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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

TORQUATO NETO NASCIMENTO VIDA E MORTE

         No dia 10 de novembro de 1972 Torquato Neto completaria – não sei se chegou a completar – 28 anos.  Matou-se na madrugada, abriu os bicos do gás no apartamento onde morava na Tijuca.  Numa última frase de seu texto de suicida, pedia um cuidado especial com o filho:  “Vocês aí, não sacudam demais o Thiago.  Ele pode acordar”. O impacto de sua morte em mim, que tinha 16 anos, foi imenso.  Mas o impacto de Torquato vivo tinha sido maior.  Hoje ele completaria 72 anos.  Por isso é do Torquato vivo que falarei.


         Meus primeiros contatos com algo que se possa chamar de poesia do século XX, melhor, com a arte do século XX, se deram através da coluna “Geléia Geral”, que Torquato manteve no jornal Última Hora de agosto de 1971 a março de 1972.  Não, minha memória nada tem de extraordinária, muito menos para datas: essa precisão eu devo aos dois belos volumes organizados por Paulo Roberto Pires, sob o título de Torquatália, lançamento da Rocco em 2004. Mas a memória que eu tenho de Torquato e de sua coluna e de tudo a que me levaram seus textos provocantes, informativos, desconcertantes e tantas vezes desaforados, essa memória é enorme e a ela sou muito grato.  Como  a deste, que saiu em 14 de junho de 1971,  e que colo aqui: 



Por exemplo: a foto de Godard com a legenda “Godard. Poeta. Nunca teve medo de quebrar a cara. Quebrou?”  No moleque de 15 anos isso de “Godard poeta” ficava martelando: quem é esse poeta?  Fui ver, fui correr atrás (era um tempo sem internet, googles, wikipedias,  se é que dá pra pensar nisso hoje e, sim, alô saudosistas do que não sabem, era um tempo de enorme cerceamento à informação, a qualquer informação,  no país sob feroz ditadura), descobri que Godard era um cineasta francês, um nome de referência no cinema, mas no cinema de pirados de modo geral, diretor de filmes “incompreensíveis”, “fracassados” etc.  enfim: Godard era um poeta do cinema.  Um poeta, sim.  Cuja linguagem – que ele levava e leva –a  limites impensáveis era o filme.  Assim se faziam as descobertas, fim do exemplo.

       A coluna do Torquato me dava notícias enviesadas, elípticas (eram aqueles tempos e era também uma proposta de não ser didático, a não ser para quem estava a fim de aprender alguma coisa com o ímpeto e o risco)  de um Chico Buarque alvo de censura burra e torpe  e de recriminações mal bem pensantes, de Caetano e de Gil no exílio, dos movimentos subterrâneos na vida cultural, do samba e dos rocks  dos guetos,  da esquerda boêmia carioca que envelhecia, mesmo genial, no Pasquim, da vida que se fazia vigorosa, resistente, frágil entre a antropofagia e o vampirismo,  o Nosferatu que Torquato encarnara em Nosferatu no Brasil, super-8 de Ivan Cardoso (filme, aliás, que nunca vi).



Foi Torquato que me direcionou de forma mais provocativa em direção aos irmãos Campos, a Pound, a Oiticica, foi ele quem primeiro chamou minha atenção para o novíssimo Chacal, quem me dimensionou bem Paulinho da Viola, quem direcionou meus ouvidos para Jards Macalé, os olhos curiosos para as polêmicas do cinema underground x Cinema Novo,  quem me apontou para Waly Salomão e sua “descoberta” Luíz Melodia, um moleque do morro de São Carlos  de 20 anos, cuja “Pérola Negra”, cantada no antológico show  –Fa-tal - , de Gal Costa na virada 1971/72, me deslumbraria, como deslumbra até hoje.   Falo em Waly Salomão,  e a lembrança de Torquato me evoca também a sua.  Estive com Waly uma vez, em 1984, num ciclo de discussões sobre música popular que ajudei o pessoal do Diretório de Letras das UFF (eu já estava formado) a organizar.  Mediei uma mesa dele com o também grande poeta e letrista Abel Silva.

        Adorei o rápido contato com Waly, embora não tenha certeza de a recíproca ser verdadeira, até porque não tive tempo nem interesse em esclarecer.  Mas o jeito de Waly, gestos largos e voz baiana tonitroante e desabusada, a fazer uma fala generosa ao auditório lotado de estudantes (lá pelas tantas apareceram ainda Antonio Cícero, que se não me engano era professor-substituto de Filosofia lá na UFF, e Alex Varella), e ao mesmo tempo reclamar que não havia sequer um “pro-labore” para os convidados (“Vocês precisam correr atrás de patrocínios!” ele bradava), me conquistou,  sobretudo quando fez um “descarrego” (chamemo-lo assim) do peso do fantasma de Torquato no martirológio em que o queriam incluir (como gostamos de martirológios no Brasil, mas apenas para celebrar os santos, não para fazer-lhes justiça...).  Waly dizia algo do tipo “Torquato está morto, nós aqui estamos vivos, sua poesia, sua trajetória não merecem ser domesticadas por esse coitadismo, esse martirológio, o que ele deixou está acima de tudo isso e não vamos ficar gostando do que ele fez pelas razões erradas!”  Vejo a foto e me  novamente ouço sua fala veemente. Waly morreria em 2003, também grande como Torquato.


A Coleção Postal, da Azougue Editorial e da Editora Cozinha Experimental, acaba de lançar seu segundo livro (o primeiro foi dedicado a Roberto Piva, vejam a postagem anterior a esta), o volume Torquato Neto , com vários textos inéditos. Claro que eu recomendo e já estou me deleitando com ela.  Mas folheando aqui os diversos textos da coluna “Geléia Geral” reunidos no volume 2 de Torquatália, me deparo com um ao qual nunca tinha prestado atenção, não devo tê-lo lido na época.  Só pra informação, Lena Rios é uma conterrânea de Torquato, piauiense, que iniciava uma carreira musical naquela época.  Entre outras coisas, lembro que ela gravou a música-tema (parceria de Torquato com Carlos Pinto) de Sem essa, aranha, filme de Rogério Sganzerla, de 1970. Não sei se a cantiga em questão foi musicada.


CANTIGA PIAUIENSE PARA LENA RIOS

Sempre andei por um caminho
Que não conhecia bem;
Sequer me lembro se vinha
Sozinha, ou se com alguém
E nem sei se aqui chegada
Faço morada, me aquieto
Pois é certo que procuro
Algo que deve andar perto:
Mas o que vejo é incerto
E o que consigo não dura.
(Eu sempre quis outra vida
Eu sempre quis ser feliz,
Por isso naquele tempo
Fiz minha mala e parti)
Sempre andei por um caminho
Que não sabia direito;
Do que perdi na viagem
Já me esqueci por completo
Não guardei nada e o que trouxe
Eram apenas utensílios
De fácil desprendimento:
Dois filhos que nunca tive
Um velho anel de família
E uma saudade no peito.
(Eu sempre quis outra vida
Eu sempre quis ser feliz:
Dos dois filhos, da saudade
E até do anel me desfiz).
Sempre andei por um caminho
Que não tem ponto final
E a paisagem que eu via
Era toda e sempre igual:
Depois da noite outro dia
Com suas mesmas desgraças,
Mas também algumas casas
Com jantar posto na mesa.
Agora:
EU SEMPRE QUIS SER CONTENTE
E PODE SER QUE EU JÁ SEJA.

         
         Haveria e há muito a se falar ainda de Torquato, mas isto aqui foram apenas alguns flashes de memória de alguém que foi tão importante para mim, que de certa maneira continua sendo, e cuja obra é provável que ainda tenha muito a render aosd interessados de todas as eras.  Vocês aí descubram por conta e risco.  Aqui mesmo no Firma Irreconhecível há outras postagens.  Divirtam-se.  Vivam. 

Torquato no traço de Luís Trimano


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

WALY SALOMÃO


COBRA CORAL


Para de ondular, agora, cobra coral:
a fim de que eu copie as cores com que te adornas,
a fim de que eu faça um colar para dar à minha amada,
a fim de que tua beleza
                     teu langor
                     tua elegância
                                   reinem sobre as cobras não corais.

Waly Salomão. Tarifa de embarque.  RJ: Rocco, 2000.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

TORQUATO NETO TRÊS VEZES



1.    De “literato cantábile”

a)    A virtude é a mãe do vício
conforme se sabe:
acabe logo comigo
ou se acabe.

b)    A virtude e o próprio vício
- conforme se sabe –
estão no fim, no início
da chave.

c)    Chuvas da virtude, o vício,
conforme se sabe:
é nela propriamente que eu me ligo,
nem disco, nem filme:
nada, amizade.  Chuvas de virtude:
chaves.

d)    (amar-te/a morte/morrer:
há urubus no telhado e a carne seca
é servida: um escorpião encravado
na sua própria ferida, não escapa: só escapo
pela porta da saída).

e)    A virtude, a mãe do vício
como eu tenho vinte dedos,
ainda, e ainda é cedo:
você olha nos meus olhos
mas não vê nada, se lembra?

f)     A virtude
mais o vício: início da
MINHA
transa, início, fácil, termino:
“como dois mais dois são cinco”
como Deus é precipício,
durma,
e nem com Deus no hospício
(durma) nem o hospicio
É refúgio.  Fuja.


2.    COGITO

Eu sou como eu sou
pronome
pessoal instranferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

Eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

Eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

Eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.



3.    PESSOAL INTRANSFERÍVEL

Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos.  É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela.  Nada no bolso e nas mãos.  Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.
Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena, etc.  difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa.  Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo, menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes.  E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, “herdeiro” da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.
E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar: citação: leve um homem e um boi ao matadouro.  O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi.  Adeusão.
                        (In: Os últimos dias de paupéria, 1973)
           

Torquato Neto (1944-1972) era piauiense, ligado ao grupo tropicalista, trabalhava como jornalista e agitador cultural, sendo ainda um letrista importante, com parcerias de vulto com Caetano Veloso (“Mamãe, coragem: “Ai de mim Copacabana”...), Gilberto Gil (“Geleia Geral”, “Domingou”...), Edu Lobo (“Pra dizer adeus”...), Jards Macalé (“Let’s play that”), entre outros. 
Torquato suicidou-se no dia de seu aniversário de 28 anos. Tinha diversas internações em hospitais psiquiátricos, e seus escritos dispersos (poemas, letras, cartas, anotações, diários etc) foram reunidos pela primeira vez por Waly Salomão na obra póstuma Os últimos dias de paupéria, cuja primeira edição foi lançada no ano seguinte ao de sua morte (uma 2ª. edição, revista e ampliada, saiu em 1982).   Em 2004, Paulo Roberto Pires lançou Torquatália, em dois volumes (Do lado de dentro e Geleia geral) reunindo muito material inédito que se acrescentou ao que já havia antes saído. 
Torquato é um poeta-letrista dos mais ricos de sua geração: como poeta, é nitidamente marcado por Drummond, a que eu acrescentaria ainda Oswald e a presença do experimentalismo concretista.  Mas talvez o mais interessante do que deixou escrito é a constante preocupação de enlaçar ética e estética, fazer da linguagem um território a ser explorado de forma inseparável dos compromissos éticos com os quais severamente sua geração – e sua “turma “ – teve que se haver. Essa postura, “vitalista”, por assim dizer, faz com que possa pensar em Torquato como um nome chave (talvez junto com Waly) de transição entre a geração experimentalista das neovanguardas dos anos 60 e a geração dos poetas marginais da década seguinte. 
No disco Cinema transcendental, de 1979, Caetano inclui “Cajuína”, uma canção homenagem-recordação de/a Torquato.  Sérgio Brito, dos Titãs, põe melodia no texto de “Go back”, até então inédita, e a canção vira um dos grandes sucessos da banda em 1988.



domingo, 24 de abril de 2011

GREGÓRIO DE MATOS, O FERO

Waly Salomão no papel de Gregório, no filme de Ana Carolina T. Soares

A CERTO FRADE NA VILA DE SÃO FRANCISCO, A QUEM UMA MOÇA FINGINDO-SE AGRADECIDA  A SEUS REPETIDOS GALANTEIOS, LHE MANDOU EM SIMULAÇÕES DE DOCE UMA PANELA DE MERDA

Reverendo Frei Antonio,
se vos der venérea fome,
praza a Deus, que Deus vos tome,
como vos toma o demônio:
uma purga de antimônio
devia a moça tomar,
quando houve de vos mandar
um mimo, em que dá a entender,
que já vos ama, e vos quer
tanto, como o seu cagar.

Foste-vos mui de lampeiro
vós, e os amigos de cela
ao miolo da panela,
e achastes um camareiro
de que vos desenganásseis,
e foi bem feito, que achásseis
cagalhões, que então sentistes,
porque, aquilo, que não vistes,
quis o demo que cheirásseis.

A hora foi temerária,
o caso tremendo, e atroz,
e essa merda para vós
se não serve, é necessária:
se a peça é mui ordinária,
eu de vós não tenho dó:
e se não dizei-me: é pó
mandar-vos a ponto cru
a Moça prendas do cu,
que tão vizinho é do có?

Se vos mandara primeiro
o mijo num panelão,
não ficáreis vós então
mui longe do mijadeiro:
mas a um Frade malhadeiro
sem correia, nem lacerda,
que não sente a sua perda,
seu descrédito, ou desar,
que havia a Moça mandar,
senão merda com mais merda?


Dos cagalhões afamados
diz esta plebe inimiga,
que eram de ouro de má liga
não dobrões, porém dobrados:
aos Fradinhos esfamiados,
que abrindo a panela estão,
dai por cabeça um dobrão,
e o mais mandai-o fechar;
que por isso, e por guardar,
manhã sereis guardião.

Se os cagalhões são tão duros,
tão gordos, tão bem dispostos,
é porque hoje foram postos
e ainda estão mal maduros:
repartam-se nos monturos,
que nas enxurradas dos tais
é de crer que abrandem mais,
porque a Moça cristamente
não quer que quebreis um dente
mas deseja que os comais.

(in: Gregório de Matos: Antologia.  org. Higino Barros. Porto Alegre: L&PM)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

MOVIMENTO DOS BARCOS: JARDS MACALÉ



Canção de Jards Macalé com letra de Capinam

Estou cansado e você também
vou sair sem abrir a porta
e não voltar nunca mais
desculpe a paz que eu lhe roubei
e o futuro esperado que eu não dei
é impossível levar um barco sem temporais
e suportar a vida
como um momento além do cais
que passa ao largo do nosso corpo
não quero ficar dando adeus
as coisas passando
eu quero
é passar com elas
eu quero
e não deixar nada mais
do que as cinzas de um cigarro
e a marca de um abraço no teu corpo
não
não sou eu quem vai ficar no porto
chorando não
lamentando o eterno movimento
movimento dos barcos
movimento
movimento dos vbarcos
movimento

Uma canção linda, sombria, lançada por Maria Bethânia no show “Rosa dos Ventos”, de 1971, e que aqui podemos ouvir na gravação do próprio Macalé em seu primeiro disco individual, de 1972 (ele a regravou em seu disco de 1998, o magistral O q faço é música).
Jards Macalé vem compondo, ao longo de mais de 40 anos de trajetória, algumas muitas obras-primas, com parceiros como Capinam (com quem fez ainda, entre outras, “Gotham City”, escândalo no festival de 1969), ), “Let’s play that” (com Torquato Neto), Waly Salomão (“Vapor barato”, possivelmente sua canção mais conhecida) , além de ostentar uma remota e arrebatadora parceria com Vinícius de Moraes (“O mais-que-perfeito”) e muitas outras.

Em 2005 a Biscoito Fino lançou o CD Real Grandeza, reunindo as parcerias de Macalé com Waly Salomão. Mais recentemente, Marcos Abujamra dirigiu Jards Macalé: Um morcego na porta principal, que acaba de ser lançado em DVD. Vale a pena conhecer este que é um dos mais refinados violonistas e compositores do cenário musical brasileiro.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

UM BEM-PENSANTE ENCALACRADO PELAS TRAPAÇAS DA MEMÓRIA

            Listei aqui outro dia, plagiando do blog do Paulo Neves (http://nolimiar.wordpress.com ), uma lista de canções que foram marcantes para mim.  Em geral as canções que nos marcam acontecem ali na entrada e na saída da adolescência etária.  As minhas aconteceram dos meus 10 aos 17, 18 anos. Quando listei propositalmente nove canções, ampliando a proposta original do blog de Neves,  que era de cinco, eu argumentei que nove era pelo menos  melhor do que dez, já que obrigaria a um corte mais rigoroso na triagem da memória. Era só meia verdade, claro, isso no fundo não existe, ninguém é “mais rigoroso” com a memória dos afetos e daquilo que de alguma forma será decisivo naquilo que nos forma.  Waly Salomão escreveu num poema e  repetia sempre que “a memória é uma ilha de edição”.  Entendo que o que fica invisível no que guardamos depende de algum imponderável, de alguma circunstância para se mostrar com sua potência de irreversível no retorno à memória,  algo  que nos iludíamos de ter apagado.  No máximo a gente pode  brincar de ser rigoroso.
                Quando fiz a tal lista, uma canção em particular me foi muito difícil deixar de fora, mais do que todas as outras que acabei excluindo: “Il ragazzo della via Gluck”, de Adriano Celentano, uma canzone entre o folk e o fuleiro rock italiano dos anos 60 (a canção constava de um disco do Festival de San Remo, acho que de 66 ou 67, que tinha lá em casa). Talvez o aspecto meio folk, talvez o fato de Celentano ser milanês, talvez o atrativo de a rua ser homenagem a Gluck, compositor alemão do século XVIII que se tornou uma espécie de legenda em Milão, não sei bem, o fato é que a canção despertou a simpatia do meu avô – que abominava tudo o que não fosse “música séria” - , a ponto de ele me traduzir  verso a verso a letra: se bem lembro, era uma nostálgica estória de um sujeito que sai da província, de sua casinha humilde na rua Gluck e vai enriquecer  na cidade grande e que, ao retornar, reencontra tudo modificado pela urbanização que chegara também a sua aldeia: “Lá dove c’era l’erba” agora é “catrame e cemento” (...) Eu adorava essa canção, ela me mostrou pela primeira vez a dualidade campo-cidade, que no meu dia-a-dia eu vivenciava já, entre este brejo aqui onde afinal vim a morar depois de tanto tempo, e a Copacabana onde morei até me tornar adulto.  A canção de Celentano me fazia ainda vislumbrar outros elos de identificação, entre mim, o personagem da canção e meu avô, entre Brasil e Itália. Se não me engano, falava até mesmo num trem, o trem que eu pegava quando garoto para vir aqui para a roça. Parênteses: escrevo isso do trem e me lembro de “Morro velho”, uma das canções iniciais de Milton Nascimento, da mesma época, e que também me encantou por questões parecidas
                Mas acho que agora, no fundo, tergiverso. O imponderável se mostrou aqui outro dia num carro barulhento que entrou pela ruazinha lateral. Quer dizer, barulhento era o sistema de som do carro, que enquanto esteve por aqui parado, vendendo ou consertando bugigangas, tocou uma coleção de músicas cafonas bem no estilo dos anos 60, embora eu não conhecesse nenhuma delas. Não era o brega – como passou a se chamar – derivado do sertanejo como hoje, era o cafona derivado justamente do rock-balada-canzone italiano, matriz de muito da nossa jovem guarda, Roberto Carlos à frente.  O imponderável se fez presente justo porque me fez lembrar muitas daquelas canções que eu ouvia nos anos 60,  e fiquei me perguntando,  ao mesmo tempo em que delas me lembrava, porque nenhuma entrou na minha seleção das nove marcantes.
                Revi a lista (está em http://robertobozzetti.blogspot.com/2010/12/na-memoria-cancoes-que-ficaram-plagiado.html) e não, ela não é mentirosa não, quer dizer, o que ela possa ter de mentira não compromete a sinceridade do esforço de memória. Mas fiquei pensando se nenhuma daquelas canções cafonas teria aí seu espaço.  Talvez mesmo não.  Mas insisti e me obriguei a pensar porque nenhuma delas sequer me chegou à lembrança na hora de pensar nas que marcaram.  Ou seja, resolvi mesmo me incomodar. E aí fui olhar a minha lista mais uma vez e fiquei com uma certa vergonha do que ela parece ter de pseudo e de bem-pensante.  “Pseudo” aqui vai exatamente como “vontade de me mostrar bem-pensante”.  Chego a quase corar ao ler aquelas justificativas, justo pelo que elas possam conter de verdade e não de mentira. A verdade de um poseur!
                Me senti numa espécie de obrigação quase moral de falar delas, mas não quero criar um “acervo” especial, uma espécie de gueto para a memória.  Até porque  me lembro que quando eu ouvi o primeiro LP de Paulinho da Viola, em 1968,  alguns versos que ele canta,  tais como “fácil demais fui presa/servi de pasto em tua mesa”, de Cartola, “não tardas em me dizer que vais embora”, de Nelson Cavaquinho, e outros, me pareciam mais próximos da poética cafona do que da poética mais moderna dos seus companheiros de geração na “MPB”.  Por outro lado, o mesmo Paulinho no mesmo disco,  nas canções de sua autoria, distanciava-se dessa poética tradicional do samba, de maneira muito sutil, mas se distanciava – sem polemizar ou “desconstruir”.  Essa é uma das razões do seu encanto e de sua dificuldade – seu “mistério” –  desde então para mim.  E “Coisas do mundo, minha nega”, que é desse disco, é ela mesma uma discussão sobre isso.
                Sobre o repertório cafona, Paulo Cesar de Araujo escreveu um livro valioso, Eu não sou cachorro não (Record),  abordando essas questões, que me voltam com freqüência, num livro que eu vou reler.  Mas, embora a pertinência de muito do que ele diz, não dá para concordar com tudo não.  O tema é fascinante, eu vou voltar a ele possivelmente aqui mesmo neste blog.  Agora, o que me parece dizer alguma coisa, embora talvez eu não saiba lá muito bem o quê, é que, seja como for, essas canções de que falo aqui não me marcaram para sempre, como aquelas que eu indiquei marcaram, fossem cinco ou nove.  Isso é possivelmente mais um sintoma de,  mais do que querer parecer, ser  de fato “bem-pensante”, o que não me agrada.  Afinal, o “bem-pensantismo” é o senso comum, é o “bom-mocismo intelelectual”.  Abomino bom-mocismo.
                Afinal, que canções me voltaram, de que canções estou falando eu aqui?  Uma rápida vasculhada na memória me aponta aquela que talvez tenha sido a mais marcante: “Eu não presto, mas eu te amo”, cantada por um tal José Roberto, de quem nunca mais ouvi falar; e a canção, vou ver até se tenho como conferir isso, parece que foi composta por Roberto Carlos.  Que também compôs, se não me engano, “Meu grito”, primeira gravação que eu me lembre de sucesso de Agnaldo Timóteo.  Roberto Carlos me inundou de canções marcantes, ele sempre foi especial na turma,  e até hoje ouço com muito prazer sua discografia até o disco de 1971, que tem “Detalhes”, que me parece a sua obra-prima, uma das canções de dor de corno mais lindas já compostas no Brasil.  Havia outras canções sim, da época, mas não tenho nenhuma nitidez quanto a elas, o que possivelmente quer dizer que não foram tão marcantes assim.  Agora, seria um joio a ser separado do trigo?  Caetano disse uma vez que sabia diferenciar joio do trigo, só que às vezes ele optava pelo joio.  O que acho brilhante como formulação e, isso sim, muito verdadeiro.
                Curioso: resolvi procurar na net pela canzone de Celentano.  Para minha surpresa total há um vídeo em que ele a canta em português de Cabo Verde, com Cesária Évora.  Chama-se, “Quel casinha”.  Mas isso pede um outro post, outro dia.