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domingo, 22 de maio de 2011
SAMPA MIDNIGHT E OUTROS TESOUROS DO OCEANO ITAMAR
SAMPA MIDNIGHT
Sampa midnight
eu assessorado de mais dois chegados
Bartolomeu Pitolomeu
partimos pra comemorar
não lembro o que
numa boa boate
Escabrosa noite
deu black-out na Paulista
breu no Trianon
cadê o vão do Museu?
Sumiu
Meu Deus do Céu
(que escuridão!)
Três seres transparentes baixaram
não sei de onde
imobilizando a gente e gritando: “Não somos gente!”
Brilhavam
não tinham dentes
traziam cortantes tridentes
incandescentes nas frontes
três chifres
falavam rapidamente
com gestos intermitentes
simultaneamente
sons estridentes
incríveis!
Sampa midnight
eu chumbado com mais dois embriagados
(vários...)
Pitolomeu Bartolomeu
quisemos levá-los prum bar
mas qual o que
tomamos xeque-mate
Tenebrosa noite
Faltou light na Paulista
breu no Trianon
cadê a Consolação?
escureceu
o Museu
Meu Deus do Céu
aonde está o chão?
Um trio intrigante
desceu do céu num instante
intimando a gente e gritando: “Não somos gente!”
Cantaram de trás pra frente
letras fortes e indecentes
músicas bem excitantes
provocantes
rumbas funks
cantaram de trás pra diante
uns reggaes
bregas de breque
chiques
bastante pique
sambas de roda
chocantes!
Sampa midnight
eu assessorado de mais dois chegados
Bartolomeu Pitolomeu
partimos pra comemorar
não lembro o quê
Itamar Assumpção (1949-2003) é muito menos conhecido do que deveria – pelo menos para quem mora no Rio. Mas longe de cair em lamentações por conta disso, o que é sempre tão corriqueiro, melhor é apostar no que vaticina Luiz Tatit, de que por muito tempo ainda e cada vez mais ouviremos falar de sua música. Porque a obra de Itamar Assumpção é assustadora em sua abissal beleza.
E é uma obra relativamente grande, da qual tudo indica ainda restar muita coisa inédita. De 1981, com o LP Beleléu, Leléu, Eu(Nego Dito), até 1998 com o CD Pretobrás, Itamar lançou 9 discos, sendo um deles, Pra sempre agora (1995) dedicado aos sambas de Ataulfo Alves. Ano passado (ou retrasado?), assistindo ao excelente “O som do vinil”, programa de Charles Gavin no Canal Brasil, fiquei sabendo que o SESC-SP (sempre ele!) estava lançando a Caixa Preta de Itamar Assumpção, reunindo todos os discos do compositor. Na ocasião não dava pra eu comprar, deixei para quando desse. Aí... como costuma acontecer no Brasil: quando eu fui, já não tinha. Mas foi lançada recentemente uma segunda tiragem e eu finalmente adquiri meu exemplar. São 12 CDs, incluindo os póstumos Isso vai dar repercussão (com Naná Vasconcelos) e Pretobrás II e III. Estão disponíveis na loja do SESC-SP, inclusive pela internet.
Empolgado pelo contato revigorado com Itamar – alguns dos discos que eu possuía tinham-se ido sei lá para onde – fiquei sabendo também que em 2006, a Ediouro, com organização de Luiz Chagas e Mônica Tarantino, e com o patrocínio da Petrobrás, Itaú Cultural e revista Istoé, lançou Pretobrás: por que que eu não pensei nisso antes?, definido como “livro de canções e histórias de Itamar Assumpção”, reunindo em dois volumes magnificamente produzidos um excelente material que vai de depoimentos pessoais de quem conviveu com o artista até uma ótima análise feita por Luiz Tatit, além, claro, das transcrições musicais a cargo de Clara Bastos, contrabaixista que tocou em vários de seus discos.
Aliás, contrabaixo era o instrumento de Itamar. A primeira vez que vi sua esguia figura de porte altivo foi empunhando o instrumento na apresentação de “Sabor de veneno”, num festival da extinta TV Tupi em 1979, composição de Arrigo Barnabé. Saudades do futuro aqui: um tempo em que ainda havia espaço para surpresas estéticas pela TV. A sensacional canção era apresentada por Arrigo e banda, com três cantoras (seriam Tetê Espíndola, Vânia Bastos e Neusa Pinheiro, acho) e Itamar, com sua voz grave e firme, ajudava também nos vocais. Depois disso... depois disso foi uma história que entrou para a história da canção no Brasil, mas à qual pouca gente prestou atenção. Era a Vanguarda Paulistana, efervescente agitação criativa em torno do Teatro Lira Paulistana na primeira metade dos anos 80: além de Arrigo e Itamar, o Premeditando o breque, o Grupo Rumo (de Luiz Tatit e Ná Ozzetti), e ótimas figuras circundantes, como o divertidíssimo humor escrachado do Língua de Trapo e as privilegiadas gargantas de Vânia Bastos e Tetê Espíndola. Era difícil acompanhar do Rio o que acontecia na cena paulistana naqueles anos, era difícil conseguir seus discos, assim como era difícil acompanhar o trabalho também maravilhoso que Tom Zé não tinha parado de produzir e que viria a ser redescoberto por Byrne no fim daquela década. Na minha cabeça eu achava que o velho baiano e os novos paulistanos iriam acabar se encontrando, e desse encontro sairiam os frutos que revigorariam os caminhos da invenção na MPB.
Não foi o que aconteceu. Nos anos imediatamente seguintes o que veio foi o rock principalmente carioca, o BRock dos anos 80. Com seu sucesso avassalador e de baixo custo para uma pré-falida indústria fonográfica, o rock dos 80 deu as cartas do visível/audível na cena pop brasileira. O pessoal de São Paulo ficou mesmo restrito, circulando em espaços praticamente alternativos. Uma inventiva e sofisticadíssima – no melhor sentido da palavra – música acabaria relegada quase ao anonimato. Tenho horror a martirológios e longe de mim querer bater nessa tecla aqui, até porque houve muita coisa de bom também no BRock. Mas ficou uma espécie de moda tola entre alguns roqueiros e sua “entourage” midiática – principalmente no Rio – de passar a considerar “chata” a música do pessoal em São Paulo. E isso a despeito de Itamar ter mostrado, numa apresentação no Rio no Teatro Carlos Gomes, acho que em 84, a mais bela interpretação que ouvi de “Fullgás”, obra-prima e mega-sucesso de Marina Lima e Antonio Cícero. Mas o jeitão blasé típico do Rio converteu em moda Cult desdenhar de Arrigo, Itamar e tal.
“Sampa midnight” aqui postada é a minha canção preferida do grande Itamar – e não é fácil optar por uma “preferida” no seu repertório. Dá título ao seu terceiro trabalho, de 1985. Os desalojados da “maloca” pela aceleração brutal do progresso paulistano, captados por Adoniran nos anos 50, assim como os deserdados de Vanzolini, rondando o bas-fond, depois de darem lugar à utopia nova-baiana da “Sampa” caetânica, eram agora os três chumbados embriagados às voltas com as rondas ostensivas de extra-terrestres aterrorizando os periféricos que se aventuram na nobre região do Trianon e do MASP. Estávamos nos estertores do regime militar e mal sabíamos que pouca coisa melhoraria, ao contrário do que sempre queriam fazer crer as canções utópicas de Chico Buarque – menos por responsabilidade dele, diga-se, essa “crença”, do que daqueles que o viam como o arauto do que ele mesmo acabou configurando como “loucura”, “delicadeza perdida”, como novo estado (permanente?) do Brasil e dos brasileiros.
Em Itamar, e nesse sentido “Sampa midnight” é exemplar, aprendemos a distinguir de vez o prolífico do prolixo. Prolífico: os CDs de Itamar vêm sempre com grande número de faixas (à exceção de Bicho de 7 cabeças, dividido em 3 CDs), algumas às vezes dando a impressão de rascunhos, anotações à margem, vinhetas. Mas nunca prolixo, Itamar é paradoxalmente econômico ao lançar mão de recursos musicais, tanto nos achados da feitura de seu “rock de breque” (como diz Tatit), quanto nas letras, cortantes, enxutas, de sonoridades paronomásticas exatas como corte ou perfuração de arma branca. Tudo em reforço também da economia de seu canto, contido, sussurrado, voz de quem precisa falar baixo e se subdividir, prismatizar em ecos e ressonâncias, antes de se desafogar aqui e ali – e quando possível – em grito. E ainda por paradoxal que possa parecer, embora geralmente acompanhado de grandes bandas, com 7 músicos ou mais, tudo parece detalhadamente calculado, pensado, executado para fugir aos tuttis e às grandiloqüências. Certamente músicas de difícil execução, a exigir muito dos músicos. Músicaletras nas quais reconhecemos, à frente do baixo funky de Itamar (mesmo quando não é ele que o toca, o arranjo é), elementos de rock (quando surgiu Itamar era para a imprensa o “Hendrix de Vila Madalena”), reggae, rap, funk, batuques diversos, samba, além de uma levíssima – mas presente, estou certo – impregnação caipira (no sentido próprio do termo), perceptível a partir de seu sotaque de Tietê (berço de grandes artistas da música caipira) e de suas letras fundamentadas em sua maioria em redondilhas, embora em emprego sempre surpreendente.
Itamar é uma imensidão, um oceano, um mundo a ser ainda descoberto em plenitude por bons nomes de nossa cena musical. Cássia Eller o gravou, assim como Zélia Duncan, bem como outros nomes mais identificáveis apenas – e muito infelizmente – à cena musical paulistana. Sua obra resistirá por muito tempo, revigorada, sampleada, apropriada em muito do que a cultura hip-hop, por exemplo, pode também dela haurir. No pós-colapso da indústria fonográfica, que estamos assistindo, a pulverização de novos criadores e novos públicos permite pensar com muito otimismo no quanto ainda ouviremos do que Itamar compôs em sua rápida trajetória. Querido leitor-ouvinte, ouça aqui na minha “vitrolinha” e procure conhecer mais desse artista excepcional.
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domingo, 1 de maio de 2011
LUPICÍNIO RODRIGUES NO FAROL DE FARO
QUEM HÁ DE DIZER
Quem há de dizer
Que quem vocês estão vendo
Naquela mesa bebendo
É o meu querido amor
Reparem bem que
Toda vez que ela fala
Ilumina mais a sala
Do que a luz do refletor
O cabaré se inflama
Quando ela dança
E com a mesma esperança
Todos lhe põem o olhar
E eu, o dono,
Aqui no meu abandono
Espero louco de sono
O cabaré terminar
“Rapaz, leva esta mulher contigo”
Disse uma vez um amigo
Quando nos viu conversar
“Vocês se amam
E o amor deve ser sagrado
O resto deixa de lado
Vai construir o teu lar”
Palavra, quase aceitei o conselho
O mundo, este grande espelho,
Que me fez pensar assim:
Ela nasceu com o destino da lua
Pra todos que andam na rua
Não vai viver só pra mim
In: A música brasileira por seus autores e intérpretes. v.1 - SESC-SP
O mau-gosto é uma questão complicada em arte. Pode ser detectado na imperícia, na inépcia, na falta de formação consistente ao lidar com técnicas e materiais, na “naïveté”, nas formas cediçamente degradadas de se buscar atingir o “gosto comum” médio, na atração pelo “trash”, enfim, pode se originar de uma porção de fatores, mas não é esta a sua principal complicação, e sim porque esbarra de forma inexorável no lado do receptor, que é quem decide, discerne, descortina, rebaixa, desqualifica o que assim é taxado.
Relendo o que escrevi aí em cima, não gosto. Ficou rombudo. Mas não vou apagar não. Vou em frente e vou no meio de todos os riscos. Digo que enorme parte do que é veiculado pela mídia atualmente no Brasil é de um mau-gosto monumentalizado, um tsunami de breguice, no qual o esforço de pescar algo que se mantenha vivo e vigoroso demanda paciência na hora de separar o joio do trigo e optar... pelo joio – que é como Caetano uma vez respondeu à acusação de que gravava muitas banalidades.
Releio, reescrevo, releio. Está só um pouquinho menos rombudo. Dane-se: quero falar aqui de Lupicínio, e quero que o meu leitor seja mais uma vez ouvinte do que postei aqui na vitrolinha. Porque Lupicínio em certo sentido é uma radicalização do mau-gosto. E é estupendo compositor, o cantor por excelência do sentimento da “cornitude”, como dele escreveu Augusto de Campos em 1967. Num texto inaugural de apreciação da obra lupicínica (o adjetivo é estranhamente apropriado) feito por um dos intelectuais mais “alta cultura” do Brasil, Augusto acerta na mosca em vários momentos (em alguns outros, já não acho tanto), como quando diz que após a onda “clean, “cool” da bossa nova, a obra de Lupicínio passa a ser olhada retrospectivamente “relegada à faixa do samba-canção bolerizado e descaracterizado, quando o seu caso não é realmente esse. Suas músicas podem lidar com o banal, mas não são banais.” O universo muito particular de Lupicínio é curioso porque justamente não é nada de muito particular em ambiência: é o “bas-fond”, isto é, o cabaré, o puteiro, o pé-sujo, lugares onde transitam seus personagens amargurados, vingativos, ressentidos ou às vezes tão-somente resignados, cada um com sua “mala suerte”. Particular é sua arte não-sublimada, carregada nas tintas, suas letras recheadas de senso comum que explodem aqui e ali em imagens surpreendentes, que passam uma incrível veracidade. Sobre isso, Luiz Tatit escreveu: “O talento desse compositor manifesta-se, sobretudo, na descoberta de formas específicas para traduzir o lugar-comum visando, não à particularidade, mas à ampliação\o do consenso. Ele procura fisgar o essencial de sua experiência para que mais gente sinta a autenticidade dos seus sentimentos e mais gente se identifique com sua posição narrativa.”
Como um exemplo do que Tatit acertadamente diz veja-se na canção postada a posição narrativa do eu que canta: ele dirige-se àqueles todos que estão no cabaret para contar sua vida com a mulher que todos eles admiram: “vocês estão vendo...” o mundo, por sua vez, lhe fala pelo conselho do amigo, para que preserve o “amor sagrado”, que ele, no entanto, só é capaz de preservar de maneira bem pouco sagrada, como “o dono” daquela que “dança no cabaré” (aqui vai uma concessão ao decoro). Esse “dono” assumido tem a ver com o indisfarçável (que não quer mesmo se disfarçar) mau-gosto de que eu falei antes. Os versos acasalam a vulgaridade da cena com o inusitado das imagens: “toda vez que ela fala ilumina mais a sala do que a luz do refletor”. O respeito à mulher que é de “todos que andam na rua” é um respeito a si próprio, para evitar o afastamento que provavelmente lhe seria fatal.
Na entrevista concedia a Fernando Faro em 1973, de onde pincei o material desta postagem, todas as declarações de Lupicínio são impressionantes. Com sua voz que se equilibra entre mansa e insidiosa, Lupi conta estórias incríveis a respeito de quase todas as canções que canta. A maneira de falar, de contar as desilusões que motivaram cada canção mantém perfeita continuidade com o que ele canta em seguida. Optei por uma canção sobre a qual ele nada fala. Vale a pena conhecer o CD.
Por fim, vale registrar que Lupicínio fascina a música brasileira pós-bossa nova com uma efetiva força de permanência. De Paulinho da Viola, que gravou magistralmente “Nervos de aço” e sempre a canta em seus shows (“eu só sei é que quando a vejo me dá um desejo de morte ou de dor”), a Arrigo Barnabé (que anda levando em vários palcos – que eu saiba ainda não gravou em CD, embora haja vídeos por aí pelos youtube – a “Caixa de ódio”, projeto dedicado a Lupi), passando por Caetano, Bethânia, Gal, Gil, Jards Macalé e ainda Arnaldo Antunes, que gravou num CD “Judiaria” (que tem o verso terrível “estou lhe mostrando a porta da rua para que você saia sem eu lhe bater”), e outros que provavelmente desconheço ou estou esquecendo, Lupi continua vivo. Certamente por muito tempo ainda. E ainda bem.
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