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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

PAULO HENRIQUES BRITTO





UM POUCO DE STRAUSS

 

Não escreva versos íntimos, sinceros,
como quem mete o dedo no nariz.
Lá dentro não há o que compense
todo esse trabalho de perfuratriz,
só muco e lero-lero.

Não faça poesias melodiosas
e frágeis como essas caixinhas de música
que tocam a “Valsa do Imperador”.
É sempre a mesma lengalenga estúpida,
sentimental, melosa.

Esquece o eu, esse negócio escroto
e pegajoso, esse mal sem remédio
que suga tudo e não dá nada em troca
além de solidão e tédio:
escreve pros outros.

Mas se de tudo que há no vasto mundo
só gostas mesmo é dessa coisa falsa
que se disfarça fingindo se expressar,
então enfia o dedo no nariz, bem fundo,
e escreve, escreve até estourar. E tome valsa.

  

Paulo Henriques Britto.  Trovar claro.  Companhia das Letras, 2006.


domingo, 26 de maio de 2013

PAULO HENRIQUES BRITTO

Foto de Bel Pedrosa
 

PESSOANA

 

Quando não sei o que sinto
sei que o que sinto é o que sou.
Só o que não meço não minto.

Mas tão logo identifico
o não-lugar onde estou
decido que ali não fico,

pois onde me delimito
já não sou mais o que sou
mas tão-somente me imito.
 
De ponto a ponto rabisco
o mapa de onde não vou,
ligando de risco em risco

meus equívocos favoritos,
até que tudo que sou
é um acúmulo de escritos,

penetrável labirinto
em cujo centro não estou
mas apenas me pressinto

mero signo, simples mito.

 

 

                                   In: Trovar claro.  Companhia das Letras, 2006.

 

 

 

 

sexta-feira, 18 de maio de 2012

PAULO HENRIQUES BRITTO







CIRCULAR

Neste mesmo instante, em algum lugar,
alguém está pensando a mesma coisa
que você estava prestes a dizer.
Pois é.  Esta não é a primeira vez.

Originalidade não tem vez
neste mundo, nem tempo, nem lugar.
O que você fizer não muda coisa
alguma. Perda de tempo dizer

o que quer que você tenha a dizer.
Mesmo parecendo que desta vez
algo de importante vai ter lugar,
não caia nessa: é sempre a mesma coisa.

Sim.  Tanto faz dizer coisa com coisa
ou simplesmente se contradizer.
Melhor calar-se para sempre, em vez
de ficar o tempo todo a alugar

todo mundo, sem sair do lugar,
dizendo sempre, sempre, a mesma coisa
que nunca foi necessário dizer.
Como faz este poema.  Talvez.

In: Formas do nada.  Companhia das Letras, 2012.

sábado, 8 de janeiro de 2011

AH, UM SONETO...

Na série "Até segunda ordem", Paulo Henriques Britto elabora, em cinco sonetos, uma divertida narrativa epistolar de bandidagem, como numa estória de gangsterismo.  Que os bilhetes trocados entre os integrantes da quadrilha sejam sonetos é um espetacular achado de irrealismo, que comprova o virtuosismo do poeta, um virtuosismo aqui a serviço da demonstração de que tudo é possível no soneto, como tudo é possível em qualquer forma de arte que o artista senhor de sua linguagem domine.  


(19 DE JANEIRO)

Até esta chegar às suas mãos
eu já devo ter cruzado a fronteira.
Entregue por favor aos meus irmãos
os livros da segunda prateleira,

e àquela moça – a dos “quatorze dígitos” –
o embrulho que ficou com o teu amigo.
Eu lavei com cuidado o disco rígido.
Os disquetes back-up estão comigo.

Até mais.  Heroísmo não é a minha.
A barra pesou.  Desculpe o mau jeito.
Levei tudo que coube na viatura,

mas deixei um revólver na cozinha,
com uma bala.  Destrua este soneto
imediatamente após a leitura.

                                               Paulo Henriques Britto (in Trovar claro, 2006)