que nós pesamos, pensativos.  Sem concluir, decerto, mas com aquela sensação de penoso desencontro. ‘O que é sinônimo da míngua.’”
 
 
  A íntegra do extraordinário poema de João Cabral:
GRACILIANO RAMOS:
 
Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:

 
de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.
               ***
Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:

 
que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se a fraude.
                ***
 Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:

 
e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo da míngua.
              ***
Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:

 
que é quando o sol é estridente,
a contrapelo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
quem bate numa porta a socos.
Ricardo Ramos

 
 

 
Ricardo nasceu no começo do mesmo 1929 em que seu pai Graciliano foi prefeito em Palmeira dos Índios, Alagoas. A  passagem de  27 meses do Velho pelo cargo  é conhecida de todos os que sabem o mínimo sobre ele, pois foi graças aos relatórios que enviou ao governo daquele  estado que sua escrita precisa, firme, sem rodeios e rebuços indicou  ao Sul maravilha que ali estava um escritor – e que escritor! – inédito ainda àquela altura.  Não me estendo aqui sobre a passagem, de resto facilmente encontrável em suas linhas gerais nas biografias disponíveis,  inclusive na internet.  Mas não se pode deixar de frisar e repisar que a herança deixada, se não frutificou – e não frutificou mesmo, não digo apenas em Alagoas, mas no Brasil todo – é exemplar por seu espírito republicano, por sua integridade, por sua inteireza de límpida transparência na função de homem público.  Como sua escrita, diga-se. 
            Ricardo, p. 111:
            “Dois anos mais tarde, (...) ele me encontrou lendo direito comercial.  E veio me ensinando, muito pai que acha um jeito de confraternizar.  Indireto, mas educativo.  Foi minha vez de rir e perguntar:
            - Onde diabo você aprendeu isso?
            E ele, reflexivo, me respondeu:
            - Em 29 eu agüentei a crise, a prefeitura de Palmeira e você.
            Fora o ano em que nasci.  Acidente, mas contornável.  Tanto que seguiu, concluindo:
            - Se não soubesse um pouco de direito comercial, de escrituração, eu tinha falido.  Mas não, sobrevivi.  Porque não mandei fazer por mim.”
 
            Os relatórios do prefeito Graciliano foram incluídos no volume Viventes das alagoas, mas podem ser acessados na internet no site da excelente Revista de História. Para o Relatório de 1929: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/conteudo-complementar/relatorio-da-prefeitura-municipal-de-palmeira-dos-indios-1929

 

Para quem não os conhece, não resisto e adianto alguns trechos.  Do relatório referente a 1929, veja-se a abertura, na qual a “capilaridade”  do poder é absolutamente perversa, por remeter sempre, inexoravelmente, ao pretenso “poder absoluto” de cada um.  É a situação, familiar para  nós brasileiros, de que o guarda da esquina tem mais poder que um juiz, na medida em que ele, o guarda, é o juiz.  O que se contrapõe a isso, que se reforça com a famosa “falta de vontade política” de quem poderia mudar tal situação, é a conformidade com os “desígnios do Senhor”.  Leia-se:

“COMEÇOS

O principal, o que sem demora iniciei, o de que dependiam todos os outros, segundo creio, foi estabelecer alguma ordem na administração.
Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante de Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do Município tinha a sua administração particular, com Prefeitos Coronéis e Prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam.
Para que tal anomalia desaparecesse lutei com tenacidade e encontrei obstáculos dentro da Prefeitura e fora dela – dentro, uma resistência mole, suave, de algodão em rama; fora, uma campanha sorna, oblíqua, carregada de bílis. Pensava uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro.
Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restam poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Devo muito a eles.
Não sei se a administração do Município é boa ou ruim.
Talvez pudesse ser pior."

             Ainda no mesmo relatório, a inevitável necessidade de ter que indispor-se com todo o sistema da cordialidade brasileira, que Sérgio B. de Holanda formulou e explicou como funciona, partindo do sentido etimológico: é relativa ao coração, como sede dos afetos (bons e maus), e é herança da sociedade patriarcal, pré-moderna,  opondo-se ao domínio do racional e do impessoal próprio das relações modernas. A cordialidade faz com que a lei seja secundária, relativa, flexível e  frouxa, valendo o princípio das relações estabelecidas com aqueles aos quais cabem empregá-la, não com ela propriamente.  Leva a lei ao ponto certo, emprega-a de maneira a não favorecer os que dela se beneficiam ou burlam?  A “amizade” torna-se de súbito inimizade, dessa vez sem aspas. É o que temos na conclusão do primeiro relatório:

 

CONCLUSÃO
Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abriram só há curvas onde as retas foram inteiramente impossíveis.
Evitei emaranhar-me em teias de aranha.
Certos indivíduos, não sei por que, imaginam que devem ser consultados; outros se julgam autoridade bastante para dizer aos contribuintes que não paguem impostos.
Não me entendi com esses.
Há quem ache tudo ruim, e ria constrangidamente, e escreva cartas anônimas, e adoeça, e se morda por não ver a infalível maroteirazinha, a abençoada canalhice, preciosa para quem a pratica, mais preciosa ainda para os que dela se servem como assunto invariável; há quem não compreenda que um ato administrativo seja isento de lucro pessoal; há até quem pretenda embaraçar-me em coisas tão simples como mandar quebrar as pedras dos caminhos. Fechei os ouvidos, deixei gritarem, arrecadei 1:325$500 de multas.
Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram da inteligência, que é fraca.
Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta.
Há descontentamento. Se a minha estada na Prefeitura por estes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos. Paz e prosperidade.


 

            Voltando à p. 33 do Retrato fragmentado, conta o narrador, como um  exemplo perfeito do que expus acima:

            “Às vezes eram lembranças que ficariam inéditas:
            - Logo que cheguei à prefeitura, proibi animais soltos na cidade.  Palmeira era um pasto de bois, cavalos, porcos e cabras, uma sujeira grossa. Na primeira infração, o dono pagava multa; se reincidisse, os bichos iam a leilão.  Foi aquele escarcéu.  Eu agüentei firme, praça pública não é fazenda de ninguém.  A maioria meteu o rabo entre as pernas, diminuiu muito a invasão, mas não terminou. Muritiba chegava todo santo dia com o maço de multas.  Uma ocasião ficou-me rondando, meio sem jeito. ‘Que aconteceu, homem?’ Ele me informou que achara umas vacas de meu pai, juntas das amigas, zanzando à toa.  ‘E você?’ Respondeu: ‘Não fiz nada não.’  Emntão eu mandei: ‘Pois faça, lavre a multa.  Prefeito não tem pai.’  Dito e feito.   Eu paguei a multa, peguei o recibo, de noite falei com seu Sebastião: ‘Olhe aqui, veja, hoje encontramos umas vacas suas fazendo footing.  Se mandasse lhe entregar a multa, o senhor tinha um ataque do coração.  Por isso eu mesmo paguei.’ O velho impou, estourou esbravejando, suviu nas tamancas.  E terminou me devolvendo o dinheiro.  Depois, a vaca dele nunca mais visitou o centro.” 

 
            Não há frase mais exemplar da anticordialidade, do espírito certeiro capaz de diferenciar o público do privado (diferenciação cuja falta assombra mais e mais este país torto na entrada do terceiro milênio) do que “Prefeito não tem pai.”.  Uma lição assombrosa, se pensarmos em Alagoas 1929,  de modernidade.  A seco. Precisa. A retórica da anti-retórica, remédio  contra a verborragia que nos assola ainda hoje.  E em Graciliano todo este arsenal extraordinário de linguagem é posto sempre a serviço do diagnóstico preciso de nossas mazelas, das necessidades de superarmos os incríveis déficits que ainda hoje trazemos enquanto nação.   Veja-se a passagem a seguir do 2º. Relatório:

 
"MIUDEZAS
Não pretendo levar ao público a idéia de que os meus empreendimentos tenham vulto. Sei perfeitamente que são miuçalhas. Mas afinal existem. E, comparados a outros ainda menores, demonstram que aqui pelo interior podem tentar-se coisas um pouco diferentes dessas invisíveis sem grande esforço de imaginação ou microscópio.
Quando iniciei a rodovia de Sant’Ana, a opinião de alguns munícipes era de que ela não prestava porque estava boa demais. Como se eles não a merecessem. E argumentavam. Se aquilo não era péssimo, com certeza sairia caro, não poderia ser executado pelo Município.
Agora mudaram de conversa. Os impostos cresceram, dizem. Ou as obras públicas de Palmeira dos Índios são pagas pelo Estado. Chegarei a convencer-me de que não fui eu que as realizei."
 
        A situação absurda de não crer em nossa própria capacidade de realizar obras de cidadania, ações que nos dignifiquem enquanto povo, sociedade, ou como se queira chamar, é outro traço persistente em nosso “complexo de vira-latas” (que parece estar sempre à espreita, quando pensamos tê-lo superado), na forma de uma  idéia insistente de que nunca poderemos estar à altura de nós mesmos.  Graciliano é também desde aquela época o contra-exemplo perfeito disso – e a consciência de ser esse contra-exemplo.  Afinal, valha aqui o truísmo, é ele o autor da extraordinária obra que deixou, onde, bem observados, esses traços comparecem em tempo integral.

De modo a encerrar aqui  esses rabiscos, remeto ao poema que Murilo Mendes lhe dedicou, dez anos depois de sua morte, e publicou no seu livro de 1970, Convergência:

           
Murilo Mendes


MURILOGRAMA  A GRACILIANO RAMOS

                                              

1

Brabo. Olhofaca. Difícil.
Cacto já se humanizando,

Deriva de um solo sáfaro
Que não junta, antes retira,

Desacontece, desquer.

2

Funda o estilo à sua imagem:
Na tábua seca do livro

Nenhuma voluta inútil,
Rejeita qualquer lirismo.

Tachando a flor de feroz.

3

Tem desejos amarelos.
Quer amar, o sol ulula,

Leva o homem do deserto
(Graciliano-Fabiano)
 
Ao limite irrespirável.

4

Em dimensão de grandeza
Onde o conforto é vacante,
 
Seu passo trágico escreve
A épica real do BR

Que desintegrado explode.

 

 

Pessoa não identificada, Graciliano, Neruda, Portinari e Jorge Amado
 

 
Ricardo Ramos.  Retrato fragmentado. Siciliano, 1992.
Vinícius de Moraes. Poesia completa e prosa. Nova  Aguilar, 1987.
João Cabral de Melo Neto. Obra completa. Nova Aguilar, 1994.
Murilo Mendes. Poesia completa e prosa. Nova Aguilar, 1994.
 
 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

DOIS MULATOS BAIANOS NÃO ALINHADOS: MARIGHELLA E CAETANO



UM COMUNISTA

Um mulato baiano,
muito alto e mulato
filho de um italiano
e de uma preta hauçá

foi aprendendo a ler
olhando o mundo à volta
e prestando atenção
no que não estava a vista

Assim nasce um comunista

Um mulato baiano
que morreu em São Paulo
baleado por homens
do poder militar

nas feições que ganhou
em solo americano
a dita guerra fria
Roma, França e Bahia

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O mulato baiano,
minimanual
do guerrilheiro urbano
que foi preso por Vargas

depois por Magalhães
por fim, pelos milicos
sempre foi perseguido
nas minúcias das pistas

como são os comunistas

Não que os seus inimigos
estivessem lutando
contra as nações terror
que o comunismo urdia

mas por vãos interesses
de poder e dinheiro
quase sempre por menos
quase nunca por mais

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O baiano morreu
eu estava no exílio
e mandei um recado:
"eu que tinha morrido"

e que ele estava vivo,
mas ninguém entendia
vida sem utopia
não entendo que exista

Assim fala um comunista

Porém, a raça humana
segue trágica, sempre
indecodificável
tédio, horror, maravilha

Ó, mulato baiano
o samba o reverencia
muito embora não creia
em violência e guerrilha

Tédio, horror e maravilha

Calçadões encardidos
multidões apodrecem
há um abismo entre homens
e homens, o horror

Quem e como fará
com que a terra se acenda?
e  desate seus nós
discutindo-se Clara

Iemanjá, Maria, Iara
Iansã, Catijaçara

O mulato baiano
 já não obedecia
às ordens de interesse
que vinham de Moscou

era luta romântica
era luz e era treva
feita de maravilha,
de tédio e de horror

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! os comunistas!

Carlos Marighella 

 
Ouvindo pela primeira vez “Um comunista’, faixa do mais novo CD de Caetano Veloso me deparo de saída  com esta belíssima gênese: “Foi aprendendo a ler/olhando o mundo à volta/e prestando atenção/no que não estava à vista/assim nasce um comunista”, gênese que sempre se poderá argumentar que não precisa ser necessariamente a de um comunista mas de qualquer um com impulso  de compreensão humanista do mundo e anseio de justiça social, OK.  Mas  faz todo o sentido que Caetano se refira  na letra a Carlos Marighella, comunista não-alinhado a Moscou, expulso do PCB e morto pela repressão policial-militar em São Paulo em fins de 1969, homenageado na canção.  Sob o impacto hoje da morte de outro grande comunista, este sempre alinhado, Oscar Niemeyer, chego a me emocionar quando leio, algumas estrofes abaixo “O baiano morreu/eu estava no exílio/e mandei um recado:/’eu que tinha morrido’/e que ele estava vivo/mas ninguém entendia”, porque, entre outras coisas em 1969 eu li esse texto n’O Pasquim e, obviamente, também não entendi a referência, embora me encantasse, sim, e creio que para sempre,  com as imagens desoladas da prosa de Caetano.  Emociono-me com a memória, não sei bem precisar esta emoção. Eu tinha na ocasião apenas 13 anos, estava me exercitando em prestar atenção no que não estava à vista, e se O Pasquim estava, se era vendido nas bancas de revista  e fazia grande estardalhaço, em boa medida era porque ali sabíamos que se falava de coisas que absolutamente também não estavam á vista.  Éramos poucos, talvez?  Preparávamo-nos para sermos comunistas, como a direita pensava – e pensa sempre? Éramos jovens com anseios de justiça social e liberdade?  Hoje já não sou mais jovem, mas a imagem de Caetano vai na mosca: sigo querendo prestar atenção no que não está à vista. E recomendo o mesmo a todos, aos jovens, meus filhos incluídos.
Mas tergiverso.  A ideia desta postagem  é  sobretudo informação.  Assim, vou transcrever na íntegra o texto de Caetano, publicado originalmente na edição d’O Pasquim de 27/11 a 02/12/1969.  Confiro no Google que Marighella foi morto no começo de novembro de 1969.  Eis  texto de Caetano, referido na canção, que hoje está no volume organizado por Eucanaã Ferraz, O mundo não é chato, da Companhia das Letras, 2005:

Hoje quando eu acordei

            Hoje quando eu acordei eu dei de cara com a coisa mais feia que eu já vi na minha vida.  Essa coisa era a minha própria cara. Eu sou um sujeito famoso no Brasil, muita gente me conhece.  Eu acredito que a maneira pela qual esse conhecimento se dá pode dizer muito a mim mesmo sobre mim.  Acho que uma capa de revista pode ser como um espelho para um homem famoso.  Quando um homem vê a sua cara no espelho ele vê objetivamente em que estado a vida o deixou.
            O videoteipe, a fotografia colorida e as manchetes que incluem o nome de um homem famoso são também assim como o espelho.  Durante todo o tempo em que eu estive trabalhando com música popular no Brasil, eu sempre levei em conta esse fato.  E eu pensava que estava fazendo alguma coisa, pois a imagem que me era devolvida era a de alguém vivo, em movimento, passando realmente por entre as coisas.
            Hoje eu fui à aula de inglês e Mr. Lee me ensinou a usar direct speech  em lugar de reported speech.  Depois da aula King’s Road estava uma beleza sob uma chuva fria e crônica.  Eu atravesso as ruas sem medo, pois eu sei que eles são educados e deixam o caminho livre para eu passar.  Mas eu não estou aqui e não tenho nada com isso.
            Estou andando como os homens, com meus dois pés.  Não penso em fazer nada.  Alguém entende o que seja isso?
            O cara que vende cigarro no Picasso fala espanhol. Na janela da casa onde eu estou morando tem uns gerânios que já estão secando por causa do outono.  Meu coração está cheio de um ódio opaco.  As crianças inglesas são belas e agressivas.  A Rainha Elizabeth está pedindo aumento de salário.  Eu não dependo disso tudo.  Nada disso depende de mim.  O aspirador não serve para limpar as cortinas porque é muito pesado.  Aqui em casa.  O Rei esteve ontem aqui em casa e eu chorei muito.  Se você quiser saber quem eu sou eu posso lhe dizer; entre no meu carro, na estrada de Santos, você vai me conhecer.
            Talvez alguns caras no Brasil tenham querido me aniquilar; talvez tudo tenha acontecido por acaso.  Mas eu agora quero dizer aquele abraço a quem quer que tenha querido me aniquilar porque o conseguiu.  Gilberto Gil e eu enviamos de Londres aquele abraço pra esses caras.  Não muito merecido porque agora sabemos que não era tão difícil assim nos aniquilar.  Mas virão outros.  Nós estamos mortos.
            Ele está mais vivo do que nós.”
 
          Que fale por si o texto, mas acrescento algumas notinhas, apenas como adendos informativos, sem querer avançar em interpretações.  Reponta a referência a João Cabral, decisiva influência no Caetano pré-tropicalista e que volta e meia marca presença em sua poética ainda hoje.  No caso, a referência é vigorosa e se faz pela  afirmação da vida, superando os signos  da morte: a imagem de “alguém vivo realmente passando entre as coisas”  é a imagem da  “espessura da vida” n’ “O cão sem plumas”, as afirmações do movimento do rio, da espada, do cão, do homem, de quem se diz que se sabem vivos na medida em que “viver é ir entre o que vive”, assim como “uma ave que vai cada segundo conquistando seu voo”.  Outra curiosidade do texto é a frase “Eu atravesso as ruas sem medo, pois eu sei que eles são educados e deixam o caminho livre para eu passar”  que depois surgirá quase idêntica no inglês de “London London” (supondo estou, claro, que a canção seja posterior ao texto).  E finalmente a referência à visita que Roberto Carlos faz a Caetano em Londres, que depois será contada em Verdade tropical e em outras ocasiões:  é muito próprio de Caetano esse movimento desconcertante de deriva do texto; no caso aqui,  depois de se ater a aspectos e observações banais de sua vida no exílio londrino, inclusive a nota cômica de a Rainha estar pedindo aumento de salário, quando fala no Rei “aqui em casa”  quem  estaria seguro para saber que se trata do “Rei” Roberto Carlos, mesmo com a referência óbvia a “As curvas da estrada de Santos”, lançada  no disco daquele ano?  José Miguel Wisnik teve uma grande sacada ao designar como “oculto óbvio” esse traço de Caetano, muito presente em suas canções e atitudes no tropicalismo e imediatamente após, e que será mesmo tematizado em canções (“Não-identificado”, “A voz do morto”, “A voz do vivo” e de forma eloquente em “Um índio”).  O “oculto óbvio”, afinal, responde tanto pela referência ao baiano Marighella quanto ao fato de ninguém ter percebido a (óbvia) referência (oculta).  

Marighella morto em tocaia, novembro de 69.  A foto saiu na imprensa e é possível que seja a ela que Caetano se refere




            Nas suas memórias dos tempos do tropicalismo, Verdade tropical, lançado em  1997, é assim que Caetano situa todos os acontecimentos de que fala o texto e a letra da recente canção (ele fala em “nós”, referindo-se à dupla de exilados, ele e Gil):

            “Acompanhávamos de longe o que se passava no Brasil. Sem que eu estivesse certo do que poderia resultar de uma revolução armada, o heroísmo dos guerrilheiros como única resposta radical à perpetuação da ditadura merecia meu respeito assombrado. No fundo, nós sentíamos com eles uma identificação à distância, de caráter romântico, que nunca tínhamos sentido com a esquerda tradicional e o Partido Comunista.  Nós os víamos – e um pouco nos sentíamos – à esquerda da esquerda.  Quando mataram Marighella, o líder da guerrilha urbana, um baiano que pertencera ao Partido Comunista e que tinha a fama de ter respondido, quando estudante, às questões de uma prova de química em versos decassílabos rimados, coincidiu de publicarem as primeiras fotos que fizeram de nós no exílio na mesma capa de revista em que expunham a de Marighella morto.  Isso me pareceu doloroso. Eu enviava então, a pedido de Luís Carlos Maciel, artigos para o jornal O Pasquim, e, considerando o peso simbólicos da coincidência das duas imagens naquela capa de revista (a de maior tiragem do Brasil de então), escrevi um longo e amargurado texto que terminava  com a afirmação: ‘Nós estamos mortos; ele está mais vivo do que nós’.  Nem uma só pessoa no Brasil percebeu do que eu estava falando. Recebi muitas cartas tentando reconfortar-me pelo sofrimento de estar exilado e conversei com várias pessoas que passavam por Londres e por Paris: mesmo os que mencionavam a execução de Marighella e o meu artigo não relacionavam nem remotamente uma coisa à outra.  Fiquei espantado e isso meu deu uma espécie de medida da distância psicológica que nos separava dos que estavam vivendo no Brasil.  As notícias de ações terroristas causavam um misto de entusiasmo e apreensão.  Afinal, doces tocadores de violão saídos  dos lares da classe média não se sentem muito à vontade diante da perspectiva de violência.  Mas as trocas de embaixadores de países ricos por grupos de prisioneiros – com as agradáveis confirmações por parte dos sequestrados de que foram tratados com humanidade – apareciam como gloriosas vitórias daqueles que lutavam a boa luta da resistência.”

Caetano no exílio londrino

 
Só mais um "aliás": sobre Oscar Niemeyer, morto ontem, dediquei-lhe um poema, por ocasião de seus 100 anos, que publiquei em meu livro Firma irreconhecível, e que foi igualmente uma das primeiras postagens deste blog.  O leitor que quiser lê-lo pode acessar o link http://robertobozzetti.blogspot.com.br/2010/12/oscar-niemeyer.html.