quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

GUTO LEITE


       
 


       Talvez um instrumento o que se houve ao fundo, o sexto livro de poemas de Guto Leite, mineiro de BH radicado em Porto Alegre, onde é professor de Literatura Brasileira na UFRGS, começa a ser corajoso pela provocação contida na homofonia do  título.  Provoca o leitor, claro que a pressupor um leitor dado às frequentações da poesia.    E continua a ser corajoso em seu texto de abertura, “A queda”, toda uma primeira seção do volume feita de um bloco maciço de prosa poética sem pausas,  a exigir fôlego, controle da respiração e da volúpia,  a exigir uma familiaridade com um tipo de texto pouco comum entre nós (só entre nós?) já um século depois de Joyce, que se faz presente somente  nos raros e rarefeitos vislumbres atingidos por, pra ficar na prata da casa, o Leminski de Catatau, o Waly de Me segura que eu vou dar um troço, Gramiro de Mattos (Ramirão ão ão) de Urubu-Rei e poucos mais, sem falar nas Galáxias de Haroldo de Campos.  Difícil recortar algo para dar de exemplo ao leitor aqui dessa descida do poeta às várias mortes de seu Inferno, sugerido pela epígrafe do Canto I da Comédia (sem designação de autoria) e pela afirmação do prefaciador, que nos assegura estarmos diante de um todo que dialoga com a obra máxima de Dante.

         Mas “A queda” oferece súbitas  recompensas de intenso prazer epifânico, entremeado com árduos esforços da escalada (para baixo é escalada?).  Na dificuldade de tomar um trecho bem delineado como exemplo dessa aventura inicial, dou ao leitor sua página de abertura:

da primeira vez que morri foi uma
espécie de  susto puxei o ar inutil
mente ar não era o problema e cai

como do sono no horror macio da c
ama da segunda de súbito uma dor
aguda rasgou-me do peito para cá f
ora farpa extensa e pontuda quede
i esquecido feito estopa velha da
terceira descobri tarde que estava
morrendo uma centena de células pó
r vez apodreciam no tronco jeito
que deus inventou pra matar a clãs
se média não há o que fazer lembro
de ouvir antes da vertigem e entre
o que fora e o que era formou-se
uma ponte fina de ataduras soros
analgésicos choros de familiares d
a quarta intervi magroexasperado m
e leve logo cortemos o papo derr
ame sua foice do modo que for cond
uza-me rápido para o outro lado do
rio  retire-me já dos demais  viv
entes a morte premente que é o a
caso enlutado cansou-se de mim e
em uma voz de mil séculos  bradou


        Mas o melhor nem é buscarmos  confirmar e reconhecer – ou não – nas diversas “estações” de Guto o diálogo cheio de negaças também, por exemplo,  com as estações de Rimbaud:  o melhor será se entregar de início ao gozo de seu livro, fruindo cada texto em sua singularidade. Assim a segunda seção, toda em rascantes textos curtos (veja-se no recorte que fiz abaixo os dois primeiros e os dois últimos poemas, todos sem título),  bem como a terceira seção, onde o poeta permite se espraiar mais em extensão e diálogos explícitos (veja-se o extraordinário “Poema tirado de duas notícias de jornal”, a que o ilustrador Talarico deu aqui sua valiosa contribuição).  O leitor nem tão familiarizado assim com um universo poético muito vasto poderá, ele também, ter muito a fruir de todo o convívio – e poesia é arte de convívio, longo, fiel e amoroso – com os poemas deste Talvez um instrumento o que se houve ao fundo.


         E como isto não é uma resenha, pretendendo ser mais uma apresentação o mais digna possível deste poeta (por sinal, ele é também cancionista, tendo já dois CDs lançados, mas a isso volto em outra ocasião)que conheci pelas redes sociais (o lado bom da coisa), vai aqui uma breve mostra de sua poesia:

         se teu verso não causa
         náusea ou suicídio
         é propaganda

x

         os nascidos até hoje
         menos os vivos
         morreram

         quando é a tua esperança



POEMA TIRADO DE DUAS NOTÍCIAS DE JORNAL

no dia 25 de outubro de 1975
um próprio cinto
casado
pai de dois filhos
apresentou-se no paraíso
para esclarecimentos

no dia seguinte
constrangido
pelas relações que não tinha
com o partido
enforcou-se
nas grades da cela

para isso
usou o pescoço
cheio de roxos
de vladimir herzog

hoje o paraíso é tombado

segundo o Condephaat
a construção
aspas
possui apelo estético
particular
e carrega uma difícil simbologia
política

fecha aspas




VALERÁ A PENA

valerá a pena
criarmos códigos
memórias juntos
filhos & ódios

se um dia os lábios
de um dos dois
fossem fissurados
por ausências

valerá a pena
amarrar afetos
dividir espasmos
e concretos

se um dia a vida
de um dos dois
estiver submersa
de pretéritos


VALERÁ A PENA

valerá a pena
parear destinos
combinar tecidos
temperos & agendas

se um dia a tarde
para um dos dois
impuser seu corpo
vagarosimensa

valerá a pena
sobrepor os panos
suspender os planos
suspirar os sábados

se um dia imóvel
um dos dois
compulsoriamente
romper com o pacto


x

não gaste anestesia
com a negrinha

x

isso não é poesia
por isso é poesia


Guto Leite.  Talvez um instrumento o que se houve ao fundo. Belo Horizonte: Moinhos, 2017.






terça-feira, 30 de janeiro de 2018

CASSIANO RICARDO (1895-1974): OITO POEMAS




Ferreira Gullar passou boa parte de sua vida repetindo que a poesia nasce do espanto.  Desse achado pessoal, de fundamentação bem subjetiva,  ele formulou os termos de sua poética, dando a entender que os diversos caminhos que seguiu ao longo de seu percurso se fizeram ao sabor dos variados espantos que experimentou.   Gosto da formulação de Gullar, embora,  como ele mesmo reconheça, relacionar poesia e espanto não seja nenhuma novidade, desde pelo menos Platão.   Mas sem ter tido a ambição de desenvolver sua proposição num nível propriamente teórico – até porque rejeitava que um poeta e um teórico pudessem conviver num só corpo – , Gullar dela extraiu um corolário, bastante duvidoso, que o vi reiterar algumas vezes em entrevistas: a de que um poeta, tendo atingido uma certa idade, não teria mais, a rigor,  como continuar a ser um poeta, pois lhe faltaria capacidade de espantar-se.  Do muito que poder haver de duvidoso aí, me parece que o caso de Cassiano Ricardo vem justo para desmentir Gullar.  Pois Cassiano – poeta que li com alguma frequência há muitos anos e ao qual nunca tinha voltado – me dá impressão, quando o lia, eu muito jovem, já tinha essa impressão firmada,  de ter ficado melhor justamente em seus últimos livros, em especial no ótimo Jeremias sem chorar, de 1964,  quando o poeta já tinha 70 anos, seu penúltimo.  Não posso falar do último, Os sobreviventes (1971), pois  se  o li não me lembro, assim como não lembro  jamais de ter visto um exemplar.
Poeta de segunda plana da fase heroica do Modernismo, Cassiano creio ter sido sempre um conservador em matéria de política.  Isso é óbvio em seus primeiros anos de atuação na vida literária, com Plínio Salgado e Menotti Del Picchia, assim como é óbvio em seu mais famoso e festejado livro, Martim-Cererê  (1928), obra de diluição,  convencional, tanto em termos de proposta nacionalista-modernista quanto no tratamento da matéria poética, tendente ao sentimentalismo também no trato do lirismo.  Quando falo que ele vai melhorando – a meus olhos, claro, não precisa ninguém me acompanhar – como poeta com o correr do tempo, não é tanto por ter se aproximado das vanguardas das décadas de 1950 e 60, uma vez que aí também sua contribuição tende ao convencional, embora seu “A serenata sintética”, de 1947, poema bem conhecido e com o qual resolvi aqui abrir a postagem para “situar” o leitor (cf. abaixo), seja admirável e antecipador.  Mas penso que Cassiano cresce como poeta na medida mesmo em que se livra do renitente sentimentalismo e trata seu temário habitual – incluindo um cristianismo muito mais convencional do que o de Murilo Mendes, por exemplo - driblando as analogias mais óbvias encontradiças à farta em grande parte de sua produção,  abrindo-se por fim de forma mais liberta ao... espanto.  O espanto de que falava Gullar. 
De qualquer forma, creio se tratar de uma obra  que bem pode estar na expectativa de uma revisitação mais acurada. Vai aqui um pouco de minha microantologia pessoal de Cassiano.





A SERENATA SINTÉTICA

lua                               morta
    rua                                    torta
    tua                       porta




PEQUENA ODE ATONAL

A borboleta no
vidro da janela até que
- cansada –
caiu ao chão e aí ficou
abrindo e fechando as
as’as em câmara lenta.

Esperei o instante em
que, atônita e átona,
ela fechou as pétalas
e a segurei, larvar,
entre o indicador e o
polegar.

Frágil borboleta
mais fácil de matar
por dó, mas fácil de
reduzir a pó (ou púrpura)
do que de salvar.

(Quem ambos os gestos
requeriam uma só
delicadeza.)

Saí a terraço e a
soltei ao vento; e a pobre,
como um til de papel,
foi pousar numa flor da
cerca de resedá.

Senti-me liberto
de sua enorme angústia.
Respirei, nela, o meu
ar.

Coisa sem alvo de
tão minúscula, in-
corpúscula – haver salvo
uma borboleta.
Sem indagar, sequer,
se azul ou preta.



CANTO INCIVIL

Basta estar vivo
pra ser subversivo
( Ou subservivo.)
Basta não figurar
no registro civil
pra ser incivil.
( Ou vil, pra encurtar a palavra.)

Basta ser incivil
pra não ser ninguém.
Basta não ser ninguém
pra ter o apelido
que a polícia dá
a quem não é ninguém.

Tinha eu dois nomes:
Zebedeu,
que a miséria me deu.
E “elemento subversivo”
que a polícia me deu.

E apenas uma dor:
a que a vida me deu.
E eis-me aqui, incivil,
(ou vil, pra encurtar a palavra).

Uma patada de cavalo
em meio do comício
e eis-me aqui, estendido em decúbito
dorsal.

(Ou já cortado ao meio,
sem dor, nem sal.)



O CÃO E O CACHORRO

I

Não galgo, olho azul,
fidalgo.

Mas um simples cachorro.
Já seco.

Não cão
de uma constelação.

Mas um simples cachorro
de beco.

Não um cão do rei
Arthur.

Mas um simples cachorro,
tout court.

Já reduzido a um osso,
de magro,

osso comendo um osso:

O osso que ele é,
por fome;

e o osso que ele come.


II

O fim
do mundo será assim:

à míngua,
e já em outra língua.

Um cão
que se fez cachorro

roendo um alvo osso
no beco.

(O seu derradeiro
almoço.)

De quem será esse osso?



O INIMIGO E O IRMÃO

Não matarás, sem que, no mesmo ato,
te suicides, num só relógio exato.
És o homem que talvez ainda se salve
pela certeza de que destruir o irmão

é ao mesmo tempo destruíres a ti mesmo.
O medo – que terás – de que a morte de Abel
seja também a tua será um gládio de fogo
sobre duas cabeças, fim do jogo.

O medo se transforma em flor de espera,
em expectativa, em sucessiva rosa.
Já que ambos somos uma só coisa viva,
um em frente do outro – mútuo espelho.

Tão minha e tua é a vida de nós-dois
que – homicida – verás, logo depois,
em teu corpo sangrar minha ferida.
A arma é uma só, bigúmea, simultânea.

Choremos, pois, um no ombro do outro.
O ser humano já não se identifica,
apenas, por um sinal datiloscópico,
mas por ser um animal que chora.

Toda lágrima é uma secreta aurora.
Choremos, pois, um no ombro do outro.
Do nosso choro de arrependimento,
quem sabe – nascerá o arco-íris.



PERCURSO

         O arco-íris,
                   o urso.

         Meus dois sustos
         iniciais.

         Mas o tempo
         ponte que cresceu
         entre mim e eu.
         E por onde vim.

         No enterro
         de cada minuto,
                   pergunto:
         quem morreu
                   em mim?

         O arco-íris?
                   O urso?



ZANGA CONTRA UM GUARDA-CHUVA

Vou jogar o meu guarda-chuva
no depósito dos objetos sem uso.
Guarda-chuva ridículo, monstruoso
morcego
que abro contra o céu negro.

Não mais me adianto abri-lo contra
                   a chuva das horas.
Nem sobre o sereno que cai
sobre as flores dormidas.
O seu lugar será um museu, um arquivo.
Não mais o mundo dos objetos súbitos
em que vivo.


Não mais me adianta abrir meu gamp
se a chuva é de sol.
Nem me adiantará abrir o guarda-sol
se chove mas sem perspectiva, sem
                                               chuva
Se a Terra se transformou numa
                                               flor
radioativa.

Sob a poeira de estrôncio noventa
não sabemos se está chovendo ou não,
sobre a matéria viva.  A própria noite
tem a aparência de um enorme
guarda-chuva
                                      de viúva
aberto mas jogado à praia.




TRANSFUSÃO

1

O sangue no globo de vidro
e a agulha já em minha veia.
Presa ao tubo condutor.
Gota por gota.  Investigo
que irmão, qual desconhecido
me oferta esta rosa líquida
que me entra no pulso sem dor.

Procuro inutilmente, mesmo
com o dom de criar figuras
que a imaginação me dá,
quem será, quem não será.

Mais alheio que a mão esquerda
diante do que a direita faz.
Mais anônimo que o Cântico
dos Cânticos, só este sangue
ora transfuso para meu uso
que não sei sequer de onde vem.

Sou um morcego pensante.
Uma sanguessuga inquieta
e interrogativa; nuclear.
Sugando substância viva.
Mas de um corpo tão distante
de mim como um telstar.

(Sangue doado por um Ninguém
para outro igual Ninguém.)

Será de um anjo de um bandido?
De um simples homem da rua?
De um príncipe, um rajá,
não será.
De um rei também não será.
Azul é que não será.

2

Esta a graça que descubro
gota a gota rosa em sílabas
e me entra na circulação.

Saber que Ninguém é o nome
do  meu verdadeiro irmão.
Um irmão que não sei quem seja.
Se louro, descalço ou triste.

Só sei que seu sangue é rubro
como lacrima-cristi.

(Quando se ouve alguma flauta
não importa se é de prata
ou – na manhã magnólia –
a que Ulisses ouviu na Eólia.)

Ignoro de quem este sangue
ora transfuso para meu uso.
Se de um branco, se de um preto,
de um chim, de um espadachim.
Será de um ateu, de um eslavo?
Azul é que não será.
Do Ali Kan, do Xá da Pérsia
é que também não será.

3

Seja, porém, de quem for
(sanguinolado, medito)
talvez guarde a reminiscência
de algum já imemorial rito.
O de beber sangue do irmão
como se bebe uma flor.

(Ontem – ato sanguinolento –
Hoje – apenas sanguino-lento.)


Cassiano Ricardo.  Antologia poética.  RJ: Editora do Autor, 1964.