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terça-feira, 23 de agosto de 2016

TRÊS POEMAS DE KONSTANTINOS KAVÁFIS (1863-1933)


 

A ALMA DOS VELHOS
Dentro de velhos corpos perecíveis,
a alma dos velhos tem morada.
Os sofrimentos da coitada,
a vida mísera; no entanto,
como a temem perder – amam-na tanto,
com a contraditória, aflita,
tragicômica alma que habita
suas velhas carcaças consumíveis. 

 

 
COISA RARA

É um ancião.  Decrépito, curvado,
vencido pelos anos e os excessos,
ele atravessa a passo lento o beco.
Enquanto volta à casa, que lhe oculta
a ruína e a velhice, ele medita
no quinhão reservado ainda aos jovens.
 
Agora adolescentes lêem-lhe os versos.
Seus olhos vivos recriam-lhe as visões,
fremem suas mentes sãs, voluptuosas,
- e suas carnes firmes, bem talhadas –
com a beleza por ele revelada.
 
 
 
LEMBRA, CORPO...

Lembra, corpo, não só o quanto foste amado,
não só os leitos onde repousaste,
mas também os desejos que brilharam
por ti em outros olhos, claramente,
e que tornaram a voz trêmula – e que algum
obstáculo casual fez malograr.
gora que isso tudo perdeu-se no passado,
é quase como se a tais desejos
te entregaras – e como brilhavam,
lembra, nos olhos que te olhavam,
e como por ti na voz tremiam, lembra, corpo.
 

                            Tradução de José Paulo Paes

 

Konstantino Kaváfis.  Poemas. 2 ed. RJ: Nova Fronteira, 1982.


Kaváfis - Autor não identificado

sexta-feira, 26 de abril de 2013

KAVÁFIS




COMPREENSÃO

Os anos de minha juventude, a vida de prazeres,
como lhes vejo agora o sentido, claramente.

Os remorsos, que inúteis, que supérfluos...

Mas eu não enxergava então o seu sentido.

Foi na devassidão dos anos juvenis
que os desígnios de minha poesia se formaram,
que se esboçaram os contornos de minha arte.

Bem por isso os remorsos não eram pertinazes
e a decisão de dominar-me, de mudar
durava, quando muito, uma semana.

                               Tradução de José Paulo Paes


Konstantintos Kaváfis.  Poemas. Nova Fronteira, 1982.


sábado, 8 de outubro de 2011

KONSTANTINOS KAVÁFIS

Anotação 22.
                Sei  que para vencer na vida e infundir respeito tem-se de ser sério.  Todavia, não só me é difícil afetar seriedade como não a tenho em alta conta.
                Vou explicar-me melhor.  Nas coisas sérias, agrada-me a seriedade por meia hora, ou mesmo, uma, duas, três horas por dia. 
                No restante, agradam-me os ditos espirituosos, os gracejos, a ironia e os embustes (humbugging) inteligentes.
                Mas não são convenientes.
                Perturbam os negócios.
                Pois as mais das vezes tenho de avir-me com pessoas ignorantes ou néscias.  Elas são sempre sérias.  Focinhos de uma seriedade bestial: como gracejar com elas se não compreendem coisa alguma? Seus focinhos sérios são o reflexo disso.  Tudo é problema e dificuldade para a sua ignorância e bestialidade porque, como nos bois e nos carneiros ( os animais têm fisionomias tão sérias!), a seriedade se difunde pelos seus traços fisionômicos.
                O homem bem-humorado é em geral menosprezado, não merece maior consideração, não inspira muita confiança.
                Daí que eu me empenhe em mostrar aos outros uma aparência séria.  Descobri que isso me facilita grandemente os negócios.  Por dentro, porém, estou rindo e me divertindo à larga.      
26.10.1908


Anotação 2b.
                Um dos talentos dos grandes estilistas é fazer com que, pelo seu modo de empregá-las, palavras obsoletas deixem de parecer obsoletas.  Elas ocorrem com a maior naturalidade nos textos deles, ao passo que nos de outros parecem afetadas ou fora de lugar.  Isso se deve ao tato & discernimento de tais escritores, que sabem quando – & somente quando – o termo em desuso pode ser empregado & revelar-se artisticamente agradável ou linguisticamente necessário: & então ele só é obsoleto de nome.  Trouxeram-no de volta à vida as naturais exigências de um estilo vigoroso ou sutil.   Não é um cadáver desenterrado (como no caso de escritores menos capazes) mas um belo corpo despertado de um sono longo & reparador.

In: Reflexões sobre poesia e ética.  Trad. de José Paulo Paes, 1998.

O poeta grego Konstantinos Kaváfis, 1863-1933

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

DOIS POEMAS DE KAVÁFIS

Traduzidos por José Paulo Paes

MUROS

Sem cuidado nenhum, sem respeito nem pesar,
ergueram à minha volta altos muros de pedra.

E agora aqui estou, em desespero, sem pensar
noutra coisa: o infortúnio a mente me depreda.

E eu que tinha tanta coisa por fazer lá fora!
Quando os ergueram, mal notei os muros, esses.

Não ouvi voz de pedreiro, um ruído que fora.
Isolaram-me do mundo sem que eu percebesse.


PRECE

Um marujo o abismo do mar guardou consigo.
Sem de nada saber, a mãe coloca um círio

aceso diante da Virgem, um longo círio,
para que volte logo, a salvo dos perigos.

No bramido dos ventos põe o seu ouvido;
mas enquanto ela reza e faz o seu pedido,

sabe o ícone a escutá-la, grave, com pesar,
que o filho que ela espera nunca há de voltar.