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segunda-feira, 9 de abril de 2012

INTERIOR

            Como optei desde o segundo semestre de 2009 por vir morar no interior do Estado do Rio, num lugarejo serrano que conheço desde criança, que já foi uma roça propriamente dita, e hoje é quase que apenas uma localidade na periferia em torno do eixo Rio-São Paulo, como optei, dizia,  por vir morar aqui nesse – relativíssimo – isolamento, meus amigos e parentes, amamentados desde a amamentação propriamente dita na cultura urbana, passaram a me ver meio que numa teia de referências meio árcade bicho-grilo, meio bucólica, contaminados que somos todos desde sempre pela idealização da vida no campo, do interior e tal, com seu ritmo mais tranqüilo, seu dia-a-dia mais saudável, suas relações humanas mais cordiais, sua maior proximidade com as forças e potências da natureza, enfim.   Que haja um tanto disso tudo envolvido no fato de eu ter passado a viver essa opção, é fato. Eu mesmo brinco – acho até que já disse aqui mesmo neste blog – com esse bucolismo. Porque  de fato gosto desse ritmo ralentado, propício a uma bestagem, a um ócio que, por outro lado, se a gente bobear, tende a não ser produtivo. 
            O divertido é que a quase totalidade dos amigos de que falo aí em cima sequer desconfiava disso que, no fundo, talvez seja mesmo a minha pouca aptidão para uma vida mergulhada exclusivamente no urbano, meu ritmo sempre um tanto fora das exigências da grande cidade.   E eu sempre soube disso, embora verdade que eu sempre tenha disfarçado relativamente bem.  Mas vai daí que também não tenho a menor simpatia pela província.  E durma-se com um barulho desses!
            Porque essas confusões com o meu way of life só me aborrecem quando as pessoas confundem minha opção pessoal de vida  com um  amor pela vida de província, pela província, o amor aos hábitos interioranos, o convívio pacífico com a sociedade provinciana, coisa que eu absolutamente não tenho.  O tema é extenso, não pretendo desenvolver aqui, mas gostaria de dizer que se é possível esse convívio pacífico, ele não pode ser muito próximo não. Mas também não se consegue fugir a ele: Alfonso Berardinelli disse, e já lá se vão quase vinte anos, que “todo o planeta se transformou numa maledicente província cosmopolita”, desenvolvendo a partir daí um brilhante ensaio, “Cosmopolitismo e provincianismo na poesia moderna”.  Mas meu assunto aqui é outro, nem quero aqui insistir naquilo que eu tenho de concordância com o grande ensaísta italiano.  Isso talvez fique pra uma outra hora (o ensaio é tão fascinante que é bem possível que eu retorne  a ele aqui no blog).
Por hoje eu quero dizer: O provincianismo é cerceador, acabrunhante, pesadamente repressivo, é fechamento de horizontes.   E justo por conta desse fechamento, todas essas qualidades deploráveis seguem de par, juntinhas, irmãzinhas com o tal “orgulho do torrão natal”, o “orgulho em ser (aqui se põe o gentílico correspondente)”, verdadeira catástrofe para quem se deixar encerrar nesse círculo de orgulhos vazios.  Essa face simpática aparece quando se presta atenção no jogo político que nessas cidades é jogado há anos, pelo menos no Brasil, sempre com as mesmas elites no poder (alterações perceptíveis nos últimos anos são ínfimas, e embora significativas, sua dimensão e seu tempo muito lento  exasperam) praticando assistencialismo a uma população de miseráveis,  contando para isso sempre com cúmplices na população idiotalfabetizada a bancar festinhas de igreja, bailes de debutantes, tertúlias de trovinhas, rifas e torneios de futebol.    E a face medonha aparece para valer quando se trata das coisas mais sérias da representação política, da manipulação de verbas, da investigação de crimes, das pendengas judiciais, das situações de catástrofe, quando essas cidades se veem às voltas com grandes chuvas, desabamentos ou – pior, tortura a longo prazo – secas infindáveis, degradação dos recursos naturais. Nota triste do acaso: anteontem, depois de um ano, o mundo voltou a desabar em Teresópolis.  Mortos, feridos, desabrigados, sirenes de alerta compradas por 1 milhão de reais que não funcionaram, prefeito e figurões e apressando em dividir-se entre condolências e desculpas.
            Estou me dispondo aqui a falar mal do interior, da província, por conta de dois textos que li ontem e que me tocaram profundamente.  Um é a entrevista que Célio Turino concedeu a Bruno de Pierro e que li no site Brasilianas http://www.advivo.com.br/node/413503    Se você não liga o nome à pessoa, Célio Turino é o historiador que concebeu os Pontos de Cultura implantados na gestão Gilberto Gil no Minc, onde atuou como Secretário de Cidadania Cultural de 2004 a 2010. Os Pontos de Cultura são, até onde vai o meu parco saber desses assuntos, a mais inteligente e estimulante iniciativa já feita no país no que diz respeito à dinâmica de atuação cultural e trocas, compartilhamento e parceria entre Estado e sociedade.  Pessoas da maior credibilidade já tinham falado para mim da seriedade e da competência de Turino, e a entrevista me deixou muito impressionado com a concepção ousada e o embasamento sólido de sua atuação à frente da Secretaria que ocupou.  Mas no que diz respeito ao assunto aqui, considerando que a atuação do Ministério passa por dificuldades outras e mais graves no momento, como um corte de verbas da ordem de 55%%, o que me chama a atenção é o brevíssimo relato que Turino faz na entrevista sobre dificuldades com secretários estaduais de Cultura por causa justamente da agilidade que era a marca principal, inovadora e empolgante  do projeto.  Leia-se:
“Em 2004, teve uma reunião do conselho de secretários estaduais de Cultura, com o ministro Gil, para protestar contra o programa, pois diziam que ele estava atravessando grupos que os secretários de alguns Estados consideravam que nem eram culturais, como uma comunidade quilombola. Queixavam-se de alguns grupos serem contemplados, sem passar por eles.”

Ora, secretários estaduais de cultura não são representantes de províncias, de pequenas cidades interioranas, dessa mentalidade deprimente que venho desancando aqui, poderá dizer quem me lê.  Engano seu, caro leitor, são sim.  Porque, o que é também assustador, é que esse enclave provinciano, essa miséria mental e intelectual e política, essa verdadeira trava anti-moderna é o que vigora no Brasil. Essa gente paga com os salários nossos, de cidadãos, em cargos que existem pra fomentar, dinamizar, enriquecer a produção de bens simbólicos (“uma comunidade quilombola não é cultural!”), essa gente a desempenhar de forma reles seu papel de secretários, a se sentirem desrespeitados, “atropelados” pela velocidade necessária aos bons resultados – que já estavam visíveis àquela altura.   Daí que eu não me iludo com vida no interior, com os falsos valores bocós que as pessoas normalmente tendem a associar a isso.  Cansar da cidade grande não foi, no meu caso, me iludir com bucolismos: foi saída puramente individual.  E individualista, pra me preservar de alguns embates a que a vida tinha me lançado.
A vontade, ou melhor, o correto a se fazer  – e por isso me penitencio – é largar de resmungar, largar de misantropia e de pessimismo e dar um abraço em Turino, é de  escrever para ele, parabenizando-o, é dizer o quanto o invejo em sua jovial disposição de ação afirmativa, apesar dos horrores que enfrentou (sem lamúrias da parte dele, quem tá chamando atenção pra isso sou eu). Quem ganharia com isso, afinal seria tão-somente a minha vaidade, até por estar dizendo essas coisas aqui. Ele continuará a combater o bom combate, muito melhor do que eu.  Porque eu, na verdade, sou paralisado em meus impulsos construtivos quando leio, de acréscimo,  uma matéria que saiu no Globo do mesmo dia  e que não acho aqui para linkar.  Quem se dispuser a achá-la pela rede, o título é “Mineira vira advogada para provar que está nos bancos dos réus injustamente.” Resumo-a, pois.
Numa cidadezinha chamada Pompéu, interior de Minas, 30 mil habitantes, uma moradora, Beth Campos,  que integrava o Conselho Municipal dos Direitos da Criança, descobriu e denunciou uma assombrosamente vasta rede de exploração sexual de crianças e adolescentes, na qual estavam envolvidos os figurões locais: prefeito, presidente da Câmara, comerciantes, policiais, o diabo, a fina-flor da sociedade provinciana.  O MP entrou na coisa e o julgamento de sete dos envolvidos está previsto para este ano ainda.  O que dá bem o clima dessa “deliciosa vida de província” são coisas como esta: “Mas, em vez de reconhecida como corajosa, ela passou a ser considerada traidora da cidade, por causa da forma como Pompéu foi inserida no noticiário nacional. Beth foi agredida pelo menos duas vezes em bares.” Vida que segue, conseguiram armar na cidadezinha uma cilada para pegar a corajosa denunciante, que, enredada por tramóias mil, difamada e acusada, claro, de “ter interesses políticos”,  agora é denunciada em outro processo e corre o risco de ser condenada a até oito anos de detenção. Diante da situação, Beth fez o certo: saiu de Pompéu, foi viver em Belo Horizonte onde acabou optando por se tornar uma pessoa pública, militante do tema, de modo a não apenas dar continuidade a sua luta, mas também adquirir alguma visibilidade pessoal, como uma – frágil – segurança contra atos extremos de seus ensandecidos inimigos.  E fez também o de certa forma inusitado: tratou de estudar Direito, formando-se advogada em 2010, aos 54 anos, para tratar da própria defesa.  

A perseguição de que foi vítima Beth Campos ou (imagino) a rede de sabotagenzinhas, futricazinhas com que Turino teve de se deparar, longe de constituírem  uma estória excepcional, é uma estória que se pode dizer padrão, que exemplifica o que é mesmo a nossa história, o que é histórico no Brasil.  Brutalidade jardim, em fórmula oswaldiana-tropicalista; prolongamento da falta de lei das fazendas,  estendendo-se sobre a frágil existência de cidades enquanto espaço público, compartilhado socialmente, na lição antiga e atual de Sérgio Buarque.  Enfim...
Enfim, o que eu queria deixar claro,  e daí toda essa falação, neste texto  que ficou muito maior do que eu pretendia era muito simples: primeiro: que embora brinque e até me divirta com o “bucolismo” do meu atual modus vivendi, trata-se na verdade mesmo de uma opção que não guarda nenhuma ilusão idealizadora quanto às virtudes interioranas em relação às cidades; segundo, que sendo sobretudo um ponto de vista meu, que sou avesso a maiores convívios, a vida social, a atividade ou militância políticas, defendo minha opção como saída particular a atender  sobretudo a mim: poderá vir daqui um malogro ou uma felicidade – qualquer um dos dois dirá respeito exclusivamente a mim; e finalmente, terceiro, que sei que a razão não está comigo, está com a militância de Turino e Beth Campos, pessoas pelas quais passei a ter a maior admiração a partir do momento que tomei conhecimento de suas ações. O país melhorará devido a gente como eles.




sábado, 29 de outubro de 2011

NO BREJO BRASIL

Teiús, calangos, camaleões – lagartos treinam nossos olhos, são  mais rápidos que a circulação do ar pelos caminhos internos do corpo. Não chega a susto, não chega a sobressalto já que suas proporções estão longe de serem gigantescas, mas a repentina percepção que temos deles  – e agora nesta passagem para o definitivamente verão é a hora deles– nos suspende súbito a respiração.  Se se fizer a experiência da observação diária – fundamental para os que os estudam – é fácil no caso dos teiús, já que tendem ao mesmo percurso assim que o sol principia a canicular.
Também no limiar do definitivamente verão chega a época dos gaviões.  O que para nossa percepção vale no chão para os lagartos vale no ar para essas belas aves.  Mas com um acréscimo: aqui nos condoemos.  Acostumados à doçura e beleza dos tiés, sanhaços, juritis, ao período final de sua cria dos filhotes, nem vemos quando são arrebatados pelas rapinas, que também não vemos quando do momento do ataque.  Que são belas, a profusão de imagens à disposição de todos nas TVs, na internet etc nos informa o suficiente.  Ou se às vezes as vemos pousadas.  Mas para entender o que se passou no vazio onde havia um passarinho, preenchido agora só de penas que parecem lentas flutuar em remoinho... é preciso acreditar nas aves de rapina.

As observações aí de cima, querendo manter um ar de certa anotação lírica, são feitas na franja, no árduo exercício de equilíbrio entre este brejo onde moro, e que já foi uma roça, e hoje é uma nesga, uma estreita faixa, uma “orilla” entre o inacabado de uma cultura agrária que na verdade nunca vingou no Brasil, e a coalescência da disforme modernidade brasileira, que a tudo sitia com sua profusão de detritos e que pelo menos não nos deixa esquecer que qualquer bucolismo é convenção.  Me lembro ainda mais uma vez de Tom Jobim, lamentando a má fama dos urubus e defendendo-os: “quando urubu começa a aparecer é um alerta pra se limpar melhor a área, eles indicam isso.” Nunca vi tanto urubu por aqui como tenho visto por esses dias. 
Bate um-grande-medo-quase-certeza de que daqui há pouco não haja mais lagartos, nem as aves que alimentem as rapinas, de que os exercícios da aguda percepção do olho se tornem obsoletos e a calma contemplação do belíssimo vôo dos urubus sinalize o verão definitivo e não apenas o definitivamente verão. Me lembro de Caetano: “Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína.”

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

DE SABIÁS, MARIPOSAS E OUTROS INSETOS

          A classificação entomológica pouco ortodoxa aí do título vai em homenagem a Seu Antonio do Brejo, antigo morador destas paragens, morto há muito, que uma vez –  eu era moleque ainda – louvando a “imundície de terras” do sitiante Mané Bento (isso tá parecendo caipira fake, mas juro que não só os nomes mas também o “causo” é verdade) disse “Lá ele tem de um tudo, tem porco, boi, vaca, cavalo e outros aninsetos...” Na época não me ocorreu que, à maneira de Rosa, Seu Antonio poderia estar adicionando o prefixo de negação para indicar que se tratava de não-insetos.  Pensando bem, ainda bem que eu não tinha lido Guimarães Rosa ainda.  Nem Seu Antonio o lera jamais. O fato é que Seu Antonio passou a ficar conhecido por mim como Seu Aniceto.
            Pulo fora do causo pra umas anotaçõezinhas despretensiosas, que divido aqui com a paciência do leitor.  É que depois de uma estação fria  como há muito não fazia por estas bandas, aprendi duas maneiras de identificar que o frio maior já passou (infelizmente para mim) e já já começará pra valer a despedida do inverno.  É quando os sabiás retomam o canto.  Sábado anoitecia e vai que eu ouço aquele canto marcantemente monótono, destacando-se em meio a outras vozes menos privilegiadas.  Engraçado é que de início achei que era de algum pássaro forasteiro (o que volta e meia ocorre), mas logo me toquei de sua autoria, me tocando ainda que fazia algum tempo que ele não soava.  Por sinal que neste exato instante eis que de novo o ouço, são 5 e meia da tarde. É que os sabiás que ocorrem por cá (além do manjadíssimo sabiá-laranjeira,  há ainda o sabiá-pardo e, mais raro, o sabiá-una) começam a cantar por agora, quando começam a se acasalar e vão até fins do ano, quando parece que os filhotes já se criaram e vai cada um tratar da sua vida sem muita cantoria. Cantam ao cair da tarde e ao amanhecer, o que ainda não ouvi desta vez.  E no auge de sua felicidade conjugal cantam a qualquer hora do dia e duelam duelam duelam.
            Outra maneira, bem menos bucólica, de identificar o fim do inverno exige rapidez e destreza dos meus dotes de cozinheiro.  É a volta dos insetos, principalmente das mariposinhas pequenas que insistem em mergulhar à noite nas panelas, atraídas pela luz da cozinha e de seus fogos. Fazer comida aqui à noite de janelas abertas,  a partir de agora até a volta do frio,  exige que as luzes de fora estejam acesas e que sempre que possível eu tampe os recipientes onde estou cozinhando. Já perdi alguns azeites deliciosamente aromáticos, quando de seu aquecimento para receber os ingredientes do refogado,  por conta dos mergulhos infaustamente suicidas de insetos que resolvem compartilhar comigo as delícias de minha rústica culinária campestre. Quando é só a água fervente eu lamento pelo pobre diabo mergulhador. Quando é algo mais, xingo em dobro.
            Mais uns três meses chegarão as chuvas mais fortes e o retorno significativo da população de anuros.  Li não sei onde que é uma população perigosamente ameaçada de extinção, no que acredito, uma vez que o uso de pesticidas em escala hiper-industrial certamente extermina os insetos de que eles se alimentam.  Aqui mesmo onde moro, um brejo quase ex-brejo (só retoma sua perigosa dignidade de brejo quando das chuvas fortes), tinha há alguns anos muito mais sapos, rãs e pererecas do que hoje.  Mas ainda eles pintam por cá quando o tempo fica mais úmido.  E aí é a hora de prestar atenção para que não estejam sendo cobiçosamente seguidos por jararacas, urutus e outros rastejantes aninsetos.  Mas aí já será outra estação do ano.
           

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

AGRESTE

                 A palavra “agreste” me puxa a palavra “inóspita”. Mais do que “rústico”, “silvestre”, que acabam carreando o significado para “bucólico”, agreste me remete à aspereza da inospitalidade. Faz parte da sinonímia de “malcriado”, vejo no Houaiss, o que responde a muito do que eu queria dizer.   Agrestes é aliás o nome de um belo livro de João Cabral, que abre com um poema dedicado a Augusto de Campos, o “leitor maugrado”. Sem dúvida, esse “maugrado” aí é a tradução cabralina do malcriado Augusto. Perfazendo assim o itinerário avesso ao bucólico.
                Aqui onde moro não é exatamente agreste. Alimento com os amigos a brincadeira de que seja bucólico.  Mas todo bucolismo é convenção.  Estou aos poucos aprendendo que pode sim ser bem agreste este brejo.  Em determinados dias parece que a natureza ao redor – o que é bem mais visível do que seria numa cidade grande – reivindica para si ser malcriada.  Dias em  que os insetos estão mais impetuosos, invisíveis e sedentos esvoaçam no calor do sol, e de noite zumbizantemente barulhentos buscam sôfregos as luzes acesas, debatem-se contra as telas de proteção, fogem como podem das lagartixas que os espreitam nas frestas e junções do telhado e das paredes, mergulham no azeite das panelas.  Noites em que teias de aranha imperceptíveis surgem num passeio despretensioso entre as árvores do quintal, às vezes justo quando os ouriços-cacheiros se desentocam e vagam lerdos e imunes aos cachorros que sabem da ameaça que eles, os ouriços, representam para suas mandíbulas.  Calorões seguidos de chuva intensa, quando nuvens abrasantes de mosquitos transfiguram-se em nuvens d’água fria, quando sapos e rãs, de hábito prosaicamente simpáticos, saltam mais do que o normal e algumas vezes são vistos ou adivinhados por mim – que me torno mais e mais capaz, embora lentamente, de ler os sinais específicos desse agreste  – em seus miados angustiosos entre dentes de uma cobra mais atenta e sorrateira.  Quando se faz necessário, sem maior medo ou alarde, manter as portas fechadas, pois as cobras, animais que desdenharam o paraíso, conforme ouvi outro dia por aqui,  insistem, nessas jornadas agrestes, em vir fazer companhia, com seu silêncio  absoluto de tapetes mágicos não voadores, apenas sinuosos. Silhuetas de tapetes mágicos, para tentar maior precisão.
                Aprendo aos poucos que esse agreste vem esparsamente, principalmente nos dias agressivos da passagem da primavera para o verão, algumas árvores em descampados arrancadas pelo vento, raízes expostas.  Ao longo do tempo que perfaz o resto do ciclo anual esses momentos parecem a rigor raros.  Ou talvez a minha capacidade de conviver mais naturalmente com tudo isso também me esteja tornando mais agreste. Aprendendo mais medularmente a viver dentro dessa outra convenção. Que no fundo é um pouco como aquilo que escreve Montale num poema:

“E andando nel sole che abbaglia
sentire com triste meraviglia
com’è tutta la vita e Il suo travaglio
in questo seguitare uma muraglia
che ha in cima cocci aguzzi di bottiglia.”

                Pode ser que na verdade o que separe o bucólico do agreste seja um muro encimado de cacos de garrafas.