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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

AH, UM SONETO... DE CESÁRIO VERDE


HEROÍSMOS

 

Eu temo muito o mar, o mar enorme,
Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;
O mar sublime, o mar que nunca dorme.

Eu temo o largo mar rebelde, informe,
De vítimas famélico, sedento,
E creio ouvir em cada seu lamento
Os ruídos de um túmulo disforme.

Contudo, num barquinho transparente,
No seu dorso feroz vou blasonar,
Tufada a vela e n’água quase assente,

E ouvindo muito ao perto o seu bramar,
Eu rindo, sem cuidado, simplesmente,
Escarro, com desdém, no grande mar!





 
In: Cinco séculos de sonetos portugueses de Camões a Fernando Pessoa.  Organização, apresentação e ensaios de Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.



sábado, 16 de março de 2013

CESÁRIO VERDE


Ilustração de Talarico



DESASTRE
Ele ia numa maca, em ânsias, contrafeito,
Soltando fundos ais e trêmulos queixumes;
Caíra dum andaime e dera com o peito,
Pesada e secamente, em cima duns tapumes.

A brisa que balouça as árvores das praças,
Como uma mãe erguia ao leito os cortinados,
E dentro eu divisei o ungido das desgraças,
Trazendo em sangue negro os membros ensopados.

Um preto, que sustinha o peso dum varal,
Chorava ao murmurar-lhe: "Homem não desfaleça!"
E um lenço esfarrapado em volta da cabeça,
Talvez lhe aumentasse a febre cerebral.

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Findara honrosamente. As lutas, afinal,
Deixavam repousar essa criança escrava,
E a gente da província, atônita, exclamava:
"Que providências! Deus! Lá vai para o hospital!"

Por onde o morto passa há grupos, murmurinhos;
Mornas essências vêm duma perfumaria,
E cheira a peixe frito um armazém de vinhos,
Numa travessa escura em que não entra o dia!

Um fidalgote brada e duas prostitutas:
"Que espantos! Um rapaz servente de pedreiro!"
Bisonhos, devagar, passeiam uns recrutas
E conta-se o que foi na loja dum barbeiro.

Era enjeitado, o pobre. E, para não morrer,
De bagas de suor tinha uma vida cheia;
Levava a um quarto andar cochos de cal e areia,
Não conhecera os pais, nem aprendera a ler.

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O mísero a doença, as privações cruéis
Soubera repelir - ataques desumanos!
Chamavam-lhe garoto! E apenas com seis anos
Andara a apregoar diários de dez-réis.

Anoitecera então. O féretro sinistro
Cruzou com um coupé seguido dum correio,
E um democrata disse: "Aonde irás, ministro!
Comprar um eleitor? Adormecer num seio"?

E eu tive uma suspeita. Aquele cavalheiro,
- Conservador, que esmaga o povo com impostos -,
Mandava arremessar - que gozo! estar solteiro! -
Os filhos naturais à roda dos expostos... 

O Livro de Cesário Verde.  Nova Aguilar, 1976.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

DOMINGOS PELLEGRINI JR.


"Boi do povo", fotografia de Carlos Ribeiro 


O BOI

O boi cala a marretada, e estrebucha.
Então ali, na antecâmara da morte
nos miolos explode um clarão forte
de inteligência e dor – o boi pensa e bufa.

O nariz entupido de sustos vermelhos
dos outros bois antes dependurados,
o boi se eletrocuta de medo;
o medo é verde, o boi expele medo.

Enquanto rola e lhe engancham a pata
tonto, vê dentro da cabeça zebuína
um filme colorido de hemorragias,
açougues, estatísticas e pastos.

O gancho sobe e os pensamentos do boi
ficam suspensos; e em vômito, convulsão,
lembra vacinas e capim colonião,
veterinários, riachos, tudo que viu e foi.

Então foi para isso que me picotaram
com injeções de hormônio feminino:
uma arroba de gordura clandestina
na balança do lucro me ganharam.

Então foi para isso que nasci: comer
e engordar meus dias com rações
cercado pelo olhar doente dos peões
e entre colegas de dor viajar e morrer.

Uma lâmina lhe abre na barbela
os segredos sebentos do pescoço
e o boi se vê no prato dos almoços
e nas bocas desiguais das panelas.

Lingüiças, mocotó, pentes, botões.
Carne.  Osso. Quilo.  Até miudamente grama.
O boi sente um orgulho que derrama
desse músculo incansável, coração.

Um braço rápido lhe enterra a  faca
na gruta do pescoço, o boi percebe:
quanto mais sai o sangue, mais leve
o pensamento fica, as visões fracas.

Mas ainda vê o seu antigo dono
riscando contas numa caderneta:
a arroba, sal, ração, capim, caneta;
com tanto lucro o boi sente sono.

No cheiro de banha, vapor das buchadas,
o boi lembra seu melhor dia de vida:
quando varou a cerca, ruminou ervilhas
da roça vizinha, feijão recém plantado.

E desmaia pensando em vitaminas:
proteínas sou, preço serei, produto
nacional e bruto  para os navios do mundo,
bandeiras de dólar, fome de rapina.

A motosserra vai serrando os chifres
mas o boi ainda pensa: meus rins
virarão patê; meus miolos enfim
mais nada pensarão como salsicha.

A pata livre escoiceia incompreendida
e o boi vê, numa última visão,
jantando dívidas, mascando coração,
a família brasileira reunida.

O boi sente cócegas longínquas:
estão esfolando – o couro malhado
irá para o destino de ser pisado;
para as panelas pobres irá a língua.

Boi, boi, boi – pensa o boi na esfola
boi virarei filé entre florões;
acém perdido na sopa de milhões.
Por que não nasci democrática cebola?

Boi, boi, boi da cara preta...
o boi ouve ecos de cirandas;
dedica sua carne a todas as crianças
e morre sem sangue; ruminando
se cumprirão ou não seu testamento.

                               In: Inéditos n. 2, julho-agosto 1976, Belo Horizonte.

Salvo desatenção maior de minha parte ou excessivo alheamento do mundo, não vejo quase circular entre os escritores brasileiros surgidos na década de 70 o nome deste paranaense nascido em 1949 em Londrina, onde vive há muito anos, como me informa o Google.  Talvez o fato de estar fora do velho eixo Rio-São Paulo ainda conte, mais do que se costuma pensar.  Talvez Pellegrini Jr. Tenha mesmo se retirado da vida literária ou se faça menos presente do que nos anos 70/80...
Não importa.  Entre o que escreveu de muito bom eu alinho esse poema publicado numa revista, Inéditos,  dedicada principalmente a novos na década de 70, editada em Belo Horizonte.  “O boi”, com seu andamento  pesadão, baseado nos versos de 10 a 12 sílabas, com abundância de palavras polissílabas, é uma reflexão irônica sobre o animal sacrificial por excelência (Mário de Andrade dizia ser o boi o símbolo maior do Brasil) em contexto utilitário, tensionando esplendidamente pela ironia um lirismo de humor um tanto sardônico com um discurso triunfalista de nação-potência (algo próximo ao triunfalismo da década do milagre, que vemos repetido em boa medida hoje na retórica oficial).
           A maneira ainda muito aguda com que o poeta transita de uma captação micro do detalhe referencial  (“A pata livre escoiceia incompreendida...”) para uma percepção  macro do quadro social (veja-se como passa na mesma estrofe para “e o boi vê, numa última visão,/jantando dívidas, mascando coração,/a família brasileira reunida”)  filia o poema a uma linhagem que tem uma de suas pedras-de-toque na valorização do “senso do real” de que falava Zola, aproximando-se tanto da apreensão realista de um Cesário Verde quanto, entre nós,  do genial “irrealismo” de Augusto dos Anjos.