quarta-feira, 24 de abril de 2024









 

EM QUE NASCESTE

         Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!

           País nenhum como este

           Vê que vida que há no chão, que multidão de insetos!

                                      (apud Olavo Bilac)

 

o meu país devora braços e orelhas de poetas
mas primeiro os dilacera e depois ainda
os incinera junto com os livros que escreveram
os cachorros que não os leram não os lerão
nem há como como comer é o que importa
 
não há janela não há porta capaz de detê-los

 

o meu país anda de porsche descarrega
AR 15 kalashnikov funda estilingue 9 mm
AI-5 artigo 142 besta besta-fera bota fora
o ódio sobre a cruz sobre o padre sobre o pastor
quer ver o babalorixá com a boca cheia
 
de formiga formicida feminicida é o meu país
 
enquanto rouba galinhas no quintal vizinho
levando numa mala que lança ao rio
o corpo da mulher e do seu filho e o do vizinho
e o da mulher do vizinho e do filho do vizinho
numa mesa com rícino e vinho uma emulsão
 
de porra e bílis e fezes muco e as veias e varizes
 
promessa de vida eterna promessa de futuro
felicidade ereta ereção infinita tanto eu olho
a linha do horizonte onde ainda vejo num navio
o  meu país quem sabe quem me viu quem nos viu
no passado dum futuro que nunca se construiu
 
lamentação num muro o meu país sem vulcão
 
sem terremoto o meu país de pauis de jurisconsultos
generais sacrossantos fundassentados em vasos
onde trocam boquetes e coitos de escopeta
fissurados nas fressuras  o meu país de finos manjares
derramados como sal sobre a mesa  da santa ceia
 

a pátria do desperdício o meu país de cano duplo.

                                                       

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