sábado, 14 de janeiro de 2017

VICTOR HUGO (1802-1855)


PALAVRAS DE UM CONSERVADOR
(a propósito de um perturbador)

Seria sonho ou não… Depois vós me direis…
Um homem… era um grego, era um persa, um chinês,
Ou judeu?… Eu não sei… tão somente me lembro
Que era um ente verídico e grave, que era membro
Do partido da ordem… E ele dizia então:
“Esta morte jurídica imposta a um charlatão,
Ferindo este anarquista é soberana e justa…
Faz-se mister que a ordem e a autoridade augusta
Defendam-se… Tais cousas hoje ninguém discute.
Depois, se a lei existe é para que se execute.
Verdades santas há de origem tão divina
Que devem sustentar-se até na guilhotina.
“Este inovador pregava a filosofia
Do amor e do progresso… histórias… utopia!
Ria do nosso culto antigo e namorado.
Era um destes pra quem nada existe sagrado
Nem respeitam jamais o que o mundo respeita…
“Pra lhes inocular doutrina assaz suspeita
Ele ia procurar nos bordéis crapulosos,
Boieiro e pescador, patifes biliosos,
Imundo povilhéu não tendo eira nem beira…
E entre canalha tal pregava de cadeira.
Jamais se dirigia aos homens de dinheiro,
Aos sábios, aos honrados, ao honesto banqueiro.
“Anarquizava as massas… e com dedos para o ar
Enfermos e feridos entendia curar
Contra a letra da lei.
Não pára aí o horror…
Ressuscitava os mortos… este vil impostor
Tomava nomes falsos e falsas qualidades
E errando ora nos campos, ora pelas cidades,
Ouviam-no dizer: “Podeis me acompanhar!”
“Ora, falai, senhor. Não é mesmo excitar
Uma guerra civil entre os concidadãos?
Via-se ir ter com ele horrorosos pagãos,
Que dormiam nos fossos e acompanhar-lhe o rastro:
Um coxo, outro com o olho escondido no emplastro
Outro surdo, outro envolto em pústulas tenazes.
Vendo este feiticeiro andar com tais sequazes
O homem de bem entrava em casa envergonhado…
“Um dia… eu já nem sei quando isto foi passado,
Numa festa… pegou de um chicote, imprudente!
E se pôs a expelir, mas muito brutalmente,
Gritando e declamando, honestos mercadores,
Que vendiam ali pássaros, aves, flores,
E outras coisas, que mesmo o clero permitia,
E de cujo produto uma parte auferia.
“Uma mulher sem brio seguia-lhe na trilha.
Ele ia perorando, abalando a família,
A santa religião e a sociedade,
Decepando a moral e a propriedade.
“O povo o acompanhava, e o campo estava inculto.
Era ousado demais… Chegava o seu insulto
Até ferir o rico!… E revoltava o pobre.
Sempre, sempre a dizer que todos que o céu cobre,
São irmãos, são iguais… que não há superiores,
Nem grandes, nem pequenos, ou servos, ou senhores,
E que o fruto é comum… Até ao clero insultava!…
 Bem vê, bem vê, senhor, que este homem blasfemava.
E tudo isto era dito assim em meio à rua,
A uma canalha vil, grosseira, imunda e nua.
Preciso ora acabar, as leis eram formais…
Foi, pois, crucificado…”
Ouvindo frases tais
Ditas com tão singela e adocicada voz…
Eu surpreso exclamei: “Senhor, mas quem sois vós?
Ele me respondeu: “Preciso era um exemplo;
Eu me chamo Elisab, sou escriba do templo”…
“Porém de quem falais?… Dizei-me de quem é.
“Meu Deus! deste vadio… Jesus de Nazaré”.

                                      Tradução de Castro Alves

Victor Hugo. Obras completas. V. XLII (org. Jamil Almansur Haddad) .  SP: Editora das Américas, 1960.





Victor Hugo, por Auguste Rodin






PAROLES D’UM CONSERVATEUR
                   (à propos d’um perturbateur)

Était-ce un rêve ? étais-je éveillé ? jugez-en.
Un homme, - était-il grec, juif, chinois, turc, persan ?
Un membre du parti de l'ordre, véridique
Et grave, me disait : - cette mort juridique
Frappant ce charlatan, anarchiste éhonté,
Est juste. Il faut que l'ordre et que l'autorité
Se défendent. Comment souffrir qu'on les discute ?
D'ailleurs les lois sont là pour qu'on les exécute.
Il est des vérités éternelles qu'il faut
Faire prévaloir, fût-ce au prix de l'échafaud.
Ce novateur prêchait une philosophie :
Amour, progrès, mots creux, et dont je me défie.
Il raillait notre culte antique et vénéré.
Cet homme était de ceux qui n'ont rien de sacré,
Il ne respectait rien de tout ce qu'on respecte.
Pour leur inoculer sa doctrine suspecte,
Il allait ramassant dans les plus méchants lieux
Des bouviers, des pêcheurs, des drôles bilieux,
D'immondes va-nu-pieds n'ayant ni sou ni maille ;
Il faisait son cénacle avec cette canaille.
Il ne s'adressait pas à l'homme intelligent,
Sage, honorable, ayant des rentes, de l'argent,
Du bien ; il n'avait garde ; il égarait les masses ;
Avec des doigts levés en l'air et des grimaces,
Il prétendait guérir malades et blessés,
Contrairement aux lois.
Mais ce n'est pas assez :
L'imposteur, s'il vous plaît, tirait les morts des fosses.
Il prenait de faux noms et des qualités fausses ;
Et se faisait passer pour ce qu'il n'était pas.
Il errait au hasard, disant : - suivez mes pas, -
Tantôt dans la campagne et tantôt dans la ville.
N'est-ce pas exciter à la guerre civile,
Au mépris, à la haine entre les citoyens ?
On voyait accourir vers lui d'affreux payens,
Couchant dans les fossés et dans les fours à plâtre,
L'un boîteux, l'autre sourd, l'autre un œil sous l'emplâtre,
L'autre râclant sa plaie avec un vieux tesson.
L'honnête homme indigné rentrait dans sa maison
Quand ce jongleur passait avec cette sequelle.
Dans une fête, un jour, je ne sais plus laquelle,
Cet homme prit un fouet, et criant, déclamant,
Il se mit à chasser, mais fort brutalement,
Des marchands patentés, le fait est authentique,
Très braves gens tenant sur le parvis boutique,
Avec permission, ce qui, je crois, suffit,
Du clergé qui touchait sa part de leur profit.
Il traînait à sa suite une espèce de fille.
Il allait pérorant, ébranlant la famille,
Et la religion, et la société ;
Il sapait la morale et la propriété ;
Le peuple le suivait laissant les champs en friches ;
C'était fort dangereux. Il attaquait les riches,
Il flagornait le pauvre, affirmant qu'ici-bas
Les hommes sont égaux et frères, qu'il n'est pas
De grands et de petits, d'esclaves ni de maîtres,
Que le fruit de la terre est à tous ; quant aux prêtres,
Il les déchirait ; bref, il blasphémait. Cela
Dans la rue. Il contait toutes ces horreurs là
Aux premiers gueux venus, sans cape et sans semelles.
Il fallait en finir, les lois étaient formelles,
On l'a crucifié. -

                              Ce mot, dit d'un air doux,
Me frappa. Je lui dis : - mais qui donc êtes-vous ?
Il répondit : - vraiment, il fallait un exemple.
Je m'appelle Elizab, je suis scribe du temple.
- Et de qui parlez-vous, demandai-je ? - Il reprit :
- Mais ! de ce vagabond qu'on nomme Jésus-Christ.



sábado, 31 de dezembro de 2016

UM NOVÍSSIMO: DIO COSTA

O SONHO DAS COISAS SEM FIM
(Aos 80 anos de Roberto Piva)



sonhei que era 2017
comemorávamos os 80 anos de roberto piva em sua biblioteca
admiradores saíam de tudo quanto era buraco
a cidade de são paulo tomada de 220 volts oferecia aos ignorantes seus adeptos
alucinados perambulam entre carros
convocam motoristas e passageiros e transeuntes a darem a partida definitiva em suas vidas
tirem as crianças da sala e as coloquem para nos ensinar 
elas desenham no asfalto um céu de laranja descascada 
o convite são versos do poeta na ponta da língua
ou no livro gasto por idas e vindas curiosas
ou no papel amassado esquecido no bolso esquerdo da calça jeans
ou no rótulo da garrafa já aberta para a Expansão
ou na seda lagarta que vira borboleta num sopro ritualístico

sonhei que era 2017
espíritos faziam plantão na porta desde 1961
andré breton é um e fernando pessoa são vários
e lautréamont e baudelaire e pasolini e jorge de lima e murilo mendes e dante alighieri e arthur rimbaud e mário de andrade e oswald de andrade e jack kerouac e allen ginsberg e walt whitman e álvaro de campos e pierre reverdy e octavio paz e guillaume apollinaire e rainer maria rilke e federico garcia lorca e sousândrade e qorpo santo e philippe soupault e alfred jarry e william carlos williams e hart crane e matsuo bashô
manifestos inteiros mantêm-se de pé nos bares mais próximos 
é a paranoia é a para noia é apara noia é paranoir é a paranoiah!
salvador dalí e max ernst e rené magritte desquadram quadros quadrados

sonhei que era 2017
eu conhecia um perfeito beatnik atravessando as piazzas da cidade
marquês de sade e mallarmé e maiakóvski e freud e nietzsche eram cúmplices do mesmo crime
portas abertas para encontros mágicos
a recíproca do lugar é sua ocupação
os interlocutores conectados pelo veneno acordam para o fogo
os deuses dançam e as autoridades dançam e os intelectuais dançam
as universidades sem cor fazem pirraça
zé celso traz a orgia no sorriso
que comecem os jogos! diz dionísio
perde quem chegar primeiro
abra os olhos e diga ah! para o entusiasmo 
o falo enfático nas peripércias pederastas festivas
coxas e virilhas e ânus e submerso e subverso
gritos coletivos do alto do edifício 
maldoror come empédocles que come antinoo que come jacob boehme que come darcy ribeiro que come karl max que come lorenzo de medici que come mircea eliade que come platão que come emanuel swedenborg que come joséphin péladan que come macunaíma que come gérard de nerval que come raul bopp que come joão miramar que come hegel que come william burroughs que come severo sarduy que o aniversariante come nas camadas do seu bolo

sonhei que era 2017
eu ingeria 20 poemas com brócoli e via analogias por todos os lados
o que não é é e o que é é mesmo
a voz trovão de william blake na masturbação de todos os poetas iniciantes
a divina e os comédias
guimarães rosa e jorge luís borges e t.s. elliot entram no banheiro e não saem mais de lá
juntam flores de dentro da privada
a solidão não é uma escolha mas uma encolha grandiosa comum entre os incomuns
recados curtos ao pé do ouvido iluminam a loucura
a quizumba está formada por tantas possessões 
o pacto do fluxo com a consciência assinado pela mão benta de mefistófeles

sonhei que era 2017
ciclones nos levavam para outra dimensão
eu vejo roberto bicelli de óculos escuros com meia dúzia de mafiosos planejando assaltar a mente dos indecisos 
eu vejo rodrigo de haro jogar seu olhar impressionista alemão na poesia de manuel bandeira
eu vejo antônio de franceschi conversando com d.h. lawrence
eu vejo massao ohno voando além dos limites do sonho
eu vejo thomaz souto corrêa traficando caminhos sem volta 
eu vejo wesley duke lee em detalhes 
eu vejo claudio willer deixar de ser um nome e aparecer na minha frente
eu vejo sessões de ácido e shows de rock e tardes de cinema e batuques na floresta
eu vejo um novo século de gaviões com fome
eu vejo inéditos estourando feito rojões

sonhei que era 2017
ainda ecoava o morteiro acesso na sala de aula
o zunido nos ouvidos frágeis do bunda mole
a careta na cara azeda do cuzão
o receio na falta de atitude do frouxo
sonhei com aqueles que bufam e babam e queimam e explodem 
sonhei que era 2017 e era só o começo das coisas sem fim

         Poema postado na página do autor no Facebook: https://www.facebook.com/pagdodio/
Dio Costa



domingo, 18 de dezembro de 2016

SOLANO TRINDADE (1908-1974)




CANTO DOS PALMARES

Eu canto aos Palmares
sem inveja de Virgílio, de Homero e de Camões
porque o meu canto é o grito de uma raça
em plena luta pela liberdade!
 
Há batidos fortes
de bombos e atabaques em pleno sol
Há gemidos nas palmeiras
soprados pelos ventos
Há gritos nas selvas
invadidas pelos fugitivos...
 
Eu canto aos Palmares
odiando opressores
de todos os povos
de todas as raças
de mão fechada contra todas as tiranias!
 
Fecham minha boca
mas deixam abertos os meus olhos
Maltratam meu corpo
minha consciência se purifica
Eu fujo das mãos do maldito senhor!
Meu poema libertador
é cantado por todos, até pelo rio.
 
Meus irmãos que morreram
muitos filhos deixaram
e todos sabem plantar e manejar arcos
Muitas amadas morreram
mas muitas ficaram vivas,
dispostas a amar
seus ventres crescem e nascem novos seres.
 
O opressor convoca novas forças
vem de novo ao meu acampamento...
Nova luta.
As palmeiras ficam cheias de flechas,
os rios cheios de sangue,
matam meus irmãos, matam minhas amadas,
devastam os meus campos,
roubam as nossas reservas;
tudo isto para salvar a civilização e a fé...
 
Nosso sono é tranqüilo
mas o opressor não dorme,
seu sadismo se multiplica,
o escravagismo é o seu sonho
os inconscientes entram para seu exército...
 
Nossas plantações estão floridas,
Nossas crianças brincam à luz da lua,
nossos homens batem tambores,
canções pacíficas,
e as mulheres dançam essa música...
 
O opressor se dirige aos nossos campos,
seus soldados cantam marchas de sangue.
O opressor prepara outra investida,
confabula com ricos e senhores,
e marcha mais forte,
para o meu acampamento!
Mas eu os faço correr...
 
Ainda sou poeta
meu poema levanta os meus irmãos.
Minhas amadas se preparam para a luta,
os tambores não são mais pacíficos,
até as palmeiras têm amor à liberdade...
 
Os civilizados têm armas e dinheiro,
mas eu os faço correr...
Meu poema é para os meus irmãos mortos.
Minhas amadas cantam comigo,
enquanto os homens vigiam a terra.
 
O tempo passa
sem número e calendário,
o opressor volta com outros inconscientes,
com armas e dinheiro,
mas eu os faço correr...
Meu poema é simples,
como a própria vida.
Nascem flores nas covas de meus mortos
e as mulheres se enfeitam com elas
e fazem perfume com sua essência...
 
Meus canaviais ficam bonitos,
meus irmãos fazem mel,
minhas amadas fazem doce,
e as crianças lambuzam os seus rostos
e seus vestidos feitos de tecidos de algodão
tirados dos algodoais que nós plantamos.
 
Não queremos o ouro porque temos a vida!
E o tempo passa, sem número e calendário...
O opressor quer o corpo liberto,
mente ao mundo
e parte para prender-me novamente...
 
- É preciso salvar a civilização,
Diz o sádico opressor...
Eu ainda sou poeta e canto nas selvas
a grandeza da civilização
a Liberdade!
Minhas amadas cantam comigo,
meus irmãos batem com as mãos,
acompanhando o ritmo da minha voz....
 
- É preciso salvar a fé,
Diz o tratante opressor...
Eu ainda sou poeta e canto nas matas
a grandeza da fé  a Liberdade...
Minhas amadas cantam comigo,
meus irmãos batem com as mãos,
acompanhando o ritmo da minha voz....
 
Saravá! Saravá!
repete-se o canto do livramento,
já ninguém segura os meus braços...
Agora sou poeta,
meus irmãos vêm comigo,
eu trabalho, eu planto, eu construo
meus irmãos vêm ter comigo...
 
Minhas amadas me cercam,
sinto o cheiro do seu corpo,
e cantos místicos sublimizam meu espírito!
Minhas amadas dançam,
despertando o desejo em meus irmãos,
somos todos libertos, podemos amar!
Entre as palmeiras nascem
os frutos do amor dos meus irmãos,
nos alimentamos do fruto da terra,
nenhum homem explora outro homem...
 
E agora ouvimos um grito de guerra,
ao longe divisamos as tochas acesas,
é a civilização sanguinária que se aproxima.
Mas não mataram meu poema.
Mais forte que todas as forças é a Liberdade...
 
O opressor não pôde fechar minha boca,
nem maltratar meu corpo,
meu poema é cantado através dos séculos,
minha musa esclarece as consciências,
Zumbi foi redimido...



TEM GENTE COM FOME

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
pra dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiii

estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio do ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuu






GRAVATA COLORIDA

Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada…

Solano Trindade. Poemas antológicos de Solano Trindade.  SP: Nova Alexandria, 2008.


sábado, 17 de dezembro de 2016

COMEÇAREI A SER INCONVENIENTE




·         pedirei de vez em quando que me inteirem a passagem, que eu saí com pressa de casa e esqueci de passar no banco

·         que me paguem um café, q eu não trouxe trocado e como eu parei de fumar não tenho nem como trocar a nota grande do bolso

·         talvez volte a fumar, se arrumar prum varejão, não vale a pena comprar um maço, fumo no máximo um cigarro por dia

·         opere pequenos furtos em armários de colegas, preciso ver como providenciar as cópias das chaves

·         em bolsos de casacos também, bolsas de colegas  deixadas entreabertas, carteiras pedem para ser levadas

·         em dias de muito calor, uma rodada de cerveja, q depois eu acerto e entre nós não vale isso, não é mesmo

·         no frio, um quente, nem q seja um traçado de dreher com fogo paulista, me sentindo personagem de joão antonio

·         com etiquetas eletrônicas, desenvolverei habilidades nas lojas de varejo, agora que nem mesmo bala na Americanas dá mais pra levar, q dirá lingeries pra vender adiante

·         não tenho habilidade pra aprender a fazer ligação direta, ainda mais agora com tanta tranca, sem falar em GPS e tal

·         não tenho disposição pra traficar branco nem preto, pó nem fumo, tenho mais tendência pra morrer de tanto cafungar

·         não saberia lutar pra manter um ponto, pequeno que fosse, ainda por cima

·         apontar jogo de bicho, nem pensar, se bem que até nisso eu já pensei

·         jamais coragem pra fazer um ganho, berro na mão, decisão e disposição pra chegar junto se for o caso

·         pensar em arma branca furando carne enquanto esfolo o pescoço pra arrancar a gargantilha o pingente me arrepia

·         me aventurar a assaltar banco, nunca pensei, mas admiro, confesso

·         imolar-me em praça pública em nome de uma causa estúpida simpática justa assando vísceras de casuais passantes cheirando a fezes queimadas não

·         não

·         nem

·         nem

·         não

·         conheço um amigo que se deu bem numa igreja na baixada, acho que vai dar pra dividir os cultos com ele dois dias na semana, é sempre um começo

sábado, 10 de dezembro de 2016

TRÊS VEZES FRANCISCO CÉSAR MANHÃES (1962)



TROIAS
Não haveria troias sem
helenas, nem mesmo hélades
e ilíadas e odisséias haveria.
Quer toscas vidas teriam heródotos
sem história, maquiáveis sem
mais os bórgias.  Sem potosis
e antilhas e astecas que pobres
seriam espanhas.  Portugais
e inglaterras sem navios, que seriam?
Sobretudo, que seriam do ouro
e da prata, das glórias mundanas,
sem súbito, no azul estupefato,
o raio límpido de um riso?



ANTECEDENTES

Hoje sabemos que homero foi uma prévia de borges;
que shakespeare foi copiado por carcamanos
uns tantos séculos antes de compor o Otelo.
O que não sabemos é como sobre
as ruínas de tão vigorosos mortos
escreveremos nós com a mesma rebuscada inocência.



NEGREIROS

Não sei nem saberemos
que palavras diziam
em flamengo, inglês,
ladino, espanhol,
português, papiamento
aqueles grandes filhos sem
mãe que atravessaram
o escorbuto e o mar oceano
para levar o mal e as almas
pelos pélagos do Atlântico.

Sei que perderam e
que estão mortos, mais
que mortos, seus nomes
enterrados mais fundo
que o oceano mesmo
que sulcavam.

Ninguém os lembra
ninguém os quer como ancestres.
Do fundo do Hades, do
quinto dos infernos, seus
gritos nadam imersos
no chumbo do esquecimento.

                   Francisco César Manhães. Punhal inútil.  Rio: TextoTerritório, 2016.





domingo, 4 de dezembro de 2016

FERREIRA GULLAR

FIM

Como não havia ninguém
na casa aquela
terça-feira tudo
é suposição: teria
tomado seu costumeiro
banho
de imersão por volta
de meio-dia e trinta e
de cabelos ainda
úmidos
deitou-se na cama para
descansar não
para morrer
         queria
dormir um pouco
apenas isso e
assim não lhe
terá passado pela
mente – até
aquele último segundo
antes de
se apagar no
silêncio – que
jamais voltaria
ao ruidoso mundo
da vida


Ferreira Gullar.  Muitas vozes.  4 ed. RJ: José Olympio, 2000.

foto de Eder Chiodetto
(http://www.tirodeletra.com.br/index.htm)

domingo, 27 de novembro de 2016

DOMINGOS PELLEGRINI (1949)

PRIMATA

Senhores, eu queria abrir a realidade
como um bicho de couro e tripas quentes
com o bisturi da lucidez doente
de Augusto dos Anjos, sem piedade

- nem precisão: ia cortando tudo,
abrindo e maquinando nos miolos
uma dor, uma dúvida, um consolo,
com a mesma avidez com que um mudo
se pudesse entrava nas conversas,
com a esperança e com o desespero
com que eu lia, tão tonto e sincero,
Carlos Marx na segunda e terça,
São Francisco na quarta, na quinta
qualquer coisa que cheirasse angústia;
na sexta, alguns poemas de Augusto,
no sábado escrevia um poema sinistro.

Tinha 14 anos, trinta espinhas
na cara, nos ombros, e um vulcão
comunicando cabeça e coração.
O oceano numa lata de sardinha.
Todos os exércitos num homem.
Leitor de todos os jornais do mundo.
Vítima de todos, curioso de tudo.
De dia, sono.  De noite, lobisomem.

Me perguntava:  quem entende, quem ensina?
Sobre os telhados meu boné de confusão.
Se chamasse Raimundo não seria solução.
Cuspia na sopa pra respingar na família.

Ancorava na esquina como um poste
à disposição do vento que passasse,
à espera de quem me pregasse cartazes,
recruta, mártir, ovo de sacerdote
ou projeto colorido de descrente,
herói, tatu peva, rato, borboleta,
centro indiscutível do planeta,
primata de todos os descontentes.

Ali estava eu considerando-me
resultado da minha própria cabeça
enquanto transitavam bicicletas
com operários, operários com marmitas,
nessas marmitas de folhas-de-flandres
arroz, feijão, mandioquinha frita
e outras raízes e rins gozando-me
com seu sarcasmo de óleo e de usina.

Nem teme quem te adora a própria morte.
A Revolução Russa não me esperara.
Numa fotografia vi que não estava
entre os Dezoito do Forte.
Na Segunda Guerra os submarinos
emergiram  e afundaram apesar
de eu ainda nem respirar o ar
tão necessário aos submarinos.

E eu queria embarcar pra combater.
Queria estar na tela dos cinemas
em forma de herói, de cinza ou bomba.
Queria escrever,
                         rasgava os poemas;
gastar a pilha toda como um bobo
gasta energia com os seus trejeitos;
quebrar um cadeado como se o peito
fosse o telefone vigiado da farmácia
e ligar para todos os cinemas
perguntando que horas que passava
o filme das dúvidas organizadas.

E transitavam grevistas pelos dias,
a inflação roia na cozinha,
prenderam um ladrão num dos vizinhos
mas eu não via.
                            Eu não sabia,
Getúlio deixara um testamento,
um tio se suicidara de desgosto
e minha tia trazia no rosto
toda a História do Casamento.

Eu não lia os jornais nas entrelinhas.

Na eleição do diretório (*) , não votei.
Me enfiei na biblioteca e lá fiquei
ciscando assustado como galinha.


In: Poesia Viva 2 (org, Moacyr Félix).  RJ: Civilização Brasileira, 1979. 


(*) Na edição utilizada está “velório” por “diretório”.   Optei por este termo porque acontece que minha lembrança deste poema é mais antiga do que a data de sua publicação no livro organizado por Moacyr Félix indica.  Certamente o li em alguma das revistas literárias da época, nas quais tanto a poesia quanto a ficção narrativa de Domingos Pellegrini eram habituais.  Tentei localizar entre meus guardados onde estaria essa publicação anterior, confesso que não achei.  Também não encontrei o poema na internet.  Vai assim então em nome não exatamente -  ou não apenas  - da minha memória , mas em nome também do sentido:  qual seria a razão, descabida sob todos os aspectos, desse “velório”, num poema que trata da formação  do poeta enquanto homem politizado?