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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

ANTONIO CÍCERO


BLACKOUT

Passo a noite a escrever.
Do lado de lá da rua
poderia alguém me ver,
daquele prédio às escuras,
em frente ao meu,e mais alto.
Que voyeur me espiaria?
De interessante, só faço
escrever. Ele veria
decerto a parte traseira
do computador: talvez,
daquela outra janela,
avistasse, de viés,
o lado esquerdo da minha
face de perfil: jamais
entretanto enxergaria
certos versos de cristal
líquido, que mal secreto
com o sal do meu suor,
já anunciam segredos
só meus e de algum leitor
que partilhará comigo
o paraíso e o desterro,
o pranto que vem do riso,
o acerto que vem do erro.
Disso tudo, meu vizinho
nem de longe desconfia.
Mas e se ele, tendo lido
meus lábios, que pronunciam
o que na tela está escrito,
perceber-se desterrado
não só do meu paraíso:
do meu desterro, coitado?
E se ele a tudo atentar
e por inveja e recalque
me der um tiro de lá?
Melhor fechar o blackout.

Antonio Cícero. Porventura.  Record, 2012.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

POETAS REAGEM CONTRA A BANALIZAÇÃO

          Os poetas mandaram ver!  Frederico Barbosa lançou pelo Facebook seu Manifesto Anti-M.E.R.D.A. (Mercado Editorial Reprodutor de Asneiras)https://www.facebook.com/messages/?action=read&tid=ZvsIxrLKCUUuQh51YzWlpQ#!/notes/frederico-barbosa/manifesto-anti-merda-mercado-editorial-reprodutor-de-asneiras/232999056752440 que  em seguida  Claudio Willer repercutiu e reforçou, pondo também a boca no trombone no texto “Da flipização à bienalização” http://claudiowiller.wordpress.com/2011/09/13/da-flipizacao-a-bienalizacao/.

        
         Concordo com o diagnóstico da situação descrita em ambos os textos, por isso dou curso a eles aqui.      Não se trata, claro, de ser contra a FLIP ou a Bienal do Livro ou outros eventos do gênero.  A questão é que eventos desse tipo acabam reféns da mídia, no pior sentido da expressão: numa mídia cada dia mais destituída de senso crítico, num jornalismo “cultural” indigente que apenas faz juntar os releases das editoras a tiradinhas de falsamente insolente humor juvenil, nessa falsa disputa entre mariscos impróprios para consumo,  o mar,  não do lucro mas da glorificação do lucro pelo lucro, faz a festa e leva a parte do leão.  Livros como sabonetes, entrevistas como kits de maquiagem, escritores  como “artistas da TV”, críticos vistos como se fossem  laranjas, suspeitos de estar a serviço de alguma indesejável inteligência.
         O insuspeito José Miguel Wisnik chamou a esse processo num texto recente de “Jô-soarização da cultura” (pode ser lido aqui: http://sergyovitro.blogspot.com/2011/07/antonio-e-joao-jose-miguel-wisnik.html).

          Remeto o leitor a seu texto, mas acho bom destacar nele o seguinte: “O ponto a que me refiro é a tentação de opor automaticamente performances capazes de entreter o público a performances tidas como excessivamente intelectualistas e acadêmicas. Em primeiro lugar, esse é um falso problema quando supõe que a atenção do público seja necessariamente oposta à reflexão. Não é isso que se vê de uma maneira geral. Em segundo lugar, a diferença entre entretenimento e crítica tem que ser afirmada contra a tendência, também existente, à conversão do mundo num talk-show generalizado — no limite extremo, numa espécie de compulsória jô-soarização da cultura.”


           Quando digo que Wisnik é insuspeito é justo porque em primeiro lugar se trata de um intelectual (palavra que soa estranhamente anacrônica hoje, não?) que circula com bastante desenvoltura por esses espaços (midiático e acadêmico)  que a estupidificação em curso timbra em ver como excludentes no mesmo  movimento em que timbra por fazer crer que não o sejam (desde que, “ao fim do processo”, a palma da vitória fique com o midiático).  Ou seja: Wisnik não teme o midiático.  Mas isso é só meia verdade: Wisnik não o  teme porque sua substância vem do “outro lado”, seu pensamento profundo e percuciente se alimentou e se alimenta do melhor leite da alta cultura.  Ao lado de Antonio Cicero, outro insuspeito (que aliás, não fez carreira no meio acadêmico), Wisnik tem produzido ao longo dos últimos anos muito da melhor reflexão sobre a cultura brasileira e sobre o patamar mundial dessas discussões  vistas desde o  Brasil.  O que vale também para Cícero, o excelente letrista de Lulu Santos e de Marina Lima e autor do que é para o meu gosto pessoal (“não precisa ninguém me acompanhar”)  o melhor livro de poemas da década até aqui, o excepcional A cidade e os livros, sem falar  das amplas e profundas reflexões de Finalidades sem fim.   E citei entre aspas e parêntesis ali em cima o Caetano Veloso de “Jeito de corpo” não à toa.  Matriz brasileira da melhor obra e reflexão sobre o embate alta cultura/mercado/mídia, o insuspeito sempre suspeito Caetano leva-nos muitas vezes à exasperação com sua perturbadora capacidade  de saber distinguir o joio do trigo e optar consciente e estrategicamente  muitas vezes pelo “lixo”  do joio.
                Queria só ajuntar essas observaçõezinhas mesmo descosidas em reforço ao estágio atual da discussão tal como ela se coloca nesses textos.  Queria apenas que os que aqui me leem, especialmente meus alunos e ex-alunos (ai, esse ofício de professor...) parassem para refletir um pouco sobre todo esse processo perverso que busca converter o mundo da inteligência num vasto painel de tolas celebridades, em que os livros não são mais discutidos pelo que eles trazem (se é que em algum momento no Brasil o foram), mas pelo que eles vendem, em que as referências vão sendo perdidas e vão se dissipando e se diluindo em contato com a maré tsunâmica da indiferença e da indiferenciação conceitual que nos varre.
                Está na hora, por fim, de dar mais atenção aos que antigamente Umberto Eco chamava de “apocalípticos”, opondo-os aos “integrados” (por mais que essas categorias tenham sido elas mesmas justamente problematizadas).  Um pouco de má-vontade (pra começar) contra a alarmante banalização pode ser reforçada nesse momento pela leitura estimulante – mesmo pelas discordâncias e incompreensões que venham a suscitar – dos que há muito não apenas esbravejam, mas estimulam as discordâncias (inclusive quanto à própria matéria literária e teórica),  de Alcir Pécora a Flora Süssekind, de Costa Lima a Silviano Santiago, para ficar apenas na prata da casa.   Com o recurso hoje muito franqueado a se fazer ouvir e ler, pode ser que o intelectual – no sentido que essa palavra tinha no século XIX, de intervenção na vida pública – possa redefinir o seu papel, para além da quase total invisibilidade atual que o acomete.


domingo, 22 de maio de 2011

SAMPA MIDNIGHT E OUTROS TESOUROS DO OCEANO ITAMAR




SAMPA MIDNIGHT


Sampa midnight
eu assessorado de mais dois chegados
          Bartolomeu Pitolomeu
partimos pra comemorar
                               não lembro o que
        numa boa boate


Escabrosa noite
deu black-out na Paulista
         breu no Trianon
cadê o vão do Museu?
                       Sumiu
Meu Deus do Céu
                         (que escuridão!)


Três seres transparentes baixaram
                     não sei de onde
imobilizando a gente e gritando: “Não somos gente!”


Brilhavam
não tinham dentes
traziam cortantes tridentes
incandescentes nas frontes
três chifres
falavam rapidamente
com gestos intermitentes
simultaneamente
sons estridentes
incríveis!


Sampa midnight
eu chumbado com mais dois embriagados
            (vários...)
                   Pitolomeu Bartolomeu
quisemos levá-los prum bar
mas qual o que
            tomamos xeque-mate


Tenebrosa noite
Faltou light na Paulista
              breu no Trianon
cadê a Consolação?
         escureceu
                o Museu
                             Meu Deus do Céu
aonde está o chão?

Um trio intrigante
desceu do céu num instante
intimando a gente e gritando: “Não somos gente!”


Cantaram de trás pra frente
letras fortes e indecentes
músicas bem excitantes
provocantes
rumbas funks
cantaram de trás pra diante
uns reggaes
bregas de breque
chiques
bastante pique
sambas de roda
chocantes!


Sampa midnight
eu assessorado de mais dois chegados
                 Bartolomeu Pitolomeu
partimos pra comemorar
                                         não lembro o quê




             Itamar Assumpção (1949-2003) é muito menos conhecido do que deveria – pelo menos para quem mora no Rio. Mas longe de cair em lamentações por conta disso, o que é sempre tão corriqueiro, melhor é apostar no que vaticina Luiz Tatit, de que por muito tempo ainda e cada vez mais ouviremos falar de sua música. Porque a obra de Itamar Assumpção é assustadora em sua abissal beleza.
             E é uma obra relativamente grande, da qual tudo indica ainda restar muita coisa inédita. De 1981, com o LP Beleléu, Leléu, Eu(Nego Dito), até 1998 com o CD Pretobrás, Itamar lançou 9 discos, sendo um deles, Pra sempre agora (1995) dedicado aos sambas de Ataulfo Alves. Ano passado (ou retrasado?), assistindo ao excelente “O som do vinil”, programa de Charles Gavin no Canal Brasil, fiquei sabendo que o SESC-SP (sempre ele!) estava lançando a Caixa Preta de Itamar Assumpção, reunindo todos os discos do compositor. Na ocasião não dava pra eu comprar, deixei para quando desse. Aí... como costuma acontecer no Brasil: quando eu fui, já não tinha. Mas foi lançada recentemente uma segunda tiragem e eu finalmente adquiri meu exemplar. São 12 CDs, incluindo os póstumos Isso vai dar repercussão (com Naná Vasconcelos) e Pretobrás II e III. Estão disponíveis na loja do SESC-SP, inclusive pela internet.
             Empolgado pelo contato revigorado com Itamar – alguns dos discos que eu possuía tinham-se ido sei lá para onde – fiquei sabendo também que em 2006, a Ediouro, com organização de Luiz Chagas e Mônica Tarantino, e com o patrocínio da Petrobrás, Itaú Cultural e revista Istoé, lançou Pretobrás: por que que eu não pensei nisso antes?, definido como “livro de canções e histórias de Itamar Assumpção”, reunindo em dois volumes magnificamente produzidos um excelente material que vai de depoimentos pessoais de quem conviveu com o artista até uma ótima análise feita por Luiz Tatit, além, claro, das transcrições musicais a cargo de Clara Bastos, contrabaixista que tocou em vários de seus discos.



               Aliás, contrabaixo era o instrumento de Itamar. A primeira vez que vi sua esguia figura de porte altivo foi empunhando o instrumento na apresentação de “Sabor de veneno”, num festival da extinta TV Tupi em 1979, composição de Arrigo Barnabé. Saudades do futuro aqui: um tempo em que ainda havia espaço para surpresas estéticas pela TV. A sensacional canção era apresentada por Arrigo e banda, com três cantoras (seriam Tetê Espíndola, Vânia Bastos e Neusa Pinheiro, acho) e Itamar, com sua voz grave e firme, ajudava também nos vocais. Depois disso... depois disso foi uma história que entrou para a história da canção no Brasil, mas à qual pouca gente prestou atenção. Era a Vanguarda Paulistana, efervescente agitação criativa em torno do Teatro Lira Paulistana na primeira metade dos anos 80: além de Arrigo e Itamar, o Premeditando o breque, o Grupo Rumo (de Luiz Tatit e Ná Ozzetti), e ótimas figuras circundantes, como o divertidíssimo humor escrachado do Língua de Trapo e as privilegiadas gargantas de Vânia Bastos e Tetê Espíndola. Era difícil acompanhar do Rio o que acontecia na cena paulistana naqueles anos, era difícil conseguir seus discos, assim como era difícil acompanhar o trabalho também maravilhoso que Tom Zé não tinha parado de produzir e que viria a ser redescoberto por Byrne no fim daquela década. Na minha cabeça eu achava que o velho baiano e os novos paulistanos iriam acabar se encontrando, e desse encontro sairiam os frutos que revigorariam os caminhos da invenção na MPB.
             Não foi o que aconteceu. Nos anos imediatamente seguintes o que veio foi o rock principalmente carioca, o BRock dos anos 80. Com seu sucesso avassalador e de baixo custo para uma pré-falida indústria fonográfica, o rock dos 80 deu as cartas do visível/audível na cena pop brasileira. O pessoal de São Paulo ficou mesmo restrito, circulando em espaços praticamente alternativos. Uma inventiva e sofisticadíssima – no melhor sentido da palavra – música acabaria relegada quase ao anonimato. Tenho horror a martirológios e longe de mim querer bater nessa tecla aqui, até porque houve muita coisa de bom também no BRock. Mas ficou uma espécie de moda tola entre alguns roqueiros e sua “entourage” midiática – principalmente no Rio – de passar a considerar “chata” a música do pessoal em São Paulo. E isso a despeito de Itamar ter mostrado, numa apresentação no Rio no Teatro Carlos Gomes, acho que em 84, a mais bela interpretação que ouvi de “Fullgás”, obra-prima e mega-sucesso de Marina Lima e Antonio Cícero. Mas o jeitão blasé típico do Rio converteu em moda Cult desdenhar de Arrigo, Itamar e tal.
             “Sampa midnight” aqui postada é a minha canção preferida do grande Itamar – e não é fácil optar por uma “preferida” no seu repertório. Dá título ao seu terceiro trabalho, de 1985. Os desalojados da “maloca” pela aceleração brutal do progresso paulistano, captados por Adoniran nos anos 50, assim como os deserdados de Vanzolini, rondando o bas-fond, depois de darem lugar à utopia nova-baiana da “Sampa” caetânica, eram agora os três chumbados embriagados às voltas com as rondas ostensivas de extra-terrestres aterrorizando os periféricos que se aventuram na nobre região do Trianon e do MASP. Estávamos nos estertores do regime militar e mal sabíamos que pouca coisa melhoraria, ao contrário do que sempre queriam fazer crer as canções utópicas de Chico Buarque – menos por responsabilidade dele, diga-se, essa “crença”, do que daqueles que o viam como o arauto do que ele mesmo acabou configurando como “loucura”, “delicadeza perdida”, como novo estado (permanente?) do Brasil e dos brasileiros.
             Em Itamar, e nesse sentido “Sampa midnight” é exemplar, aprendemos a distinguir de vez o prolífico do prolixo. Prolífico: os CDs de Itamar vêm sempre com grande número de faixas (à exceção de Bicho de 7 cabeças, dividido em 3 CDs), algumas às vezes dando a impressão de rascunhos, anotações à margem, vinhetas. Mas nunca prolixo, Itamar é paradoxalmente econômico ao lançar mão de recursos musicais, tanto nos achados da feitura de seu “rock de breque” (como diz Tatit), quanto nas letras, cortantes, enxutas, de sonoridades paronomásticas exatas como corte ou perfuração de arma branca. Tudo em reforço também da economia de seu canto, contido, sussurrado, voz de quem precisa falar baixo e se subdividir, prismatizar em ecos e ressonâncias, antes de se desafogar aqui e ali – e quando possível – em grito. E ainda por paradoxal que possa parecer, embora geralmente acompanhado de grandes bandas, com 7 músicos ou mais, tudo parece detalhadamente calculado, pensado, executado para fugir aos tuttis e às grandiloqüências. Certamente músicas de difícil execução, a exigir muito dos músicos. Músicaletras nas quais reconhecemos, à frente do baixo funky de Itamar (mesmo quando não é ele que o toca, o arranjo é), elementos de rock (quando surgiu Itamar era para a imprensa o “Hendrix de Vila Madalena”), reggae, rap, funk, batuques diversos, samba, além de uma levíssima – mas presente, estou certo – impregnação caipira (no sentido próprio do termo), perceptível a partir de seu sotaque de Tietê (berço de grandes artistas da música caipira) e de suas letras fundamentadas em sua maioria em redondilhas, embora em emprego sempre surpreendente.
            Itamar é uma imensidão, um oceano, um mundo a ser ainda descoberto em plenitude por bons nomes de nossa cena musical. Cássia Eller o gravou, assim como Zélia Duncan, bem como outros nomes mais identificáveis apenas – e muito infelizmente – à cena musical paulistana. Sua obra resistirá por muito tempo, revigorada, sampleada, apropriada em muito do que a cultura hip-hop, por exemplo, pode também dela haurir. No pós-colapso da indústria fonográfica, que estamos assistindo, a pulverização de novos criadores e novos públicos permite pensar com muito otimismo no quanto ainda ouviremos do que Itamar compôs em sua rápida trajetória. Querido leitor-ouvinte, ouça aqui na minha “vitrolinha” e procure conhecer mais desse artista excepcional.