terça-feira, 23 de agosto de 2016

TRÊS POEMAS DE KONSTANTINOS KAVÁFIS (1863-1933)


 

A ALMA DOS VELHOS
Dentro de velhos corpos perecíveis,
a alma dos velhos tem morada.
Os sofrimentos da coitada,
a vida mísera; no entanto,
como a temem perder – amam-na tanto,
com a contraditória, aflita,
tragicômica alma que habita
suas velhas carcaças consumíveis. 

 

 
COISA RARA

É um ancião.  Decrépito, curvado,
vencido pelos anos e os excessos,
ele atravessa a passo lento o beco.
Enquanto volta à casa, que lhe oculta
a ruína e a velhice, ele medita
no quinhão reservado ainda aos jovens.
 
Agora adolescentes lêem-lhe os versos.
Seus olhos vivos recriam-lhe as visões,
fremem suas mentes sãs, voluptuosas,
- e suas carnes firmes, bem talhadas –
com a beleza por ele revelada.
 
 
 
LEMBRA, CORPO...

Lembra, corpo, não só o quanto foste amado,
não só os leitos onde repousaste,
mas também os desejos que brilharam
por ti em outros olhos, claramente,
e que tornaram a voz trêmula – e que algum
obstáculo casual fez malograr.
gora que isso tudo perdeu-se no passado,
é quase como se a tais desejos
te entregaras – e como brilhavam,
lembra, nos olhos que te olhavam,
e como por ti na voz tremiam, lembra, corpo.
 

                            Tradução de José Paulo Paes

 

Konstantino Kaváfis.  Poemas. 2 ed. RJ: Nova Fronteira, 1982.


Kaváfis - Autor não identificado

terça-feira, 9 de agosto de 2016

AH, UM SONETO... DE YEATS (1865-1939)

William Butler Yeats


LEDA E O CISNE

 

Um baque surdo.  A asa enorme ainda se abate
Sobre a moça que treme.  Em suas coxas o peso
Da palma escura acariciante.  O bico preso
À nuca, contra o peito o peito se debate.
 
Como podem os pobres dedos sem vigor
Negar à glória e à pluma as coxas que se vão
Abrindo e como, entregue a tão branco furor,
Não sentir o pulsar do estranho coração?
 
Um frêmito nos rins haverá de engendrar
Os muros em ruína, a torre, o teto a arder
E Agamemnon, morrendo.
                                      Ela tão sem defesa,

Violentada pelo bruto sangue do ar,
Se impregnaria de tal força e tal saber
Antes que o bico inerte abandonasse a presa?

 

                                      Tradução de Augusto de Campos

 

                            

Leda (atribuída a F. Boucher)



 
 
 
LEDA AND THE SWAN
 
A sudden blow: the great wings beating still
Above the staggering girl, her thighs caressed
By the dark webs, her nape caught in his bill,
He holds her helpless breast upon his breast.
 
How can those terrified vague fingers push
The feathered glory from her loosening thighs?
And how can body, laid in that white rush,
But feel the strange heart beating where it lies?
 
A shudder in the loins engenders there
The broken wall, the burning roof and tower
And Agamemnon dead.
                    Being so caught up,
So mastered by the brute blood of the air,
Did she put on his knowledge with his power
Before the indifferent beak could let her drop?
  
Augusto de Campos. Poesia da recusa.  SP: Perspectiva, 2006.
 
 
Leda e o cisne (Gustav Klimt)





       Convém saber o mínimo aqui, para que depois se proceda infinitamente às leituras sucessivas do poema, enriquecendo-as ao máximo: Yeats refere-se ao mundo mitológico grego, a um dos célebres episódios em que Zeus faz incursões sexuais ao mundo dos mortais.  Lógico que há mais de uma versão do mito, mas vou tentar ser o mais sucinto possível.  A saber,  Leda era casada com Tindáreos, rei de Esparta.  Uma ocasião, Zeus usou do estratagema de se disfarçar em cisne, fingindo estar sendo perseguido por uma águia, para que Leda o protegesse.  A seguir, possuiu-a. Depois disso,  Leda teria posto quatro ovos (ou dois), dos quais teriam nascido Cástor, Pólux, Helena e Clitemnestra.  Fiquemos apenas com as figuras das duas mulheres (passo por cima de detalhes de versões diferentes para me ater ao mínimo que interessa de imediato no poema):  da prole assim concebida, Helena  teria sido a causadora da Guerra de Troia, em última análise da destruição da cidade pelos gregos;  Clitemnestra, casada com Agamêmnon (o supremo comandante dos gregos na guerra), mata-o quando de seu retorno da última batalha,com ajuda de seu amante Égistos.  No extraordinário poema de Yeats, os funestos acontecimentos futuros parecem prefigurados – nos dois tercetos! -  a partir da conjunção carnal do deus supremo com uma mortal. 
       O episódio recebeu inúmeras representações pictóricas, de Leonardo e Michelangelo a Dalí, passando ainda pelos mais diversos artistas contemporâneos  que continuam a tomá-lo como tema de suas obras.  Escolhi três dessas representações: uma, atribuída ao pintor rococó francês François Boucher, outra de autoria do simbolista-modernista austríaco Gustav Klimt, e a terceira  do pintor contemporâneo,  de Tenerife, Juan Pedro Ayala.  


Leda (Juan Pedro Ayala)

 

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

JACQUES PRÉVERT (1900-1977)


CANÇÃO DOS CARAMUJOS QUE VÁO AO ENTERRO

Ao enterro de uma folha seca
Vão dois caramujos
Têm a concha negra
E véu negro em volta das antenas
Vão pela noite
Uma bela noite de outono
Quando chegam coitados!
Já chegou a primavera
E as folhas que jaziam pelo chão
Todas tinham ressuscitado
Os dois caramujos
Ficam muito desapontados
Mas eis o sol
O sol que lhes diz
Façam o favor façam
O favor de sentar
Tomem um copo de cerveja
Se vontade lhes dá
Tomem caso queiram
O ônibus para Paris
Parte esta noite
Poderão admirar a paisagem
Mas não ponham luto
Sou eu quem lhes aconselha
Escurece o branco do olho
E também enfeia
Histórias de enterros
São tristes e nada belas
Ganhem as suas cores
As cores da vida
Então animais
Árvores plantas todos
Começaram a cantar
A cantar aos berros
A verdadeira canção viva
A canção do verão
E todo o mundo a beber
E todo o mundo a saudar
É uma bela noite
Uma bela noite de verão
E os dois caramujos
Voltam para casa
Voltam muito comovidos
Muito felizes
Como beberam demais
Ziguezagueiam um pouco
Mas no céu lá no alto
A lua protetora.

                                                    Tradução de Silviano Santiago

Vyacheslav Mishchenko,  foto



CHANSON DES ESCARGOTS QUI VONT À L’ENTERREMENT

 

A l'enterrement d'une feuille morte
Deux escargots s'en vont
Ils ont la coquille noire
Du crêpe autour des cornes
Ils s'en vont dans le noir
Un très beau soir d'automne
Hélas quand ils arrivent
C'est déjà le printemps
Les feuilles qui étaient mortes
Sont toutes ressuscitées
Et les deux escargots
Sont très désappointés
Mais voilà le soleil
Le soleil qui leur dit
Prenez prenez la peine
La peine de vous asseoir
Prenez un verre de bière
Si le coeur vous en dit
Prenez si ça vous plaît
L'autocar pour Paris
Il partira ce soir
Vous verrez du pays
Mais ne prenez pas le deuil
C'est moi qui vous le dis
Ça noircit le blanc de l'oeil
Et puis ça enlaidit
Les histoires de cercueils
C'est triste et pas joli
Reprenez vos couleurs
Les couleurs de la vie
Alors toutes les bêtes
Les arbres et les plantes
Se mettent à chanter
A chanter à tue-tête
La vraie chanson vivante
La chanson de l'été
Et tout le monde de boire
Tout le monde de trinquer
C'est un très joli soir
Un joli soir d'été
Et les deux escargots
S'en retournent chez eux
Ils s'en vont très émus
Ils s'en vont très heureux
Comme ils ont beaucoup bu
Ils titubent un petit peu
Mais là-haut dans le ciel
La lune veille sur eux.

Vyacheslav Mishchenko,  foto

 

 

In: Jacques Prévert: poemas. Sel. e trad. de Silviano Santiago. RJ:  Nova Fronteira, 1985.
 




sábado, 30 de julho de 2016

Do cancioneiro galego-português



Afonso Anes de Cotom (século XIII)

Abadessa, ouvi dizer
Que éreis muito sabedora
Em tudo; por Deus, senhora,
Querei de mim vos condoer
Pois este ano me casei,
Mas juro que ainda não sei
Mais  do que um asno a foder.

Porque me disseram ora
Que vós muito conheceis
De foder e bem no fazeis,
Ensinai-me bem, senhora,
Como foder, pois nem mãe
Nem pai me ensinaram bem
E nada sei até agora.
 
Se eu por vós for ensinado,
Senhora, nesse mester
De foder e foder souber
Por vós, que Deus me indicou,
Sempre que foder, direi
Pater Noster, e rezarei
Pela alma de quem me ensinou.
 
Com isso podeis ganhar
Senhora, o reino de Deus,
Ensinando os filhos seus
Tereis outro jejuar
Se ensinardes a mulher
Coitada, que a vós vier
Por não saber fornicar.

 

                (Adaptado para o português moderno por Orlando Neves)
 

In: Orlando Neves (sel. e org.) . Cantigas de escárnio e maldizer. Lisboa: Editorial Notícias, 2004.

 

 
 
 
 
Segundo o registro a partir dos manuscritos compilados (sem atualização), disponível na excelente base de dados online Cantigas medievais galego-portuguesas (referência ao final)
 
   Abadessa, oí dizer  
   que érades mui sabedor
   de tod'o bem; e, por amor
   de Deus, querede-vos doer
   de mim, que ogano casei,
   que bem vos juro que nom sei
   mais que um asno de foder.
 
   Ca me fazem en sabedor
   de vós que havedes bom sem
   de foder e de tod'o bem;
   ensinade-me mais, senhor,
   como foda, ca o nom sei,
   nem padre nem madre nom hei
   que m'ensin'e fic'i pastor.
  
    E se eu ensinado vou
    de vós, senhor, deste mester
    de foder e foder souber
    per vós, que me Deus aparou,
    cada que per foder direi
    Pater Noster e enmentarei
    a alma de quem m'ensinou.
 
   E per i podedes gaar,
   mia senhor, o reino de Deus,
   per ensinar os pobres seus
   mais ca por outro jajũar;
   e per ensinar a molher
   coitada, que a vós veer,
   senhor, que nom souber ambrar.
 
Lopes, Graça Videira; Ferreira, Manuel Pedro et al. (2011-), Cantigas Medievais Galego Portuguesas [base de dados online]. Lisboa: Instituto de Estudos Medievais, FCSH/NOVA. [Consulta em 30 de julho de 2016] Disponível em: <http://cantigas.fcsh.unl.pt>.
 
 
  
 
 
 
 
 
 
 

terça-feira, 26 de julho de 2016

COMEÇAREI A SER INCONVENIENTE




·         pedirei de vez em quando que me inteirem a passagem, que eu saí com pressa de casa e esqueci de passar no banco

·         que me paguem um café, q eu não trouxe trocado e como eu parei de fumar não tenho nem como trocar a nota grande do bolso

·         talvez volte a fumar, se arrumar prum varejão, não vale a pena comprar um maço, fumo no máximo um cigarro por dia

·         opere pequenos furtos em armários de colegas, preciso ver como providenciar as cópias das chaves

·         em bolsos de casacos também, bolsas de colegas  deixadas entreabertas, carteiras pedem para ser levadas

·         em dias de muito calor, uma rodada de cerveja, q depois eu acerto e entre nós não vale isso, não é mesmo

·         no frio, um quente, nem q seja um traçado de dreher com fogo paulista, me sentindo personagem de joão antonio

·         com etiquetas eletrônicas, desenvolverei habilidades nas lojas de varejo, agora que nem mesmo bala na Americanas dá mais pra levar, q dirá lingeries pra vender adiante

·         não tenho habilidade pra aprender a fazer ligação direta, ainda mais agora com tanta tranca, sem falar em GPS e tal

·         não tenho disposição pra traficar branco nem preto, pó nem fumo, tenho mais tendência pra morrer de tanto cafungar

·         não saberia lutar pra manter um ponto, pequeno que fosse, ainda por cima

·         apontar jogo de bicho, nem pensar, se bem que até nisso eu já pensei

·         jamais coragem pra fazer um ganho, berro na mão, decisão e disposição pra chegar junto se for o caso

·         pensar em arma branca furando carne enquanto esfolo o pescoço pra arrancar a gargantilha o pingente me arrepia

·         me aventurar a assaltar banco, nunca pensei, mas admiro, confesso

·         imolar-me em praça pública em nome de uma causa estúpida simpática justa assando vísceras de casuais passantes cheirando a fezes queimadas não

·         não

·         nem

·         nem

·         não

·         conheço um amigo que se deu bem numa igreja na baixada, acho que vai dar pra dividir os cultos com ele dois dias na semana, é sempre um começo

sexta-feira, 22 de julho de 2016

JOSÉ PAULO PAES (1926-1998), 90 ANOS





Neste 22 de julho celebram-se os 90 anos do poeta, crítico e tradutor paulista José Paulo Paes. 

 

OLÍMPICA

ufa ufa ufa ufa
por ufa ufa ufa
ufa que ufa ufa
ufa ufa me ufa
ufa ufa ufa ufa
no  ufa ufa ufa
ufa do ufa  ufa
ufa ufa meu ufa
ufa ufa ufa  pa
is   ufa  uff   fff

 

 

 

CANÇÃO DE EXÍLIO FACILITADA

 

lá?
ah!

sabiá…
papá…
maná…
sofa…
sinhá…

cá?
bah!

 

 

AUTO-ESCOLA VÊNUS

 
contato

para trás
(devagar)
para frente
(devagar)
para trás
(ACELERE)
para frente
(ACELERE)
 
pode desligar

 

 

KIPLING REVISITADO

 
se etc
se etc
se etc
se etc
se etc
se etc
se etc

serás um teorema
meu filho






METAMORFOSE DOIS

 
quando lhe veio à lembrança
que bicho é pai de bicho
o pai de gregório samsa
juntou-se ao filho no lixo

 
 
 
 

 

José Paulo Paes.  Poesia completa. SP: Companhia das Letras, 2008.

 

 

 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

RAINER MARIA RILKE (1875-1926)


Ali vivem homens, pálida florada
que morre pasma do mundo e sua agrura;
ninguém enxerga a careta indisfarçada
que o sorriso de uma raça delicada
ao fim de noites sem nome desfigura.

Vão por aí degradados pela lida
de servir, apáticos, a desrazão;
as suas roupas estão sempre puídas
e logo se enrugam suas belas mãos.

A multidão os empurra sem notar
seu andar incerto e seu ar de doentes –
apenas cachorros tímidos, sem lar,
os seguem por algum tempo, mudamente.
 
A mil atormentadores os atiram,
cada hora que bate é um brutal chamado,
em torno dos hospitais ei-los que giram
à espera de internar-se, angustiados.

    Lá está a morte.  Não a que, esplendor,
os tocou na infância, quando os saudou, mas
a pequena morte (como a entendem lá)
que ora dentro deles, verde, sem dulçor,
é fruto que não amadurece mais.

 

                                               Tradução de José Paulo Paes

 

 

 in: Rainer Maria Rilke [poemas].  Tradução e introd. José Paulo Paes. Companhia das Letras, 2009.

 

Beelitz Heilstätten Hospital, Berlim