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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

POUCA VERGONHA. FAZ MUITO TEMPO.


Em 1982 dei por pronto o Pouca vergonha, que teria sido meu primeiro livro a ser editado.  Era um volume que reunia 43 poemas, com uma estrutura dual – no fundo, o velho Ariel e Caliban que Álvares de Azevedo foi buscar em Shakespeare– mas internamente desordenada. Sendo mais explícito: uma parte dos poemas seria regida pela “Musa séria”, outra pela “Musa galhofeira (paródica e autoparódica)”, só que entremeadas na estrutura interna do livro, nem sempre havendo uma delimitação clara entre as duas partes – ou as duas musas.  Mas como na verdade  eu achava importante, mais do que deixar claro essa diferença entre, digamos, o “espírito” dos poemas,  sinalizar para uma suposta “originalidade” na estrutura do livro, urdi o seguinte: os poemas de índole paródica entrariam e sairiam de maneira intempestiva,  irregularmente,  de modo a tentar desmanchar o discurso sério dos demais e causar algum estranhamento no  leitor pela  sua ocorrência inesperada, como se os poemas na verdade fossem  quase que  uma anotação apócrifa, irreconhecível, perturbadora e meio que incontrolável ante o tom dos demais.  Para isso, resolvi brincar com um dado que cultivava ainda  certo anacronismo, homenageando uma paródia radiofônica, o programa PRK-30 (Lauro Borges e Castro Barbosa!), que naquele começo de década de há muito já não existia, mas de que sempre ouvira falar e do qual tinham sido feitos  dois LPs que eu ouvia a ponto de arranhá-los pelo uso.  Assim, o título do livro ganhou um subtítulo e ficou deste jeito: Pouca vergonha – com a interferência da transmissão apócrifa e clandestina do radiolivro O sarau do troglodita.

         Foi em 1983, enquanto eu cursava  uma excelente  especialização em Modernismo na UERJ – que então iniciava a sua pós-graduação – que a professora Dirce Cortes Riedel, de querida memória, que coordenava o curso, leu meu livro, gostou e me encaminhou a um editor no Rio, de editora que publicava muita poesia – bancada pelos autores, claro – e que vinha ganhando certo prestígio no meio intelectual.  Daí para a frente tudo deu errado com meu Pouca vergonha: recebido o dinheiro adiantado, a pretexto de que era muito trabalhoso graficamente,  devido às irrupções “incontroláveis” do troglodita em seu sarau, que previa uso de tipos diferentes de letras e  dificultaria ainda sobremaneira a paginação e a diagramação do volumezinho (o que não deixava de ser verdade), o fato é que  o editor acabou me enrolando, pretextando problemas de ordem gráfica cada vez mais insolúveis, sem jamais vislumbrar  soluções alternativas, e acabando por não produzir livro nenhum.  Enfim: me dando o cano.  Depois de quase um ano de idas e vindas na tentativa de editar o livro , acabei por processar  editor e editora – foi quando eu soube que era mais um que o fazia –,  e lá por 1986, 1987 talvez,  ganhei a causa, recebi de volta a grana, mas... já não queria mais saber do Pouca vergonha.  Achava-o muito datado, muito colado a um  pastiche de poesia marginal, mais  do que propriamente paródia de qualquer coisa, deixei-o para lá.
         Tem algum tempo, topei aqui em casa com o livro datilografado, cópias de poemas que o integravam e de muitos outros, e em meio a um papelório em vias de ir-se em pó, repassei o Pouca vergonha para o arquivo do computador.  Como eu recuperei também  várias anotações, consegui determinar a data de alguns poemas, pena que menos da metade deles.  Mas dá pra saber com segurança que foram escritos entre 1976 e 1982, ou seja, dos meus 20 aos 26 anos, praticamente durante toda a minha graduação em Letras.   Me divirto ainda hoje com alguns deles, especialmente os paródicos – embora datados, alguns são comentários que ainda acho divertidos, muitos versando sobre poesia e vida literária, alguns até  bem resolvidos poeticamente, segundo avalio; os mais “sérios” são praticamente todos insalváveis.  Ainda assim, para minha surpresa gerada pela desmemória,  me toco que um poema do Firma irreconhecível, que inclusive já postei aqui, “Obversão”, é uma retomada de um poema do livro antigo.  E quanto aos  humorísticos, uma vez ao mostrar ao Marcelo Diniz a tresloucada “biografia de Victor Hugo” que consta do conjunto, ele disse que eu era “o inventor do besteirol”, e acho mesmo que o disse  em intenção, se talvez se possa assim dizer, sem me enganar, quer dizer, salvo engano, ou má avaliação, digamos, elogiosa.


 * v. Nota ao final

 

 
 
Lembro ainda que quando pensava editá-lo eu queria que a capa do Pouca vergonha, assim como  todo o trabalho gráfico do volume, evocasse um tipo de desenho antigo que de vez em quando eu via n’O Pasquim.  Sem ter muita certeza do que seria, pensava em algo como se fossem gravuras sacanas,  e ao mesmo tempo inocentes,  de crianças em situações ambíguas, embaraçosas sem perder  a aura de inocência infantil... como de vez em quando eu topava com Fausto Wolff, remanescente dos tempos heróicos do velho semanário, falei com ele do que eu estava querendo,   e ele prontamente dispôs me atender – já contei isso aqui também – me arranjando  umas cópias de ilustrações  de ótima qualidade exatamente do que eu pensava.  Creio que na ocasião ele não me falou nada da autoria daqueles maravilhosos desenhos, que desde há algum tempo, passeando pela rede, descobri tratarem-se de obras de uma gravurista francesa do século XVII, Claudine Bouzonnet-Stella (1636-1697).  Aqui neste link http://semema.com/brincadeiras-e-jogos-infantis-do-seculo-xvii/   
há uma boa amostra dessas gravuras, que trazem ainda pequenos – e deliciosos - poeminhas como legendas, várias das quais – como a que ilustra esta postagem, ‘ “Brincadeira do peido na cara”  – estavam entre as que Wolff me apresentara e presenteara. 
         Quanto aos poemas do livro propriamente dito, agora ao preparar este texto dei uma passeada pela “Advertência” que o abre.   Me deparei com parágrafos assim:          
“foi só me pôr a refletir na multiplicidade de eus que me habitavam que a interferência se insinuou decisiva: “aí hem, realizando seu sonho, seu fernando pessoa de merda!” 
         Bem, todo este passeio me ensejou a fazer uma postagem que trouxesse um pouco do Pouca vergonha aqui para o Firma irreconhecível.  Posto portanto a seguir dois poemas da “Musa séria” ensanduichando quatro pequenos poemas paródicos.  Estes têm por título geral  “Rápidas apostilas: Supletivos de todos os graus”;  abro e fecho com os dois da “Musa séria”: respectivamente,  “Quadro”  e “Instante”, este talvez o mais antigo do conjunto, amostra fiel da minha “lira dos vinte anos” particular.
 
 

QUADRO

 
 
no almanaque
encontrei um teu retrato.
fiquei com saudade olhando pra mim
e espanei a poeira daquilo
que hei de viver um dia
numa cidade de sonho
e concreto
 
tão perto
um teu retrato me dizia de tudo



 
(rápidas apostilas:
Supletivo de todos os graus
 
 
(militarização pedagógica
 
 Instrução
 
ensinam a deitar no chão
e fingir de morto

                            (literatura
 
Modernidade
 
alguns vestidos têm fímbria
outros gente dentro


 


                            (na idade de ler Proust

 

 O pequeno-burguês aposentado

 
EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO
     às custas do dinheiro ganho


 

 


                                                     (história natural

 

 
              Evolucionismo

 

não tendo mais feijão
daremos graças
pelo arroz concedido

não tendo mais arroz
daremos graças
pelo pão concedido

não tendo mais pão
daremos graças
pelo sal concedido

e não tendo mais sal
lamentaremos
tanto mar

 
 

                                                                                                       INSTANTE
quebro o vidro da noite
e te acordo
 quem me cortou bruscamente o sonho?
quem caminha pela calçada?
quem foi que matou a mulher
no desespero da madrugada?
quem volta bêbado e exausto
de mais noites amarguradas?
quem perdeu seu amigo e agora
corta os pulsos exasperado?
quem acabou o poema
e fecha a tampa da privada?
quem beijou minha boca hoje?
quem me trouxe para casa?
quem me puxou as cobertas?
quem me aqueceu do frio?
quem morreu por mim agora
ou pela desconhecida amada?
quem quebra vidros a essa  hora
de perguntas mal acordadas?
 
dormes.
 
 






* Nota: Ao pé da gravura, reproduzida em publicação tal como colhida na fonte indicada no site acima, há,  sem indicação de autoria, os seguintes versos:


 “Ce plaisir est fort innocent,
Et dans ce jeu divertissant
Les enfants se donnent carrière;
Mais, comme ils se serrent  de pres,
Soit par megarde, ou tout express,
Le nez doit craindre le derrière.”


Na época do Pouca vergonha
 


 


 
   


 
 
 


 

 

 

 

 


 

 
 
 


 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

O DIA EM QUE FAUSTÃO ME PARABENIZOU POR CONTA DE AÉCIO


        Se o desavisado leitor bateu com os costados aqui neste blog, achando que o Faustão em questão é o Fausto Silva, devo dizer que pode xingar e desistir: não, querido e incauto leitor, o Faustão aqui não é o Silva das tardes domingueiras na Globo e,  naqueles tempos em que se passa a breve estorinha que vou contar,  ele era apenas o perdido na noite paulistana.  E aqui acaba a referência a ele, tchau.  Já o Aécio é ele mesmo, o Aébrio Neves, dublê de bon-vivant e de  atual presidente do PSDB, dublê nada, um talento múltiplo pra coisa alguma  que não seja estar em evidência.  E a gente ia começar a saber disso  justo por aqueles dias, em torno do enterro do avô dele, o Tancredo, quando sua  figura chorosa comovia quem está sempre disposto a se comover por qualquer coisa (aliás, o que o avô dele fez na vida, além de ter herdado a caneta do Getúlio e ter morrido pra nos deixar nas mãos de Sarney?). Mas tergiverso. O ano devia ser 1985.  1986, talvez?  Tínhamos passado pela ditadura, depois, com a derrota da emenda das eleições diretas para presidente, passáramos também  pelo trauma de ter que aturar a costura pra botar Tancredo no poder, enfim, a decepção maior de todas de ter tido que engolir mesmo Sarney na presidência.  Listando essas coisas aqui me toco de que no Brasil, se bobear, nos sentiremos sempre numa espécie de “ressaca cívica”.

            Bom, mas o assunto é outro. Sem mistérios e sem mais adiamentos: o Faustão em questão  é Fausto Wolff,  acho até que mais merecedor do sufixo de aumentativo ão do que o outro, pois tinha fácil uns dois metros de altura.  Faustino Wolffenbüttel, ou Fausto Wolff,  era um combativo jornalista, bom romancista também (Matem o cantor e chamem o garçom, O equilibrista pede desculpas e cai, além do infantil Sandra na Terra do Antes são ótimos livros) que integrara a turma do Pasquim dos tempos heróicos e que fora um dos últimos a abandonar o barco – naqueles últimos tempos ainda criara o impagável colunista social e escroque Natanael Jebão.


Eu me aproximara de Wolff quando, atrás de capa  e ilustrações para o que seria meu primeiro livro, Pouca vergonha, que acabei não publicando, fui bater um dia, em 1984, na redação do velho hebdomadário – já na Rua da Carioca, sua última sede. Lá estava a  sua figura imensa, que me acolheu e me ouviu com muita delicadeza,  embora eu mesmo  não soubesse com precisão o que queria;  eu  pensava conseguir, para ilustrar meu livro,  umas figuras sacanas, uns desenhos  a bico de pena que eu me lembrava de ter visto, por conta de sei lá  qual escaninho da memória,   em livros antigos, umas     figuras de anjos, de crianças em jogos de diversão e de ambíguas e sugestivas posições sexuais, uma mescla de candura e safadeza, que de certa forma presidia o espírito daqueles poemas dos meus vinte e poucos anos, e onde  o neocaretismo insuportável de hoje veria indícios indisfarçáveis de pedofilia.  Fausto me disse que achava que tinha, sim, o que eu procurava, e se colocou inteiramente à disposição para me fornecer o material, que ele mesmo recortaria e que eu montaria da forma que achasse melhor para o que pretendia.  Muito gentil, muito solícito, muito afetuoso, me deu telefone e endereço para que eu ligasse e, assim que ele estivesse de posse desse material – acho que ele desencavaria  lá mesmo no Pasquim –,  eu marcasse de pegar com ele.  Assim foi feito alguns poucos dias depois, quando me recebeu em seu apartamento, com várias gravuras, melhores do que eu poderia supor, e travamos uma certa camaradagem.  Saímos dali para beber uns goles e falar da vida, não lembro onde, num boteco qualquer, acho que em Ipanema.  Faustão bebia em doses industriais, eu jamais seria capaz de acompanhá-lo, mas para um pontapé inicial no que parecia ser uma das de sempre para ele longa noite etílica, travamos, se não uma amizade, longe disso, uma cordial camaradagem, que de vez em quando se renovava ao sabor de encontros ao acaso.

            Apesar de nosso pouco contato, não deixa de me comover de certa forma a lembrança  de que, ao ser homenageado com o título de Cidadão Carioca pela Assembléia Legislativa, Faustão fizesse questão de me mandar convite, de dizer que contava comigo lá na sessão solene e, uma vez cumprido o prometido, demonstrasse ter ficado  feliz da vida que eu tivesse ido.  Ficou feliz da vida com todos os que lá estivemos. 

            Mas agora estamos em 1986, eu trabalhava no Centro do Rio, na agência principal da CEF e ia, em horário de almoço, pela Rua da Carioca.  Eis que em frente ao Bar Luiz (aliás, onde mais?), me surge a enorme figura do Faustão a me abrir os braços e a me envolver num abraço enorme a clamar “Parabéns! Parabéns, meu jovem!”  Eu estava com alguém -,não lembro quem - , ele também vinha acompanhado não sei de quem.  Nossos acompanhantes olhavam o efusivo cumprimento sem entender; como, aliás, eu também.  Faustão aumentava o volume e o entusiasmo dos parabéns, além de ficar cada vez mais vermelho de tanto que ria.  Quando resolveu explicar não o fez para mim nem para os que nos acompanhavam, e sim para a Rua da Carioca inteira, que abarcava com o olhar e com uma voz que se projetava por longa extensão.  Dizia mais ou menos isto: “Aproveito para parabenizar você, um jovem como o valoroso jovem que vai presidir a empresa em que você trabalha, afinal a  Caixa Econômica Federal  agora terá no seu comando um jovem de grande valor que nunca fez nada na vida a não ser ser o neto de Tancredo Neves, credenciais suficientes pra que ele possa gerir um banco social, como é a Caixa!”  E ria, seu olhar buscava cúmplice o meu, eu ri muito também com ele, trocamos impressões pasmas sobre o ridículo da situação, sobre o ridículo do país.  Mas Fausto exagerava: Aécio não ia na verdade presidir a Caixa,  ia "apenas" assumir uma importante diretoria na estatal.  Sem, obviamente, jamais ter feito carreira lá.

            Agora que na qualidade de presidente do maior partido de oposição (o sintagma é muito solene pra esculhambação que é a nossa vida político-partidária), Aébrio se põe a fingir que fala grosso (e dá pra notar que está  com a voz um tanto engrolada) ao pedir satisfações ao governo  sobre a confusão com o boato do término do bolsa-família,  talvez eu tenha me lembrado do episódio.  Mas não é isso que vai ficar não.  Como também não vou ficar aqui tecendo considerações sobre a nossa comédia politiqueira.  Em vez disso, prefiro reter a figura de Fausto Wolff, Faustino Wollfenbüttel, Natanael Jebão, admirável jornalista, ótimo escritor, desaforado, amável e irascível flor de pessoa,  combatente do bom combate, um quase amigo do qual me ficaram estas afetivas lembranças.