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domingo, 5 de dezembro de 2010

NA MEMÓRIA: O CANHOTA

            “Futebol se joga com os pés; a cabeça é pra pensar”.  A frase é atribuída a Gerson, o Canhotinha de Ouro, super-craque do meio-campo, a quem muito se deve o tricampeonato no México em 70.  Reza a lenda que Gerson, coerente com sua máxima, nunca arriscou a cabeça numa jogada dividida.  Mas seus lançamentos enormes e certeiros - lançamento de 40 m. era a toda hora – muitas vezes buscaram com precisão a cabeça de companheiros bem colocados para o arremate final.  Se naquela época houvesse a profusão de imagens que a tudo registram o tempo todo, é bem possível que essa lenda de se negar a cabecear fosse desmentida.  Afinal, uma vez ou outra, ele deve ter corrido o risco. 
            Gerson jogou num tempo em que eu acompanhava futebol bem de perto.  Adolescência, as coisas se gravam na retina com grande fixidez – e grande dose de invenção também, é claro – e tenho várias imagens em meu acervo de memória dos tempos em que eu ia com alguma freqüência às arquibancadas. E eu tenho uma imagem fixada dele.  Quer dizer, fixada em movimento.  No movimento da jogada.
            Devia ser em 1972.  Ou 73?  Bem, eu estudava na Escola Técnica, ao lado do Maracanã.  E tinha aulas também sábado à tarde.  Um sábado, mais insuportável que todos os sábados insuportáveis de aula,  pintou a oportunidade de, na linguagem dos inspetores, evadir-me.  E rápido evadi-me.  Uma aula matada num sábado à tarde era um regalo.  E tinha jogo no Maraca.  São Paulo contra não sei quem, provavelmente num Rio-São Paulo daqueles.  Eu ia mesmo fazer hora, porque depois ia namorar e a namorada morava ali perto.  Fui pro Maraca, pouca gente no estádio, o jogo não devia valer nada na tabela.  E fez jus à sua desimportância.  Estava um porre de jogo.
            Até que lá pelo meio do segundo tempo, 0 a 0 renitente e chatérrimo, a bola sobra pra ele, o  Canhota, ainda no seu campo de defesa, perto do grande círculo.  Como se diz, à feição.  Frisson nenhum percorreu o estádio, as arquibancadas vazias.  Mas justo pelo silêncio vasto deu pra ouvir que o Canhota gritou um “Vai!”, o braço direito foi pra trás e a perna esquerda mandou a bola a quem era endereçado o imperativo, um ponta-direita que correu lá no bico da grande área adversária a tempo de matar no peito e liquidar a fatura do jogo.  Não lembro de mais nada da partida.  Acho que terminou em 1 a 1.
            Essa imagem em movimento ficou em mim. Em movimento e som.  Na visão, o movimento do longo arco percorrido pela bola.  No ouvido, o “Vai!” do craque e o “pûc” seco do momento em que a bola foi chutada na precisão do lançamento.  Futebol é sinestesia.