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quarta-feira, 8 de março de 2017

TRÓPICOS PARA HOLANDÊS VER COMO BRASILEIRO VÊ


           Este texto,  “Grandeur en misère van het tropicalisme”,   foi publicado na revista holandesa DE GIDS em seu número de janeiro/fevereiro deste ano (o link vai abaixo).  A revista, em formato tablóide, formato  de tão significativa memória para quem foi leitor da imprensa alternativa durante a ditadura implantada com o golpe de 1964,  é a mais antiga revista dedicada à literatura em terras holandesas, tendo sido fundada em 1837, ou seja, tem 180 anos de existência.   Em seu  expediente, aliás,  assim está escrito (aqui, um viva ao Google Translator com o auxílio luxuoso do discernimento): “ De Gids [‘O Guia’] é a mais antiga revista de cultura literária e geral dos Países Baixos e uma das revistas deste tipo estabelecidas  há mais tempo no mundo. O Guia concentra-se em literatura, filosofia, sociologia, arte, política, ciência, história; em suma, tudo o que é interessante, desde que inédito. A revista é publicada bimestralmente e traz ensaios sobre temas atuais políticos, históricos e culturais, prosa holandesa e traduzida, e poesia estrangeira.”
         Quando o antropólogo Matthjis van de Port (atualmente radicado na Bahia, onde estuda cultura e religiosidade popular e faz pequenos e valiosos  curta-metragens sobre esses assuntos) e o editor, o romancista e ensaísta Edzard Mik,  me convidaram para integrar um dossiê sobre os trópicos que a revista lançaria no número(que acabou levando por título “Trópicos?  Os trópicos não existem mais”),  o que eles me pediram foi um texto que abordasse  a identidade possível de uma reflexão sobre a cultura tropical feita por um “nativo”, pois a visão européia,  e holandesa em particular,  sobre a cultura tropical  já era familiar a eles e já estava bem clicherizada (e ambos me citaram o clichê “não existe pecado ao sul do Equador”).  Falaram-me para eu pensar em algo como “usos e abusos da idéia de tropical”.  Foi precisamente este o mote.
         Me disseram ainda: você pode optar por um ensaio ou por uma abordagem poético-literária do tema, a revista gosta e investe nessas hibridizações de gênero.  E aqui aconteceu algo curioso.  Quando perguntei que espaço eu teria e soube que seriam três páginas, resolvi que seria impossível um ensaio sobre o assunto em três páginas (aliás, qualquer ensaio sobre qualquer assunto não dá para ser em três páginas).  Assim, optei  pela abordagem poético-literária.  Depois eu soube que nos referíamos a espaços diferentes; eu raciocinava na nossa formatação acadêmica  habitual, A 4, o editor me falava em espaços referentes às páginas da revista, o que me proporcionaria na verdade 7 ou 8 páginas.  Mas disso eu só soube com o trabalho já bem adiantado, e estava gostando de poder lidar com a imaginação desataviada, além do que sabia que a revista gosta desses textos livres.  E assim segui. E, para minha alegria, o texto foi bastante bem recebido, depois de traduzido (imagino  a trabalheira!) por Ane Lopes Michielsen.
         Em suma: isto não é um ensaio.  Como defini num certo momento na troca de correspondências é  uma “fantasia sobre os devaneios e pesadelos de um país tropical”.  O texto, que começa citando, sem mencionar,  o Catatau,  de Leminski  também não é uma reflexão, ou sequer um devaneio, sobre o tropicalismo, como a programação visual que acabou tomando na revista sugere.  Mas não tomo mais tempo aqui não.  Encaminho vocês, leitores, ao texto.  Em tempo:  a versão da revista online não está com o meu texto disponível: a íntegra da revista é da edição impressa; aos poucos é que vão sendo disponibilizados todos os textos online.





FANTASIA SOBRE OS DEVANEIOS E OS PESADELOS DE UM PAÍS TROPICAL

                                           (Sobre usos e abusos de tropical)


1.
Renatus Cartesius pirou e antes de expirar sonhou o horror da natureza que o vácuo tenta encher em vão;  na verdade, dizendo melhor,  Cartesius vivenciou-o.   Parece que passara boa parte de sua  vida,  até os 40 anos,  obcecado com as questões relativas à produtividade da dúvida, é possível até que tenha escrito  um discurso sobre o método, alguns frangalhos  de latim parecem atestá-lo, talvez tivesse até, quem sabe, chegado a bom termo em sua enorme empreitada,  mas ao  aceitar o convite, numa manhã de 1636,   para vir aos trópicos com o Príncipe Nassau,  acabou por desembarcar  e finalmente se estabelecer por aqui,  dedicando-se competentemente a afazeres dispersos mas muito profícuos,  ainda que um tanto obscuros, adquirindo ao fim certa fama, certa notoriedade – embora não obtivesse reconhecimento oficial, o que impediu de ser a sua glória –  ao  desenvolver um tipo de atividade lúdica valendo-se  uma pelota feita de couro de paca, num afã que espantava e provocava o riso de seus contemporâneos mas  que séculos mais tarde os ingleses patenteariam,   e que  se expandiria pelo mundo como o  jogo dos pés,  do pé na bola,  o balípodo, o ludopédio.  Esse jogo concretizou todas as projeções sonhadas por Cartesius na conjugação entre a geometria e a álgebra, as coordenadas longitudinais e latitudinais no retângulo euclidiano em direção a sua superação – para o quadrado já havia o xadrez, em concentração e fúria equivalentes, mas em velocidade muito mais lenta.  Foi depois, muito depois, que vieram Rinus Michels, Johan Cruyff  e Romário – e  assim se pode  resumir boa parte de uma longa história.

2.
Frequentemente sonhamos que a tudo o trópico devora,  em sua entropia de plantas carnívoras  de raízes semoventes.  A síntese a que chegamos tantas vezes não passa em absoluto pela análise: fica brilhando, zênite sem nadir.  Assim nos desentendemos, assim pensamos que nos entendemos, assim pensamos que o Outro nos entende.  E somos ficção, o sumo dela. 

3.
As dualidades nos constituem perversamente:  nós as vemos  como contrastes, assim como transformamos toda diferença em oposição, todo signo em vetor sequioso de seu oposto:  Euclides da Cunha falou em litoral e interior, Oswald de Andrade  em floresta e escola, os tropicalistas em formiplac & céu de anil, tudo sendo a herança barrocatólica que poucas vezes recebeu a profundidade do corte sacrificial e redentor: mas momentos  houve de  exceção,  anotando aqui, entre poucos outros:  Euclides, por exemplo, deveria ser mais lembrado não pela profecia que registrou, da boca do monumento que criou com  Antonio Conselheiro:  “o mar vai virar sertão o sertão vai virar mar”, mas por seu próprio dilaceramento como intelectual,  que abjurou seus equívocos de Bildung  para engrandecer  a humanidade com uma  obra assombrosa de  denúncia e invenção lingüística.  Machado de Assis, pouco dado a explicitar contrastes, o fez como se fosse a vingança suprema de seu obsessivo macho a incriminar a mulher com o epíteto falsamente doce da cigana oblíqua e dissimulada – na verdade,  quem se vingava da estupidez dominante do macho era  Machado, o que demorou pelo menos uns 50 anos para que se começasse a perceber: em Machado o contraste não se externa, mas ali está, zênite sem nadir: seus Bento Santiago e Brás Cubas são os estúpidos postos no ponto cego da estupidez circundante, por isso invisíveis.  Uma das nossas apostas otimistas  é que o Brasil ainda possa a vir a ser uma nação a altura de honrar o nome de Machado de Assis.  E de Euclides da Cunha.

4.
Sabia Oswald, instruído por Blaise Cendrars: “Tendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao Vosso destino.” Carregamos ainda hoje a dúvida de saber se já  não cometemos grandemente o tal menor descuido.   Nesse caso, nosso destino terá sido jogado, como aconteceu com Macunaíma, no sumidouro da Uiara, só nos restando desde então, parece,  repetir sua narrativa na voz do papagaio.  Oswald e Mário de Andrade sofreram os trópicos com sinais trocados – e para acrescer a este drama, outro: sinais por vezes  intercambiáveis.

5.
A dualidade flagrada por Euclides da Cunha nos constitui ainda numa outra dimensão , a de um desengonço continental:  como periferia, buscávamos até a segunda guerra a Europa francesa e cruzávamos os mares de volta para lá estar, como cruzamos hoje os céus para ir aos USA, mas ignoramos quase completamente nossos vizinhos tropicais:  Peru, Bolívia, Colômbia, Venezuela...nomes da  América que nos cerca, exótica,  estranha e longínqua,  que fala outra língua, o castelhano tão distante do português –  mentira de dimensão andina,  que gostamos de repetir  – preferíamos no passado maltratar o perroquet francês, hoje até aprendemos o inglês, o que também não importa muito, valendo muitas vezes só  a sonoridade e o embromation.

6.
Antes que dormíssemos apaziguados pelo lusotropicalismo freyreano, a antropofagia oswaldiana nos manteve aberto pelo menos um dos olhos: enquanto o outro, pálpebra cerrada,  foi para a  anunciação da Virgem sobre todos os outeiros,  a pupila vigilovoraz  fixou-se no bispo Sardinha.  Saía de cena o bom selvagem,  arrombava a festa o mau selvagem.   São histórias do último século que passou – passou, mas não é tão certo que tenha acabado de todo.  Talvez o nosso exílio de nós mesmos continue, como em célebre primeira página nos  assinalava Sérgio Buarque de Holanda.

7.
O tropical frondoso, pluviante e flutual,  geograficamente situado logo abaixo do equatorial amazônico,  parece por vezes querer dar o  tom de seu exclusivismo no tropical Brasil.   Mas não é assim. Esse universal, como todo universal, não resiste a que se cutuque por baixo.   Não há apenas Jorge Amado e José Lins, há Graciliano Ramos e sua ascese não religiosa, recusando o “resto de janta abaianada”, a mesma recusada por João Cabral.  Esse tropical é milenarista, árido, em ascese comunista ou religiosa, transgressora ou conservadora, força tropical semidesértica, da carência, da pedra, do estoicismo e do messianismo, da moral rígida a vigorar entre as festas do calendário cristão.  A matriz euclideana (da Cunha) deixa-se ver em tudo isso, em tudo  o que há de vigoroso  em Elomar Figueira Mello, em Ariano Suassuna, em Luiz Gonzaga, em Glauber Rocha. Encontrando-se com a  verticalidade setecentista do  Aleijadinho chega às frondes de Guimarães Rosa, mergulha nas montanhas, grutas e igrejas de Minas, desperta a lâmina assombrosa da voz de Milton Nascimento, a lâmina seca da poesia de Drummond, as plantas alucinógenas dos Murilos, Mendes e Rubião.  E aqui já estamos entrando nas cidades, na vocação urbana e urbanística de Minas, rara entre nós, que acabou por resultar em JK e Niemeyer. Como antes a Mauritsstadt de Pernambuco não deu apenas a pedra de João Cabral, deu dele mesmo o rio e o mangue, como de Alceu Valença, como da Nação Zumbi, na periferia de Recife e Olinda.


8.
Mas antes é preciso considerar o mais lembrado:  o tropical mais permeável ao exótico, mais permissivo e complacente. Do húmus, dos liquens, dos manguezais, pantanais – Manoel de Barros! – e litorais. Estereótipos de outros Caribes, de outros Hawaiis, que encontraram no gênio de Dorival Caymmi quem os eternizasse – o que obviamente implica anular sua estereotipia –  e na potente sabedoria de Antonio Risério quem o balizasse e mostrasse o nexo que a partir daí se construirá para o urbano do pós-guerra, para além, novamente, da compreensão dos sobrados e mocambos de Freyre.  Esse tropical dá em Jorge Amado também, claro, em João Ubaldo, bem como resulta no palimpsesto onde foram renitentemente apagadas e reescritas e, mais recentemente, gravadas fonomecanicamente – e nem sempre lidas ou ouvidas, o que é uma das dimensões da nossa face trágica -  os veios e as vozes negras e indígenas, de Solano Trindade, Abdias, Clementina de Jesus, Juruna e Terena. Quilombos e MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). 

9. 
Melhor talvez do que ninguém, é Caetano Veloso quem sempre chega  às iluminadas sínteses do muito que somos, do que precisamos ser, incluído aí o desalento da hipótese de que não venhamos a ser jamais: “Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína.”  Quando andamos por nossas periferias, olhamos o casario dos moradores que a muito custo conseguem levantar algumas paredes, olhamos para as escolas que ali subsistem, os templos religiosos que ali se esgueiram... ou vamos para as construções suntuosas, erguidas com o dinheiro público para glória de nossos faraós, comerciantes e banqueiros ou  para os magníficos eventos de índole esportiva e midiática, sejam viadutos, arenas... tudo parece assim, ruínas, ruínas, ruínas que não chegaram a ser construções.  Presídios de nossas almas. Os shoppings, não.  Estes em geral, intactos.  Como as imensas igrejas marmorizadas.

10.
Olhar para a metrópole hoje exige o esforço de  tentar vê-la pelas lentes do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). Fenômeno recentíssimo de organização e politização de trabalhadores despossuídos, estes, que estão em sua origem,  vêm de longe em tempo e espaço: Quilombos e MST, por certo, mas também o processo de gentrificação que está na base do Rio de Janeiro de Lima Barreto, que se haussmannizou desumanizando-se há mais ou menos um século. Hoje explodem arsenais entre o mar e  os morros. Baionetas calam descontentes.  O crime organizado empreende um êxodo rural às avessas.

11.
Mas que não se perca de início o fio do que de melhor a cultura – e dentro dela  a arte –  burguesa e das classes médias urbanas logrou  obter.  A cidade dos modernistas, a rigor, não era ainda a cidade que sairá do processo de  industrialização levado a cabo por todo o período getulista – de 1930 a, com um breve interregno, 1954.  São Paulo passa a existir de fato aí, a partir desse período, em velocidade vertiginosa,  para se tornar cidade a mais populosa das Américas, uma das dez maiores do mundo. Em diferença marcante, o Rio, Salvador e Recife abrigavam em seu seio  tradições culturais enraizadas desde o século XVI – São Paulo fez-se sobretudo de trânsito e trocas. Seja como for, mesmo nos paulistas  Mário e  Oswald, e assim também  em Bandeira, recifense que se radicou no Rio,  é visível nas suas obras a permanência de passados de certa forma nostálgicos em construções de memória e de história, mesmo em se tratando de passado não totalmente vivenciado por eles.  É só com a poesia de Drummond que o urbano despede as últimas nostalgias do passado rural. E é com a prosa de Clarice Lispector também, um pouco mais tarde. Sem reminiscências nostálgicas, sem exteriorizações ou anotações tropicais, sequer pelo avesso,  em Clarice emerge  a voz urbana da mulher.  Em Drummond não há nostalgia,  mas há as marcas quase raivosas  da passagem do indivíduo do interior do país para o urbano, do recolhimento opressivo mineiro para o espanto atordoado do litoral carioca.  É o Rio, sem dúvida, que acolherá essa poesia, como acolhe hoje a estátua do poeta à beira mar em Copacabana.  A poesia de Drummond foi acolhida de inicio pelos dois grandes artífices do construtivismo urbano na portentosa música mediatizada que se fez a partir da década de 1960, sobretudo no Rio,  em torno  de Antonio Carlos Jobim e João Gilberto.  Aos quais se deve acrescentar Vinícius de Moraes, habitué da alta poesia como seu mestre e confrade  Drummond. A bossa nova era ponto de chegada e partida:  ali desembocou  a tradição do samba e do choro, gêneros musicais populares criados a partir da matriz das musicalidades negro-mestiças cariocas desde o  começo do século XX.  No meio do caminho o encontro com a lírica modernista culta, de fundo neo-romântico,  com acentuada consciência de construção,  em Vinícius.  Musicalmente se deu o mesmo, com Jobim, maestro onde desaguavam Debussy e Villa-Lobos além – e por causa – do  ímpeto zen-provocativo de Koelreutter; daí  a bossa nova partiu para o mundo, conquistou o mundo, influenciou o jazz, que ela mesma,  em low profile, com a voz sussurrante e o violão em surdina de João,  havia devorado e depurado em suas entranhas discretamente antropófagas, como recomendava e profetizava Oswald.  Biscoito fino para as massas. Nossa alma tropical cantava ao ver o Rio de Janeiro. Como sempre, em nossa tradição poética sentimental e sublimadora, onde se lê “alma”, leia-se “corpo”.  Rio de Janeiro, cidade mulher.  Lirismo de homens machos.  Másculos.

12.
Mas de repente foram os bárbaros que vieram.  Porque, como no poema de  Kaváfis, já estavam entre nós.  No lirismo misógino popular, revestido de admoestações morais de duplo sentido e de sensualidade explícita e matreira.  A mulher que não tem decoro.  A mulher que gosta de apanhar.  A mulher que é decorosa porque sabe que apanhar do seu homem é a prova de amor.  O homem que sabe respeitar a mulher do outro homem  e (por isso) bate só na sua.  Nos infinitos  entrecruzamentos sócio-psicanalíticos aí implicados, uma mitopoética de sangue, beijo e mordaça escorre do lirismo dos sambistas, Noel Rosa&Ismael Silva&Wilson Batista, das vielas das favelas, das ruas dos subúrbios, dos lares da falsa moralidade pequeno-burguesa do teatro de Nelson Rodrigues, das taras de Dalton Trevisan, do hiper-realismo de Rubem Fonseca, do bas-fond de João Antonio.  O que veio aos poucos se adocicando, como nos engenhos de Gilberto Freyre, foi-se solidificando em duros tijolos que o método Paulo Freire tentou ensinar a empilhar para erguer lares de libertação.  Mas o conservadorismo vencedor do golpe em 64 convenceu que os tijolos eram de rapadura, doces.  Ou pastéis de carne humana com caldo de cana caiana. Trevas da alma lírica brasileira, dirá de novo Caetano, mulheres de coronel, dirá Gilberto Gil.  Perdoa-me por me traíres, dirá Chico Buarque.  As coisas estão no mundo, só que é preciso aprender, dirá Paulinho da Viola. Mas este já será um outro momento.

13.  
Será o momento em que os tropicalistas, equipados com altas doses de coragem e potência inventiva musical e poética – IN-VEN-ÇÃO -, a reivindicarem para si o adjetivo radical  “tropical” ensinaram várias lições básicas de sobrevivência na metrópole.  Nos vãos e desvãos das cidades, a partir de São Paulo, com o esteio trazido da vivência da Bahia e da “cidade da Bahia” (Salvador), aliados à vanguarda da Poesia Concreta do Trio Noigandres e da música contemporânea dos maestros paulistas além do rock de altíssimo calibre dos Mutantes, até  pode não ter sido o ensinamento para a vida empírica mais pragmático  em nossa  sociedade tropical sombria, mas foi a espessura de uma vivência artística que nos antenou e desprovincianizou, não sem pagar  alto preço, incluindo prisão e exílio, condenação pela  direita e desconfiança e desconforto para sempre incorporados pela esquerda, conectando-nos ao mundo contemporâneo, estética e politicamente – no sentido de politização do cotidiano: tarefa levada a cabo com pioneirismo e com o destemor de incorporar a discussão e as possíveis vivências diferentes de família, sexo, gênero, raça, drogas, suplementares a uma  arte ousada e libertária,  correndo sempre por entre escaramuças da vanguarda e do mercado: o pop na veia do mundo, a neo-vanguarda sem revival sacralizante.  Que heranças incorporar, que vivências recusar?  Saber separar o joio do trigo e tantas vezes aproveitar o joio. Exemplos?  Sobretudo o que sempre fora associado no gosto do receptor intelectualizado, por preconceitos classistas,  ao pior da indústria do entretenimento, o rock barato de Roberto & Erasmo Carlos, o sam(bluesrocksoul)BA de Jorge Ben Jor e Tim Maia, o cinema barato, “chanchada”,  paródico dos musicais hollywoodianos. Na estética tropicalista acentua-se ainda  o contraste – nisso ele é neo-antropófago, sim – entre o rural e o urbano, e o rural permanece (ou retorna), mas ora como lembrança nostálgica, ora como pesadelo de onde não conseguimos sair.

14.
Seria  esse o seu ponto fraco, apontado por um marxista agudo e inteligente como Roberto Schwarz.  Mas parece que teimamos em nos reconectar a pesadelos de que não conseguimos sair, dando um nó nas tripas do marxismo por mais inteligente que seja.  E o  rural, o arcaico, o errado serão o defeito de fabricação – Tom Zé! – perfeito para o que queremos.  Ou para o que quiseram os tropicalistas.  Reproposição da contribuição milionária de todos os erros, de que falava, outra vez, Oswald.   Guerrilha, luta armada contra marchas de famílias movidas por conservantismo cristão e medo de um comunismo caricato. Toques de recolher, cachorros mortos nas ruas, policiais vigiando. War, children, it was just a shot away, happiness was a warm gun,  era preciso estar atento e forte,  não tivemos tempo de temer a morte.

15.
Só nesta semana em que escrevo foram mais 99 mortos em massacres em dois presídios. A média nacional por presídio este ano já  é de 12 mortos.  Em 1992, na maior penitenciária de São Paulo, o Carandiru – hoje desativado – ,  uma invasão da tropa mais violenta da Polícia Militar para conter um motim resultou em 111 mortos. No presídio desta semana que teve 60 mortos, o comandante da PM disse não ter invadido para contenção do motim  para “evitar outro Carandiru”.  Ou seja, admitiu incapacidade de controlar suas forças de repressão. As autoridades dos dois estados onde ocorreram as matanças se eximem de responsabilidade, dizendo que se trata de “guerra de facções rivais”, como se não coubesse ao estado zelar pela segurança dos apenados.    Os números que apresento aqui  são oficiais, o que vale dizer: despertam sempre a suspeita de serem minimizados.  De qualquer forma, mais de vinte anos se passaram e prossegue o que estava no terrível rap-canção “Haiti”, de Caetano e Gil, de 1993: “mas presos são quase todos pretos/ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres/e pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos”.  O que ecoa também em “Diário de um detento” do extraordinário grupo paulistano hip-hop Racionais MCs: “Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo.../quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio/o ser humano é descartável no Brasil/como modess usado ou bombril/Cadeia? Claro que o sistema não quis/esconde o que a novela não diz/Ratatatá! sangue jorra como água/do ouvido, da boca e nariz/O Senhor é meu pastor.../perdoe o que seu filho fez/morreu de bruços no salmo 23/sem padre, sem repórter/sem arma, sem socorro/vai pegar HIV na boca do cachorro/cadáveres no poço, no pátio interno/Adolf Hitler sorri no inferno!/o Robocop do governo é frio, não sente pena/só ódio e ri como a hiena/mas quem vai acreditar no meu depoimento?/Dia 3 de outubro, diário de um detento."  O descaso não é apenas por presos, como está no retrato de um Rio muito diferente daquele da bossa nova, num samba de 1987 de um dos mais caros filhos do movimento, Chico Buarque: “Rio de ladeiras/civilização encruzilhada/cada ribanceira é uma nação/à sua maneira com ladrão, lavadeiras, honra, tradição/fronteiras, munição pesada/São Sebastião crivado/nublai minha visão/na noite da grande/fogueira desvairada.”  Recuar no tempo a procura de monstruosidades e seus testemunhos não é difícil.  Difícil é lidar com o lado sombrio da “alma brasileira”, que não consegue superar os binarismos maniqueístas mais corriqueiros e dar um passo mínimo em direção à dialética.  Renatus Cartesius piraria de vez em travar contato com nossa deriva relativista em direção desembestada ao absoluto obscurantismo. Tantas tradições religiosas com o vigor do politeísmo africano vicejaram por aqui e se dobraram à intolerância neopentecostal que  ocupa cada passo e nos espreita de forma a cada dia mais ameaçadora.

16.
O tropical pantaneiro da poesia  de Manoel de Barros parece estar com os dias contados,  condenado aos campos de grãos transgênicos do agronegócio.  Os avanços sociais dos governos de Lula & Dilma não resistiram às sanhudas investidas conservadoras de sempre e foram a nocaute, menos por seus erros – que foram muitos – e muito mais por seus acertos, poucos mas decisivos,  de inclusão social.  O Congresso que assim selou  nossa sorte, afastando a presidenta legitimamente eleita e contra a qual nada se comprovou de desabonador, o fez numa indescritível sessão na qual imperou a grotesquerie mais abusiva, mais cínica:  votaram pelo impeachment, com os discursos demagógicos mais inacreditáveis em seus fáceis efeitos melodramáticos, personagens  políticos sobre os quais pairam suspeitas e mesmo  sérias acusações de lenocínio, pedofilia, tráfico de drogas e de gente, trabalho escravo, apropriação indébita de propriedades, malversação de dinheiro público, falências fraudulentas, extermínio de pessoas, estelionato, além de muitos serem  adúlteros contumazes, homossexuais homofóbicos, apologistas da tortura e de torturadores.  E o fizeram em nome de Deus, da pátria e da família, valores supremos para resguardar a moralidade pública.  O pesadelo tropical, contraluz da euforia trágica tropicalista, prossegue.

17.
Nosso sumo não é ficção.


(originalmente em https://de-gids.nl/2017/no1



sábado, 17 de dezembro de 2016

COMEÇAREI A SER INCONVENIENTE




·         pedirei de vez em quando que me inteirem a passagem, que eu saí com pressa de casa e esqueci de passar no banco

·         que me paguem um café, q eu não trouxe trocado e como eu parei de fumar não tenho nem como trocar a nota grande do bolso

·         talvez volte a fumar, se arrumar prum varejão, não vale a pena comprar um maço, fumo no máximo um cigarro por dia

·         opere pequenos furtos em armários de colegas, preciso ver como providenciar as cópias das chaves

·         em bolsos de casacos também, bolsas de colegas  deixadas entreabertas, carteiras pedem para ser levadas

·         em dias de muito calor, uma rodada de cerveja, q depois eu acerto e entre nós não vale isso, não é mesmo

·         no frio, um quente, nem q seja um traçado de dreher com fogo paulista, me sentindo personagem de joão antonio

·         com etiquetas eletrônicas, desenvolverei habilidades nas lojas de varejo, agora que nem mesmo bala na Americanas dá mais pra levar, q dirá lingeries pra vender adiante

·         não tenho habilidade pra aprender a fazer ligação direta, ainda mais agora com tanta tranca, sem falar em GPS e tal

·         não tenho disposição pra traficar branco nem preto, pó nem fumo, tenho mais tendência pra morrer de tanto cafungar

·         não saberia lutar pra manter um ponto, pequeno que fosse, ainda por cima

·         apontar jogo de bicho, nem pensar, se bem que até nisso eu já pensei

·         jamais coragem pra fazer um ganho, berro na mão, decisão e disposição pra chegar junto se for o caso

·         pensar em arma branca furando carne enquanto esfolo o pescoço pra arrancar a gargantilha o pingente me arrepia

·         me aventurar a assaltar banco, nunca pensei, mas admiro, confesso

·         imolar-me em praça pública em nome de uma causa estúpida simpática justa assando vísceras de casuais passantes cheirando a fezes queimadas não

·         não

·         nem

·         nem

·         não

·         conheço um amigo que se deu bem numa igreja na baixada, acho que vai dar pra dividir os cultos com ele dois dias na semana, é sempre um começo

sábado, 5 de novembro de 2016

ROBERTO PIVA (1937-2010), DUAS SEM TIRAR


                DÓI MAS VOCÊ GOZA (prefácio-manifesto)

Eu, Roberto Piva, poeta espacial-luxuriante, me equilibro na glande do deus Príapo.  Verão como tremo ardendo inverno.  Nunca mais levei a sério nada a não ser os corpos.  E os deuses dos corpos.  O corpo confere perfeição, não é mesmo, W. B. Yeats?  Voltei às paixões da adolescência:  Virgílio, Baudelaire, Dante, Pessoa, Catulo, Cravan, Stockhausen, Artaud, Nietzsche, Ferenczi, Heliogabalo, Lautréamont, Johnny Alf, Elvis, Michaux. Platão (que comecei a ler aos 14 anos), Walter Pater e Machiavelli.  Abandonei definitivamente o Ocidente-Oriente com seus socialismos-fascismos, que florescem nos confessionários do tempo do deus Kareta.  Meu deus de cabeceira é Dionísio. Minha missão é a Confusão & Paixão.  Sem elas estaríamos de uniforminho azul adorando a cueca de tafetá do funcionário Mao.  Ritos da confusão.  Festas da paixão alucinógena.  François Villon só me aparece nos mictórios.  Dante & seu disco voador de luz neon.  Crevel, Artaud & Reverdy me olham da parede invisível no quarto-barricada onde durmo.  Jarry, Picabia & todos os boys.

Relendo Vico outro dia, percebi que meu amigo Roberto Bicelli estava certo: eu também quero ver frango ciscando na avenida São João.  Oswald, Sade, Novalis, Pasolini, Swift, Vico, Pessoa, Reverdy, bom-dia!

Deus Hölderlin, faça de mim o bumerangue de todas as paixões!

                                     
                                                     São Paulo, 13 de fevereiro de 1982. 






POEMA ELÉTRICO DO CU

músculo de veludo na boca de todos os feirantes    torpedeiros         meninas de internato negociantes     padeiros    farofeiros   torcidas    exércitos de humanocultura onde você habita alucinante como promessa derradeira

cu boquiaberta entrada franca dos demônios pesadelo dos adolescentes    fogueira da solteirona em férias     árvore genealógica da Cloaca Mater onde foi chocado o ovo humano numa temperatura de 30 sóis

cu    fonte de energia kundalini     hóstia dos grandes libertinos     fornalha dos cocainômanos     boca azulada da verdade corpórea diagramada no infinito do desejo 

cu grande iniciador  de tempestades amorosas      vertigem verdadeira onde os amantes deslizam

cu  vaporizador da Idade Média do corpo   onda bioenergética de metais coloridos   omoplatas carregadas de hidrogênio    leopardos alucinados de tanto veludo

cu de cabelos      negros    loiros     ruivos      castanhos     cipoal de intrigas onde o caralho se perde     se desnorteia      desmaia de gozo na contração do espasmo da alegria erótica

cu selvagem assaltante noturno    diurno     trombadinha    espadachim das estradas    que levam ao Grande Precipício anunciador de Paixões

cu das penugens suaves & sumarentas     flor carnívora    labareda policiada pela civilização    ave louca    solitária   perdida    bêbada    amorosa

cu proletário do corpo     grande escorpião revoltado       teu vôo de liberdade começa    a acontecer

Roberto Piva.  Coleção Postal 1.  Rio: Azougue/Cozinha Experimental. 2016.



Numa iniciativa conjunta da Azougue Editorial e da Editora Cozinha Experimental foi lançada a Coleção Postal, com 12 livros vendidos mediante assinatura, 1 livro por mês – cada mês, 30 poemas de um poeta e mais entrevista.  O primeiro volume foi dedicado a Roberto Piva, com poemas (de 1961 a 1996) nunca antes reunidos em livro,  e uma  entrevista concedida por ele a Daniilo Monteiro, Pedro Cesarino e Sergio Cohn.  A edição é caprichadíssima, super bem cuidada, capa dura revestida em tecido.  Livros belos, como deveriam ser todos os livros.  



domingo, 11 de setembro de 2016

MURILO MENDES (1901-1975)

Ilustração de  Talarico






MURILO MENDES (1901-1975)

 

A LAGARTIXA

Sentado ao sol num banco de jardim romano observo uma lagartixa no seu contínuo vaivém.  Tento inutilmente agarrá-la; mesmo que sim, ela escorregaria logo das minhas mãos; digo escorreria porque a lagartixa tem algo de líquido.

Inaferrável pequeno sáurio! procuro captar um milésimo-luz do seu olhar, certamente de uma estranheza sem igual.

Que brinquedo propor à lagartixa?  Cabra-cega, pique, chicote-queimado, talvez os únicos brinquedos adaptáveis à sua condição, forma, agilidade, e aos seu gosto do enigma.  O ideal seria dançar com ela uma ciranda, mas afasto este pensamento cruel: a lagartixa não tem mãos como as nossas.  Além disso, trata-se de uma anarco-individualista: nunca vi lagartixas em bando; magnificamente só, a lagartixa esgueira-se entre as pedras, os muros, as folhagens, perseguindo não se sabe bem o quê; indecisa entre o sol e a sombra, talvez encontre na pedra a síntese que mira: com efeito, a pedra resume unidade e dureza.

Falando lagartixa,  falo infância onde lagartixa foi doce companheira  das minhas horas juiz-foranas, nos jardins e pomares daquele tempo.  Falando infância, (adolescência, mocidade, madureza e próxima velhice), não poderia deixar de apontar aqui uma figura feminina; sem as figuras femininas duraria o mundo, de que também a lagartixa é flexível comparsa?

**

É a tarde de uma segunda-feira de carnaval; devo ter doze anos; estou sentado ao sol num banco, no pomar da casa paterna, considerando os movimentos de uma lagartixa  que espreitava desde semanas.  Isto é, seria a mesma de antes?  Quem distingue ao certo as lagartixas, quem distinguiria as meninas chinesas?  E se houver lagartixas chinesas, meu Deus! então o caso se complicará muitíssimo.  Eu, que gosto de dar nome a todas as coisas, não poderia batizar uma lagartixa.  Assim, quantas Heloísas, Elisabetes e Mercedes não-nascidas!

De repente desponta entre os jambeiros e os cambucazeiros minha namorada Dolores, filha do advogado N... Vieira, fantasiada de princesa oriental; um vestido com muitos babados e refolhos, entre verde, vermelho, azul, alaranjado; coberta de lantejoulas; à cabeça um turbante de seda amarela.  Eu gostava de Dolores, gostava demais do carnaval, gostava de fantasias (se bem que nunca as usasse) mas não pude tolerar aquele absurdo travesti que desfigurava minha linda ex-amiga, dando-lhe mesmo – coisa terrível – um ar flácido.

Súbito Dolores passou a inexistir para mim.  Refletida nas lantejoulas eu via a vulgaridade do clã Vieira.  A lagartixa ia e vinha; não parou;indiferente em absoluto à fantasia de Dolores, revelava, sem querer, bom gosto.  Resolvi seguir sua lição, passando-a para o plano dos homens.

A menina-moça voltou para mim surpreendida:

- Estão todos te esperando para a batalha de confete na rua Halfeld.

Lancei os dados, decidido a intransigir, a quebrar a rotina, a me afirmar como gente:

- Desculpe, Dolores, mas não posso ir.

- Porque?

- Estou muito interessado em estudar os movimentos daquela lagartixa.

Dolores nem mordeu os lábios, como de praxe: partiu a todo o galope para avisar a minha tribo que eu enlouquecera. Vieram todos, arlequins, pierrôs, pierretes, colombinas, dominós, índios, feiticeiras, rajás armados de lanças-perfume, sacos de confete, rolos de serpentinas; rodeando-me entre afeto, censura e espanto.

Confirmei minha informação anterior; ninguém conseguiu me arrancar dali. Com a movimentação em torno dela, minha querida lagartixa, sardanita ou sardanisca, desapareceu.  Voltei em vão ao pomar nos dias sucessivos; e perdi Dolores para sempre.

Murilo Mendes. A idade do serrote. RJ: Sabiá, 1968.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

QUATRO POEMAS DE ANA CRISTINA CÉSAR (1952-1983)




ANÔNIMO

Sou linda; gostosa; quando no cinema você roça o ombro em mim aquece, escorre,já não sei mais quem desejo, que me assa viva, comendo coalhada ou atenta ao buço deles, que ternura inspira aquele gordo aqui, aquele outro ali, no cinema é escuro e a tela não importa, só o lado, o quente lateral, o mínimo pavio.  A portadora deste sabe onde me encontro até de olhos fechados; falo pouco; encontre; esquina da Concentração com Difusão, lado esquerdo de quem vem, jornal na mão, discreta.

 

NADA, ESTA ESPUMA

Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia.

 

 
ATRÁS DOS OLHOS DAS MENINAS SÉRIAS

Mas poderei dizer-vos que elas ousam?  Ou vão, por injunções muito mais sérias, lustrar pecados que jamais repousam?

 
 

SAMBA-CANÇÃO

Tantos poemas que perdi.
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhado na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas fiz, tantas fiz...


Ana Cristina Cesar.  A teus pés.  SP: Brasiliense, 1982.


terça-feira, 29 de março de 2016

CAETANO VELOSO: NÃO VERÁS UM PARIS COMO ESTE


[dos textos do exílio londrino]

 

          Cremúsculo.  O sol, a só, despe de si, digo, despede-se, desce pé ante pele, descalço, dá-se e sobe, digo, sob, ou melhor, sobre as bandas cremoças das mulheres alfíssimas do hemisferno nhorte.  Kolinas sonrisam no horizonte.  Mastros desdesenham-se no ocidonte. Acapulcos e havaís tampouco.  Tranquislidade.  Moite.  Não há dúvida: é chagada a hera dos maiares desgrossos.  Não há dúdiva: ele virá, sentará de pé sobre a poldrona enfernizada onde tandos senturame fera o seu elequante discorso: sua eterna dádiva; nossa eterna dívida.  Assim pressunto trudo que já estrá aquantessendo encuanto camino por las calles de esta casa grande mansão da minha hotess.  Sua majestade, sua desclarada, sua cachorra de minha adolescênica, por que nunca me declaraste nenhum amor enquanto eu era virgem e voraz?  Eres uma pública.  Y yo te quiero, yo te quiero... Mas como eu ia rizendo: alguns mastrodantes circruzavam pela prehisteria na hora da ave maria.  Cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor, despertando no meu coração as saudades do primeiro amor.  Um gemido e se esvai lá no espaço nesta hora de lenta agonia quando o sino saudoso murmura badaladas apropriadas. Braçal, ano dos maus.  Brastel, amo dos meus.  Passou o ano dos gols.  Bravil, anda com ferro e gorgulho a terra onde Maciste, criança, enfrentou João Lúcio Godar: não verás nenhum Paris como este.  Olha que Shell, que mer, querida, que forgets! Papo furado.  Acordar tarde demais é que é fogo. A mulher que eu amo realmente me disse que eu acordasse mais cedo um pouco. Ao crespúsculo é demais.  Fossa na certa.  Merci bocu.  O bandeide da luz vermelha rides again.  Qualquer negócio.  Hoje em dia, minha filha, tanto faz como tanto fez.  Entretanto não adianta resposta.  Há dias em que adias tudo.  Ou: há dias tudo. ADIO GRINGO! Here comes the Sun king.  Ringo, João, Paulo e Jorge.  Ringo nunca foi santo...João houve dois e agora há, pelo menos, 23.  Paulo parlava molto.  Jorge adaptou-se tão bem aos pegis brasileiros que o Vaticano despediu-o.  Eis tudo o que sei sobre religião, perguntarão.  E jamais saberão.  E nunca sabão.  E nem são. E não. Hão? Rima rica do meu verso, minha canção preferida, melodia do meu samba, vida da minha própria vida.
 
          - Ouvi passos lá fora.
          - Quem será?
          - A essa hora.
          - Anda, Luzia, pega um travesseiro e vai ver lá no quintal.
          - Eu? Mas nem morta.
          - Anda logo. E fale baixo aqui pra ele não ouvir.
          - Ele quem?
          - Sei lá... o ladrão, ora.  Quem fez o barulho lá fora.
          - Que barulho?
          - Você não ouviu?
          - Ah. Não encha o saco.

          Luzia levantou-se, andou até o banheiro, acendeu a luz.  Uma estranha serenidade invadiu a sua alma.  Lá estavam as escovas de dente sobre a pia, a banheira rachada, o chão molhado em volta da latrina, todas as pequenas coisas das quais dependia a sua felicidade.  Será que a palavra latrina sairia na revista Querida? Trentarei, noventarei.  Eu sou um escritor cujo estilo é uma tentativa de realizar o irrealizável: um Nelson Rodrigues prafrentex.


Publicado n’O PASQUIM, edição de 4 a 10/12/1969.  In: Caetano Veloso.  Alegria, alegria: uma caetanave organizada por Waly Salomão.  Salvador: Pedra Q Ronca, 1977.

 

domingo, 1 de novembro de 2015

HILDA HILST (1930-2004)


Algumas das

 
Pequenas sugestões e receitas
de Espanto Antitédio para
senhores e donas de casa.

 

I.

Pegue uma cenoura.  Dê uns tapinhas para que ela fique mais rosadinha(porque essa que você pegou era uma pálida cenoura).  Aí diga: cenoura, tu me lembras uma certa tarde, uma certa loira, quando meu nabo, num fiasco, emurcheceu de vez.  Se a tua mulher te encontrar na cozinha com a cenoura na mão, dizendo essas coisas, diga apenas: que bonita é a cenoura, né bem?

 

IV.

Pergunte ao seu filhinho se ele quer laranja descascada de tampinha ou de gomo.  Se ele disser que quer laranja descascada de tampinha, diga que um menino bem-educado sempre escolhe a de gomo.  Se ele começar a chorar, chupe você a laranja.  (De tampinha,naturalmente.)

 

VI.

Coloque duas alcachofras cruas dentro de uma vasilha com água fria. Fique ali esperando as folhas de alcachofra se soltarem e m edite sobre a tua condição de ser humano mortal e descartável.  Quando enfim todas as folhas estiverem sobrenadando, tome um banho, porque, convenhamos, há quantos dias você está aí.

 

VIII.

Enfeite a mesa com flores.  Compre um peru.  Feche as crianças no banheiro.  Antes de começar a ceia, convide seu marido para dançar ao redor da mesa (não mexa com o peru).  Inopinadamente pergunte se ele gosta de trufas.  Se ele disser que sim, gargalhe algum tempo atrás da porta e diga que “trufas não tem não, amorzinho”.

 

X.

Corte um saco em pequenos pedaços. Um de estopa, evidente.  Embrulhe vários ovos um por um em cada pequeno pedaço de estopa.  Pinte caras descarnadas, dentes pontudos e beiços vermelhos na cara dos ovos (sempre esses de galinha ou de pato, é desses que eu estou falando).  Quando alguma das tuas crianças começar a pedir aquelas coisas caríssimas e imbecis que são sugeridas na televisão, cubra-se de negro à noite, use tintas fosforescentes para ressaltar a cara dos ovos (aqueles) e quebre-os um a um nas pequeninas cabeças dizendo com voz rouca: parem de pedir coisas impossíveis à sua mãe, seus canalhas.

 

XI.

Compre manteiga.  Passe-a nos dedos. (Esqueça-se de Marlon Brando.) Chupe-os.  E diga em tom de oração: que vida solitária, meu Deus.  (Contenha-se)

 

XII.

Compre uma língua de tucano (é uma umbelífera), uma língua de vaca (Chaptalia nutans é seu nome científico, não vá até Santa Catarina por causa disso), um lírio branco (Lilium candidum), dois caquis (não é cáqui, não vá comprar o brim), ferva durante cinco minutos.  Depois jogue fora.  É uma simpatia para você não dormir.

 

XIII.

Se você quer se matar porque o país está podre, e você quase, pegue uma pedrinha de cânfora e uma lata de caviar e coloque ao lado do seu revólver.  Em seguida, coloque a pedrinha de cânfora debaixo da língua e olhe fixamente para a lata de caviar.  Só então engatilhe o revólver. (É bom partir como olorosas e elegantes lembranças.  Atenção: não dê um tiro na boca porque a pedrinha de cânfora se estilhaça.)

 

                                     (dos Contos d’escárnio: textos grotescos, 1990)
 
 
Hilda Hilst. Pornô Chic. São Paulo: Globo, 2014.