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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

IESSIÊNIN

Na postagem imediatamente anterior, publiquei o poema de Vladimir Maiakóvski, “A Sierguei Iessiênin” (ver em http://robertobozzetti.blogspot.com/2012/01/maiakovski.html),
mencionando ainda brevemente as circunstâncias em que fora escrito .  Segue agora um poema do homenageado.

A CONFISSÃO DE UM VAGABUNDO

Nem todos sabem cantar.
Não é dado a todos ser maçã
Para cair aos pés dos outros.

Esta é a maior confissão
Que jamais fez um vagabundo.

Não é à toa que eu ando despenteado,
Cabeça como lâmpada de querosene sobre os ombros.
Me agrada iluminar na escuridão
O outono sem folhas de vossas almas,
Me agrada, quando as pedras dos insultos
Voam sobre mim, granizo vomitado pelo vento.
Então, limito-me a apertar mais com as mãos
A bolha oscilante dos cabelos.

Como eu me lembro bem então
Do lago cheio de erva e do som rouco do amieiro,
E que nalgum lugar vivem meu pai e minha mãe,
Que pouco se importam com meus versos,
Que me amam como a um campo, como a um  corpo,
Como à chuva que na primavera amolece o capim,
Eles, com seus forcados, viriam aferrar-vos
A cada injúria lançada contra mim.

Pobres, pobres camponeses,
Por certo, estão velhos e feios,
E ainda temem a Deus e aos espíritos do pântano.
Ah, se pudessem compreender
Que o seu filho é, em toda a Rússia,
O melhor poeta!
Seus corações não temiam por ele
Quando molhava os pés nos charcos outonais?
Agora ele anda de cartola
E sapatos de verniz.

Mas sobrevive nele o antigo fogo
De aldeão travesso.
A cada vaca, no letreiro dos açougues,
Ele saúda à distância.
E quando cruza com um coche numa praça,
Lembrando o odor de esterco dos campos nativos,
Lhe dá vontade de suster o rabo dos cavalos
Como a cauda de um vestido de noiva.

Amo a terra.
Amo demais minha terra!
Embora a entristeça o mofo dos salgueiros,
Me agradam o focinho sujo dos porcos
E, no silêncio da noite, a voz alta dos sapos.
Fico doente de ternura com as recordações da infância.
Sonho com a névoa e a umidade das tardes de abril,
Quando o nosso bordo se acocorava
Para aquecer os ossos no ocaso.
Ah, quantos ovos dos ninhos das gralhas,
Trepando nos seus galhos, não roubei?
Será ainda o mesmo, com a copa verde?
Sua casca será rija como antes?

E tu, meu caro
E fiel cachorro malhado?!
A velhice te fez cego e resmungão.
Cauda caída, vagueias no quintal,
Teu faro não distingue o estábulo da casa.
Como recordo as nossas travessuras,
Quando eu furtava o pão de minha mãe
E o mordíamos, um de cada vez,
Sem nojo um do outro.

Sou sempre o mesmo.
Meu coração é sempre o mesmo.
Como as centáureas no trigo, florem no rosto os olhos.
Estendendo as esteiras douradas de meus versos
Quero falar-vos com ternura.

Boa noite!
Boa noite a todos!
Terminou de soar na relva a foice do crepúsculo...
Eu sinto hoje uma vontade louca
De mijar, da janela, para a lua.

Luz azul, luz tão azul!
Com tanto azul, até morrer é zero.
Que importa que eu tenha o ar de um cínico
Que pendurou uma lanterna no traseiro!
Velho, bravo Pégaso exausto,
De que me serve o teu nome delicado?
Eu vim, um mestre rigoroso,
Para cantar e celebrar os ratos.
Minha cabeça, como agosto,
Verte o vinho espumante dos cabelos.

Eu quero ser a vela amarela
Rumo ao país para o qual navegamos.
           

(tradução de Augusto de Campos)


In: Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Boris Schnaiderman.  Poesia russa moderna: nova antologia. 4 ed. Brasiliense, 1985.



sábado, 14 de janeiro de 2012

MAIAKÓVSKI

A SIERGUEI IESSIÊNIN *

Você partiu,
            como se diz,
                        para o outro mundo.
Vácuo...
            Você sobe,
                        entremeado às estrelas.
Nem álcool,
            nem moedas.
Sóbrio.
            Voo sem fundo.

Não, Iessiênin,
            não posso
                        fazer troça –
Na boca
            uma lasca amarga,
                        não a mofa.
Olha –
            sangue nas mãos frouxas,
você sacode  
            o invólucro
                        dos ossos.

Pare,
            basta!
                        Você perdeu o senso?
Deixar
            que a cal
                        mortal
                                   lhe cubra o rosto?
Você,
            com todo esse talento
para o impossível,
            hábil
                        como poucos.

Por quê,
            para quê?
                        Perplexidade.

– É o vinho!
            – a crítica esbraveja.
Tese:
            refratário à sociedade.
Corolário:
            muito vinho e cerveja. –
sim,
            se você trocasse
                        a boêmia
                                   pela classe,
a classe agiria em você,
            e lhe daria um norte.
E a classe
            por acaso
                        mata a sede com xarope?
Ela sabe beber –
            nada tem de abstêmia.

Sim,
            se você tivesse
                        um patrono no “Posto” , –
ganharia
            um conteúdo 
                        bem diverso:
todo dia
            uma quota
                        de cem versos,
longos
            e lerdos
                        como Dorônin.

Remédio?
            Para mim,
                        despautério:
mais cedo ainda
                        você estaria nessa corda.
Melhor
            morrer de vodca
que de tédio!

Não revelam
            as razões
                        desse impulso
nem o nó,
            nem a navalha aberta.
Talvez,
            se houvesse tinta no “Inglaterra”,
            não cortaria
                        os pulsos.
Os plagiários felizes
            pedem: bis!
Já todo
            um pelotão
                        em auto-execução.
Para que
            aumentar
                        o rol de suicidas?
Antes
            aumentar
                        a produção de tinta!

Agora
            para sempre
                        tua boca
                                   está cerrada.
Difícil
            e inútil
                        excogitar enigmas.
O povo,
            o inventa-línguas,
perdeu
            o canoro
                        contramestre de noitadas.
E levam
            versos velhos
                        ao velório,
sucata
            de extintas exéquias.
Rimas gastas
            empalam
                        os despojos, –
é assim
            que se honra
                        um poeta?

Não
            te ergueram ainda um monumento, –
onde
            o som do bronze
                        ou o grave granito? –
E já vão
            empilhando
                        no jazigo
dedicatórias e ex-votos:
                        excremento.

Teu nome
            escorrido no muco,
teus versos,
            Sóbinov os babuja,
voz quérula
            sob bétulas murchas –
“Nem palavra, amigo,
            nem o so-o-luço”.
Ah,
            que eu saberia dar um fim
a esse
            Leonid Loengrim!
Saltaria
            – escândalo estridente:
– Chega
            De tremores de voz!
Assobios
            nos ouvidos
                        dessa gente,
ao diabo
            com suas mães e avós!

Para que toda
            essa corja explodisse
inflando
            os escuros
                        redingotes,
e Kógan
            atropelado
                        fugisse,
espetando
            os transeuntes
                        nos bigodes.

Por enquanto
            há escória
                        de sobra.
O tempo é escasso –
                        mãos à obra.
Primeiro
            é preciso
                        transformar a vida,
para cantá-la –
                        em seguida.

Os tempos estão duros
                        para o artista:
Mas,
            dizei-me,
                        anêmicos e anões,
os grandes,
                        onde,
                        em que ocasião,
escolheram
            uma estrada
                        batida?

General
            da força humana
                        – Verbo –
marche!
            Que o tempo
                        cuspa balas
                                   para trás,
e o vento
            no passado
                        só desfaça
um maço de cabelos.

Para o júbilo
            o planeta
                        está imaturo.
É preciso
            arrancar
                        alegria
                                   ao futuro.
Nesta vida
            morrer não é difícil.
O difícil
            é a vida e seu ofício.

                        (Tradução de Haroldo de Campos)
           
In: Boris Schnaiderman.  A poética de Maiakóvski através de sua prosa.  Perspectiva, 1971.
           




O poeta Sierguei Iessiênin




* Sierguei Iessiênin (1895-1925) era contemporâneo do autor, ambos integrando o círculo de jovens poetas russos do começo do século XX que viriam a revolucionar – dentro do espírito vanguardista que varria a Europa e se propagou para as Américas no período – as concepções poéticas do século.  No mesmo período,  e com ligações estreitas com esses escritores, é bom lembrar que se desenvolviam as pesquisas em lingüística e poética do que viria ser conhecido como o Formalismo Russo, que é praticamente a corrente inaugural da moderna Teoria da Literatura.  A propósito, há uns cinco anos a Cosac-Naify lançou a edição brasileira de A geração que esbanjou seus poetas, importante ensaio do lingüista Roman Jakobson, talvez o mais famoso integrante do grupo.
            Vladimir Maiakóvski (1893-1930) escreveu o poema acima praticamente em desagravo às homenagens póstumas que foram dedicadas a Iessiênin,  que se suicidara por enforcamento pouco antes (esse desagravo precisa ser percebido pelo leitor, que numa leitura ingênua pode apenas concluir que Maiakóvski condena o suicida) no Hotel Inglaterra – citado numa passagem do poema –  em Leningrado (hoje novamente São Petersburgo), pela  cultura oficial do que já estava se tornando o Estado burocrático soviético após a revolução de 1917. Maiakovski, que participara ativamente da revolução e dedicara seu ofício de poeta em prol do projeto de uma nova sociedade, mais e mais se via em dificuldades políticas ao lidar com a burocracia e a moral proletária que se apossavam do aparelho de  Estado, principalmente a partir da ascensão de Stálin ao poder em 1922, sucedendo a Lênin. O poema traduz muito dessa inconformidade maiakóvskiana, aliada ao desregramento e à inadaptação célebres também do desafortunado homenageado. Há algumas referências bem circunstanciais no texto, das quais escolho esclarecer duas delas (os esclarecimentos na verdade são do tradutor Haroldo de Campos, que aborda ainda outras circunstâncias):
1.    No verso “Sim, se você tivesse um patrono no ‘Posto’”: o “Posto” era, informa Haroldo, a revista da Associação russa de escritores proletários;
2.    No verso “e Kógan atropelado fugisse”, Kógan era o crítico P.S. Kógan, representante máximo do sectarismo dogmático comunista, com quem Maiakóvski se atritara inúmeras vezes, informa a mesma fonte.

Outras referências circunstanciais podem ser importantes, mas creio que o leitor de poesia saberá pelo menos deduzir, uma vez captada a lógica do texto, os papeis cumpridos pelos agentes em cena.  Vale a pena ainda comentar que, especialmente em seu final, o poema de Maiakóvski dialoga explicitamente com o pequeno último poema escrito com sangue e deixado ao lado do corpo por Iessiênin por ocasião de seu suicídio.  O poema de Iessiênin, na tradução de Augusto de Campos, é facilmente localizado na rede.
Em tempo: cinco anos após Iessiênin, também Maiakóvski viria a cometer suicídio,  com um tiro no peito.