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sábado, 7 de fevereiro de 2015

JORGE DE LIMA: DE MIRA-CELI



Poema 16

Quatro enormes ventanias
seguem sempre alucinadas
enterrando noite e dia
comandantes e soldados.

Quatro enormes ventanias
roem o bronze das estátuas,
comem todos os vestígios
dos barões assinalados.

À face da terra estéril
fogem poeiras agoniadas;
restos dos grandes impérios
história e nome apagados.

Agora baixam do céu
quatro arcanjos operários:
afogam num charco abjeto
mil fabricantes de armas,
mil forjadores de guerra.

Depois nada?  quase nada:
bichos soturnos boiando
sobre o mar estagnado,
- um mar sem curvas de ondas

E depois?  depois vêm tontos
Lucífogo e Astorot
matando os outros demônios
se entredevorando ferozes.

Mas nada disso consegue
deter a rota perene,
milênio sobre milênio
do ciclo de Mira-Celi.


(de Anunciação e encontro de Mira-Celi. In: Poesia completa, v. 1. 2 ed.Nova Fronteira, 1980)

Zdzislaw Beksinski







domingo, 26 de janeiro de 2014

AH, UM SONETO... MAIS UM DE JORGE DE LIMA


A garupa da vaca era palustre e bela,
uma penugem havia em seu queixo formoso;
e na fronte lunada onde ardia uma estrela
pairava um pensamento em constante repouso. 

Esta a imagem da vaca, a mais pura e singela
que do fundo do sonho eu às vezes esposo
e confunde-se à noite à outra imagem daquela
que ama me amamentou e jaz no último pouso.

Escuto-lhe o mugido – era o meu acalanto,
e seu olhar tão doce inda sinto no meu
o seio e o ubre natais irrigam-me em seus veios.

Confundo-os nessa ganga informe que é meu canto:
semblante e leite, a vaca e a mulher que me deu
o leite e a suavidade a manar de dois seios.


(Poema XV do Canto I de “Invenção de Orfeu”.  In: Jorge de Lima.  Poesia completa, v. 2.  RJ: Nova Fronteira, 1980.)

 

quarta-feira, 8 de junho de 2011

AH, UM SONETO... DE JORGE DE LIMA

De Invenção de Orfeu,

Do  Canto VI – Canto da desaparição

I

Aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo
em que até aves vêm cantar para encerrá-lo.
Em cada poço, dorme um cadáver, no fundo,
e nos vastos areais – ossadas de cavalo.

Entre as aves do céu: igual carnificina:
se dormires cansado, à face do deserto,
quando acordares hás de te assustar.  Por certo,
corvos te espreitarão sobre cada colina.

E, se entoas teu canto a essas aves (teu canto
que é debaixo dos céus, a mais triste canção),
vem das aves a voz repetindo teu pranto.

E, entre teu angustiado e surpreendido espanto,
tangê-las-á de ti, de ti mesmo, em que estão
esses corvos fatais.  E esses corvos não vão.

Poesia Completa de Jorge de Lima.  Nova Fronteira, 1980.