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domingo, 20 de outubro de 2024

 OUVIR FRED MARTINS E MARCOS SUZANO: BARBARIZANDO GERAL

O desenho da capa é do próprio Fred Martins



FRED MARTINS é um cancionista de mão cheia.  Dito isto, ora pois,  viva o clichê adequado!   E vamos continuar em tom "jornalístico":  Chega agora a seu oitavo disco – sem contar  um inaugural, ainda em vinil, um EP de seis faixas lançada nos idos de 1992 pelo fugaz selo Niterói Discos, cuja capa penduro aqui:




.    Tempo passou,  Fred se viu um dia,  meio que por acaso, numa excursão de cara&coragem&voz&violão,  sozinho e um tanto sem pouso certo,   pela Europa,   e foi se apresentar  numa mostra de música numa universidade alemã (acho que em Hamburgo, não sei ao certo) quando se deu conta de  que por lá havia uma plateia disposta a ouvir sua música ("Um auditório grande, de universidade, cheio de gente que não sabia nada de português, em silêncio respeitoso, ouvindo o que eu tinha pra mostrar, e depois um acolhimento interessado, generoso", ele me contou na época). Pronto:  um pouco antes, ele tinha ganho,   em 2006, o 9º Prêmio Visa de Música Brasileira (vencedor por unanimidade do júri e da votação popular), acabou gravando um DVD por conta do prêmio, mas também, por outro e mesmo lado,  já tinha percebido  que aqui a maré já não estava pra peixe, a água estava virando pó para quem faz música de talento, de proposta, de substância - e são tantos, são muitos.  Mas Fred  desanimou de vez com o panorama dos brasis,  cujas comportas "do sucesso" - ou apenas da visibilidade e da audição dignas -  estão abertas  para fazer sobreviver – ou melhor, viver  bem – só quem entra nas engrenagens da "música gospel", dos sertanários universitejos, das celebridades instantâneas,  e então...  depois de algumas idas e vindas,  frutos de convites diversos, ele  decidiu se fixar    na Europa. Era 2010.  Por aqui deixou,  antes de decidir partir de vez,  duas canções que obtiveram alguma repercussão:  “Novamente” (parceria com Alexandre Lemos), gravada por Ney Matogrosso em 2000 - incluída numa trilha sonora de novela na Globo - , e “Flores” (parceria  com Marcelo Diniz), que Zélia Duncan registrou em 2001. Fixou-se por  sete anos na Galícia – onde gravou  um CD excepcional com a cantora galega Ugia Pedreira em 2012 (Acrobata), e  atualmente está em Lisboa há 7 anos, onde também já lançou diversos CDs, participando nesse tempo ainda de trabalhos  com músicos locais e europeus em geral, compondo trilha sonora inclusive para um balé russo em homenagem a Oscar Niemeyer.  Fez vários giros pela Europa tendo como partner ninguém menos do que Jaques Morelenbaum, apresentou-se em Cabo Verde, no Canadá, enfim, tem passeado pelo mundo. 


Feita esta apresentação breve, pois bem:  Fred juntou-se agora ao excepcional percussionista Marcos Suzano e zás! lançou no último dia 15 uma obra-prima, o CD BARBARIZANDO GERAL, pelo selo Biscoito Fino, trabalho que há tempos vinha sendo gravado em estúdios entre Lisboa e Rio.   É disco de uma força danada, cuja capa é desenhada pelo próprio Fred.   Poucos trabalhos como este - cito de cabeça e rápido o Besta Fera, de Jards Macalé (2019) e o Moribundas vontades, de Fernando Pellon (2016)  entre poucos exemplos -, são capazes de flagrar a maré montante de brutalidade que vivemos neste tempo-lugar e lançar a arte como antídoto para não naufragarmos de vez.   Mas para quem acompanha mais de perto seu trabalho a  maior das surpresas que traz é o fato de  Fred Martins ter assumido também as letras de suas  canções em quatro  das dez faixas, cada uma melhor do que a outra.  Abre com a  faixa-título,  “Barbarizando geral”, um samba sacudido e contundente, que manda logo ver:  “Com tanta gente crente/que cretinamente é contra o diferente/ os velhos ratos do mercado vão seguir barbarizando geral /enquanto o insano e podre bicho humano/vai entrando pelo cano/eu vou chorando minha tão sentida lágrima de crocodilo”.  E o tom irado e irônico vai atravessando o disco, mesclado a maravilhas de pura lírica (resistência à barbárie, como dizia um velho alemão), como em ‘Este amor é Lume /este amor anima/incandesce cada grão /este amor chegou /desconhece a paz /arde este amor demais...” (“Este amor tem nome”).   As duas outras letras que também levam sua assinatura no disco são excelentes:  o irresistível mezzo-samba mezzo-rumba “Abalou”,  e a doce e intrigante  “Trama”, que fecha o disco.





Se chamo a atenção e saúdo o fato de Fred ter gravado tantas letras próprias, é porque na maior parte de sua já consistente obra ele tem se valido de inúmeros parceiros letristas.  O principal deles tem sido Marcelo Diniz, que em BARBARIZANDO GERAL assina apenas uma parceria, o “Rancho da seita suicida”, uma marchinha que consegue a proeza  raríssima – haja Maiakovski e Brecht! – de unir panfleto político e vigor poético ao fustigar a estupidez que atravessamos como país recentemente e ainda corremos tanto o risco de atravessar.  No “Rancho” estão ali os nomes dos bois: “Um bloco macabro suicida/desfila na rua /na epidemia /na frente vai o genocida/aquele demônio de nome Messias”. A faixa tem ainda a participação altamente convincente,  pela veemência,  da bela voz de Nani Medeiros.  Outra faixa cortante, “Senzala”,  é a estreia de um novo letrista, André Sampaio, cuja proeza também não é pequena:   numa letra de rimas todas em vogais abertas, claras, em /a/  traça um quadro geral da escuridão do fogo que a todos nos vai calcinando a céu aberto, pessoas e coisas, reificadas numa persistência rítmica entre a batida do jongo e a do trabalho forçado: “Se pudessem dizer o que a fome já cala/ou se as línguas não fossem cortadas na faca/e se o canto não fosse batido na enxada/ou seus dedos quebrados pregados nas talas// Mais um dia de sol brilha sobre Senzala”.



André Sampaio e eu


Fred, Marcelo Diniz e eu


 Manoel Gomes com “Além do qualquer” a mim me tocou especialmente:   Manoel veio a falecer de forma meio inexplicável e obscura, num atropelamento de madrugada em Niterói em dezembro de 2017 (deixo o link para o texto que postei aqui mesmo no blog na ocasião: https://robertobozzetti.blogspot.com/search/label/Manoel%20Gomes) .   Fred compôs muito com ele, gravou muitas letras suas, sempre de forma magnífica.  Ao ouvir-ler esta “Além do qualquer”, não tive a menor dúvida: trata-se de um testamento poético deixado por Manoel, poeta que como pessoa viveu  sempre além do qualquer e,  além do além,  sua voz ainda se faz ouvir na melodia do samba-canção secundado pela percussão leve de Suzano e um belíssimo bandoneon (que achado!) a cargo do argentino Martin Sued.  Não resisto a deixar aqui toda a letra, que, repito, muito me comove e muito significa para quem conheceu Manel (da última vez em que estivemos juntos, ele me deu de presente um poema especialmente escrito para mim, escrito em letra de forma durante um show a que assistíamos, num papel todo dobrado  – jamais me desculpei o fato de não saber onde a guardei).  Em “Além do qualquer” temos alguém que soube fazer seu próprio auto-retrato:

Por gostar tanto do mundo
Não pode ser qualquer mundo
Meu pano de cena
Por querer tão bem a vida
Não deverá qualquer vida
Assim valer a pena
Por viver tão plena arte
Jamais será qualquer arte
Meu campo de pouso
Por amar forma de gente
Não me encanta qualquer gente
E um verso qualquer não ouso

 


Com Manoel Gomes

Tudo o que escrevi aqui talvez fosse menos suspeito não fosse eu parceiro de três canções de Fred neste disco - mas confiram e ouçam BARBARIZANDO GERAL, que verão que não minto.  Mas dessas parcerias vou falar só em passant:  “Madame Maldade”, a mais antiga,  já tinha sido registrada ao vivo no CD de 2017 A música é meu país. Trata-se de uma brincadeira maldosa – como tem forçosamente de ser – com as passeatas pelo impeachment de Dilma  nas copacabanas do Brasil.   A tal madame é uma personagem que criei no Facebook, que ilustro  sempre com  um retrato daquelas senhoras de Boldini e legendas barbarizantes em geral.  Foi também na mesma rede social, à época em que o Papa Francisco deu umas declarações de tolerância e de amor pelos homossexuais e que Chico Buarque foi agraciado com o Prêmio Camões para contrariedade geral dos nossos imbecis, que escrevi um textinho despretensioso saudando-os, que fez Fred pegar o  embalo e fazer um samba delicioso, todo quebradinho chamado “Dois Chicos”, avisando – até em Libras – “evêm mais chico no caminho!” (Mendes, Science...).   E, por fim, compusemos ainda há uns 5 anos “Ahmed”, uma homenagem ao verdadeiro autor das canções de Chico Buarque (não só: também as de Tom Jobim, Milton, Edu Lobo, Caetano, Paulinho da Viola, Caetano, Gil, João Bosco e Aldir), relegado ao anonimato do qual procuramos resgatá-lo.   Nesta, o luxo foi tanto que até o MPB4 entrou na brincadeira e deu uma força na faixa, resgatando do esquecimento quem merece.  Afinal, como diz o próprio Ahmed: “Só quero ser reconhecido por vocês.”   Chico parecia ter gostado também da brincadeira, mas depois vetou o vídeo no qual ele dava seu depoimento de confissão.  Paciência.   Ahmed declarou numa entrevista outro dia algo que nos soou surpreendente.  Disse ele:  “Dizem que morre o burro, fica o homem, né.  Benjor escreveu isso numa música.  Aliás, só ele,  o Tom Zé, o Nelson Ned e o Odair José nunca me compraram música.  Nem do Julinho da Adelaide.  Na verdade, morrem os mitos, ficam os nomes, né.”  Palavra de Ahmed.

 

https://open.spotify.com/intl-pt/album/2DIyQhIDjt1iJjMEGsduhD?si=tSy6gf7pSoacPhTd_WHbkw

Não deixem de ouvir BARBARIZANDO GERAL, discaço cujo link vai aí em cima.  E eis ali embaixo em ordem cronológica  toda a discografia do Fred Martins.  Vão aí nas internets da vida que garanto que não se arrependerão  A gente ouve o trabalho dele em todos esses canais aqui:



1.         JANELAS (2001)

2.       RARO E COMUM

3.       TEMPO AFORA (2008)

4.       GUANABARA (2009)

5.       ACROBATA (com Ugia Pedreira, 2012 – na Espanha)

6.       PARA ALÉM DO MURO DO MEU QUINTAL (2015 – em Portugal)

7.       ULTRAMARINO (2021 – em Portugal)

8.       BARBARIZADO GERAL (2024 – pela Biscoito Fino)


Fred, eu e +1



terça-feira, 26 de dezembro de 2017

VALEU, MANOEL GOMES!

         

           Há diversas maneiras de se fugir de um  clichê.  Enfrentá-lo é apenas uma delas.  Dizer, por exemplo: “Fecha-se a tampa de 2017 como se fecha a tampa do caixão de um ano tão triste para a vida pública brasileira”, para a vida dos afetos que contam, como conta uma conta que a gente não fecha, porque dá a impressão que muito mais gente que valia a pena nos deixou, muito mais gente do que a que fica por aqui a continuar emporcalhando nossos dias.
         É uma maneira talvez grosseira, certamente de mau-gosto, de dizer da minha desolação ao saber, neste apagar das luzes – e deste, como fugir? – da morte de Manoel Gomes, o poeta incrível, parceiro de Fred Martins, de Luís Capucho, que sei eu de tantos outros?  Porque não, não adianta – provavelmente de nada valerá, embora eu mesmo ainda não o tenha feito – sair por aí, nos googles da vida, a tentar achar maiores informações sobre esse poeta, cujos feitos pareço tanto admirar – e de fato admiro.
         Marcelo Diniz, um dos nossos amigos comuns, e que o conhecia desde criança,  e portanto muito mais de perto do que eu, escreveu um texto tocante no Facebook – através do qual foi que eu soube da notícia – no qual lá pelas tantas diz assim: “Os escritos de Manoel nunca chegaram a livro. Chegaram a canções. Manoel Gomes é um poeta da oralidade: não teve dinheiro, nem paciência para ver-se impresso. Manoel era performático, sua poesia deve muito a teatro, pintava os olhos e passava batom a cada performance, sem camisas e descalço, exibia seu corpo sem timidez, num espécie de transe obsceno, um corpo afrontoso à moral e ao bom gosto, como um neymatogrosso mais cínico porque gordo. Isso nos finais dos 80, nos bares, no sesc, na uff, no cinema íris. Manoel era motivo de riso, sim, mas muito do riso continha admiração.”
         Desenvolvi há algum tempo uma neura com relação a guardar papéis, quaisquer papéis.  O que poderia talvez se render a uma explicação fácil e ser tomado  como um efeito da era dos arquivos digitais, o papel sendo substituído pelo documento Word,  na verdade não creio que o seja,  uma vez  que desenvolvo também cada vez mais acentuadamente ojeriza a arquivos digitais.  Manel, acho, também não devia gostar muito de papéis.  Explico: da última vez em que estivemos juntos, por ocasião de um concerto de Fred Martins na Sala Funarte no Rio em agosto de 2015, Manel me cantou duas canções cujas letras jurava que eram minhas: uma, em parceria com ele, ambas inacabadas.  Convenceu-me dessa parceria, da qual acabei me lembrando,  e convenceu-me também da outra, - embora eu não tivesse dela a menor lembrança – pelo simples fato de que sua memória era sempre convincente.  E não bastasse isso, me disse, inteiro, a mão no meu ombro, como de seu feitio, um poema que escrevera,  segundo ele há muitos anos,  em homenagem a mim, em seguida me pediu um tempo, retirou-se para um balcão na  entrada da Sala Funarte e ali mesmo, numa folha de bloco daqueles pequenos de rascunho, escolares, me entregou então o poema todo em  quadras, numa  letra de fôrma criança.  Não era uma letra infantil, longe disso, mas era, lembro bem, uma letra criança, já que,  sei lá por quais mistérios, exalava alegria.  Guardei comovido o papel no bolso da calça, em seguida para um compartimento em minha pasta de uso diário,  mas miseravelmente, nunca tive o cuidado de guardá-lo com mais cuidado ou passá-lo para um arquivo de computador. Hoje a procuro por aqui em vão.  Manel também não gostava de guardar papel, pelo visto, mas sua portentosa memória compensava isso.  Por isso ele dizia sua poesia e, se necessário fosse, talvez escrevesse.  Ou alguém escrevia para ele.  Há pouco no telefone Marcelo Diniz me contou que a letra de “Poema velho”, uma linda parceria de Manoel Gomes com Fred Martins, chegou a este num guardanapo guardado por Marcelo muitos anos depois de ter sido escrita – Marcelo lida melhor com papéis, certamente.
         Muito do que era Manoel Gomes, e ele era muito, está  de corpo inteiro  no belo texto que Marcelo escreveu e postou no Facebook.  Eu não tive muitos encontros com Manel, muitas vezes pensava encontrá-lo quando ia estar com Fred Martins, mas na verdade nunca ninguém sabia por onde ele andava.  Foi assim a vida inteira.  Encontrá-lo era para mim, e sei que não só para mim,  sempre obra do acaso.  A figura do poeta  Manoel Gomes me evocou sempre, por essa errância, ou melhor, por esse estado de poesia em errância & canção, a figura de Nelson Cavaquinho, alguém que fazia a poesia que fazia por  compulsão, por uma fatalidade, por uma necessidade vital sem intermédios e circunstâncias intermediadoras.  É o que dizem e escrevem de Nelson e suas errâncias pelo mundo do Rio de Janeiro: em becos, botecos, puteiros, em peças miseráveis em  teatros barrocos e loucos.         E Manel me evocava também, pela estampa delirante  sem medo algum do ridículo, a figura de Jorge Mautner, e, para aumentar as minhas subjetivas e improváveis associações  que faziam de Manel ser Manoel Gomes, ele me parecia ser sempre – e isso que em tese o rebaixaria, pelo contrário, aumentava o seu fascínio – um jornalista fuleiro  desses de suplemento de entretenimento de jornal, sempre a par de fofocas e assuntos inacreditáveis – eu o chamava às vezes em nossos papos de Facebook, de “meu assessor de imprensa no mundo brega”.  Esse compósito desconjutivo, esse depósito disruptivo são minhas canhestras tentativas de falar de Manel – e de Manoel Gomes.  Uma vez, há muitos anos, o encontrei – sempre o acaso – numa rua de Icaraí de manhã.  Ao me ver, atravessou a rua, veio em minha direção e,  sem mais,  me perguntou: “Você leu o que Lobão falou ao JB sobre a tradição da música brasileira?”  Por acaso eu havia lido, aquelas diatribes tolas dele, Lobão, pra falar mal de Chico Buarque e por tabela da música brasileira – e isso bem antes de ele se revelar o rockeiro porta-voz da direita hidrófoba e ignorantona – e respondi para Manel na lata: “Li. E concordo com ele.”  Ele arregalou os olhos: “Mas você acha que a tradição da nossa música é aquilo que ele falou, chamou de lixo?”  Eu não sei bem por que eu havia dito que concordava com Lobão, entre outras coisas eu estava com pressa e não devia ter contrariado meu chapa, mas lembro que disse algo do tipo “... olha, a gente sabe que pra cada Noel Rosa, cada Assis Valente, cada Geraldo Pereira, existem quilos e quilos de lixo e de coisas desimportantes... logo, o somatório é ruim mesmo, com esse pontos luminosos aí...” e lembro que ele veio atrás de mim, argumentando, não lembro bem como me desgarrei dele, mas sei que o fiz.  E foi a primeira vez que presenciei sua fixação com Lobão, de quem falava mal obsessivamente, inclusive atacando-o publicamente, a qualquer pretexto, principalmente os mais descabidos.  Cheguei a falar uma vez a ele que era gastar muita munição com mosca, mas ele me disse que se divertia.

         Mas principalmente cheguei a falar a ele – e isso me põe muito feliz – que no esplêndido Tempo afora, CD e DVD de Fred Martins, em meio a grandes canções dos grandes letristas do Fred que ali estão – além dele, Marcelo Diniz, Fred Girauta, Alexandre Lemos e Francisco Bosco – a passagem que mais me tocava eram os dois versos de “Que se danem, que se amem”: “A flor irrompe em surto colorido/quando o botão em fúria se destroça”, que me dizem muito do que era o próprio Manel. Quando o disse, sei que ele ficou muito comovido, o que de certa forma me redimiu de ter dado razão a Lobão tantos anos antes.
             O link dessa linda canção vai aqui:


           Uma última lembrança dele, no concerto de Fred Martins na Funarte em 2015, a que já aludi:   Quando Fred cantou nossa parceria “Madame Maldade”, ouvimos ao final a inconfundível voz de Manel bradar do meio da plateia: “O nome dessa música tinha que ser Danusa Leão!”  Na verdade, a observação fazia todo sentido, Danusa havia ficado tristemente célebre ao escrever uma crônica em que lamentava a mesmice e a tristeza de se ir pra Paris nos tempos da era petista para lá encontrar... o prefeito do seu prédio!  Se cheguei a pensar em dar esse nome à canção de tão medonha personagem, não o faria jamais por consideração à irmã de Danusa, a grande Nara Leão.  Mas Manel tinha toda razão.
         Triste fechar o ano do blog com esse texto.  Mas diante do que houve não poderia ser outro texto.
         Valeu, Manel!

Nós, parceiros de Fred Martins:  além de Manoel Gomes, Fred Girauta e Marcelo Diniz




sábado, 12 de dezembro de 2015

TRÊS BÁRBAROS E LIVRES DE MARCELO DINIZ

Duas mãos - foto de Marcelo Diniz


         Marcelo Diniz postou, como volta e meia o faz, poemas novos em seu perfil no Facebook – não eram sonetos, modalidade em que sua mestria é absoluta e à qual tem se dedicado com quase exclusivismo. No corre-corre,  os dois que li – não sei se postou mais - eram poemas extraordinários, e acabei pedindo uns dias depois a ele   que mos enviasse, que eu gostaria de ter a primazia de posta-los aqui no Firma.  Gentilmente ele me enviou três, a que chamou de”seleta pro firma de rascunhos bárbaros e livres”.  Dou-os aqui,  com muita alegria e orgulho – e a admiração de sempre.  Talarico ilustrou.


1. 
é possível encontrar palavras sem procurá-las
as bárbaras cambalhotas de um guarda-chuva aberto pela calçada
e o que se tem à mão ao abri-lo sempre nos trai como um morcego estropiado
palavrões sempre são encontrados em semelhantes circunstâncias
a nódoa no brim o rasgo dos fundilhos
há palavras que parecem arrancadas de nós
o que falamos sem saber por mais que pensemos depois
fazendo brotar o sentido como uma vegetação atrasada
o que por mais que pensemos vaza sem efígie
um significado inusitado e ao mesmo tempo tão antigo
tropeçamos a todo momento no murmúrio
não que sejamos necessariamente atrapalhados com as palavras
nunca as estudamos tanto nunca enxergamos tanto através delas
existência mais consistente do que a mudez que nos rodeia
lixo espacial de antigos satélites
e que risca o céu quando algum pedaço cai
e esfria seu metal na terra e enferruja
as palavras estão sempre onde não as supomos
topada martelo no dedo língua entre dentes
capazes de dizer eu te amo na hora mais adversa
as palavras nos dizem
é preciso escutá-las e lê-las como uma camisa ao avesso
ver-lhes o oco articulado
ver-lhes a corda o mecanismo a chave e ainda
ouvi-las com risco e encanto
lê-las com lento maravilhamento e súbita revelação
a que repetida se torna real
e a que repetida perde o sentido
a que grita e propaga
a que sussurra hesita e naufraga

no travesseiro no elevador


2.
– vô

como fosse o adão das coisas
substantivos na boca e dêiticos no indicador
como se me ensinasse a língua
que sabia com orgulho e gosto
de um mundo vasto e repleto de motivos
como se toda palavra fosse um fruto
macio mordido pela primeira vez
como se sua fala colasse à coisa falada
e ria satisfeito e me traduzia
o que não me era nítido ainda
e não eram os passos temerosos de colono recém chegado
e não era a inocência imaginada dos colonizados
nem era a catequese do cosmos
não havia ainda a palavra astúcia
havia a interjeição com o fato de cada coisa cor
responder ao som que repetisse e eu repetia
como se repetindo provasse do mesmo fruto
como se a flor do pequeno jardim fosse
o sabor da vogal extraída
e as pétalas coubessem o imaculado esplendor
na cor de uma única sílaba
de fato o mundo começara ali
a satisfação de fazer sentido
nada mais tinha história naquele vocabulário abrupto
cuja sintaxe se desenhava entre prosódia e gesto
quando enfim me deu nome




Ilustração de Talarico

3.
a água que me lavou o corpo é um desperdício
desce pelo ralo com meus resquícios para sempre
vejo as pessoas passando e percebo muitas
não se acham belas e a beleza é um desperdício
a incidência de restar paralelo como um segredo
cultivando certa voz que lhe soprasse sempre
a verdade que mais se estima do que é inútil
o brilho de alumínio da embalagem descartada
que reflete o céu aleatório de seu destino
o que respiram as cerdas da vassoura enquanto
chiam no chão da barbearia no meio da tarde quente
o clarão de um fósforo riscado em cômodo escuro
a consistência da bolha de luz que arrasta pelos móveis
o rumor de sombra de sua pele oscilante
o desperdício sempre foi sua insistente atenção
à musa que visita os alvéolos efêmeros dos fungos
à cultura de poeira e seu ilegível inventário de ácaros
ao azinhavre do utensílio que aposentou seu dono
à alegria provável do que é desnecessário
porque deixou de sê-lo e também à graça de nunca ter sido
o desperdício de olhar a esquina e não exigir mais nada
abandonar o saco plástico e imaginar a quanto
será elevado antes da tempestade na rua vazia
a parede descascada é uma paisagem extraterrestre
o alívio indiferente à chuva de meteoros
que dizimou de vez a urgência da vida de outrora
o universo decerto fosse mais seco não se infiltrasse
esta espessura de lágrima e riso que o desperdício
acumula em cada nicho de sua minuciosa colmeia
a inaudível aspereza do vento se houver vento













segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

AH, DOIS SONETOS... E O SÉCULO XVIII
















Observação inicial: o título desta postagem estava errado.  Agora foi feita a correção. Embora o século 18 seja central aqui, como ideário, a nortear os comentários a respeito dos dois sonetos, o do Parnasse Satyrique é do século 17, conforme se lerá ao final. Por isso mesmo, penso ser  fundamental proceder à correção. 

Ping...


... DE CLÁUDIO MANUEL DA COSTA


Não vês, Lise, brincar esse menino
Com aquela avezinha?  Estende o braço;
Deixa-a fugir; mas apertando o laço,
A condena outra vez ao seu destino?


Nessa mesma figura, eu imagino,
Tens minha liberdade; pois ao passo,
Que cuido, que estou livre do embaraço,
Então me prende mais meu desatino.


Em um contínuo giro o pensamento
Tanto a precipitar-me  se encaminha,
Que não vejo onde pare o meu tormento.


Mas fora menos mal esta ânsia minha,
Se me faltasse a mim o entendimento,
Como falta a razão a esta avezinha.


                                        Pong..!
                            

                            do PARNASSE SATYRIQUE

                            Amo flagrar nos bosques a aventura
                            da traseira a pastora ao pastor dando
                            tanto e tão bem que o gozo culminando
                            desmaiam mortos ambos na natura


                            amo dos campos ver não a pintura
                            mas um carneiro à fêmea então carcando
                            mesmo o bode que à cabra enfim montando
                            não lembra mais de prado e de verdura

                            amo ver na campina todo o empenho
                            da vaca sob touro tão ferrenho
                            que a vararia e em duas se pudesse


                            foder é a nossos olhos primavera
                            tão vária que se nada mais fodesse
                            campina campo e tudo mais já era
                       
(soneto do século 17 do Parnasse Satyrique, anônimo, traduzido por Marcelo Diniz)


J’ayme dedans un bois à trouver d’aventure,
Dessus une bergère un berger culetant,
Qu’il attaque si bien et l’escarmouche tant,
Qu’ils meurent à la fin au combat de nature.


     J’ayme voir dans les champs non la belle peinture,
     Mais un bélier cornu sa femmelle foutant
     Et le bouc éschauffé sur la sienne montant
     Par un si doux plaisir oublier sa pasture.
 


J’ayme voir sur un pré à un pareil effort
Le taureauqui se joint à la vache si fort,
Qu’il voudroit s’il pouvoit la percer d’outre en outre.

     Le foutre est à nos yeux un printemps diapré,
     Au coeur un paradis, mais si je ne vois foutre
     Je n’ayme point ny champs, ny campagnes, ny pré.












            Pensei em dar a  esta postagem o título de algo como “Viva o século 18!”.  Mas aí resolvi inseri-la na série “Ah, sonetos...” Seja como for,  o espírito dela  é mesmo de celebração do glorioso século quando se completou o que Max Weber chamou de “desencantamento do mundo”, que nos deixou de herança o que de melhor se poderia ter feito da modernidade, com a separação das esferas do saber e o fim das crenças na “magia do Universo” ou coisa que o valha.  Se tanto se desvirtuou de seu legado, talvez possamos culpar de saída a moralidade burguesa que se estabeleceu pelo século seguinte e, que óbvio, é parte do mesmo legado.  Pois na verdade o soneto do Parnasse Satyrique, prenuncia com um século de antecedência o caráter libertário e libertador do ideário iluminista.  Ele se entronca numa tradição genealógica que vem subterrânea desde os gregos e passa por Rabelais, Ronsard, tanto outros.  No século 18 continua subterrânea, certo, mas o veio é muito forte (lembremos do português Bocage e o círculo neoclássico português).  Seja como for, aprendeu muito o homem no século 18, sobretudo por retomar a antiga lição racionalista grega ao observar as relações existentes no mundo natural e, em esforços especulativos, deslindar,  por rebatimentos e contrastes, natureza e cultura.  E quanto a aprendizados:  Cláudio Manuel da Costa, um dos nossos inconfidentes de Minas, aprende algo da vivência amorosa – em especial o sofrimento –  ao ver a perversidade mesmo que – ou justo porque – carinhosa da criança que brinca de aprisionar e libertar uma pobre avezinha. Lições de amor, agora em linguagem, digamos, menos decorosa, (que se manteria debaixo do tacão censório pelos tempos afora) é o que também está no poema anônimo francês traduzido por Marcelo Diniz, em que a primavera desperta o cio por toda parte - e ai se não despertasse!  A relação interior natureza/subjetividade, em tonalidade pré-romântica desponta neste deliciosamente obsceno soneto seiscentista (em tradução de cunho emulatório de Diniz,  que parece mesmo superar o original), tanto quanto os dilemas de fundo cultista entre razão e desrazão estão no de Cláudio Manuel.  Lógico que se sempre se poderá argumentar  qualquer coisa a favor do século 18 – e mesmo contra, que neste mundo nada é mesmo simples – mas convém não esquecer que a tônica aqui vai sobretudo para o sortilégio (palavra tão pouco iluminista!) verbal próprio de poesia tão boa – incluindo, claro, a excelência da tradução.

 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A ÚLTIMA DO ANO; EXPLORANDO AMIGOS

  
     Como acontece com certa freqüência, e é ótimo que assim seja, ao entrar numa espécie de transe tradutório que o acomete de tempos em tempos, o poeta professor  e amigo Marcelo Diniz costuma me conceder o privilégio de conhecer em primeira mão muito daquilo que vai traduzindo, seja via telefone, internet ou mesmo pessoalmente.  Desta vez, aproveitei oportunisticamente o fato de ele me enviar alguns sonetos e epigramas, nos quais anda trabalhando, de uma coletânea de poesia satírica do século XVII francês, para elaborar – com pouco esforço de minha parte  e com muito talento alheio, considerando que juntei ainda outro amigo explorado por mim, conforme se verá – a última postagem do ano.  Achei que valia a pena lançar mão de um epigrama dos que Marcelo me enviava, que afinal fala da assinatura ausente, anônima e irreconhecível - e que pouco importa, no fundo,  para o gozo da poesia.  Bom para lembrar que se fecha um  ano e se reabre outro.  Fechar e abrir de olhos, enquanto ao menos assim for.  
      Passo a palavra ao profeçor  Marcelo, para que ele mesmo explique as circunstâncias do pedido e do que se trata:

 “A pedido de meu querido Proffezzor Bozzetti, partilho com os amigos um epigrama de um estudo recente e divertido. Ele foi colhido no Le parnasse satyrique, minha leitura de férias, entre o prazer e o compromisso. Trata-se de um recolho de textos libertinos e satíricos publicado em Paris pela primeira vez em 1622. Théophile Viau (1590-1626) é quem organiza esta edição contendo 166 peças (sonetos, odes, epigramas, epitáfios), todos anônimos. Esta edição ficou notória por motivar debates teológicos quando à natureza do riso. Vemos no epigrama certa risoterapia que decerto afirma a metafísica carnavalesca e satírica da medicina rabelaiseana."
 
     Em seguida, ele envia generosamente o link para acesso aos originais.  Veja-se aqui, como ele diz, "le pdf du Parnasse":
    


     E aqui a sua tradução e o original:

  

EPIGRAMA
 

o riso amigo da saúde

dos mortais sabedoria

eu curti sempre que pude

pois desopila e alivia

o poeta cuja poesia

nos faz rir se divertindo

anônimo todavia

aqui libo bebo e brindo

 

épigramme

 
le ris compaignon de santé

est propre à la race mortelle

j’ay souvent expérimenté

qu’il fait grand bien à la ratelle

ce poëte n’est pas sans cervelle

qui nous fait rire en esbatant

je ne sait pas comme il s’apelle

mais je vait boire à luy autant

 

     Então reforço os votos do Marcelo, o qual acrescenta em seu bilhete que 
 
 “Faço do pedido de meu querido Proffezzor a oportunidade de meus votos que, em dois mil e       quinze, o riso nos salve de novo na prova dos nove!”

 E considerando por fim que resolvi explorar mesmo os amigos nesta mensagem  final,  pedi o arremate do arremate ao Talarico, que compareceu presto e mandou esta graça aí
 
 


                                                   Bom 2015 pra nós todos!