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domingo, 2 de dezembro de 2012

JOHN DONNE

EM DESPEDIDA: PROIBINDO O PRANTO

Como esses santos homens que se apagam
            Sussurrando aos espíritos: “Que vão...”,
Enquanto alguns dos amigos amargos
            Dizem: “Ainda respira”.  E outros: “Não.” –

Nos dissolvamos sem fazer ruído,
            Sem tempestades de ais, sem rios de pranto,
Fora profanação nossa ao ouvido
            Dos leigos descerrar todo este encanto.

O terremoto traz terror e morte
            E o que ele faz expõe a toda a gente,
Mas a trepidação do firmamento,
            Embora ainda maior, é inocente.

O amor desses amantes sublunares
            (Cuja alma é só sentidos) não resiste
À ausência, que transforma em singulares
            Os elementos em que ele consiste.

Mas a nós (por uma afeição tão alta,
            Que nem sabemos do que seja feita,
Interassegurado o pensamento)
            Mãos, olhos, lábios, não nos fazem falta.

As duas almas, que são uma só,
            Embora eu deva ir, não sofrerão
Um rompimento, mas uma expansão,
            Como ouro reduzido a aéreo pó.

Se são duas, o são similarmente
            As duas duras pernas do compasso:
Tua alma é a perna fixa, em aparente
            Inércia, mas se move a cada passo

Da outra, e se no centro quieta jaz,
            Quando se distancia aquela, essa
Se inclina atentamente e vai-lhe atrás,
            E se endireita quando ela regressa.

Assim serás para mim que pareço
            Como a outra perna obliquamente andar.
Tua firmeza faz-me, circular,
            Encontrar meu final em meu começo.

                                   (tradução de Augusto de Campos)


John Donne, c. 1595




A VALEDICTION: FORBIDDING MOURNING

AS virtuous men pass mildly away, 
    And whisper to their souls to go, 
Whilst some of their sad friends do say,
    "Now his breath goes," and some say, "No."                     

So let us melt, and make no noise,                                      
    No tear-floods, nor sigh-tempests move ;
'Twere profanation of our joys 
    To tell the laity our love. 

Moving of th' earth brings harms and fears ;
    Men reckon what it did, and meant ;                             
But trepidation of the spheres, 
    Though greater far, is innocent. 

Dull sublunary lovers' love 
    —Whose soul is sense—cannot admit 
Of absence, 'cause it doth remove                                      
    The thing which elemented it. 

But we by a love so much refined,
    That ourselves know not what it is, 
Inter-assurèd of the mind, 
    Care less, eyes, lips and hands to miss.                            

Our two souls therefore, which are one, 
    Though I must go, endure not yet 
A breach, but an expansion, 
    Like gold to aery thinness beat. 

If they be two, they are two so                                           
    As stiff twin compasses are two ; 
Thy soul, the fix'd foot, makes no show 
    To move, but doth, if th' other do. 

And though it in the centre sit, 
    Yet, when the other far doth roam,                                 
It leans, and hearkens after it, 
    And grows erect, as that comes home. 

Such wilt thou be to me, who must,
    Like th' other foot, obliquely run ;
Thy firmness makes my circle just,                                     
    And makes me end where I begun. 


In: Augusto de Campos. Verso reverso controverso. Perspectiva, 1978.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL PELO “CARPE DIEM”


            Extraídos do  magnífico  Lírica e lugar-comum, de Francisco Achcar (EdUsp) , desde a “premonição”  do “carpe diem” horaciano por Catulo, e partindo então do primeiro texto em que a expressão está registrada, em tradução do árcade português Elpino Duriense.  E além...


Vivamos, minha Lésbia, e amemos,
e as graves vozes velhas
– todas –
valham para nós menos que um vintém.
Os sóis podem morrer e renascer:
quando se apaga nosso fogo breve
dormimos uma noite infinita.
Dá-me pois mil beijos, e mais cem,
e mil, e cem, e mil, e mil e cem.
Quando somarmos muitas vezes mil
misturaremos tudo até perder a conta:
que a inveja não ponha o olho de agouro
no assombro de uma tal soma de beijos.

                                               Catulo (século I a.C)
                                               (tradução de Haroldo de Campos)



Saber não cures (é vedado) os deuses
A ti qual termo, qual a mim marcaram,
Nem consultes, leucônoe, os babilônios
Cálculos, por que assim melhor já sofras
Tudo quanto vier, ou te dê Jove
Muitos invernos, ou só este, que ora
O mar tirreno nas opostas rochas
Quebra.  Tem siso, o vinho coa, e corta
Em vida breve as longas esperanças.
Ínvida a idade foge; colhe o dia,
Do de amanhã  mui pouco confiando.

                                                           Horácio  (século I a. C)
                                                           (tradução de Elpino Duriense)




SONETO PARA HELENA

Quando fores bem velha, à noite, à luz da vela,
Junto ao fogo do lar, dobando o fio e fiando,
Dirás, ao recitar meus versos e pasmando:
Ronsard me celebrou no tempo em que fui bela.

E entre as servas então não há de haver aquela
Que, já sob o labor do dia dormitando,
Se o meu nome escutar não vá logo acordando
E abençoando o esplendor que o teu nome revela.

Sob a terra eu irei, fantasma silencioso,
Entre as sombras sem fim procurando repouso;
E em tua casa irás, velhinha combalida,

Chorando o meu amor e o teu cruel desdém.
Vive sem esperar pelo dia que vem:
Colhe hoje, desde já, colhe as rosas da vida.

                                   Ronsard  - séc. XVI
                                   (tradução de Guilherme de Almeida)




A APARIÇÃO

Quando, assassina, o teu desdém tiver
Feito de mim um morto contrafeito,
E te julgares livre, enfim,
Dos meus assédios e de mim,
Meu fantasma virá ter ao teu leito,
Onde serás, falsa vestal, uma mulher
Qualquer, nos braços de um outro qualquer.
A tua vela, então, vai vacilar;
Se cutucares o pobre comparsa
Ao lado, ele por certo há de pensar,
Ouvindo os teus suspiros e os teus ais,
Que queres mais,
E fingirá dormir, mísera farsa.
Trêmula e só, entregue à tua sorte,
Gelada até os ossos, vais penar,
Mais morta do que a morte.
O que eu direi não quero antecipar
Para não minorar a tua dor.
E como o amor que eu sinto também passa,
Prefiro te ver morta de terror
A viva e casta após esta ameaça.

                                       John Donne  - séc. XVII
    (tradução de Augusto de Campos)




A MARFISA

Já, Marfisa cruel, me não maltrata
Saber que usas comigo de cautelas,
Qu’inda te espero ver, por causa delas,
Arrependida de ter sido ingrata.

Com o tempo, que tudo desbarata,
Teus olhos deixarão de ser estrelas;
Verás murchar no rosto as faces belas,
E as tranças d’oiro converter-se em prata.

Pois se sabes que a tua formosura
Por força há de sofrer da idade os danos,
Por que me negas hoje esta ventura?

Guarda para seu tempo os desenganos,
Gozemo-nos agora, enquanto dura,
Já que dura tão pouco, a flor dos anos.

                                               Basílio da Gama – séc. XVIII







quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

JOHN DONNE (1572-1631)

EM DESPEDIDA: PROIBINDO O PRANTO

Como esses santos homens que se apagam
                Sussurrando aos espíritos: “Que vão...”
Enquanto alguns dos amigos amargos
                Dizem: “Ainda respira”. E outros: “Não.” –

Nos dissolvamos sem fazer ruído,
                Sem tempestades de ais, sem rios de pranto,  
Fora profanação nossa ao ouvido
                Dos leigos descerrar todo este encanto.

O terremoto traz terror e morte
                E o que ele faz expõe a toda gente,
Mas a trepidação do firmamento,
                Embora ainda maior, é inocente.

O amor desses amantes sublunares
                (Cuja alma é só sentidos) não resiste
À ausência, que transforma em singulares        
                Os elementos em que ele consiste.

Mas a nós (por uma afeição tão alta,
                Que nem sabemos do que seja feita,
Interassegurado o pensamento)
                Mãos, olhos, lábios não nos fazem falta.

As duas almas, que são uma só,
                Embora eu deva ir, não sofrerão
Um rompimento, mas uma expansão,
                Como ouro reduzido a aéreo pó.

Se são duas, o são similarmente
                Às duas duras pernas do compasso:
Tua alma é a perna fixa, em aparente
                Inércia, mas se move a cada passo

Da outra, e se no centro quieta jaz,
                Quando se distancia aquela, essa
Se inclina atentamente e vai-lhe atrás,
                E se endireita quando ela regressa.

Assim serás para mim que pareço
                Como a outra perna obliquamente andar.
Tua firmeza faz-me, circular,     
                Encontrar meu final em meu começo.

                Tradução de Augusto de Campos



A VALEDICTION:  FORBIDDING MOURNING

As virtuous men passe mildly away
                And  whisper to their soules, to goe,
Whilst some of their sad friends doe say,
                The breath goes now, and some say, no:

So let us melt, and make no noise,
                No teare-floods, nor sight-tempests move,
T’were prophanation of our joyes
                To telle the layetie our love.

Moving of th’earth brings harmes and feares,
                Men reckon what it did and meant,
But trepidation of the spheares,
                Though greater farre, is innocent.

Dull sublunary lovers love
                (Whose soule is sense) cannot admit
Absence, because it doth remove
                Those things which elemented it.

But we by a love, so much refin’d
                That our selves know not what it is,
Inter-assured of the mind,
                Care lesse, eyes, lips, and hands to misse.

Our two soules therefore, which are one,
                Though I must goe, endure not yet
A breach, but an expansion,
                Like gold to ayery thinnesse beate.

If they be two, they are two so
                As stiffe twin compasses arte two,
Thy soule the fix foot, makes no show
                To move, but doth, if th’other doe.

And though it in the center sit,
                Yet when the other far doth rome,
It leanes, and hearkens after it,
                And growes erect, as that comes home.

Such wilt thou be to mee, who must
                Like th’other foot, obliquely runne;
Thy firmness makes my circle just,
                And makes me end, where I begunne.


(In: Verso reverso controverso. Perspectiva, 1978)