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domingo, 17 de abril de 2011

BUCY MOREIRA ILUMINADO PELO FAROL DE FARO



Psiu. Ouça isso aqui. Mais até do que leia. Se quiser ler, aí vai a letra:
NÃO PÕE A MÃO
(Bucy Moreira – Mutt – Arnô Canegal)
Não põe a mão
No meu violão
Não não põe a mão
No meu violão

Você pode sambar se quiser
Com a minha mulher
Mas por favor
Não põe  a mão
No meu violão

Se você quiser eu dou
Um cigarro pra fumar
Empresto a minha mulher
Se você quiser sambar
Se você quiser dinheiro
Também posso emprestar
Faço qualquer sacrifício
Pra poder lhe agradar
Mas por favor
Não põe a mão
No meu violão
(Tira a mão daí)
Não põe a mão
No meu violão...

                Essa preciosidade de picardia, ginga e competência na composição ,na execução e no canto,  típica dos negaceios do samba malandro carioca é uma gravação de Bucy Moreira, grande compositor e ritmista – um dos pandeiros que ouvimos na gravação é dele – raro caso de sambista que faz o elo entre o samba “primitivo” da Praça Onze (era neto da legendária Tia Ciata) e a turma do Estácio, que frequentava.  Bucy (que é também grafado Buci Moreira) nasceu em 1909 e morreu em 1982.  A gravação aqui postada é de 1973 e foi feita para o programa MPB Especial, produzido e dirigido por Fernando Faro.


                Não são muitos os registros em que Bucy aparece com destaque, embora como ritmista sua atuação anônima em gravação dos grandes astros do disco e do rádio, desde a década de 1930, tenha proporcionado um considerável número de gravações.  Em seu disco de 1978, Paulinho da Viola gravou “Miudinho”,  e Bucy, ao lado de Raul Marques – outro nome proeminente do samba – e de Monarco, participou cantando os versos e atuando como ritmista, naquela que talvez tenha sido sua última gravação.
                É possível que existam imagens de Bucy em atuação aí pelos youtubes da vida. Eu nunca vi, mas adoraria.  A gravação que postei acima faz parte – a exemplo da de Blecaute, postada em 05/03/2011  http://robertobozzetti.blogspot.com/search/label/Blecaute  – do 1º. Volume da coleção “A música brasileira por seu autores e intérpretes”, lançada pelo SESC-SP, reunindo o acervo dos programas MPB Especial e Ensaio, criados e dirigidos por Fernando Faro.
                É hora de falar um pouco que seja de Faro, o Baixo.
                Fernando Faro é uma figura admirável.  Quem se interessa por música na TV brasileira sabe disso – e quem está chegando agora e ainda não sabe deve procurar saber logo.  É urgente, pois não saber quem é ele faz mal, só por isso. Um pouco de sua atuação, de sua vasta experiência e de sua vasta e cosmopolita cultura pode ser comprovada pelo leitor nesta interessante entrevista que achei num site de memória da TV no Brasil: http://www.tudosobretv.com.br/histortv/depo/faro/




               Há mais de cinqüenta anos dirigindo musicais na TV (entre eles, o explosivo “Divino, Maravilhoso”,  que os tropicalistas apresentaram para escândalo da audiência no finado 1968), Faro dirigiu palco também, e entre seus grandes êxitos está a primeira caravana de artistas brasileiros em Angola no começo dos anos 80, que reuniu entre outros Chico Buarque e Dona Ivone Lara.  Hoje com mais de 80 anos, olhar em retrospecto tudo o que ele fez é contemplar algo não menor do que uma proeza. Que o diga a coleção lançada pelo SESC.
                O Ensaio – ouço falar que a TV Cultura de São Paulo acabou com o programa e parece que dispensou os seus serviços, o que já é motivo suficiente para... rogar pragas terríveis para quem o fez, se for verdade – é a grande marca registrada de Fernando Faro.  Pela imagem e pelo som.  Pela imagem: Faro criou uma técnica de focalizar o entrevistado em close e em big-close, sempre sob uma fotografia de alto contraste, que acaba por captar com riqueza de detalhes as reações dos entrevistados na situação de entrevista, certamente diante das perguntas que generosamente lhes possibilitam discorrer sobre sua vida, narrar suas estórias.  E aqui o grande achado de Faro (não sei se inventado por ele, mas não importa): as perguntas dirigidas àquele que está em foco, nós, espectadores,  não ouvimos.  Elas são feitas em off, Faro, já por si só baixinho (ele carrega desde sempre o apelido de Baixo e dele fez outra de suas marcas: só se refere a seus interlocutores como “Baixo”), senta-se no chão na frente do  entrevistado e pergunta,  sem que ouçamos.  Ficam uns claros, umas hesitações, ou – pelo contrário – um entusiasmo, uma pressa às vezes, que contribuem esplendidamente para que ao final de cada entrevista tenhamos uma imagem audível bastante rica de cada artista enquanto conversador. 
                Alguns dos números que compõem a coleção já foram lançados em DVD – o de Elis Regina, inclusive, parece que com uma venda estupenda –,  não sei se o de Bucy saiu.  Não é o caso, mas ainda que fosse,  de várias de suas passagens já serem bem conhecidas do público – o que seria estupendo – ao postar aqui alguns fragmentos desse riquíssimo acervo não pretendo nenhum ineditismo ou coisa do gênero.  Eu quero é que os leitores aqui deste blog compartilhem esses momentos comigo. Como se fosse uma música que, ao tomarmos um amigo pelo braço, queremos que ele se comova com a gente e como a gente se comove.  Vou postando aos poucos grandes momentos do que está disponível. E vou postar sobretudo com esse intuito.  Que é proporcionado pelo grande farol que é Fernando Faro.






sábado, 5 de março de 2011

BLECAUTE, GENERAL DE CINCO ESTRELAS




“... o General da Banda tem até uma  história interessante... porque eu estava no Carnaval de... 49... já no final de 49, na terça-feira de Carnaval (...) mas havia uma batucada me perseguindo... era o General da Banda... me perseguia na rua,  com ritmo de macumba... ‘Chegou General da Banda ê ê... xic-gig-dig-DUM... chegou de General da Banda iê á...’ e eu digo, ‘Meu Deus do Céu, de onde é que vem essa canção, de onde é que vem essa música, de onde vem essa melodia?...’”
            Antropólogos, historiadores, aqueles que se dedicam ao estudo de tempos remotos, mitos, etc.  nunca chegaram a um  consenso sobre a origem do Carnaval, possível que nunca cheguem, “perdidos como chineses na genealogia das idéias”, para retomar a imagem oswaldiana.  O fascinante nessa fala de Blecaute, que canhestramente transcrevi acima e é possível ouvir no áudio postado,  é também o fato de ser uma fala às cegas na memória do nascimento do personagem carnavalesco que ele, Blecaute, acabou incorporando desde então: o General da Banda.
            Blecaute, “carioca de Pinhal, interior de São Paulo”, como o próprio deixa claro a seguir em sua fala, é um maravilhoso cantor.  Na minha memória afetiva a voz de Blecaute – e a de Jamelão – encarnavalizou-se para sempre: é a voz-corpo de antigos carnavais, como a de Neguinho da Beija-Flor é a voz-corpo dos atuais. Esse depoimento, com a interpretação subseqüente de “General da Banda” está no CD dedicado ao artista na série A música brasileira deste século [o XX] por seus autores e intérpretes, lançamento do SESC-São Paulo, sobre a qual voltarei a falar oportunamente.
            Se fica para uma futura postagem falar aqui da coleção e de seu grande idealizador, Fernando Faro, não posso deixar de anotar logo o seguinte: observe-se o insight de Faro diretor de TV ao iniciar o programa (pois os CDs são o registro do programa Ensaio da TV Cultura) aparentemente ao acaso, as palavras ainda meio indistintas na voz de cantor, para dizer de algo que é uma percepção também indistinta em sua memória: a idéia de que, em estado de batucada, em “ritmo de macumba”, o general da banda “o perseguia” num final de carnaval é uma imagem que sintetiza o mistério da genealogia do Carnaval, em várias dimensões, a começar pela dimensão pessoal do cantor ao desfiar a narrativa difusa de suas lembranças,  e estendendo-se para muito além.  Afinal: o que é um General da Banda, se não uma imagem ela mesma carnavalizada da hierarquia militar, que tanto susto causou aos brasileiros ao longo do século XX?  Veja-se Blecaute (grifado ainda “Blackout” em inglês “macarrônico”, a meio caminho do português hoje abrasileirado ou já dicionarizado) na foto da capa desse LP de 1959, incorporando já o personagem, comandando a desordem unida da folia.


O que é o General da Banda, o que é aquele “mourão, moirão”, que relação se estabelece entre esses farrapos de letra, vestígios de sentido, trapos de um desejo de sustentação e seu avesso (o general, que no entanto é da banda; o mourão, que catucado por baixo cai)?
            Vamos cantar!
GENERAL DA BANDA (Tancredo Silva – José Alcides – Satiro de Melo)

Chegou o general da banda ê ê
Chegou o general da banda ê á

Mourão, mourão
Vara madura que não cai
Mourão, mourão, moirão
Catuca por baixo que ele vai

(deixa amanhecer!...)
           
todas essas perguntas tem o seu quê de apenas retóricas, na medida em que também não nos interessamos muito pelas possíveis respostas, nem teríamos por quê. O “general da banda” incorporou-se para sempre ao carnaval, como o zé-pereira e o abre-alas.
            Os anos que atravessamos de ditadura militar trouxeram alguns hábitos engraçados, de que ainda restam vestígios, de se querer interpretar “politicamente” (no pior sentido do termo) tudo o que fosse presumivelmente cifrado para passar pelas malhas da censura.  Lembro que eu ria muito quando mais de uma vez ouvi que “General da banda”, com a “misteriosa” alusão, seria na verdade uma sátira cifrada ao general Mourão Filho, famoso no anedotário do golpe por ter se declarado a “vaca fardada” do Exército brasileiro...
            Mas é bom saber que Blecaute é um cantor esplêndido.  Eu não sabia com segurança antes de ouvir esse CD. Porque afinal de contas o General da Banda acabou por engolir seu criador, e Blecaute passou a ser muito automaticamente associado a essa figura quase folclórica, de um folclore urbano no pleno sentido da expressão.  Sua figura, e a minha infância funciona fortemente como impulsionadora dessa lembrança difusa que acaba por se converter em imagem fixa, ainda que não nítida, de expressivos traços negros em cabelo liso (séculos antes dos modernos processos de alisamento de cabelo) o mais das vezes envergada na farda caricata, seu nome artístico, denunciando o “racismo bonachão” brasileiro (como Jamelão, Noite Ilustrada, igualmente esplêndidos cantores, ou o mais recente,  o jogador Grafite), também obscureceram durante muitos anos o que para mim se tornou claro quando adquiri há mais ou menos um ano este CD.  Com uma dicção muito peculiar (que lembra às vezes Itamar Assumpção, séculos distante de qualquer subserviência de “negro de alma branca”), com uma voz bonita, cálida e um vibrante senso de divisão, Blecaute é cantor de primeira.  Que passeia muito à vontade por um repertório de alta qualidade.  Essas revelações preciosas fazem deste CD e de toda a série um deleite monumental e documental sobre a música feita no Brasil.
            Bom carnaval!