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domingo, 15 de maio de 2011

ALIMENTANDO UM MITO: NEYMAR


              Foi quase tudo como objetivamente se esperava na final do Campeonato Paulista.  O mediano time do Santos, de novo sem Ganso,  superando o muito fraco time do Corinthians, graças sobretudo às manhas do manhoso, simpático e competente técnico Muricy Ramalho. Surpreendia um pouco a superioridade muito nítida do time santista, acima do esperado, no primeiro tempo, virado com um gol de vantagem.  Objetivamente também dava pra adivinhar o que viria no segundo tempo, especialmente na parte final: o Santos sem pernas ia passar um cortado com a pressão corinthiana.
            Não resisto, aqui vão dois parêntesis:
(o time do Santos está visivelmente baleado fisicamente por conta de uma partida decisiva atrás da outra, não só no campeonato que acabou de acabar, como na Libertadores de América. Aí volta e meia a gente ouve o pessoal venal da imprensa esportiva – nem todos o são, mas um bom número é – dizer que isso é fita, que não se justifica, que o glorioso Barcelona faz o mesmo número de partidas que o Santos, que o calendário europeu com tantas copas continentais também sacrifica os jogadores de lá e tal... sejamos objetivos:  riquíssimo, o Barcelona, assim como seus pares de primeira linha na Europa,  tem um total de jogadores (em futebolês: plantel) que forma fácil dois times de altíssimo gabarito entre titulares e reservas, o que não é o caso dos empobrecidos clubes brasileiros; objetivamente 2: os asnos que dizem isso nunca tiveram aula de geografia, quer dizer, devem ter matado todas elas: se soubessem um tiquinho da matéria,  saberiam quantas Europas cabem no Brasil ou na América Latina, daí a diferença de distância percorrida, daí...)
(assisti pela Band, o que sempre é garantia de diversão com os comentaristas de lá. O Neto, que aliás enxerga bem futebol, fala coisas completamente estapafúrdias.  Hoje, analisando estilisticamente o rapaz, descobri que o que o mata são os pronomes relativos – o que o faz bem brasileiro, diga-se. Mas é um horror o acúmulo de adjetivas explicativas que ele se  vê na obrigação de dizer e aí se enrola todo, como aqueles jogadores ruins que se atrapalham com a bola, ele que era bom jogador.  Teve uma hora que ele, por conta do maldito “que”, chegou a dizer que “Neymar, que é um excelente goleiro...” querendo se referir ao goleiro do Corinthians...)
            Bom, mas chega de objetividade: o fato é que, quando parecia que o caldo santista ia entornar de vez por conta do cansaço, Neymar recebe uma bola na esquerda, pra ficar com ela e desafogar a pressão, e vai indo, vai indo, ninguém chegando perto com medo do “come”, até que ele perde o ângulo e, no bagaço, sem pernas firmes,  chuta fraquinho... a bola entra, segundo gol do Santos, campeonato garantido.
            Claro que em nome da objetividade todos dirão, como já dizem pela TV e rádio, que foi um tremendo frango do goleirinho do Corinthians, que o chute saiu errado, que foi um tolo preciosismo que acabou dando certo, enfim... tsk tsk... Pois não viram que Neymar, num átimo, percebeu que no lamaçal em que se movia o pobre goleiro, com dificuldade até para manter-se de pé, haveria um ponto exato em que, batendo numa saliência do terreno, a bola escaparia das mãos de qualquer goleiro que ali estivesse, fossem Yashin, Sepp Mayer, Gordon Banks ou Mazurkievicz?  Não sabem que nessa hora pela cabeça do Gênio passaram duas leis não escritas mas sempre repetidas do futebol, a de que o montinho artilheiro tem alta produtividade e a de que o goleiro é um ente tão desgraçado que onde ele pisa a grama não nasce?  Só um idiota da objetividade não saberia que na hora exata de pôr o pé na bola, esfalfado, extenuado, o altivo Neymar, sabedor em detalhes e desde sempre desses caminhos,  potencializou-os no ato do chute.  De nada adiantam as 5.780 câmeras que as TVs espalham por todos os desvãos mais recônditos do estádio e da torcida.  Nenhuma delas mostrará o que eu digo.  Todas confirmarão a “falha” do goleirinho.  De nada sabem, no entanto.  Meninos, eu vi!
            Objetivamente ainda se pode dizer que com o gol no finalzinho, o Corinthians tomou novo ânimo e quase empatou, poderia ter empatado e tal.  Claro que a mística do Timão, assim como a mística do Flamengo alimenta o mito de “se deixar chegar o Mengão não perde”, alimenta o histórico de sofridas vitórias, conquistadas a suor e sangue nos estertores e tal... mas não diante de Neymar: aqui um valor mais alto se alevanta.  E o Corinthians prossegue na sua sina de ser o maior time pequeno do mundo. E que, como tal, a todos nos diverte.
            E um vaticínio final (com condicionante); se o Santos mantiver Muricy, Neymar e Ganso para o campeonato brasileiro, os demais times podem ir se preparando pro campeonato de 2012. O de 2011 já tem dono.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

NA MEMÓRIA: O NEGÃO – E UM OUTRO

                O ano foi possivelmente 1968. Talvez, 1969.  Eu ia com freqüência ao Maracanã e a outros estádios cariocas, com meu irmão e com  Didi, grande amigo.  Muitas vezes acompanhei o grande Bangu de 1964 a 67, o Botafogo de Gerson e Jairzinho.  Mas naquele domingo pelo Rio-São Paulo tratava-se de Flamengo X Santos.  Santos de Pelé. E com Pelé.
                E eu tinha um motivo a mais para ir ao estádio naquele domingo: meu primo, com seus 6 anos, que nós adoraríamos que ele fosse conhecer o Maracanã, ver um jogo de perto. Não que ele parecesse se interessar por futebol, mas nós gostaríamos de ver sua estréia, naquele entusiasmo de aficcionados que querem fazer com que os outros também o sejam. Para ajudar na concretização dessa nossa vontade tão arbitrária, o pai dele também estava querendo muito ver o Pelé jogar.  Como nenhum de nós era flamenguista, certamente arrumaríamos um setor neutro, fora de torcida, de modo a ver a partida sem maior paixão de torcedor.  Tratava-se de ver sobretudo o Rei.  E para mim tratava-se sobretudo de ver meu primo estreando naquele mundo colorido, deslumbrante, alegre do futebol brasileiro.  Será que de alguma forma o garoto seria conquistado para a nossa paixão futebolística, naquela fase da vida em que, para quem o descobre, o futebol apaixona de maneira decisiva?
                Era a segunda vez na vida que eu ia ao estádio para ver o Negão ao vivo.  Da primeira, acho que em 66, Pelé e Garrincha arrasaram uma seleção que não lembro qual era nos preparativos para a Copa de 66.  Foi a única vez que vi Garrincha no estádio e ele jogou muito, de uma maneira que nenhum outro jogador jamais tinha me impressionado.  Mas a sua carreira já estava em queda e talvez eu tenha assistido ao seu canto de cisne.  Não teve continuidade dali para a frente, sua trajetória entraria em abissal declínio não demoraria muito.  Mas não Pelé.  Eu tinha e ainda tenho uma admiração enorme pelo Rei.  Naqueles tempos de rara TV, as oportunidades para um moleque de 12, 13 anos vê-lo ao vivo no estádio valiam todo esforço.  Que era praticamente nenhum.
                Maracanã cheio, claro, afinal era o Flamengo e afinal era o Pelé em campo.  Chegamos cedo, pegamos um bom lugar na arquibancada, quase central, as expectativas melhores se cumpriam.  Meu primo encantou-se com toda aquela balbúrdia, deslumbrado.  O jogo começa, as atenções se concentrando no que acontecia em campo, “olho no lance!”, como diria o Silvio Luiz, olho em todos os lances.
                Pronto: começou o fastio do menino (não, o futebol não o conquistaria então, não o conquistou nunca).  Claro que na primeira bola tocada por Pelé ele prestou atenção, mesmo para o mais ET naquele ambiente o Negão era uma legenda.  Mas o Rei não queria fazer naquela tarde a parte que lhe competia.  Seu marcador era o Onça, um zagueiro grosso a mais não poder, truculento (jamais escreveria: “como seu apelido indicava”), muito mas muito ruim de bola, como aliás o time do Flamengo daqueles anos (gostaria de livrar a cara do Silva, o Batuta, cracaço, mas não sei se ele ainda jogava no Flamengo).  Enfim, com Pelé sem conseguir fazer nada, com Onça nos seus calcanhares (eu jamais escreveria: “mordendo”)... resultado: com 15 minutos de jogo, passado o encanto inicial, meu primo começou a pedir para ir embora.  Eu gelei, desconfortável.  Lembro que tive raiva.  O menino insistia com o pai, que fossem, que não queria mais ficar ali, virava-se de costas para o campo, tentava tirar a visão da gente, o pai tentava argumentar “peraí filho, daqui a pouco acaba, a gente já vai...” coisas desse tipo para refrear ao menos a violenta quebra de expectativas de todos nós.  Lembro que eu sentia a frustração subir com ardor até minhas orelhas, sensação de fracasso.  O moleque fazia manha, o próprio pai tinha que se esforçar para conseguir ver o jogo, o danado se plantava na frente dele para forçar a retirada antecipada. E o Negão não colaborando.  O tempo passando, já devia ter meia hora, aquela tortura comandada pelo tirano infantil não prometia arrefecimento.
                Mas eis que... o Negão recebe a bola com espaço-tempo suficientes para que Onça não consiga chegar nele.  Lembro que foi ali, bem na nossa frente, um pouco antes da entrada da grande área.  Lembro: um “frisson” (ninguém me obrigará a acrescentar: “galvanique”) percorre a torcida – e não estávamos na torcida do Flamengo, embora lá também certamente tenha ocorrido, com sinal contrário, tal frêmito. A sensação é tão forte que a reação de todos faz com que até meu primo volte os olhos para o campo a fim de ver  o lance.  Não deu outra.  Com espaço-tempo para respirar, o Negão enviesa para dentro, chega na meia-lua e pimba! chute indefensável, Negão 1 a 0. Todos que ali tinham ido para ver Pelé (não, não era nada parecido com um sentimento anti-flamenguista, era para ver o Rei mesmo que a gente ia ao estádio, o que talvez seja difícil de entender hoje) vibraram, pularam, gritaram.  Átimo de festa.  Os olhos do meu primo brilharam com aquela novidade, para a qual parecia não haver mais nenhuma expectativa.
                Acabada a comemoração, de novo os olhos na partida. Fácil de adivinhar que meu primo retomaria sua postura manhosa, irritante.  Mas não teve tempo.  Antes que recomeçasse, seu pai o tomou pela mão e lhe disse “Agora vamos!”, despediu-se rapidamente da gente e tomou o rumo da saída.  Fiquei decepcionado com o resultado daquela tentativa de sedução.  Mas talvez não tanto quanto um negão dois lances acima de nós na arquibancada.  Ao ver a retirada do meu tio com o menino pela mão, não se conteve: “Maior ignorância, aí. O Flamengo toma um gol do Negão,  e o coroa não deixa nem o moleque ver o resto da partida, pô...”