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sábado, 9 de julho de 2011

BRASILEIROS, TODOS JUNTOS: “MESSI É MELHOR DO QUE MARADONA”





           Tenho lido e ouvido falar, e com muita insistência, que os argentinos andam irritadíssimos com a performance de Messi na Copa América, “envergando” o uniforme da seleção deles.  É uma queixa que já vinha da Copa do Mundo, quando também o astro do Barcelona teria ficado muito abaixo das expectativas, apesar de toda a paparicação que Dieguito Maradona lhe devotou.  A que se pode acrescentar  o fato de que,  na mídia esportiva do mundo todo, aumenta a intensidade das comparações entre os dois supercraques argentinos
            Agora, parece que a patriotada se manifesta antipatizando Lionel Messi por ele não cantar o hino quando perfilado antes do início da partida.  Ou seja, a farda de chuteiras não se conforma.  Acho tudo isso muito divertido e, como acontece em geral com o que é muito divertido, deprimente.  Como estou cada vez mais convencido de que os confrontos entre seleções nacionais já perdeu todo o sentido, que em nome do futebol bem jogado o melhor mesmo é ver os melhores times em confronto (por exemplo, um argumento ululante: o Barcelona é muito melhor do que a seleção espanhola porque tem... Messi, e não Fernando Torres) e não seleções armadas às pressas, esbagaçadas pelos calendários e sem nenhum entrosamento, acho que Messi faria melhor se naturalizando espanhol logo de uma vez.
            Engraçado é que esse tipo de argumento patrioteiro-hidrófobo-futebolístico
anti-Messi, é brandido por meio mundo, o mesmo meio-mundo que por sinal se comove às lágrimas com a baladinha de Lennon, “Imagine”, que sonha com um mundo sem religiões e sem fronteiras.  Fico aqui nessas digressões, pensando ainda que é um tipo de argumento de gente que deve achar também melhor um mundo sem o próprio Lennon, afinal um cadáver ilustre pra ser pranteado sempre que possível é ótimo.
            Mas sem tergiversar mais, volto ao trilho. Que é o seguinte: argentinos pra espicaçarem brasileiros há uns 30 anos repetem o bordão “Maradona é melhor do que Pelé!”.  Pois agora, em troco, podemos fazê-los provar do próprio veneno.  Sugiro que se adote o bordão título lá de cima, e sempre que quisermos mexer com os brios patrioteiro-futebolísticos dos hermanos mandemos: “Messi é melhor do que Maradona!”  Mesmo que ele não venha jamais a se naturalizar espanhol, argentino nenhum jamais admitirá a hipótese da inferioridade de Don Diego. Aliás, acho mesmo que se Messi se naturalizasse a piada até perderia um pouco da graça.
            Seja como for, as duas maiores escolas futebolísticas do planeta, Brasil e Argentina, assistem neste momento a um ocaso do futebol de seleções, que acabará sendo, espera-se, em prol do verdadeiro futebol bem jogado, de preferência sem patriotadas. Imagine, como diria John.


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

NA MEMÓRIA: O NEGÃO – E UM OUTRO

                O ano foi possivelmente 1968. Talvez, 1969.  Eu ia com freqüência ao Maracanã e a outros estádios cariocas, com meu irmão e com  Didi, grande amigo.  Muitas vezes acompanhei o grande Bangu de 1964 a 67, o Botafogo de Gerson e Jairzinho.  Mas naquele domingo pelo Rio-São Paulo tratava-se de Flamengo X Santos.  Santos de Pelé. E com Pelé.
                E eu tinha um motivo a mais para ir ao estádio naquele domingo: meu primo, com seus 6 anos, que nós adoraríamos que ele fosse conhecer o Maracanã, ver um jogo de perto. Não que ele parecesse se interessar por futebol, mas nós gostaríamos de ver sua estréia, naquele entusiasmo de aficcionados que querem fazer com que os outros também o sejam. Para ajudar na concretização dessa nossa vontade tão arbitrária, o pai dele também estava querendo muito ver o Pelé jogar.  Como nenhum de nós era flamenguista, certamente arrumaríamos um setor neutro, fora de torcida, de modo a ver a partida sem maior paixão de torcedor.  Tratava-se de ver sobretudo o Rei.  E para mim tratava-se sobretudo de ver meu primo estreando naquele mundo colorido, deslumbrante, alegre do futebol brasileiro.  Será que de alguma forma o garoto seria conquistado para a nossa paixão futebolística, naquela fase da vida em que, para quem o descobre, o futebol apaixona de maneira decisiva?
                Era a segunda vez na vida que eu ia ao estádio para ver o Negão ao vivo.  Da primeira, acho que em 66, Pelé e Garrincha arrasaram uma seleção que não lembro qual era nos preparativos para a Copa de 66.  Foi a única vez que vi Garrincha no estádio e ele jogou muito, de uma maneira que nenhum outro jogador jamais tinha me impressionado.  Mas a sua carreira já estava em queda e talvez eu tenha assistido ao seu canto de cisne.  Não teve continuidade dali para a frente, sua trajetória entraria em abissal declínio não demoraria muito.  Mas não Pelé.  Eu tinha e ainda tenho uma admiração enorme pelo Rei.  Naqueles tempos de rara TV, as oportunidades para um moleque de 12, 13 anos vê-lo ao vivo no estádio valiam todo esforço.  Que era praticamente nenhum.
                Maracanã cheio, claro, afinal era o Flamengo e afinal era o Pelé em campo.  Chegamos cedo, pegamos um bom lugar na arquibancada, quase central, as expectativas melhores se cumpriam.  Meu primo encantou-se com toda aquela balbúrdia, deslumbrado.  O jogo começa, as atenções se concentrando no que acontecia em campo, “olho no lance!”, como diria o Silvio Luiz, olho em todos os lances.
                Pronto: começou o fastio do menino (não, o futebol não o conquistaria então, não o conquistou nunca).  Claro que na primeira bola tocada por Pelé ele prestou atenção, mesmo para o mais ET naquele ambiente o Negão era uma legenda.  Mas o Rei não queria fazer naquela tarde a parte que lhe competia.  Seu marcador era o Onça, um zagueiro grosso a mais não poder, truculento (jamais escreveria: “como seu apelido indicava”), muito mas muito ruim de bola, como aliás o time do Flamengo daqueles anos (gostaria de livrar a cara do Silva, o Batuta, cracaço, mas não sei se ele ainda jogava no Flamengo).  Enfim, com Pelé sem conseguir fazer nada, com Onça nos seus calcanhares (eu jamais escreveria: “mordendo”)... resultado: com 15 minutos de jogo, passado o encanto inicial, meu primo começou a pedir para ir embora.  Eu gelei, desconfortável.  Lembro que tive raiva.  O menino insistia com o pai, que fossem, que não queria mais ficar ali, virava-se de costas para o campo, tentava tirar a visão da gente, o pai tentava argumentar “peraí filho, daqui a pouco acaba, a gente já vai...” coisas desse tipo para refrear ao menos a violenta quebra de expectativas de todos nós.  Lembro que eu sentia a frustração subir com ardor até minhas orelhas, sensação de fracasso.  O moleque fazia manha, o próprio pai tinha que se esforçar para conseguir ver o jogo, o danado se plantava na frente dele para forçar a retirada antecipada. E o Negão não colaborando.  O tempo passando, já devia ter meia hora, aquela tortura comandada pelo tirano infantil não prometia arrefecimento.
                Mas eis que... o Negão recebe a bola com espaço-tempo suficientes para que Onça não consiga chegar nele.  Lembro que foi ali, bem na nossa frente, um pouco antes da entrada da grande área.  Lembro: um “frisson” (ninguém me obrigará a acrescentar: “galvanique”) percorre a torcida – e não estávamos na torcida do Flamengo, embora lá também certamente tenha ocorrido, com sinal contrário, tal frêmito. A sensação é tão forte que a reação de todos faz com que até meu primo volte os olhos para o campo a fim de ver  o lance.  Não deu outra.  Com espaço-tempo para respirar, o Negão enviesa para dentro, chega na meia-lua e pimba! chute indefensável, Negão 1 a 0. Todos que ali tinham ido para ver Pelé (não, não era nada parecido com um sentimento anti-flamenguista, era para ver o Rei mesmo que a gente ia ao estádio, o que talvez seja difícil de entender hoje) vibraram, pularam, gritaram.  Átimo de festa.  Os olhos do meu primo brilharam com aquela novidade, para a qual parecia não haver mais nenhuma expectativa.
                Acabada a comemoração, de novo os olhos na partida. Fácil de adivinhar que meu primo retomaria sua postura manhosa, irritante.  Mas não teve tempo.  Antes que recomeçasse, seu pai o tomou pela mão e lhe disse “Agora vamos!”, despediu-se rapidamente da gente e tomou o rumo da saída.  Fiquei decepcionado com o resultado daquela tentativa de sedução.  Mas talvez não tanto quanto um negão dois lances acima de nós na arquibancada.  Ao ver a retirada do meu tio com o menino pela mão, não se conteve: “Maior ignorância, aí. O Flamengo toma um gol do Negão,  e o coroa não deixa nem o moleque ver o resto da partida, pô...”