quarta-feira, 8 de março de 2017

TRÓPICOS PARA HOLANDÊS VER COMO BRASILEIRO VÊ


           Este texto,  “Grandeur en misère van het tropicalisme”,   foi publicado na revista holandesa DE GIDS em seu número de janeiro/fevereiro deste ano (o link vai abaixo).  A revista, em formato tablóide, formato  de tão significativa memória para quem foi leitor da imprensa alternativa durante a ditadura implantada com o golpe de 1964,  é a mais antiga revista dedicada à literatura em terras holandesas, tendo sido fundada em 1837, ou seja, tem 180 anos de existência.   Em seu  expediente, aliás,  assim está escrito (aqui, um viva ao Google Translator com o auxílio luxuoso do discernimento): “ De Gids [‘O Guia’] é a mais antiga revista de cultura literária e geral dos Países Baixos e uma das revistas deste tipo estabelecidas  há mais tempo no mundo. O Guia concentra-se em literatura, filosofia, sociologia, arte, política, ciência, história; em suma, tudo o que é interessante, desde que inédito. A revista é publicada bimestralmente e traz ensaios sobre temas atuais políticos, históricos e culturais, prosa holandesa e traduzida, e poesia estrangeira.”
         Quando o antropólogo Matthjis van de Port (atualmente radicado na Bahia, onde estuda cultura e religiosidade popular e faz pequenos e valiosos  curta-metragens sobre esses assuntos) e o editor, o romancista e ensaísta Edzard Mik,  me convidaram para integrar um dossiê sobre os trópicos que a revista lançaria no número(que acabou levando por título “Trópicos?  Os trópicos não existem mais”),  o que eles me pediram foi um texto que abordasse  a identidade possível de uma reflexão sobre a cultura tropical feita por um “nativo”, pois a visão européia,  e holandesa em particular,  sobre a cultura tropical  já era familiar a eles e já estava bem clicherizada (e ambos me citaram o clichê “não existe pecado ao sul do Equador”).  Falaram-me para eu pensar em algo como “usos e abusos da idéia de tropical”.  Foi precisamente este o mote.
         Me disseram ainda: você pode optar por um ensaio ou por uma abordagem poético-literária do tema, a revista gosta e investe nessas hibridizações de gênero.  E aqui aconteceu algo curioso.  Quando perguntei que espaço eu teria e soube que seriam três páginas, resolvi que seria impossível um ensaio sobre o assunto em três páginas (aliás, qualquer ensaio sobre qualquer assunto não dá para ser em três páginas).  Assim, optei  pela abordagem poético-literária.  Depois eu soube que nos referíamos a espaços diferentes; eu raciocinava na nossa formatação acadêmica  habitual, A 4, o editor me falava em espaços referentes às páginas da revista, o que me proporcionaria na verdade 7 ou 8 páginas.  Mas disso eu só soube com o trabalho já bem adiantado, e estava gostando de poder lidar com a imaginação desataviada, além do que sabia que a revista gosta desses textos livres.  E assim segui. E, para minha alegria, o texto foi bastante bem recebido, depois de traduzido (imagino  a trabalheira!) por Ane Lopes Michielsen.
         Em suma: isto não é um ensaio.  Como defini num certo momento na troca de correspondências é  uma “fantasia sobre os devaneios e pesadelos de um país tropical”.  O texto, que começa citando, sem mencionar,  o Catatau,  de Leminski  também não é uma reflexão, ou sequer um devaneio, sobre o tropicalismo, como a programação visual que acabou tomando na revista sugere.  Mas não tomo mais tempo aqui não.  Encaminho vocês, leitores, ao texto.  Em tempo:  a versão da revista online não está com o meu texto disponível: a íntegra da revista é da edição impressa; aos poucos é que vão sendo disponibilizados todos os textos online.





FANTASIA SOBRE OS DEVANEIOS E OS PESADELOS DE UM PAÍS TROPICAL

                                           (Sobre usos e abusos de tropical)


1.
Renatus Cartesius pirou e antes de expirar sonhou o horror da natureza que o vácuo tenta encher em vão;  na verdade, dizendo melhor,  Cartesius vivenciou-o.   Parece que passara boa parte de sua  vida,  até os 40 anos,  obcecado com as questões relativas à produtividade da dúvida, é possível até que tenha escrito  um discurso sobre o método, alguns frangalhos  de latim parecem atestá-lo, talvez tivesse até, quem sabe, chegado a bom termo em sua enorme empreitada,  mas ao  aceitar o convite, numa manhã de 1636,   para vir aos trópicos com o Príncipe Nassau,  acabou por desembarcar  e finalmente se estabelecer por aqui,  dedicando-se competentemente a afazeres dispersos mas muito profícuos,  ainda que um tanto obscuros, adquirindo ao fim certa fama, certa notoriedade – embora não obtivesse reconhecimento oficial, o que impediu de ser a sua glória –  ao  desenvolver um tipo de atividade lúdica valendo-se  uma pelota feita de couro de paca, num afã que espantava e provocava o riso de seus contemporâneos mas  que séculos mais tarde os ingleses patenteariam,   e que  se expandiria pelo mundo como o  jogo dos pés,  do pé na bola,  o balípodo, o ludopédio.  Esse jogo concretizou todas as projeções sonhadas por Cartesius na conjugação entre a geometria e a álgebra, as coordenadas longitudinais e latitudinais no retângulo euclidiano em direção a sua superação – para o quadrado já havia o xadrez, em concentração e fúria equivalentes, mas em velocidade muito mais lenta.  Foi depois, muito depois, que vieram Rinus Michels, Johan Cruyff  e Romário – e  assim se pode  resumir boa parte de uma longa história.

2.
Frequentemente sonhamos que a tudo o trópico devora,  em sua entropia de plantas carnívoras  de raízes semoventes.  A síntese a que chegamos tantas vezes não passa em absoluto pela análise: fica brilhando, zênite sem nadir.  Assim nos desentendemos, assim pensamos que nos entendemos, assim pensamos que o Outro nos entende.  E somos ficção, o sumo dela. 

3.
As dualidades nos constituem perversamente:  nós as vemos  como contrastes, assim como transformamos toda diferença em oposição, todo signo em vetor sequioso de seu oposto:  Euclides da Cunha falou em litoral e interior, Oswald de Andrade  em floresta e escola, os tropicalistas em formiplac & céu de anil, tudo sendo a herança barrocatólica que poucas vezes recebeu a profundidade do corte sacrificial e redentor: mas momentos  houve de  exceção,  anotando aqui, entre poucos outros:  Euclides, por exemplo, deveria ser mais lembrado não pela profecia que registrou, da boca do monumento que criou com  Antonio Conselheiro:  “o mar vai virar sertão o sertão vai virar mar”, mas por seu próprio dilaceramento como intelectual,  que abjurou seus equívocos de Bildung  para engrandecer  a humanidade com uma  obra assombrosa de  denúncia e invenção lingüística.  Machado de Assis, pouco dado a explicitar contrastes, o fez como se fosse a vingança suprema de seu obsessivo macho a incriminar a mulher com o epíteto falsamente doce da cigana oblíqua e dissimulada – na verdade,  quem se vingava da estupidez dominante do macho era  Machado, o que demorou pelo menos uns 50 anos para que se começasse a perceber: em Machado o contraste não se externa, mas ali está, zênite sem nadir: seus Bento Santiago e Brás Cubas são os estúpidos postos no ponto cego da estupidez circundante, por isso invisíveis.  Uma das nossas apostas otimistas  é que o Brasil ainda possa a vir a ser uma nação a altura de honrar o nome de Machado de Assis.  E de Euclides da Cunha.

4.
Sabia Oswald, instruído por Blaise Cendrars: “Tendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao Vosso destino.” Carregamos ainda hoje a dúvida de saber se já  não cometemos grandemente o tal menor descuido.   Nesse caso, nosso destino terá sido jogado, como aconteceu com Macunaíma, no sumidouro da Uiara, só nos restando desde então, parece,  repetir sua narrativa na voz do papagaio.  Oswald e Mário de Andrade sofreram os trópicos com sinais trocados – e para acrescer a este drama, outro: sinais por vezes  intercambiáveis.

5.
A dualidade flagrada por Euclides da Cunha nos constitui ainda numa outra dimensão , a de um desengonço continental:  como periferia, buscávamos até a segunda guerra a Europa francesa e cruzávamos os mares de volta para lá estar, como cruzamos hoje os céus para ir aos USA, mas ignoramos quase completamente nossos vizinhos tropicais:  Peru, Bolívia, Colômbia, Venezuela...nomes da  América que nos cerca, exótica,  estranha e longínqua,  que fala outra língua, o castelhano tão distante do português –  mentira de dimensão andina,  que gostamos de repetir  – preferíamos no passado maltratar o perroquet francês, hoje até aprendemos o inglês, o que também não importa muito, valendo muitas vezes só  a sonoridade e o embromation.

6.
Antes que dormíssemos apaziguados pelo lusotropicalismo freyreano, a antropofagia oswaldiana nos manteve aberto pelo menos um dos olhos: enquanto o outro, pálpebra cerrada,  foi para a  anunciação da Virgem sobre todos os outeiros,  a pupila vigilovoraz  fixou-se no bispo Sardinha.  Saía de cena o bom selvagem,  arrombava a festa o mau selvagem.   São histórias do último século que passou – passou, mas não é tão certo que tenha acabado de todo.  Talvez o nosso exílio de nós mesmos continue, como em célebre primeira página nos  assinalava Sérgio Buarque de Holanda.

7.
O tropical frondoso, pluviante e flutual,  geograficamente situado logo abaixo do equatorial amazônico,  parece por vezes querer dar o  tom de seu exclusivismo no tropical Brasil.   Mas não é assim. Esse universal, como todo universal, não resiste a que se cutuque por baixo.   Não há apenas Jorge Amado e José Lins, há Graciliano Ramos e sua ascese não religiosa, recusando o “resto de janta abaianada”, a mesma recusada por João Cabral.  Esse tropical é milenarista, árido, em ascese comunista ou religiosa, transgressora ou conservadora, força tropical semidesértica, da carência, da pedra, do estoicismo e do messianismo, da moral rígida a vigorar entre as festas do calendário cristão.  A matriz euclideana (da Cunha) deixa-se ver em tudo isso, em tudo  o que há de vigoroso  em Elomar Figueira Mello, em Ariano Suassuna, em Luiz Gonzaga, em Glauber Rocha. Encontrando-se com a  verticalidade setecentista do  Aleijadinho chega às frondes de Guimarães Rosa, mergulha nas montanhas, grutas e igrejas de Minas, desperta a lâmina assombrosa da voz de Milton Nascimento, a lâmina seca da poesia de Drummond, as plantas alucinógenas dos Murilos, Mendes e Rubião.  E aqui já estamos entrando nas cidades, na vocação urbana e urbanística de Minas, rara entre nós, que acabou por resultar em JK e Niemeyer. Como antes a Mauritsstadt de Pernambuco não deu apenas a pedra de João Cabral, deu dele mesmo o rio e o mangue, como de Alceu Valença, como da Nação Zumbi, na periferia de Recife e Olinda.


8.
Mas antes é preciso considerar o mais lembrado:  o tropical mais permeável ao exótico, mais permissivo e complacente. Do húmus, dos liquens, dos manguezais, pantanais – Manoel de Barros! – e litorais. Estereótipos de outros Caribes, de outros Hawaiis, que encontraram no gênio de Dorival Caymmi quem os eternizasse – o que obviamente implica anular sua estereotipia –  e na potente sabedoria de Antonio Risério quem o balizasse e mostrasse o nexo que a partir daí se construirá para o urbano do pós-guerra, para além, novamente, da compreensão dos sobrados e mocambos de Freyre.  Esse tropical dá em Jorge Amado também, claro, em João Ubaldo, bem como resulta no palimpsesto onde foram renitentemente apagadas e reescritas e, mais recentemente, gravadas fonomecanicamente – e nem sempre lidas ou ouvidas, o que é uma das dimensões da nossa face trágica -  os veios e as vozes negras e indígenas, de Solano Trindade, Abdias, Clementina de Jesus, Juruna e Terena. Quilombos e MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). 

9. 
Melhor talvez do que ninguém, é Caetano Veloso quem sempre chega  às iluminadas sínteses do muito que somos, do que precisamos ser, incluído aí o desalento da hipótese de que não venhamos a ser jamais: “Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína.”  Quando andamos por nossas periferias, olhamos o casario dos moradores que a muito custo conseguem levantar algumas paredes, olhamos para as escolas que ali subsistem, os templos religiosos que ali se esgueiram... ou vamos para as construções suntuosas, erguidas com o dinheiro público para glória de nossos faraós, comerciantes e banqueiros ou  para os magníficos eventos de índole esportiva e midiática, sejam viadutos, arenas... tudo parece assim, ruínas, ruínas, ruínas que não chegaram a ser construções.  Presídios de nossas almas. Os shoppings, não.  Estes em geral, intactos.  Como as imensas igrejas marmorizadas.

10.
Olhar para a metrópole hoje exige o esforço de  tentar vê-la pelas lentes do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). Fenômeno recentíssimo de organização e politização de trabalhadores despossuídos, estes, que estão em sua origem,  vêm de longe em tempo e espaço: Quilombos e MST, por certo, mas também o processo de gentrificação que está na base do Rio de Janeiro de Lima Barreto, que se haussmannizou desumanizando-se há mais ou menos um século. Hoje explodem arsenais entre o mar e  os morros. Baionetas calam descontentes.  O crime organizado empreende um êxodo rural às avessas.

11.
Mas que não se perca de início o fio do que de melhor a cultura – e dentro dela  a arte –  burguesa e das classes médias urbanas logrou  obter.  A cidade dos modernistas, a rigor, não era ainda a cidade que sairá do processo de  industrialização levado a cabo por todo o período getulista – de 1930 a, com um breve interregno, 1954.  São Paulo passa a existir de fato aí, a partir desse período, em velocidade vertiginosa,  para se tornar cidade a mais populosa das Américas, uma das dez maiores do mundo. Em diferença marcante, o Rio, Salvador e Recife abrigavam em seu seio  tradições culturais enraizadas desde o século XVI – São Paulo fez-se sobretudo de trânsito e trocas. Seja como for, mesmo nos paulistas  Mário e  Oswald, e assim também  em Bandeira, recifense que se radicou no Rio,  é visível nas suas obras a permanência de passados de certa forma nostálgicos em construções de memória e de história, mesmo em se tratando de passado não totalmente vivenciado por eles.  É só com a poesia de Drummond que o urbano despede as últimas nostalgias do passado rural. E é com a prosa de Clarice Lispector também, um pouco mais tarde. Sem reminiscências nostálgicas, sem exteriorizações ou anotações tropicais, sequer pelo avesso,  em Clarice emerge  a voz urbana da mulher.  Em Drummond não há nostalgia,  mas há as marcas quase raivosas  da passagem do indivíduo do interior do país para o urbano, do recolhimento opressivo mineiro para o espanto atordoado do litoral carioca.  É o Rio, sem dúvida, que acolherá essa poesia, como acolhe hoje a estátua do poeta à beira mar em Copacabana.  A poesia de Drummond foi acolhida de inicio pelos dois grandes artífices do construtivismo urbano na portentosa música mediatizada que se fez a partir da década de 1960, sobretudo no Rio,  em torno  de Antonio Carlos Jobim e João Gilberto.  Aos quais se deve acrescentar Vinícius de Moraes, habitué da alta poesia como seu mestre e confrade  Drummond. A bossa nova era ponto de chegada e partida:  ali desembocou  a tradição do samba e do choro, gêneros musicais populares criados a partir da matriz das musicalidades negro-mestiças cariocas desde o  começo do século XX.  No meio do caminho o encontro com a lírica modernista culta, de fundo neo-romântico,  com acentuada consciência de construção,  em Vinícius.  Musicalmente se deu o mesmo, com Jobim, maestro onde desaguavam Debussy e Villa-Lobos além – e por causa – do  ímpeto zen-provocativo de Koelreutter; daí  a bossa nova partiu para o mundo, conquistou o mundo, influenciou o jazz, que ela mesma,  em low profile, com a voz sussurrante e o violão em surdina de João,  havia devorado e depurado em suas entranhas discretamente antropófagas, como recomendava e profetizava Oswald.  Biscoito fino para as massas. Nossa alma tropical cantava ao ver o Rio de Janeiro. Como sempre, em nossa tradição poética sentimental e sublimadora, onde se lê “alma”, leia-se “corpo”.  Rio de Janeiro, cidade mulher.  Lirismo de homens machos.  Másculos.

12.
Mas de repente foram os bárbaros que vieram.  Porque, como no poema de  Kaváfis, já estavam entre nós.  No lirismo misógino popular, revestido de admoestações morais de duplo sentido e de sensualidade explícita e matreira.  A mulher que não tem decoro.  A mulher que gosta de apanhar.  A mulher que é decorosa porque sabe que apanhar do seu homem é a prova de amor.  O homem que sabe respeitar a mulher do outro homem  e (por isso) bate só na sua.  Nos infinitos  entrecruzamentos sócio-psicanalíticos aí implicados, uma mitopoética de sangue, beijo e mordaça escorre do lirismo dos sambistas, Noel Rosa&Ismael Silva&Wilson Batista, das vielas das favelas, das ruas dos subúrbios, dos lares da falsa moralidade pequeno-burguesa do teatro de Nelson Rodrigues, das taras de Dalton Trevisan, do hiper-realismo de Rubem Fonseca, do bas-fond de João Antonio.  O que veio aos poucos se adocicando, como nos engenhos de Gilberto Freyre, foi-se solidificando em duros tijolos que o método Paulo Freire tentou ensinar a empilhar para erguer lares de libertação.  Mas o conservadorismo vencedor do golpe em 64 convenceu que os tijolos eram de rapadura, doces.  Ou pastéis de carne humana com caldo de cana caiana. Trevas da alma lírica brasileira, dirá de novo Caetano, mulheres de coronel, dirá Gilberto Gil.  Perdoa-me por me traíres, dirá Chico Buarque.  As coisas estão no mundo, só que é preciso aprender, dirá Paulinho da Viola. Mas este já será um outro momento.

13.  
Será o momento em que os tropicalistas, equipados com altas doses de coragem e potência inventiva musical e poética – IN-VEN-ÇÃO -, a reivindicarem para si o adjetivo radical  “tropical” ensinaram várias lições básicas de sobrevivência na metrópole.  Nos vãos e desvãos das cidades, a partir de São Paulo, com o esteio trazido da vivência da Bahia e da “cidade da Bahia” (Salvador), aliados à vanguarda da Poesia Concreta do Trio Noigandres e da música contemporânea dos maestros paulistas além do rock de altíssimo calibre dos Mutantes, até  pode não ter sido o ensinamento para a vida empírica mais pragmático  em nossa  sociedade tropical sombria, mas foi a espessura de uma vivência artística que nos antenou e desprovincianizou, não sem pagar  alto preço, incluindo prisão e exílio, condenação pela  direita e desconfiança e desconforto para sempre incorporados pela esquerda, conectando-nos ao mundo contemporâneo, estética e politicamente – no sentido de politização do cotidiano: tarefa levada a cabo com pioneirismo e com o destemor de incorporar a discussão e as possíveis vivências diferentes de família, sexo, gênero, raça, drogas, suplementares a uma  arte ousada e libertária,  correndo sempre por entre escaramuças da vanguarda e do mercado: o pop na veia do mundo, a neo-vanguarda sem revival sacralizante.  Que heranças incorporar, que vivências recusar?  Saber separar o joio do trigo e tantas vezes aproveitar o joio. Exemplos?  Sobretudo o que sempre fora associado no gosto do receptor intelectualizado, por preconceitos classistas,  ao pior da indústria do entretenimento, o rock barato de Roberto & Erasmo Carlos, o sam(bluesrocksoul)BA de Jorge Ben Jor e Tim Maia, o cinema barato, “chanchada”,  paródico dos musicais hollywoodianos. Na estética tropicalista acentua-se ainda  o contraste – nisso ele é neo-antropófago, sim – entre o rural e o urbano, e o rural permanece (ou retorna), mas ora como lembrança nostálgica, ora como pesadelo de onde não conseguimos sair.

14.
Seria  esse o seu ponto fraco, apontado por um marxista agudo e inteligente como Roberto Schwarz.  Mas parece que teimamos em nos reconectar a pesadelos de que não conseguimos sair, dando um nó nas tripas do marxismo por mais inteligente que seja.  E o  rural, o arcaico, o errado serão o defeito de fabricação – Tom Zé! – perfeito para o que queremos.  Ou para o que quiseram os tropicalistas.  Reproposição da contribuição milionária de todos os erros, de que falava, outra vez, Oswald.   Guerrilha, luta armada contra marchas de famílias movidas por conservantismo cristão e medo de um comunismo caricato. Toques de recolher, cachorros mortos nas ruas, policiais vigiando. War, children, it was just a shot away, happiness was a warm gun,  era preciso estar atento e forte,  não tivemos tempo de temer a morte.

15.
Só nesta semana em que escrevo foram mais 99 mortos em massacres em dois presídios. A média nacional por presídio este ano já  é de 12 mortos.  Em 1992, na maior penitenciária de São Paulo, o Carandiru – hoje desativado – ,  uma invasão da tropa mais violenta da Polícia Militar para conter um motim resultou em 111 mortos. No presídio desta semana que teve 60 mortos, o comandante da PM disse não ter invadido para contenção do motim  para “evitar outro Carandiru”.  Ou seja, admitiu incapacidade de controlar suas forças de repressão. As autoridades dos dois estados onde ocorreram as matanças se eximem de responsabilidade, dizendo que se trata de “guerra de facções rivais”, como se não coubesse ao estado zelar pela segurança dos apenados.    Os números que apresento aqui  são oficiais, o que vale dizer: despertam sempre a suspeita de serem minimizados.  De qualquer forma, mais de vinte anos se passaram e prossegue o que estava no terrível rap-canção “Haiti”, de Caetano e Gil, de 1993: “mas presos são quase todos pretos/ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres/e pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos”.  O que ecoa também em “Diário de um detento” do extraordinário grupo paulistano hip-hop Racionais MCs: “Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo.../quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio/o ser humano é descartável no Brasil/como modess usado ou bombril/Cadeia? Claro que o sistema não quis/esconde o que a novela não diz/Ratatatá! sangue jorra como água/do ouvido, da boca e nariz/O Senhor é meu pastor.../perdoe o que seu filho fez/morreu de bruços no salmo 23/sem padre, sem repórter/sem arma, sem socorro/vai pegar HIV na boca do cachorro/cadáveres no poço, no pátio interno/Adolf Hitler sorri no inferno!/o Robocop do governo é frio, não sente pena/só ódio e ri como a hiena/mas quem vai acreditar no meu depoimento?/Dia 3 de outubro, diário de um detento."  O descaso não é apenas por presos, como está no retrato de um Rio muito diferente daquele da bossa nova, num samba de 1987 de um dos mais caros filhos do movimento, Chico Buarque: “Rio de ladeiras/civilização encruzilhada/cada ribanceira é uma nação/à sua maneira com ladrão, lavadeiras, honra, tradição/fronteiras, munição pesada/São Sebastião crivado/nublai minha visão/na noite da grande/fogueira desvairada.”  Recuar no tempo a procura de monstruosidades e seus testemunhos não é difícil.  Difícil é lidar com o lado sombrio da “alma brasileira”, que não consegue superar os binarismos maniqueístas mais corriqueiros e dar um passo mínimo em direção à dialética.  Renatus Cartesius piraria de vez em travar contato com nossa deriva relativista em direção desembestada ao absoluto obscurantismo. Tantas tradições religiosas com o vigor do politeísmo africano vicejaram por aqui e se dobraram à intolerância neopentecostal que  ocupa cada passo e nos espreita de forma a cada dia mais ameaçadora.

16.
O tropical pantaneiro da poesia  de Manoel de Barros parece estar com os dias contados,  condenado aos campos de grãos transgênicos do agronegócio.  Os avanços sociais dos governos de Lula & Dilma não resistiram às sanhudas investidas conservadoras de sempre e foram a nocaute, menos por seus erros – que foram muitos – e muito mais por seus acertos, poucos mas decisivos,  de inclusão social.  O Congresso que assim selou  nossa sorte, afastando a presidenta legitimamente eleita e contra a qual nada se comprovou de desabonador, o fez numa indescritível sessão na qual imperou a grotesquerie mais abusiva, mais cínica:  votaram pelo impeachment, com os discursos demagógicos mais inacreditáveis em seus fáceis efeitos melodramáticos, personagens  políticos sobre os quais pairam suspeitas e mesmo  sérias acusações de lenocínio, pedofilia, tráfico de drogas e de gente, trabalho escravo, apropriação indébita de propriedades, malversação de dinheiro público, falências fraudulentas, extermínio de pessoas, estelionato, além de muitos serem  adúlteros contumazes, homossexuais homofóbicos, apologistas da tortura e de torturadores.  E o fizeram em nome de Deus, da pátria e da família, valores supremos para resguardar a moralidade pública.  O pesadelo tropical, contraluz da euforia trágica tropicalista, prossegue.

17.
Nosso sumo não é ficção.


(originalmente em https://de-gids.nl/2017/no1



domingo, 12 de fevereiro de 2017

LEONARDO FRÓES (1941), QUATRO VEZES

          Graças ao lançamento do volume a ele dedicado na Coleção Postal da Azougue e da Cozinha Experimental, reato meu contato com a poesia de Leonardo Fróes.  O volume, como os demais da coleção, reúne 30 poemas e uma entrevista com o poeta.  Fico muito feliz ainda em saber que o poeta lançou recentemente sua poesia completa e que foi muito bem recebido em sua participação na FLIP do ano passado.  Meu contato com essa poesia precisava mesmo ser reatado, vou caminhar nessa direção, eu, que dele só tinha até então o ótimo livro de 1973, Esqueci de avisar que estou vivo, com sua capa flagrando um detalhe do quadro Crucificação de Cristo, de Bosch.  Fora isso, esbarrava volta e meia com um poema seu por aí, apenas.
         O livro da Coleção Postal reúne poemas de todos os seus  livros publicados,  de Língua franca (1968) a Trilha (2015).  Entre os três do livro de 1973 os organizadores não incluíram,   e por isso o posto aqui, “Paisagem voando para o orgasmo”, de que muito gosto…  alías, me surpreendi ao ver que não o havia postado já neste blog, por sinal que nunca tinha postado nada do poeta antes.  Sinal de que estava mesmo precisando desse reencontro com sua poesia que a Coleção Postal veio a proporcionar.
         Não conhecia o primeiro desses poemas, “Inspirado por um vaso”, que me causou um enorme impacto – foi difícil me desgrudar dele e ler os demais do volume.  E aí fui buscando também em outros –  felizmente encontrei – o que nele me encantara.  Sobretudo a sintaxe de largo fôlego – à exceção do último, todos os outros, assim como muitos no livro,  são constituídos por apenas um período - , que se desenrola, se espraia e recolhe imageticamente, em parataxe e hipotaxe, associações, acenos, analogias incríveis, aproximações afetivas e intelectuais, numa visão  acima de tudo humanista, generosa, a que precisamos ser dignos – parece apontar o poeta – de pelo menos pormos a mão: como o caqui que ele oferece à amada, como a meditação sobre o constructo humano debruçado às margens do rio central da Renascença.  Vaso e caqui (aqui é preciso ler a entrevista para entende direitinho a trajetória do poeta e tradutor cosmopolita que se torna agricultor  e assim permanece há mais de 40 anos, sem abrir mão de ser poeta e tradutor) são ambos constructos:  na agricultura e no que chamamos mais habitualmente cultura. 
         Curtam Leonardo Fróes.






INSPIRADO POR UM VASO
Assim como os oleiros que se entregam  em pasmo à
estafante percepção de uma forma girada nos próprios
dedos, assim como os pintores que se dão por completo
à fantasia que evola do verniz dessa forma e criam, no
seu bojo, uma tensão contraditória de músculos,

assim como os humildes que a conservam em uso,
carregam essa forma nos ombros,
afeiçoam-se a ela -
- e não são nada,

senão um par de olhos contemplando as figuras
cujo mágico poder faz do labor um prêmio,

assim como os devotos que a honram
e a demonstram em pânico, fiéis servos da morte,
ao cínico juízo dos deuses,
assim como os guerreiros que o seu brilho confunde,
os reis que a acariciam e se tornam escravos do luxo
ou os marujos que a embarcam no generoso destino
de suas frotas
batidas pelos mares incógnitos
para depois, acaso, abandoná-la
numa angra de sólidos ciprestes,

assim como os que lidam com essa forma,
vazam a linha de contorno, buscam
no campo ilimitado, mas não raro ilusório,
de suas tantas aparências esdrúxulas
uma indicação de sentido para os gestos humanos
que a elaboram e transmitem á vida,

assim como os que indagam seu gênio,
e a ele se curvam, confrangidos
à dura aceitação da realidade,
assim, minha existência, eu te persigo
na beleza da tarde e me debruço
em doce curvatura sobre o Arno.

                   (de Língua franca, 1968)



PAISAGEM VOANDO PARA O ORGASMO

Trens sonolentos resfolegam
na gare do escuro rostos antigos se alumbram
e nos sorriem discreta-
mente a razão se estilhaça os sentidos
se destampam os cheiros se condensam os sabores
se associam ao cuspe a vida nos penetra o vento
nos penteia e espalha
por coloridas areias os dias nos dividem
os horários nos limitam a memória escasseia o mar
devolve ondas vazias
em que já fomos levados
nas noites frias de outrora o outro espia o outro espera o outro
nos sedimenta em nosso desvario
e ensina um corpo à solidão
o outro ampara nossa queda beija
nossos pudores e a boca
sempre entupida de espanto o canto explode
o galo canta a cama range o ar se fende o riso
nos comunica o gosto diferente
desse gesto largado o riso alarga eleva desarruma as gavetas
da nossa servidão cotidiana.

                   (de Esqueci de avisar que estou vivo, 1973) *




O APANHADOR NO CAMPO

Fruta e mulher no mesmo pé de caqui
no qual espantando os mosquitos eu trepo
para apanhar como um garoto a fruta
e apreciar, comendoá lá no alto, a mulher
que ficou lá embaixo me esperando subir
e agora vejo se mexendo entre as folhas,
com seus olhos de mel, seus ombros secos,
enquanto me contorciono todo subindo
entre línguas de sol, roçar de galhos,
para alcançar e arremessar para ela,
no ponto mais extremo, o caqui mais doce.

                   (de Argumentos invisíveis, 1995)




A LAGOA DOS OLHARES

No fundo, ninguém conhece
ninguém.  A não ser por alto.
Mas na hora dos encontros,
quando os litígios se afogam
na lagoa dos olhares,
quando surge entre dois a igualdade
de um ponto de vista ao ponto
sem ônus de animosidade,

nos momentos assim, que até nos ônibus
lotados podem acontecer de repente,
se aos solavancos ali olhos se cruzam
no mais perfeito entendimento possível,

nos momentos amenos em que as pessoas
(uma no mar da outra mergulhadas
por atração ou forte simpatia)
deixam de perceber que se ignoram,
isso é tudo no que podem no tocante
ao que existe para conhecer do outro lado.

Quando nos vemos, de nós embevecidos
na serena permuta de um instante
em que a emoção de viver nos aglutina,
a presença da espécie rarefaz-se, nosso amor pacifica
qualquer onda de susto ou qualquer guerra.

Depois, contudo, cada qual volta ao seu casulo,
solucionando-se, ou não, na solidão.
É bom se ver, distrai se entreolhar
e é ótimo se conhecer, assim por alto.
Ninguém porém entrega a senha do mistério
que é humano ser um só na multidão. 

                   (de Trilha, 2015)


* com exceção “Paisagem voando para o orgasmo”, os demais poemas encontram-se no volume Leonardo Fróes da Coleção Postal. 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

MARCOS PASCHE

DO MANGUE

Esta lama que melíflua se move,
para na face se fazer parada,
ao longo se alonga e consolida
feito tapete preto na estrada.

Esta lama em bolo, irmã do lodo,
um lobo outro: dum morder que é
um morder que deita e se espalha
e se instala fora e dentro até.

Esta lama, de vínculos capilares,
que se vai medrando aos metros,
crava estacas pelos poros, faz cerca
farpada, e deixa buracos descobertos.

Cimentou-se, sem pressa de saída.
A lama, que escolta, julga e reprime.
Manda ter pressa: prende os pés;
fala de calma: azáfama imprime.

A lama, que expulsa peixe e orixá,
concha, areia, castelo e barco.
A lama, que toma os siris meninos
e lhes comprime em caranguejo casco.

A lama, que embaixo e em cima
prega lembretes de cisma e medo.
Pescadores lavam peito e olhos,
e ela é carne no canto dos dedos.

As plantas suspendem o caule
num lampejo de fuga formulado.
A lama promete lhes molhar os pés,
mas os deixa à mostra, esgretados.

Ela morada de bicho e homem cerca,
sua rede vai da estrada ao mar.
Homem parou canoa: quer explodir;
bicho nada semeia: teme estilhaçar.

Ela, a lama, qui é quem manda.
Faz-se, do lá ao ali, única vista.
Sua água soterra buraco – boca do solo;
Sua terra afoga o ar.  (Lama mista).

Lama, mãe, irmão, pai e totem,
de todos feita, a todos lutulentos faz.
Clandestino o rio desvia, porém
(cercado de cerca e esgoto) jaz.

Marcos Pasche.  Acostamento.  Rio: Oficina Raquel, 2008.





sábado, 14 de janeiro de 2017

VICTOR HUGO (1802-1855)


PALAVRAS DE UM CONSERVADOR
(a propósito de um perturbador)

Seria sonho ou não… Depois vós me direis…
Um homem… era um grego, era um persa, um chinês,
Ou judeu?… Eu não sei… tão somente me lembro
Que era um ente verídico e grave, que era membro
Do partido da ordem… E ele dizia então:
“Esta morte jurídica imposta a um charlatão,
Ferindo este anarquista é soberana e justa…
Faz-se mister que a ordem e a autoridade augusta
Defendam-se… Tais cousas hoje ninguém discute.
Depois, se a lei existe é para que se execute.
Verdades santas há de origem tão divina
Que devem sustentar-se até na guilhotina.
“Este inovador pregava a filosofia
Do amor e do progresso… histórias… utopia!
Ria do nosso culto antigo e namorado.
Era um destes pra quem nada existe sagrado
Nem respeitam jamais o que o mundo respeita…
“Pra lhes inocular doutrina assaz suspeita
Ele ia procurar nos bordéis crapulosos,
Boieiro e pescador, patifes biliosos,
Imundo povilhéu não tendo eira nem beira…
E entre canalha tal pregava de cadeira.
Jamais se dirigia aos homens de dinheiro,
Aos sábios, aos honrados, ao honesto banqueiro.
“Anarquizava as massas… e com dedos para o ar
Enfermos e feridos entendia curar
Contra a letra da lei.
Não pára aí o horror…
Ressuscitava os mortos… este vil impostor
Tomava nomes falsos e falsas qualidades
E errando ora nos campos, ora pelas cidades,
Ouviam-no dizer: “Podeis me acompanhar!”
“Ora, falai, senhor. Não é mesmo excitar
Uma guerra civil entre os concidadãos?
Via-se ir ter com ele horrorosos pagãos,
Que dormiam nos fossos e acompanhar-lhe o rastro:
Um coxo, outro com o olho escondido no emplastro
Outro surdo, outro envolto em pústulas tenazes.
Vendo este feiticeiro andar com tais sequazes
O homem de bem entrava em casa envergonhado…
“Um dia… eu já nem sei quando isto foi passado,
Numa festa… pegou de um chicote, imprudente!
E se pôs a expelir, mas muito brutalmente,
Gritando e declamando, honestos mercadores,
Que vendiam ali pássaros, aves, flores,
E outras coisas, que mesmo o clero permitia,
E de cujo produto uma parte auferia.
“Uma mulher sem brio seguia-lhe na trilha.
Ele ia perorando, abalando a família,
A santa religião e a sociedade,
Decepando a moral e a propriedade.
“O povo o acompanhava, e o campo estava inculto.
Era ousado demais… Chegava o seu insulto
Até ferir o rico!… E revoltava o pobre.
Sempre, sempre a dizer que todos que o céu cobre,
São irmãos, são iguais… que não há superiores,
Nem grandes, nem pequenos, ou servos, ou senhores,
E que o fruto é comum… Até ao clero insultava!…
 Bem vê, bem vê, senhor, que este homem blasfemava.
E tudo isto era dito assim em meio à rua,
A uma canalha vil, grosseira, imunda e nua.
Preciso ora acabar, as leis eram formais…
Foi, pois, crucificado…”
Ouvindo frases tais
Ditas com tão singela e adocicada voz…
Eu surpreso exclamei: “Senhor, mas quem sois vós?
Ele me respondeu: “Preciso era um exemplo;
Eu me chamo Elisab, sou escriba do templo”…
“Porém de quem falais?… Dizei-me de quem é.
“Meu Deus! deste vadio… Jesus de Nazaré”.

                                      Tradução de Castro Alves

Victor Hugo. Obras completas. V. XLII (org. Jamil Almansur Haddad) .  SP: Editora das Américas, 1960.





Victor Hugo, por Auguste Rodin






PAROLES D’UM CONSERVATEUR
                   (à propos d’um perturbateur)

Était-ce un rêve ? étais-je éveillé ? jugez-en.
Un homme, - était-il grec, juif, chinois, turc, persan ?
Un membre du parti de l'ordre, véridique
Et grave, me disait : - cette mort juridique
Frappant ce charlatan, anarchiste éhonté,
Est juste. Il faut que l'ordre et que l'autorité
Se défendent. Comment souffrir qu'on les discute ?
D'ailleurs les lois sont là pour qu'on les exécute.
Il est des vérités éternelles qu'il faut
Faire prévaloir, fût-ce au prix de l'échafaud.
Ce novateur prêchait une philosophie :
Amour, progrès, mots creux, et dont je me défie.
Il raillait notre culte antique et vénéré.
Cet homme était de ceux qui n'ont rien de sacré,
Il ne respectait rien de tout ce qu'on respecte.
Pour leur inoculer sa doctrine suspecte,
Il allait ramassant dans les plus méchants lieux
Des bouviers, des pêcheurs, des drôles bilieux,
D'immondes va-nu-pieds n'ayant ni sou ni maille ;
Il faisait son cénacle avec cette canaille.
Il ne s'adressait pas à l'homme intelligent,
Sage, honorable, ayant des rentes, de l'argent,
Du bien ; il n'avait garde ; il égarait les masses ;
Avec des doigts levés en l'air et des grimaces,
Il prétendait guérir malades et blessés,
Contrairement aux lois.
Mais ce n'est pas assez :
L'imposteur, s'il vous plaît, tirait les morts des fosses.
Il prenait de faux noms et des qualités fausses ;
Et se faisait passer pour ce qu'il n'était pas.
Il errait au hasard, disant : - suivez mes pas, -
Tantôt dans la campagne et tantôt dans la ville.
N'est-ce pas exciter à la guerre civile,
Au mépris, à la haine entre les citoyens ?
On voyait accourir vers lui d'affreux payens,
Couchant dans les fossés et dans les fours à plâtre,
L'un boîteux, l'autre sourd, l'autre un œil sous l'emplâtre,
L'autre râclant sa plaie avec un vieux tesson.
L'honnête homme indigné rentrait dans sa maison
Quand ce jongleur passait avec cette sequelle.
Dans une fête, un jour, je ne sais plus laquelle,
Cet homme prit un fouet, et criant, déclamant,
Il se mit à chasser, mais fort brutalement,
Des marchands patentés, le fait est authentique,
Très braves gens tenant sur le parvis boutique,
Avec permission, ce qui, je crois, suffit,
Du clergé qui touchait sa part de leur profit.
Il traînait à sa suite une espèce de fille.
Il allait pérorant, ébranlant la famille,
Et la religion, et la société ;
Il sapait la morale et la propriété ;
Le peuple le suivait laissant les champs en friches ;
C'était fort dangereux. Il attaquait les riches,
Il flagornait le pauvre, affirmant qu'ici-bas
Les hommes sont égaux et frères, qu'il n'est pas
De grands et de petits, d'esclaves ni de maîtres,
Que le fruit de la terre est à tous ; quant aux prêtres,
Il les déchirait ; bref, il blasphémait. Cela
Dans la rue. Il contait toutes ces horreurs là
Aux premiers gueux venus, sans cape et sans semelles.
Il fallait en finir, les lois étaient formelles,
On l'a crucifié. -

                              Ce mot, dit d'un air doux,
Me frappa. Je lui dis : - mais qui donc êtes-vous ?
Il répondit : - vraiment, il fallait un exemple.
Je m'appelle Elizab, je suis scribe du temple.
- Et de qui parlez-vous, demandai-je ? - Il reprit :
- Mais ! de ce vagabond qu'on nomme Jésus-Christ.