sábado, 16 de setembro de 2017

HILDA HILST SEIS VEZES

Hilda Hilst (1930-2014)


Poema IV de Balada do Festival
                   A Vinícius de Moraes

Na hora da minha morte
estarão ao meu lado mais homens
infinitamente mais homens do que mulheres.
(Porque fui mais amante que amiga)
Sem dúvida dirão as coisas que não fui.
Ou então com grande generosidade:
Não era mau poeta a pequena Hilda.

Terei rosas no corpo, nas mãos, nos pés.
Sei disso porque fiz um pedido piegas
à minha mãe: “Quero ter rosas comigo
na hora da minha morte”.

E haverá rosas.
São todos tão delicados
tão delicados...

Na hora da minha morte
estarão ao meu lado mais homens
infinitamente mais homens que mulheres.
E um deles dirá um poema sinistro
a jeito de balada em tom menor...

Tem tanto medo da terra
a moça que hoje se enterra.
Fez poema, fez soneto
muito mais meu do que dela.
Lá, lá, ri, lá, lá lá, lá.



Poema 4 de “Do amor contente e muito descontente” 

Falemos de amor, senhores,
Sem rodeios.
[Assim como quem fala
Dos inúmeros roteiros
De um passeio.]
Tens amado?  Claro.
Olhos e tato
Ou assim como tu és
Neste momento exato.
Frio, lúcido, compacto
Como me lês
Ou frágil e inexato
Como te vês.
Falemos do amor
Que é o que preocupa
Às gentes.
Anseio, perdição, paixão,
Tormento,tudo isso
Meus senhores
Vem de dentro.
E de dentro vem também
A náusea.  E o desalento.
Amas o pássaro? O amor?
O cacto? Ou amas a mulher
De um amigo pacato?
Amas, te sentindo invasor
E sorrindo
Ou te sentindo invadido
E pedindo amor.  (Sim?
Então não amas, meu senhor)
Mas falemos do amor
Que é o que preocupa
Às gentes: nasce de dentro
E nasce de repente.
Clamores e cuidados
Memórias e presença
Tudo isso tem raiz, senhor,
Na benquerença.
E é o amor ainda
A chama que consome
O peito dos heróis.
E em o amor, senhores,
Que enriquece, clarifica
E atormenta a vida.
E que se fale do amor
Tão sem rodeios
Assim como quem fala
Dos inúmeros roteiros
De um passeio.






Poema 10 de “Do amor contente e muito descontente”

Tenho pedido a todos que descansem
De tudo o que cansa e mortifica:
O amor, a fome, o átomo, o câncer.
Tudo vem a tempo no seu tempo.
Tenho pedido às crianças mais sossego
Menos riso e muita compreensão para o brinquedo.
O navio não é trem, o gato não é guizo.

Quero sentar-me e ler nesta noite calada.
A primeira vez que li Franz Kafka
Eu era uma menina. (A família chorava.)
Quero sentar-me  e ler mas o amigo me diz:
O mundo não comporta tanta gente infeliz.

Ah, como cansa querer ser marginal
       Todos os dias.
Descansem, anjos meus.  Tudo vem a tempo
No seu tempo.  Também é bom ser simples.

É bom ter nada. Dormir sem desejar
Não ser poeta.  Ser mãe. Se não puder ser pai.

Tenho pedido a todos que descansem
De tudo o que cansa e mortifica.
         Mas o homem

         Não cansa.




TESTAMENTO LÍRICO

Se quiserem saber se pedi muito
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi

Na criança que fui, tão confundida.

À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas.  De fadas.

O mundo na varanda.  Céu aberto.
Castanheiras doiradas.  Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.

Eu era uma criança delirante.

Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.

O que vivia em mim sempre calava.

E não sou mais que a infância.  Nem pretendo
Ser outra, comedida.  Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo

Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente.  Em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dócil

Querer deixar um testamento lírico

E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.

Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Um dentre vós resguardará (por certo)

A criança que foi.  Tão confundida. 



 Poema VI  de “Dez chamamentos ao amigo”

Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado
Dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?

Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?



O REIZINHO GAY

Mudo, pintudão
O reizinho gay
Reinava soberano
Sobre toda nação.
Mas reinava...
APENAS...
Pela linda peroba
Que se lhe adivinhava
Entre as coxas grossas.
Quando os doutos do reino
Fizeram-lhe perguntas
Como por exemplo
Se um rei pintudo
Teria o direito
De somente por isso
Ficar sempre mudo
Pela primeira vez
Mostrou-lhes a bronha
Sem cerimônia.
Foi um Oh!!! geral
E desmaios e ais
E doutos e senhoras
Despencaram nos braços
De seus aios.
E de muitos maridos
Sabichões e bispos
Escapou-se um grito.
Daí em diante
Sempre que a multidão
Se mostrava odiosa
Com a falta de palavras
Do chefe da Nação
O reizinho gay
Aparecia indômito
Na rampa ou na sacada
Com a bronha na mão.
E eram os agudos
Dissidentes mudos
Que se ajoelhavam
Diante do mistério
Desse régio falo
Que de tão gigante
Parecia etéreo.
E foi assim que o reino
Embasbacado, mudo
Aquietou-se sonhando
Com seu rei pintudo.
Mas um dia...
Acabou-se da turba a fantasia.
O reizinho gritou
Na rampa e na sacada
Ao meio-dia:
Ando cansado
De exibir meu mastruço
Pra quem nem é russo.
E quero sem demora
Um buraco negro
Pra raspar meu ganso.
Quero um cu cabeludo!
E foi assim
Que o reino inteiro
Sucumbiu de susto.
Diante de tal evento...
Desse reino perdido
Na memória dos tempos
Só restaram cinzas
Levadas pelo vento.

Moral da estória:
a palavra é necessária
diante do absurdo.

Hilda Hilst. Da poesia.  SP: Companhia das Letras, 2017.



quarta-feira, 23 de agosto de 2017

UM POEMA INÉDITO DE OSWALDO MARTINS

DESLÍRICA 2017

o tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
(drummond – a flor e a náusea)

perdem-se vidas quando as bombas
dependuram-se nos braços-homem

quando não arrancam pedaços mas
os pés nas chinelas dos decepados

 jazem na lhana ratoeira das grades
as crianças para a diversão

dos rubicundos senhores a terno
e gravata para o gáudio das sras

luis vitton a desfilarem os cãezitos
sob o aplauso assassino do mercado

(poema inédito cedido pelo autor para este blog)



quinta-feira, 17 de agosto de 2017

ABRINDO O VOLUME DA POESIA DE HILDA HILST

Eis que as coisas chegam a seu dia.

Abro os poemas de Hilda
de quem bem freqüento a prosa
e a picardia, ela
fingindo esgar desespero desdém estratégia orgia
e eu
lembrando  de uma obscura resenha que o  JB
– que julgávamos, nós na Zona Sul
do Rio, imortal, pétreo como o
Pão de Açúcar –
publicou em 1986 (ou 87?)
e que me deixou febril para escrevê-la
febril como seus personagens com seus olhos de cão
como a mãe de minha mulher que então convalescia em minha casa
no quarto ao lado onde eu lia e escrevia
febril entre pílulas, pélvis, pevides e os humores da Senhorita D
“D de derrelição, de abandono”
e eis que agora ao acaso abro  um mundo de versos entre
a epifania e o alucinógeno
ascese atravessada por visceral furor
a calhar para estes dias
e me digo

eis que o  dia chega às coisas que sempre aí estiveram
antes de serem criadas.


terça-feira, 25 de julho de 2017

PENÉLOPE



Fiou para mim uma história longa
ao cabo da qual eu morria;
meus olhos postos no horizonte longe,
fui o nauta português
fui o viking
ou apenas mais um contrabandista de bacalhau
enquanto  sustentava meu povo
a arenque e carne
de rena
que mais fui eu,
fui o  lendário urdidor de estratagemas
e o que me restaria
se não morrer antes de chegar,
mas não morri e agora
ouço que ela me conta
o que fantasiou
torcendo pela minha ausência
que se perpetuasse
e ela vivesse a justa glória
da fiel expectante
por mim, o aventureiro
que apenas desfilei por todos os quadrantes
minha abulia
a mesma de que já sofria
quando de seu lado

parti. 




sexta-feira, 7 de julho de 2017

UM PANFLETO: A JORNALISTA LEITÃO ENTREVISTA O BANQUEIRO-MÓR



JORNALISTA E BANQUEIRO

a jornalista renomada 
porque domesticada
entre
vista
o banqueirão especializado
no que os banqueiros  sempre se especializaram
ele sorri beneplácito
ela finge inquiri-lo
as perguntas e as respostas
sorriem tergiversativas
por cima da vida vegetativa
dos magotes de sobreviventes
ela se diz preocupada
com a paisagem social
mas elogia a sala elegante do Banco Central onde transcorre a conversa civilizada enquanto ele
faz cara de paisagem

na parede ao fundo as cores e linhas básicas de Volpi
e as crianças de Portinari
            - que morreu envenenado pelas tintas de seu ofício -
asseguram a dignidade possível
o sopro






domingo, 2 de julho de 2017

FÍMBRIA

Aquele homem delicado caminhou pela praia
e chegando à beira, onde a água faz a areia mudar de textura,
exibindo sua permeabilidade,
abaixou-se,  e olhando o mar
não quis mais.
Chama-se  fimbria a borda apática  que demora a desfazer-se
quando a água se arrepende
da célere marcha devastadora  que poderia perfeitamente empreender
na direção da orla urbanizada,
dos prédios amontoados escondendo os pobres
encarapitados no alto das pedras
antes que esgueirem entre as frinchas e se abriguem nos latões de lixo
e o mar não invade
o mar é aquele homem delicado que não quis mais e
a turba não completa o movimento de abandonar os latões
e tomar de assalto
(o sangue nos olhos as facas na fronte)
e sequer o mar arrebata o homem que desistiu
e quando é assim
então ninguém adentra a cidade dolente
decidido a  sofrer sua pena e sua luz
e estacam todos
o homem delicado e só
a turba despossuída e mais
o mar conformado à baixa-mar
e se chama fímbria e é aí que se encontram os delicados
 onde o velho Diabo fumando seu houka
na tela de última geração
smart e led
ri do quanto se perde a vida por falsa
delicadeza.



 
Foto de Carolina Bezerra

Lançado Despreparação para a morte

Lançado no dia 23 de junho, meu terceiro livro de poemas, Despreparação para a morte, pela Editora TextoTerritório.


Com a bela capa de Talarico – meu ilustrador habitual aqui no Firma – e texto de orelha de Adriano Nunes (cf. abaixo) , o livro pode ser adquirido através de contato com a própria editora no link  

ou acessando via Facebook em





A beleza irônica do despreparo – Por Adriano Nunes

O que se deve buscar, in totum, num livro de poemas, além de poemas, claro? A beleza poderia ser uma das infindas respostas. Após a leitura atenta do livro Despreparação para a morte, de Roberto Bozzetti, deparei-me com um dilema intrigante: até que ponto é possível atingir, através de signos e significados, imagens e sentidos, formas e espaços, uma beleza não convencional, despreparada ad hoc, não comedida e nem toujours prêt-à-porter, dotada de deboche, riso, trivialidade, ironia e astúcia e, ainda, amalgamá-la a artifícios e recursos clássicos? Como impregnar a beleza de inteligência, vivência, maturidade, sapiência, sem lhe dar ares e eras de arte pretensiosamente bem comportada, para satisfazer as exigências sub-reptícias do leitor? Nesse labirinto borgeano em que me desencontrei, preferi não ir atrás dos fios de Ariadne: dar-me inteiro e pleno a cada verso, a cada estrofe, a cada poema poderia (e pôde!) conduzir-me a um recanto onde, conforme Coleridge, eu estaria cercado pelas melhores palavras na melhor ordem, isto é, estaria tête-à-tête com a própria poesia, aquela que advém das Musas, para ser poesia e só. Uma poesia de morte e vida, de consciência, lucidez e de atrevimento. A morte que se cuide! Se é certo que o tema da morte percorre o livro, também é certo que a vida, com toda a sua energia pulsante, escancarada, alegre, dionisíaca, criativa, também transita, com maestria, pelos precisos versos engendrados pelo poeta carioca. Sem receios ou dúvidas, constato, criticamente, que o belo livro do amigo Roberto Bozzetti merece ser lido, relido e, máxime, aplaudido, por tratar-se de um dos mais belos e impactantes livros de poemas dos últimos anos.
                   (orelha de Despreparação para a morte)