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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

TORQUATO NETO NASCIMENTO VIDA E MORTE

         No dia 10 de novembro de 1972 Torquato Neto completaria – não sei se chegou a completar – 28 anos.  Matou-se na madrugada, abriu os bicos do gás no apartamento onde morava na Tijuca.  Numa última frase de seu texto de suicida, pedia um cuidado especial com o filho:  “Vocês aí, não sacudam demais o Thiago.  Ele pode acordar”. O impacto de sua morte em mim, que tinha 16 anos, foi imenso.  Mas o impacto de Torquato vivo tinha sido maior.  Hoje ele completaria 72 anos.  Por isso é do Torquato vivo que falarei.


         Meus primeiros contatos com algo que se possa chamar de poesia do século XX, melhor, com a arte do século XX, se deram através da coluna “Geléia Geral”, que Torquato manteve no jornal Última Hora de agosto de 1971 a março de 1972.  Não, minha memória nada tem de extraordinária, muito menos para datas: essa precisão eu devo aos dois belos volumes organizados por Paulo Roberto Pires, sob o título de Torquatália, lançamento da Rocco em 2004. Mas a memória que eu tenho de Torquato e de sua coluna e de tudo a que me levaram seus textos provocantes, informativos, desconcertantes e tantas vezes desaforados, essa memória é enorme e a ela sou muito grato.  Como  a deste, que saiu em 14 de junho de 1971,  e que colo aqui: 



Por exemplo: a foto de Godard com a legenda “Godard. Poeta. Nunca teve medo de quebrar a cara. Quebrou?”  No moleque de 15 anos isso de “Godard poeta” ficava martelando: quem é esse poeta?  Fui ver, fui correr atrás (era um tempo sem internet, googles, wikipedias,  se é que dá pra pensar nisso hoje e, sim, alô saudosistas do que não sabem, era um tempo de enorme cerceamento à informação, a qualquer informação,  no país sob feroz ditadura), descobri que Godard era um cineasta francês, um nome de referência no cinema, mas no cinema de pirados de modo geral, diretor de filmes “incompreensíveis”, “fracassados” etc.  enfim: Godard era um poeta do cinema.  Um poeta, sim.  Cuja linguagem – que ele levava e leva –a  limites impensáveis era o filme.  Assim se faziam as descobertas, fim do exemplo.

       A coluna do Torquato me dava notícias enviesadas, elípticas (eram aqueles tempos e era também uma proposta de não ser didático, a não ser para quem estava a fim de aprender alguma coisa com o ímpeto e o risco)  de um Chico Buarque alvo de censura burra e torpe  e de recriminações mal bem pensantes, de Caetano e de Gil no exílio, dos movimentos subterrâneos na vida cultural, do samba e dos rocks  dos guetos,  da esquerda boêmia carioca que envelhecia, mesmo genial, no Pasquim, da vida que se fazia vigorosa, resistente, frágil entre a antropofagia e o vampirismo,  o Nosferatu que Torquato encarnara em Nosferatu no Brasil, super-8 de Ivan Cardoso (filme, aliás, que nunca vi).



Foi Torquato que me direcionou de forma mais provocativa em direção aos irmãos Campos, a Pound, a Oiticica, foi ele quem primeiro chamou minha atenção para o novíssimo Chacal, quem me dimensionou bem Paulinho da Viola, quem direcionou meus ouvidos para Jards Macalé, os olhos curiosos para as polêmicas do cinema underground x Cinema Novo,  quem me apontou para Waly Salomão e sua “descoberta” Luíz Melodia, um moleque do morro de São Carlos  de 20 anos, cuja “Pérola Negra”, cantada no antológico show  –Fa-tal - , de Gal Costa na virada 1971/72, me deslumbraria, como deslumbra até hoje.   Falo em Waly Salomão,  e a lembrança de Torquato me evoca também a sua.  Estive com Waly uma vez, em 1984, num ciclo de discussões sobre música popular que ajudei o pessoal do Diretório de Letras das UFF (eu já estava formado) a organizar.  Mediei uma mesa dele com o também grande poeta e letrista Abel Silva.

        Adorei o rápido contato com Waly, embora não tenha certeza de a recíproca ser verdadeira, até porque não tive tempo nem interesse em esclarecer.  Mas o jeito de Waly, gestos largos e voz baiana tonitroante e desabusada, a fazer uma fala generosa ao auditório lotado de estudantes (lá pelas tantas apareceram ainda Antonio Cícero, que se não me engano era professor-substituto de Filosofia lá na UFF, e Alex Varella), e ao mesmo tempo reclamar que não havia sequer um “pro-labore” para os convidados (“Vocês precisam correr atrás de patrocínios!” ele bradava), me conquistou,  sobretudo quando fez um “descarrego” (chamemo-lo assim) do peso do fantasma de Torquato no martirológio em que o queriam incluir (como gostamos de martirológios no Brasil, mas apenas para celebrar os santos, não para fazer-lhes justiça...).  Waly dizia algo do tipo “Torquato está morto, nós aqui estamos vivos, sua poesia, sua trajetória não merecem ser domesticadas por esse coitadismo, esse martirológio, o que ele deixou está acima de tudo isso e não vamos ficar gostando do que ele fez pelas razões erradas!”  Vejo a foto e me  novamente ouço sua fala veemente. Waly morreria em 2003, também grande como Torquato.


A Coleção Postal, da Azougue Editorial e da Editora Cozinha Experimental, acaba de lançar seu segundo livro (o primeiro foi dedicado a Roberto Piva, vejam a postagem anterior a esta), o volume Torquato Neto , com vários textos inéditos. Claro que eu recomendo e já estou me deleitando com ela.  Mas folheando aqui os diversos textos da coluna “Geléia Geral” reunidos no volume 2 de Torquatália, me deparo com um ao qual nunca tinha prestado atenção, não devo tê-lo lido na época.  Só pra informação, Lena Rios é uma conterrânea de Torquato, piauiense, que iniciava uma carreira musical naquela época.  Entre outras coisas, lembro que ela gravou a música-tema (parceria de Torquato com Carlos Pinto) de Sem essa, aranha, filme de Rogério Sganzerla, de 1970. Não sei se a cantiga em questão foi musicada.


CANTIGA PIAUIENSE PARA LENA RIOS

Sempre andei por um caminho
Que não conhecia bem;
Sequer me lembro se vinha
Sozinha, ou se com alguém
E nem sei se aqui chegada
Faço morada, me aquieto
Pois é certo que procuro
Algo que deve andar perto:
Mas o que vejo é incerto
E o que consigo não dura.
(Eu sempre quis outra vida
Eu sempre quis ser feliz,
Por isso naquele tempo
Fiz minha mala e parti)
Sempre andei por um caminho
Que não sabia direito;
Do que perdi na viagem
Já me esqueci por completo
Não guardei nada e o que trouxe
Eram apenas utensílios
De fácil desprendimento:
Dois filhos que nunca tive
Um velho anel de família
E uma saudade no peito.
(Eu sempre quis outra vida
Eu sempre quis ser feliz:
Dos dois filhos, da saudade
E até do anel me desfiz).
Sempre andei por um caminho
Que não tem ponto final
E a paisagem que eu via
Era toda e sempre igual:
Depois da noite outro dia
Com suas mesmas desgraças,
Mas também algumas casas
Com jantar posto na mesa.
Agora:
EU SEMPRE QUIS SER CONTENTE
E PODE SER QUE EU JÁ SEJA.

         
         Haveria e há muito a se falar ainda de Torquato, mas isto aqui foram apenas alguns flashes de memória de alguém que foi tão importante para mim, que de certa maneira continua sendo, e cuja obra é provável que ainda tenha muito a render aosd interessados de todas as eras.  Vocês aí descubram por conta e risco.  Aqui mesmo no Firma Irreconhecível há outras postagens.  Divirtam-se.  Vivam. 

Torquato no traço de Luís Trimano


quarta-feira, 18 de março de 2015

ABEL SILVA


FILHO


Ponho meu filho pra dormir
numa posição confortável, coberto,
a cabeça no travesseiro, o corpo ao comprido no berço.
Está quase dormindo
mas logo esperneia e bate os bracinhos
entorta o corpo, chora,
descobre o colchão e, no meio do bolo,
adormece.
Fico olhando o corpinho retorcido,
metade no colchão, metade no lençol,
a cabeça junto da grade
e penso que será sempre assim,
sempre os pais aninharão seus filhos num espaço lógico
e eles embolarão tudo com os espasmos do crescimento
dormirão tortos
dispensarão agasalhos
e acordarão aos berros com as cabeças magoadas
contra os limites dos ninhos.




Abel Silva.  Asas – solos de lírica elétrica.  2 ed. Muro, 1981.


Talarico

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

FLORISVALDO MATTOS DUAS VEZES



            Já falei aqui da  minha alegria em ter sido convidado a publicar poemas na revista eletrônica Nerval, junto com mais 25 poetas destes nossos tempos,alguns cuja poesia já conhecia, outros que aos poucos estou ainda descobrindo.  Reitero o convite,  a quem ainda não foi lá, para que conheça a revista, que linko aqui:  http://issuu.com/revistaflaubert/docs/nerval004
            Uma presença que muito me honrou ao saber que compartilhávamos a mesma publicação  foi a do poeta baiano Florisvaldo Mattos.  Mattos é uma eminente figura da intelectualidade baiana, melhor dizendo, soteropolitana, que promoveu, a exemplo de João Carlos Teixeira Gomes e Glauber Rocha, entre outros, uma intensa agitação cultural na Salvador dos anos 60. Nascido em 1932 é professor aposentado da UFBA e jornalista. Por este link, chegamos a um belo perfil de sua atividade (que foi também onde colhi as fotos desta postagem): http://jeitobaiano.atarde.uol.com.br/?tag=florisvaldo-mattos

            A seguir  um dos poemas publicados em Nerval:



GALOPE AMARELO


Quando ele voltou
a moça do portão estava casada
o prefeito era uma cruz e uma placa
as aves mudaram de itinerário
como os ônibus
o irmão mais moço tomava ópio
para esquecer.
 
Quando ele voltou
o empregado da esquina respondera
a um processo
onde perdeu a esperança e os dedos
o pai fuzilara um estudante
a mãe fugira com um mascate.

Quando ele partiu
a primavera galopava nos rosais
os campos de begônia floresciam
o gado esturrava nos currais
a terra desafiada vicejava como
uma égua na véspera do galope.
 
Quando ele partiu
o alimento dos olhos era verdura
de paisagem além da cerca
as goiabas enchiam os cestos
as mulheres voltavam com os meninos
os velhos falavam de assombração
a lua espreitava o pátio e o quintal.
 
Quando ele voltou
o ministro citava o arquiteto
com a pretensão de restaurar
o tempo à revelia dos relógios
o muro substituía o horizonte
autoridades sonolentas distribuíam
o passaporte dos homens para o sanatório.
 
Quando ele voltou
as leis se haviam tornado ainda mais fósseis
as oligarquias muito mais poderosas
os poderosos mais astutos
o ministro lembrava “a pá sob os escombros”
o menino relia as manchetes da guerra
os preconceitos rimavam com a economia.

Quando ele voltou
havia uma encruzilhada e um alto-falante
a moça do portão estava casada
o irmão caçula era um soldado velho.


Quando ele partiu
a primavera galopava nos rosais.
Quando ele voltou
O céu era só um galope amarelo.


Florisvaldo Mattos em foto de 2011


            
             Mergulhando em direção à origem dos tempos, fui num esforço tentar me lembrar da primeira vez que o nome, de curiosas ressonâncias parnasianas, do poeta nada parnasiano, me apareceu.  E lembrei. E, para minha sorte, ainda tenho aqui a publicação.  Foi no número 2 da ANIMA, revista editada em 1976 por Abel Silva e Capinam, que durou justamente esses dois números, naquela barra pesada ainda dos anos de chumbo.  O poema era este aqui:

POEMA PREPOSICIONADO

                        a Glauber Rocha

Debaixo dessas pontes de limo
debaixo desses rios parados
por que nos quererão ativos
mas não honrados?

Por sobre esses verões poluídos
por sobre esses ventos domados,
por que nos quererão amigos,
mas não amados?

Diante desses mares vencidos,
diante desses muros inviolados,
por que nos quererão sorrindo,
no instante mais trágico?
 
Por entre roteiros proibidos,
por entre símbolos reinventados,
por que nos quererão perdidos
viajantes sem mapa?

Atrás dessas botas de verniz,
atrás dessas máscaras de aço,
por que nos quererão submissos
seres programados?

Nesse fosso de espanto e mito,
nessa fria massa de ocasos,
por que não paramos de rijo
o fóssil barco?

Com as ferramentas da vida
com os amantes com os amados,
por que logo não explodimos
a frágil máquina?
 
Fique no ouvido o som terrível,
cravem na carne os estilhaços,
antes me quero morto ou sofrido,
porém honrado.

Florisvaldo na década de 60,com Glauber