Mostrando postagens com marcador ensino de literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ensino de literatura. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de julho de 2011

ROBERTO ACÍZELO DE SOUZA LANÇA OBRA DE REFERÊNCIA FUNDAMENTAL

                Quem fez graduação em Letras como eu nos anos 70/80, sabe bem a importância que tinha para nós o livro Vanguarda européia e Modernismo brasileiro, organizado por Gilberto Mendonça Teles, cuja primeira edição é, se não estou enganado, de 1976.  No precioso livrinho editado pela Vozes, o professor da PUC-RJ compilou os principais manifestos das vanguardas históricas do começo do século XX, além daqueles que compuseram o painel do nosso Modernismo.  Era para nós o primeiro contato – e para muitos, o único – com textos fundamentais para a história da arte moderna na Europa e no Brasil.
                Naqueles anos, de grande expansão dos cursos de Letras no Brasil (evito a expressão “boom”, que em português sempre dá cacófato: “boom das Letras”, “boom dos cursos de Letras”, falava-se muito na época que o Brasil tava fora do “boom da literatura latino-americana", logo nós do Brasil fora desse cacófato...), estávamos às voltas também com a ditadura militar (Geisel e a seguir aquele que a gente esqueceu a pedido dele mesmo) e ainda no rescaldo das comemorações do cinqüentenário da Semana de Arte Moderna, que propiciaram  alguns produtivos revisionismos à margem  das tentativas oficiais de revisionismo  ufanista.  Para muitos, eu inclusive, era a oportunidade de ter contato com textos que foram – potencialmente ainda poderiam ser – tão explosivos que nos fascinavam.   E o livro de Teles era ótimo, entre outras coisas por isso.
                Pois tenho a impressão que o livro que Roberto Acízelo de Souza, professor titular de Literatura Brasileira da UERJ, organizou ao longo de mais de dez anos e que agora acaba de lançar pela editora Argos, de Chapecó, SC (638 p.), pode vir a ter uma importância até maior, para os atuais alunos de Letras, não apenas em nível de graduação, e aliás não apenas para os que estudam Letras mas para todos os que se interessam por literatura, do que o livro de Mendonça Teles naquela ocasião.  Não digo isso querendo insinuar que este é superior àquele. Apenas atesto que a dinâmica dos estudos de Letras entre nós acabou possibilitando  agora uma ambição de conhecimento de alcance mais amplo do que então. O livro de Acízelo é  um volume monumental, que tem por título Uma idéia moderna de literatura: textos seminais para os estudos literários (1688-1922), e nele  estão reunidos algumas dezenas de ensaios que vão de Charles Perrault a Proust, passando por Kant, Schiller, Diderot, Wordsworth, Balzac, Victor Hugo, Poe, Baudelaire, Flaubert, Unamuno, incluindo ainda os nossos Raul Pompeia, José Veríssimo, Silvio Romero, entre outros.  É uma maravilhosa oportunidade de acesso a textos até então praticamente inacessíveis em sua dispersão, que a pesquisa cuidadosa de Acízelo reuniu. Oportunidade de ler, exemplos entre muitos, “Da metafísica poética, que nos dá a origem da poesia” (Vico), “O que é poesia?” (Stuart Mill), “Literatura mundial” (Marx e Engels), “O romance experimental” (Zola), “A arte da ficção” (Henry James)... E qual o assunto comum a esses ensaios? É a gênese e o desenvolvimento da idéia moderna de literatura, a partir do momento em que ela surge, desvinculada do que até então havia sido o normativismo clássico ao tratar daquelas obras que a modernidade entende como sendo “literatura”.  Ou, como está nas palavras do organizador na ótima “Apresentação” do livro:
                “Tomamos a palavra [moderno], nesta antologia, como atributo de certa concepção de literatura que rompe com a noção clássica das letras, bem como com suas reciclagens medievais e neoclássicas (isto é, renascentistas, barrocas e arcádicas).  Nesse sentido a ideia moderna de literatura   desponta já na primeira metade do século XVIII, no âmbito do iluminismo, com prelúdios datáveis de fins do século XVII, configurados na ‘Querelle des Anciens e des Modernes’, desenvolvendo-se e firmando-se no século XIX, no embalo do romantismo e seus desdobramentos – ditos realismo, naturalismo, simbolismo –  , para alcançar enfim as primeiras décadas do século XX, quando então, radicalizada, parece atingir o seu termo ao suscitar as experiências das vanguardas, confluentes na noção de modernismo.” 

                Girando portanto em torno dos conceitos “literatura” e “moderno”, não resisto e transcrevo aqui uma passagem-chave da “Apresentação”, em sua 2ª. parte:
                “Convém esclarecer, no entanto, que o qualificativo ‘moderno’, aplicado ao conceito ‘literatura’, num certo sentido implica uma redundância.  É que, até em torno do século XVIII, enquanto a palavra ‘literatura’ conservou sua acepção etimológica latina, significando, pois, habilidade de ler e escrever, bem como, por extensão, cultura alcançada mediante o exercício dessa habilidade, as produções escritas não se tinham unificado sob um conceito genérico.
                Usava-se assim, desde a Antiguidade, para designar os discursos escritos, os termos ‘poesia’ e ‘prosa’ e, mais tarde, a partir da Idade Média, as expressões ‘letras humanas’, ‘letras divinas’ e ‘boas letras’, bem como uma extensa nomenclatura relativa a espécies particulares de textos em verso ou prosa, como ode, idílio, égloga, epopeia, tragédia, epístola, fábula, sermão, novela etc. Não havia desse modo propriamente a literatura, mas diversos discursos heterogêneos legitimados basicamente por sua utilidade, evidente e exclusiva no caso de textos destinados a instruir ou a moralizar – por exemplo, um tratado de direito e uma biografia de santo – , putativa e associada à apreciação de uma espécie de deleite intelectual, no caso de composições como poemas e peças dramáticas.”
                A seguir, a discussão igualmente bem encaminhada do conceito de “moderno” é bastante esclarecedora também para o leitor se situar em meio a uma terminologia que se não tem nada de esotérica (como muitas vezes se acusam as terminologias das disciplinas científicas, entre elas a Teoria da Literatura), justamente por ser muito “aberta”, exotérica, vira uma terra de ninguém conceitual.  Mas não transcrevo aqui não.  Fica o estímulo, para os que dão valor a uma bem formada biblioteca, a  se adquirir esta obra de importância eloqüente que,  estou convencido, veio para ficar como referência fundamental.  
                Houve lançamento do livro no recente Congresso Internacional da ABRALIC em Curitiba. Os exemplares enviados esgotaram-se num instante. Não consegui o meu no lançamento (o último foi vendido bem na minha frente), muito menos o autógrafo do autor, com quem fiz uma disciplina na graduação e uma no mestrado, e com quem volta e meia me encontro meio ao acaso e de quem tenho sempre uma recordação carinhosa.  Depois chegaram novos exemplares, consegui comprar e, quando estava me retirando do local onde estavam os stands de venda, ainda vi Acízelo ao longe, saindo do elevador enquanto eu já estava com o pé na calçada.  Como eu estava com o peso de muitos livros comprados, deixei para pegar o autógrafo em outra ocasião.  Mas a leitura já está a pleno vapor. Sugiro que o leitor faça o mesmo.
               

domingo, 9 de janeiro de 2011

OS FANTASMAS DE LOBATO E TWAIN AMEAÇAM A CORREÇÃO POLÍTICA

“Passei a gostar de ler lendo Monteiro Lobato e Mark Twain.  Com eles aprendi a odiar para sempre duas coisas: preto e racista.”  A frase é a fala de um personagem de uma peça teatral que ensaiei escrever lá por meados dos anos 80 com um amigo, e sua intenção é evidentemente humorística ao apontar para um paradoxo aporético. Bom, a peça nunca saiu dos primeiros rascunhos. O meu amigo, Paulo Murilo,  morreu pouco tempo depois e nunca mais voltei ao texto.  Mas a frase ficou comigo.  Claro que se sai da aporia facilmente, ao reconhecer-se seu absurdo ideológico.  E este reside basicamente no fato de que a leitura de Twain, Lobato e outros bons escritores poderá ter diversos efeitos, mas nunca o de confinar o leitor no descaminho lógico e ideológico de um tal “postulado”.  Quer dizer, lendo bons autores aprendemos a distinguir o que é idiotice do que não é. Assim com as ironias, os chistes, as blagues, tudo o que em alguma medida porta uma intenção humorística.  Na peça acima, que não escrevemos, o absurdo do personagem, cuja intenção nossa era de que fosse o protagonista,  provinha exatamente do fato de que ele falava a frase a sério, configurando o que gostaríamos de caracterizar, em tom meio rodrigueano, de idiota fundamental.
Tom Sawyer e Huckleberry Finn, de Twain, Reinações de Narizinho, Caçadas de Pedrinho, A reforma da Natureza, Memórias da Emília, O saci e O picapau amarelo (esses dois últimos os meus preferidos), e todos os demais títulos da obra para crianças de Lobato foram e são – quando as folheio ainda hoje – livros fundamentais para mim.  O site UOL de hoje, 9  de janeiro, transcreve um ótimo artigo de Michiko Kakutani, do The New York Times, sobre a edição expurgada de Huck Finn lançada recentemente por uma universidade do Alabama, a cargo de um professor.
No Brasil tivemos recentemente, em novembro,  caso parecido de encheção de saco em nome do politicamente correto com Caçadas de Pedrinho, de Lobato. Ao ouvir a notícia pela manhã de que o CNE (Conselho Nacional de Educação) havia recomendado que o livro fosse retirado de uma lista de obras indicadas na educação básica, imediatamente enviei um email para  o programa (era o noticiário matutino da BandNews FM com Ricardo Boechat), que acabou sendo lido no ar.  É o primeiro dos textos abaixo:
1.
“Não, não há o que justifique banir Monteiro Lobato. A não ser o desapreço tipicamente brasileiro pela leitura, incluindo aí a literatura e por qualquer tipo de reflexão, que começa - este desapreco sim- na alfabetização. Há muito de datado e equivocado, sob o ponto de vista das relações raciais, em Lobato? Sim, há. Mas... e nos seus contemporâneos? E nos escritores do século XIX e anteriores? Sim, sim, sim... vamos deixar de lê-los, o Brasil vai dexiar de lê-los? Não, não vai deixar, pois ninguém os lê, não se lê neste país, da alfabetização à pós-graduação. Pois, se lêssemos, se fôssemos uma sociedade de leitores, saberíamos discernir numa obra tão esplêndida como a de Lobato para crianças o que merece reparos e saberíamos situá-los. Teríamos não apenas boas edições, anotadas, teríamos professores capazes de discutir essas questões com seus alunos e fazer ver a estes o quanto aquele mundo ficcional é rico e estimulante. Mas... afinal, Pedrinho caça uma onça! isso também hoje é condenável pelo politicamente correto! e o que dizer do Saci, que além de negro e trapaceiro ainda era deficiente? Proiba-se! Pensando bem... não, é melhor não pensar bem no Brasil.”

Pessoas ouviram, amigos e desconhecidos vieram falar comigo, muita gente gostou, alguns colegas torceram o nariz, enfim, e eu acabei ficando receoso de ter sido levado, no calor da hora, a cometer alguma injustiça contra pressões legítimas e democráticas de segmentos da população que teriam por que se julgar atingidos por práticas textuais discriminatórias, se bem que, em se tratando de literatura, qualquer ingenuidade nesse sentido é sempre potencialmente mortal.  .  Enfim, a escabrosa notícia ficou atrás de mim ainda vários dias e acabei postando nos meus perfis no Orkut os outros dois textos, que depois postei como nota no Facebook.  Pedindo licença por sua extensão, vai a seguir a íntegra deles:
2.
LOBATO E O “FEDOR BRASIL” 
“Pode ser que seja estupidez pura e simplesmente: assim será se Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, for pura e simplesmente banido das bibliotecas escolares em nome de uma “educação antirracista”, como indicado no parecer do Conselho Nacional de Educação repercutido pela mídia.
                Talvez não seja isso exatamente.  Leio na mídia, mas não localizei o documento oficial, que parece que a conselheira do CNE recomenda que seja feita uma edição com posicionamento crítico na edição do livro que for distribuída às bibliotecas escolares.  Em função disso, parece que o MEC  formaria uma comissão para examinar o caso e opinar.  Melhorou.
                De minha parte, eu gostaria de entender a mecânica da coisa.  Parece que um mestrando da UnB denunciara o “conteúdo racista” da obra ao Conselho, que aí se pronunciou.  Tudo bem, penso que faz parte da vida democrática a pressão legítima sobre as instâncias de decisão daqueles que, em grupo ou individualmente, se sintam prejudicados por práticas sociais que venham a atingir  o coletivo como um todo.
Mas não sei... tem um “fedor brasil” nessa coisa toda, que eu juro que não consigo captar lá muito bem.
                Há muito tempo eu não leio os livros infantis de Lobato.  E não leio porque... bem, adiante eu explico. Mas a obra infantil de Lobato precisa ser editada e muito editada porque literariamente ela é primorosa. São livros que precisam continuar circulando, interagindo com novos leitores, produzindo novos e novos sentidos.  Assim é que se faz a literatura.  E a de Lobato para crianças é das grandes.  Seus aspectos datados em termos de relações raciais – mas não apenas – podem e devem ser observados em notas de edição que enfoquem corretamente quando surgirem.  Mas... e aí o tempo que fiquei sem ler Lobato pode me trair... é que é  preciso observar não apenas o tal “contexto histórico” em função do qual essas notas podem se justificar, mas sobretudo analisar bem o jogo ficcional onde essas “falas” e “opiniões” supostamente (vá lá) preconceituosas se inscrevem.  Eu tenho medo que alguma coisa de próprio do jogo ficcional aí venha a se perder. 
                Quanto ao fato de há muito tempo eu não ler Lobato, toquei na questão ali em cima e explico por quê.  Porque durante muito tempo seus livros não foram reeditados.  Criei três filhos, hoje já adultos, e pouco consegui comprar de Lobato para eles porque – ouvia dizer, não sei se isso se mantém – os livros não eram editados por questões de direitos autorais com a família do escritor. 
                Circulo em meio a colegas e estudantes que se dedicam a tratar da “literatura infanto-juvenil” – que é como se chama isso nos cursos de letras – e não se fala em Lobato ou pouco se fala.  Que eu saiba, não é obra oferecida às crianças nas escolas.  Outro lado também cruel disso é que provavelmente a maioria dos professores não saberia lidar com o “problemático” da obra e fazer render em discussões de sala de aula com seus pequenos alunos.  Não é nem caso de culpar os colegas, claro, a relação professor/alunos hoje talvez mais do que nunca é cercada por problemas terríveis por todos os lados, do estupidificante bombardeio midiático de todo dia à familiaridade cada vez maior com a bandidagem e a violência,  que se traduz o mais das vezes num  salvar-a-pele cotidiano do trajeto da casa à escola e vice-versa.
                Por isso também estranho que um sujeito – que pode até ser bem qualificado – entre com um processo no CNE contra um livro específico e possa vir a conseguir bloquear o acesso de leitores a esse livro.  Isso não cheira bem.  Como não cheira bem que mesmo uma edição recomendada com notas e tal, como parece que consta da íntegra (não da súmula)  do parecer da conselheira do CNE acabe não sendo feita.  O burocrata diga: “Olha, deixa pra lá, recomenda outra coisa, dá menos trabalho e despesa...” E o veto se concretize.  O “fedor brasil” mais uma vez sairia vitorioso.” 
Vai daí então que alguns dias depois eu conseguia acessar o parecer do CNE em função do qual escreveria o terceiro texto, que também postei no orkut, e que vai abaixo:
3.
AINDA LOBATO E O CNE
                “Fui ler o parecer do CNE sobre a questão de Caçadas de Pedrinho, de Lobato, cuja adoção nas escolas foi denunciada por um mestrando em Educação da UnB a partir da constatação feita por ele de que o livro, adotado numa escola da rede particular do DF (!), conteria conteúdo racista e portanto em desacordo “com o contexto atual do Estado brasileiro, o qual assume a política pública antirracista como uma política de Estado, baseada na Constituição Federal de 1988, que prevê no seu artigo 5º, inciso XLII, que a prática do racismo é crime inafiançável e imprescritível”.  Meu texto aqui assumiu esse caráter oficialesco do jargão burocrático contaminado que foi pela leitura custosa daquilo que do processo  consegui acessar.  E acessei somente pelo Ipeafro (Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-brasileiros) em www.ipeafro.org.br, que aliás manifestou apoio à decisão do CNE.
                Pois é.  A não ser que haja ainda algumas coisas que eu não consegui saber, a primeira constatação é:
- que não houve da parte do CNE sugestão clara ao MEC de censurar ou de banir de currículos o livro de Lobato; diferente do que houve, da parte do denunciante, o mestrando em Educação, que propôs sim a censura, nos seguintes termos: “O solicitante encaminha denúncia no sentido de se abster a Secretaria de Estado da Educação do Distrito Federal de utilizar livros, material didático ou qualquer outra forma de expressão que, em tese, contenham expressões de prática de racismo cultural, institucional ou individual na Educação Básica e na Educação Superior do Distrito Federal.”
A segunda constatação:
-  que o CNE, reconhecendo coerência na argumentação que lhe foi enviada,  não endossou a censura, mas... sugeriu que o MEC cumpra pelo setor competente, a indicação de obras que “primem pela ausência de preconceitos, estereótipos, não selecionando obras clássicas ou contemporâneas com tal teor;”  na prática, isso equivaleria à mesma coisa, isto é, à censura, ou não?  Creio que sim, mas passa a bola para o setor do Ministério encarregado de definir as indicações bibliográficas.  Agora, o CNE reconhece que se faz necessário que o   MEC  efetivamente atue junto às universidades no sentido de “formar professores que sejam capazes de lidar pedagogicamente e criticamente com obras consideradas clássicas presentes na biblioteca das escolas que apresentem estereótipos raciais.”  E se propõe mais: “exigir da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura. Esta providência deverá ser solicitada em relação ao livro Caçadas de Pedrinho e deverá ser extensiva a todas as obras literárias que se encontrem em situação semelhante.”  
                Olha, é uma gloriosa maneira, a meu ver, primeiro, de fingir coragem onde não há coragem: “abster-se de”, como pediu o requerente, ou “não selecionar”, como (não) quer o CNE significa sim censurar, banir do currículo.  É não dizer o nome.  É também uma maneira de reconhecer que a formação de professores está deixando muito a desejar e não por culpa somente das universidades.  Professores que saibam lidar com essa questão de fato são poucos, porque essas questões existem na sociedade e não serão livros não recomendados que respondem por isso. É uma falta de formação geral que parece que inclui em primeiro lugar ausência de leitura e de reflexão. E não são somente professores que devem ler e não lêem – é um conhecido desamor pela leitura de textos mais exigentes, o que é um sintoma antigo e fundo entre nós.  E é ainda uma modesta maneira de reconhecer a derrota afinal de contas para a literatura, para a fruição artística, literária, para aquilo que é indomável aos olhos de uma prática pedagógica ou moralizante bem ou mal intencionada. Afinal, restaria por provar que o preconceito de raça no Brasil, que a subalternização das populações negras e descendentes deve ter sua conta paga por obras artísticas que teriam levado a esse estado de coisas. 
Enfim, é isso.  Como lido profissionalmente com o ensino de literatura - não a infanto-juvenil - como tenho entre alguns livros fundamentais da minha vida alguns de Monteiro Lobato, que não me incutiram nenhum tipo de preconceito racial nem distorceram decisivamente nenhum traço da minha personalidade - não que eu não tenha distorções, mas podem ser "de nascença" ou imputáveis a outros autores e não necessariamente de livros, rá!, - senti que eu devia me pronunciar de alguma forma, já que há um bom tempo eu pergunto a alunos e colegas que lidam com literatura infanto-juvenil se Lobato é trabalhado nessa linha de pesquisa e invariável e inexplicavelmente o que ouço de volta é "Não".”
Relendo-os agora, pouco tempo depois de escritos, acho que pelo menos mais duas observações se impõem:
1ª.)- Defendi nos textos acima  “edições bem anotadas” a serem adotadas para os currículos escolares e tal... penso se tratar de ingenuidade minha.  Um livro com boas notas editoriais é sempre uma preciosidade, mas penso que o melhor é mesmo abrir mão delas, não apenas em nome de se excluir pedagogês no trato da literatura, mas o difícil está justo na questão de se conseguirem de fato “boas notas”, ainda mais em se tratando de obra a ser adotada – ou recomendada – nos currículos oficiais.  Meu medo é que equívocos em nome do “politicamente correto” acabem entrando por outra porta, ainda mais quando sei que tenho colegas, e não são poucos,  que defendem as posições de cerceamento (inclusive, vale lembrar que a moção partiu de um mestrando em Educação).
2ª)- Os exemplos de passagens, frases e até mesmo palavras que deveriam ser “expurgados” montam ao infinito quando se trata do patrimônio da literatura acumulado ao longo de tantos séculos.  Mesmo em dimensão modesta, se pensarmos por exemplo na tradição bem menos numerosa da canção brasileira – na linhagem do samba carioca, por exemplo, mas não apenas – também aí a lista de expurgos haveria de ser imensa.  O melhor mesmo é deixar que a arte ganhe seu sentido ao ser apropriada por cada um de seus leitores, de seus fruidores.  O resto é chilique insuportável.