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domingo, 16 de agosto de 2015

INTIMAÇÃO

                                                 

Cidadãos franceses assistem à entrada de Hitler na Marcha sobre Paris, 1940 (autor desconhecido)
 


                                Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

 

Abre em nome da lei.
Em nome de que lei?
Acaso lei tem nome?
Em nome de que nome
cujo agora me some
se em sonho o soletrei?
Abre em nome do rei.

Em nome de que rei
é a porta arrombada
para entrar o aguazil
que na destra um papel
sinistramente branco
traz, e ao ombro o fuzil?
 
Abre em nome de til.
Abre em nome de abrir,
em nome de poderes        
cujo vago pseudônimo
não é de conferir:
cifra oblíqua na bula
ou dobra na cogula
de inexistente frei.

Abre em nome da lei.
Abre sem nome e lei.
Abre mesmo sem rei.
Abre, sozinho ou grei.
Não, não abras: à força
de intimar-te, repara:
eu já te desventrei.

 

 

Carlos Drummond de Andrade. Poesia e prosa. RJ: Nova Aguilar, 1983.



segunda-feira, 27 de julho de 2015

DRUMMOND


                                  Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

 

ENTRE NOEL E OS ÍNDIOS


Noel Nutels (1910-1973)


Em Vila Rosali Noel Nutels repousa
do desamor alheio aos índios
e de seu próprio amor maior aos índios.
Como se os bastos bigodes perguntassem:
Valeu a pena?
Valeu a pena gritar em várias línguas
e conferências e entrevistas e países
que a civilização às vezes é assassina?
Valeu, valeu a pena
criar unidades sanitárias aéreas
para salvar os remanescentes
das vítimas de posseiros, madeireiros, traficantes
burocratas et reliqua,
que tiram a felicidade aos simples
e em troca lhes atiram de presente
o samburá de espelhos, canivetes,
tuberculose e sífilis?

Noel baixa de helicóptero
e vê a fome à beira d’água trêmula de peixes.
Homens esquecidos do arco-e-flecha
deixam-se consumir em nome
da integração que desintegra
a raiz do ser e do viver.

“Vocês têm obrigação de usar calça
camisa paletó sapato e lenço,
enquanto no Leblon nos despedimos
de toda convenção, e viva a natureza...”
Noel, tu o disseste:
A civilização que sacrifica
povos e culturas antiqüíssimas
é uma farsa amoral.

O Parque maravilha do Xingu
rasgado e oferecido
ao galope das máquinas,
não o quiseste assim e protestaste
como se fosse coisa tua, e era
pois onde um índio cisma
e acende fogo e dança
a  dança milenar  extra-Conservatório
e desenha seu momento de existir
longe da Bolsa, da favela e do napalm,
aí estavas tu, teu riso companheiro,
teus medicamentos ,
tua branca alegria de viver
a vida universal.
 
Valeu? Valeu a pena
teu cerne ucraniano
fundir-se em meiga argila brasileira
para melhor sentires
o primitivo apelo da terra
moldura natural de homens xavantes
e kreen-akarores
lar aberto de bororos
carajás e kaingangs
hoje tão infelizes
pela compulsão da felicidade programada.
Valeu, Noel, a pena
seguir a traça de Rondon
e de Nimuendaju,
mãos dadas com Orlando e Cláudio Villas-Boas
sob o olhar de Darci Ribeiro
e voar e baixar e assistir e prover
e alertar e verberar
para que fique ao menos no espaço
este signo de amor compreensivo e ardente
que foi a tua vida sertaneja,
a tua vida iluminada,
a tua generosa decepção.
 

Carlos Drummond de Andrade. As impurezas do branco. RJ: José Olympio, 1973.

 

 
Nutels com Claudio Villas-Boas no Xingu
 

                           
Carlos Drummond de Andrade. As impurezas do branco. RJ: José Olympio, 1973.

 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

DRUMMOND: TORTURA




TORTURA

Carretel não entra
em rabo de gato?
Não importa: este
há de entrar, exato.

Que anel mais estranho,
ornato insensato,
se tinge de sangue
no rabo do gato.

Unha, presa, fúria,
felino aparato,
nada pode contra
a mão e seu ato.

Foge o bicho, tonto?
Carretel, no mato,
nunca mais que sai
de rabo de gato.

Não, não foge: esconde-se
na cova do rato.
Outra mão, piedosa,
cure, salve o gato,
que esta sabe apenas
torturar exato.

                        Carlos Drummond de Andrade.  Boitempo & A falta que ama.  RJ: Sabiá, 1968.










domingo, 18 de março de 2012

AH, UM SONETO... DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

DESTRUIÇÃO

Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam ao enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada, ninguém.  Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir mas o existido
continua a doer eternamente.

In: Poesia e prosa. 1981.


domingo, 1 de janeiro de 2012

PAULINHO DA VIOLA, ESTAMOS PRECISANDO TE OUVIR


             Estamos precisando ouvir Paulinho da Viola.  Não gosto nem de pensar no tanto de tempo já decorrido desde que foi lançado seu último CD.  Acho até que a indústria fonográfica ainda existia.
            Bebadachama, o CD ao vivo, foi em 97.  Em 99 um outro, ao vivo, com Toquinho.  Quanto tempo tem já o filme Meu tempo é hoje?  Dez anos? Quase isso? E o programa da MTV?  Uns cinco anos ou mais? Se eu for falar do tempo que está passando sem lhe ouvir as novidades vou ficar aflito. Paro por aqui.
            Não se trata de saudade não.  Nem poderia.  Acho que aprendi com ele a como lidar com isso da saudade (embora eu já tivesse uma aversão natural a abrigá-la), quero dizer, a como entender que o culto da saudade não faz sentido.  Desde que...
            Desde que se tenha a compreensão do que Paulinho várias vezes já disse em entrevistas – e mesmo pessoalmente a mim –, e que eu vou tentar traduzir.  Tentarei explicar à altura
            O que as pessoas chamam de saudade é o desejo de preencher, de repor de alguma maneira, alguma coisa que achamos, as pessoas,  que ali já esteve, que ali estava e que, sabe-se lá como e por que, de alguma forma deixou de estar.  Um vazio.
            Quer dizer, a saudade – ó truísmo! – é repor uma perda.  Essa perda é um déficit do presente em relação ao passado, certo?  Só que isso que presumivelmente seria reposto no lugar do que falta, por exigência nossa ao sentirmos saudade, seria reposto tão somente para suprir essa falta.  Não seria outra a razão de sua existência.  Donde se conclui que isso que “tapa o buraco”, que “preenche o vazio”, não teria nenhuma outra razão presente de existência.  Assim seriam dois os déficits: daí que a saudade seria uma forma também de autofagia.
            Mas, e quando não se cai nessa de que a razão de existir do que  existe no presente – mesmo naquele que hoje é passado – não pode ser simplesmente tapar os buracos das nossas carências?   Isso eu acho que quem quis aprender com Paulinho da Viola  aprendeu.  É se descolar da ilusão dos vazios.
            É se descolar da ilusão da saudade.  O que acontece tem sua razão de existir nesse acontecer.  O que é bom, o que é forte, acontece em sentido intenso e extenso.  Isso podemos cobrar de tudo aquilo que acontece – falemos de fatos e objetos culturais – para que essas coisas se revistam de valor para nós.  Quanto ao presente, fazemos na verdade uma aposta: que elas continuem presentes.  E quanto ao que aconteceu no passado, não significa que elas tenham morrido, que elas não sejam mais. A permanência do presente nelas (mais do que a permanência delas num presente qualquer que não o imediato de sua criação) é que define a força que elas venham a possuir. 
            Assim: Pixinguinha está aí, como Noel está aí, como estão aí Ary, Caymmi, Gonzagão, Cartola, Lupicínio, Nelson Cavaquinho, Geraldo e Wilson, Candeia, Zé Kéti, Manacea, Monarco  e Mano Décio... eles e tantos outros estão aí.  Não é justo confiná-los nos escaninhos do passado.  Temos é que estar à altura do que eles fizeram , já que julgamos que eles fizeram por permanecer.
Dito assim talvez seja fácil.  Difícil é viver com isso, difícil é viver isso.  Porque fazê-lo implica ter uma visão mais ampla do presente, implica não ter nítida a linha demarcatória onde se confina a memória no gueto do passado – melhor: implica, a rigor, não ter essa linha demarcatória.  A atualização do “passado” não existe.  Existe o passado – sem que lhe tenhamos que dar este nome – no presente atual.  Qualquer cochilo, o saudosismo entra por aí, insidioso.  Não choramingar pelo tempo que se foi é o difícil.  O tempo foge? Colha-se o dia.
É possível que eu não esteja me fazendo entender.  Mas quero voltar ao ponto de onde parti.
Estamos precisando ouvir Paulinho da Viola.  E digo: eu, particularmente, não tenho saudade nenhuma de ouvi-lo.  Acho que agora fica fácil entender: tenho aqui comigo todos os seus discos, assim como tenho vários vídeos.  A vontade de ouvir bate, eu vou ali e ouço.  Sem contar que ele está comigo mesmo quando não o estou ouvindo, incorporado de vez ao meu “fatal lado esquerdo”, como diria Drummond. O que ele  já compôs, já deixou gravado tem uma existência plena, o presente que está contido nesses sambas, nesses choros se presentifica a cada vez que,  na comodidade que as mídias proporcionam, eu ponho um CD ou um DVD pra girar. E é muito bom saber que a cada vez que acontece,  o prazer que sinto nada tem  a ver com saudade. É diferente: e se digo que  precisamos ouvir, assumindo este coletivo,  é porque Paulinho da Viola está fazendo falta.
Faz falta ouvir um CD novo, novas canções, novos sambas, novos choros.  Que sejam composições próprias ou dos compositores que ele freqüenta. Não importa se  inéditas ou não.  Nesse sentido faz falta ouvi-lo.  Nesse sentido talvez pudesse ele ser um pouco menos avaro (a palavra é pesada, reconheço, quase a rasuro; mas acabo por deixá-la: será que ele se aborreceria?).
Faz falta ouvir também Paulinho falar. Não para “dar jeito nas coisas”, como se costuma dizer, no samba ou em coisa que o valha.  Ninguém precisa “tomar na cara pra ver que o samba etc”, já disse o Chico. Nem precisa, o samba, de quem o salve, ele “é terrível”, já dizia o Caetano de 68, num samba aliás dedicado a Paulinho.  Os caminhos e descaminhos do samba continuam e continuarão a se fazer, mas a fala de Paulinho, para nos falar um pouco de sua visão de tudo isso,  falta.  Mesmo porque, ele é felizmente, para meu gosto, o menos professoral dos grandes mestres do samba.  “Meio oficial”, ele me disse certa vez quando o chamei de mestre: Na qualificação dos artesãos historicamente era assim.  Primeiro você era aprendiz e depois, meio oficial, até chegar a oficial, marceneiro-oficial, pedreiro-oficial, porque parece que o sujeito tinha que deixar o ofício, correr as várias oficinas e aí, depois de um certo tempo ele se tornava oficial.  O mestre já era uma coisa bem mais avançada mesmo. Eu me vejo como meio oficial. É, o mestre já é alguma coisa bem superior”.
A sua fala parentética, tmética  está fazendo falta porque entre outras coisas ela não discorre com “naturalidade” fingida ou sincera sobre as obviedades que cercariam o estatuto artístico entre nós, brasileiros.  Como escreveu Nuno Ramos num belo texto, em Paulinho existe a compreensão de que a origem daquilo que ele faz, o samba, é uma origem cultural e não, como é tão comum se considerar entre nós (ainda mais em se tratando de samba!) , uma origem natural.  Daí vem muito da diferença fundamental entre Paulinho e seus pares – no  samba e fora dele.  Paulinho  não pode – ou não sabe, tanto faz – ser professoral, falar como um “naturalista” fascinado com o exotismo (inclusive o próprio) porque não é de exotismo, não é de natureza, não é de natureza exótica que se trata.  Trata-se – se o assunto for o samba ou for o choro ou for a música em geral – de coisas, de artefatos, de objetos, de criações e criaturas e criadores vivos, presentes, passando aqui e ali o tempo todo, exigindo reposicionamentos, outros ângulos para ver como tudo se movimenta, nada está parado, morto, dado, estabelecido nesse universo.  Isso é o contrário do que a cultura brasileira em 90% dos casos (claro que o dado aqui é retórico) faz ao falar de samba. A profunda e diferente compreensão disso explica a fala parentética de Paulinho.  Que faz falta.  Bem utilizada, é um espermicida contra a saudade.
De carona nessa sutil diferença de Paulinho em relação ao samba, vem também  a sua recusa em se converter á outra equação simplificadora de ver o samba como a encarnação dos valores positivos da identidade nacional.  Não encontramos isso em Paulinho, e sua fala, sempre sutilmente taxativa em relação ao tema,  precisa também se fazer ouvir.  Se bem que hoje essa concepção  muito tacanha, tantos tropicalismos depois, já está bem debilitada.  Bem compreendida,  toda a sua obra dá conta dessa recusa.  Num de seus primeiros discos, em 1971, Paulinho deixou que o poeta Capinam falasse por ele em texto da contracapa” “Pra que dizer que existe música brasileira? Existe o zumbido da alma de cada um”. 
Num poema muito longo do Firma irreconhecível,  “Cabral com ímpares”, procurei dar conta de um trio de homenageados certamente um tanto improvável: o poeta João Cabral, Tom Zé e Paulinho da Viola.  A uni-los, por meio de tantas diferenças, a compreensão muito profunda neles da necessidade do aprendizado em arte, aprendizados tão diferentes – presumo – entre si.  Tentando pastichar a dicção cabralina, lá pelas tantas do poema eu ouso falar um pouco do específico do aprendizado em Paulinho, tentando ainda, ao roçar pelas imagens que remetem ao mundo natural, delas desviar e incorporar apenas o que roça por suas franjas, em direção ao que é cultural, construído, feito,  e não dado:


Por contra-exemplo: Paulinho
que a seu nome incorporou
a doce curva da viola
mas com corte: cavaquinho;

por contra-exemplo de Tomzé
a coleção de Paulinho
que um seu Mestre nomeou:
coleção de passarinhos:

rouxinóis de arrabalde
gaturamos  do longínquo
em Paulinho a canção-pássara
não teme a pedra que a extingue;

não mais canções não mais pássaros
sabe que no mundo existem
e ele os leva então na voz
e dentro de si: inquilinos

não em gaiola acoitados
ou presos em si clandestinos,
porém mais como passageiros
a descer o Velho Chico

no curso de tanta água
tendo o mar como destino
mas antes do mar tanta água
a atravessar, desmedida

que a canção-pássara que a passa
pervaga um curso intestino
não desfraldada como em mar
mas destilada em alambique

e desce em Oswaldo Cruz
articulando em repique
o repouso dos dormentes
à mordente voz dos trilhos.


            Pra encerrar, faz falta ouvir Paulinho cantar num novo CD, faz falta ouvi-lo falar.  Seus dois brilhantes companheiros de geração, Chico e Caetano, nos têm presenteado com admiráveis obras de sua maturidade criativa, irrequieta, tensa, tão dolorosa às vezes.  O que teria Paulinho para nos mostrar?  Começa o novo ano, 2012 está aí.  Não seria bom ouvir Paulinho da Viola de novo, e muito, em 2012?
            Feliz Ano Novo!         

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

DE POETAS SOBRE POESIA

Carlos Drummond de Andrade: Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação.  Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e                 compromissos.
(In: Autobiografia para uma revista )




Manuel Bandeira: Compreendi, ainda antes da lição de Mallarmé, que a poesia está nas palavras, se faz com palavras e não com idéias e sentimentos, muito embora, bem entendido, seja pela força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia.
                                                (In: Itinerário de Pasárgada)

João Cabral de Melo Neto:  
Eu não quero ser embalado, quero ser acordado.  De forma que eu procuro aquelas coisas que aumentem minha consciência da realidade, consciência de mim mesmo e do que eu estou fazendo. Eu procuro uma poesia que fosse como uma cafeína. Uma poesia que fosse um excitante, um estimulante, e não um calmante. De forma que é daí que vem toda a minha imagística valorizando o áspero.  Se você está dirigindo um automóvel  num calçamento de asfalto impecável (...), que não tenha buracos, você acaba adormecendo na direção. (...) Agora, se você for dirigir numa estada irregular, de paralelepípedos, a trepidação daquilo não deixa você dormir.
                                            (In: Entrevista para 34 Letras)


domingo, 30 de outubro de 2011

NO CENTENÁRIO DE DRUMMOND: agora com errata indispensável.


TRAPAÇAS DA MEMÓRIA SOBRE O CENTENÁRIO DE DRUMMOND

                Eis que de início a dúvida me assaltou sibilina, insidiosa... será que já estaríamos em 2012 e ninguém me avisou?  Corri ao reloginho do computador e não tive dúvidas... ainda estou, e portanto todos os que comigo compartilham o calendário gregoriano também,  em outubro de 2011... Então, por que diabos estaria eu aqui postando coisas sobre o centenário de Drummond? Eu sempre soube que o poeta nascera em 1902, como Murilo Mendes, logo o centenário será no ano que vem... vou lá no “Pergunte ao João” (também conhecido como Google) e confirmo o que já sabia – a nossa dependência dessas informações de rede está ficando cada dia mais doentia.
                Aí a dúvida de insidiosa passou a francamente alarmante e alarmista: como será comemorar em 2012 o centenário de quem nasceu em 1902?  Mudou a matemática ou mudei eu? Enfim... pane total!  Mas me intriguei com o acontecido e vi que toda a badalação atual em torno do aniversário de Drummond, mais que merecida, não deve estar por aí falando em centenário.  Tem a ver com o fato de alguns de seus livros estarem sendo relançados pela Cosac-Naify e os direitos de sua obra terem sido comprados pela poderosa Companhia das Letras, segundo me informou bem informada amiga. O centenário inventei eu, por sugestão sabe-se lá de que demo...
                Enfim, que viva Drummond, com 99, 100, 109, 110, quantos anos ele tiver: “Morreu para vocês, itabiranos ingratos, mas não no coração daqueles que o amam...” diria a reencarnação da múmia de Benedito Valadares!  Enfim, o centenário de que me lembrei outro dia e que até linkei no Facebook foi o de outro grande, Nelson Cavaquinho.  Vou aproveitar para remeter o leitor para a postagem que fiz em fevereiro de um dos seus mais pungentes sambas: http://robertobozzetti.blogspot.com/2011/02/nelson-cavaquinho-pode-sorrir.html
                Perdão, leitores!
(Nota posterior à postagem original, aí embaixo).

Celebrando os cem anos de Drummond, a serem festejados neste 31 de outubro, resolvo re-postar um dos poemas do meu Firma irreconhecível, no qual, meio que num exercício de pastiche,  me arrisquei a tentar trabalhar o octossílabo um tanto conversacional do poeta, métrica e ritmo que no meu entender mais se aproximam, em sua poesia, do andamento de sua prosa "conversada".  O resultado fica aí, os leitores avaliem. 
É certamente um poema que se quer mais afeto - e afeito - à poesia do que às estátuas, inclusive à dele.


A ESTÁTUA E OS ÓCULOS

Analfabeto não usa óculos
Careca não usa pente
Pra que que o banguela
Vai querer pasta de dente?
(quadra popular)

Os jornais falam sem alarde
que noite dessas, outra vez
defraudaram o velho gauche.
Coloquial, mas afinal
estátua, ainda que sem pose
e pedestal, não se conforma
condenado ao quieto no banco,
itamórfico, pétreo ante
a perpétua prisão do mar
às costas e os aposentados
do Posto Seis jogando damas.
Será que pode agora a mídia
fazê-lo de seu bom velhinho
finalmente Quintana avô
da Bruna? Detido que está
em fôrma, solidário às levas
de pingüins que traz o mar, ele,
velho urso vindo das geraes,
dispõe-se a retratos, no entanto
escassos se desoculado.
Ora, Drummond se emputeceu
e ele mesmo escondeu os aros
e as hastes da armação de bronze.
Será a terceira ou quarta vez
que desaparece a relíquia,
súbito patrimônio histórico.
Da primeira vez manhã cedo
alguém notou e trombeteou,
jornalistas deram alarme
muito embora os pombos à tarde
nem dessem pelo sucedido
sugerido pelo sardônico
ar titânico do poeta.
Mais uma vez a mídia em ohs!
pranteou a deseducação
endêmica e tão brasileira,
e nós, que ao longo desses anos
deveríamos ter fingido
melhor amar essa poesia
farmacéltica e farmacêutica.
Castelo que foi à penhora,
ao longo do século cético,
a estátua não declarou nada
mas de dentro dos versos duros
tão pouco dúcteis quanto doces
a forma impalpável de Carlos
solidária sorriu aos vândalos.
Claro, não disse nada, não
assim diretamente como
o insubordinado mental
incorrigível de Friburgo.
Achou que o roubo contumaz
rotinizaria as retinas
cansadas dos concidadãos
e lhe parece haver ainda
muito barulho por tão pouco.
O poder público promete
24 horas por dia
monitoração eletrônica
e se a promessa for cumprida
a estátua do gauche fará
ao vivo o tresloucado gesto.


                                                                      (in: Firma irreconhecível. Oficina Raquel, 2009)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

DRUMMOND E AS BUGANVÍLIAS

            Não porque foi lido um trecho de um poema de Drummond na cerimônia do 11 de setembro (não vi mas me contaram, e  parece que foi “kitsch” como quase sempre acontece quando a poesia é chamada para essas coisas), mas porque naquele  mesmo dia, antes da solenidade, eu tinha postado uns trechos da prosa dele e me deu uma vontade de postar durante alguns dias vários outros desse escritor que faz parte da minha ração diária de leitura, posto agora um trechinho de crônica.
            E isso muito porque também,  entrando a primavera, aqui no brejo a buganvília altaneira dá o ar de sua graça.  Claro que não é tão altaneira como as da crônica, que ultrapassam o telhado da velha casa de pé direito muito alto, ameaçando os alicerces com suas raízes, como está na íntegra do texto.  Mas até para fazer um contraponto divertido com  Drummond, posto uma foto que mostra que ela também cobre o telhado da casa... dos cachorros.  É o começo da primavera, logo logo tudo ali será um enorme vermelho buganvílico. E também porque o parágrafo que fecha a crônica é um primor na anotação dos saudáveis hábitos da hospitalidade.

“Nossa casa é antiga, embora não secular – explicava-me aquela senhora – e o senhor não sabe como essas construções antigas têm pé direito alto, um despropósito.  Nossos dois andares enfrentam bem uns três dos edifícios vizinhos.  Isso lhe dará ideia da altura das minhas buganvílias, pois as raízes delas se misturam com os alicerces, e temos praticamente dois telhados: o comum, e esse lençol rubro de flores, quando vem pintando a primavera. 
            (...)
            Há dias foi engraçado, porque convidamos um casal para almoçar, e já na horinha me lembrei que não tínhamos flores em casa.  Fui comprá-las correndo, mas a greve da Leopoldina acabara com elas, ou era a própria greve das flores, que pediam aumento de orvalho; não havia uma triste corola à venda.  E não era dia de feira no bairro, de sorte que não se podia recorrer a flores de calçada.  Voltei de alma ferida, porque se pode trabalhar sem flor, dormir sem flor, mas comer sem flor é desagradável, tira o sal.  Estava imersa em vil desânimo, quando me pousou no nariz, trazida pelo vento, a florzinha de buganvília, cujos ramos estão explodindo de vermelho, entre pinceladas verdes.  Voei ao quarto de depósito, saí de lá brandindo a escada de três metros, e icei-a na pérgula.  E com risco de romper o esqueleto, pois escada de casa também é velha e desconjuntada, aos olhos divertidos ou indignados da vizinhança, fui ceifando com tesoura aquele mar de florinhas sanguíneas.  Enchi duas cestas enormes, e nunca minha casa ficou tão bonita como enfeitada assim à última hora, sem gastar um cruzeiro; o casal ficou encantado, mas que beleza de flor, então eu expliquei que buganvília não tem propriamente flores, tem brácteas, que são folhas iguais às outras, mas valorizadas pelo vermelho.  Deu tudo certo, e eu senti que os imensos pés de buganvília me agradeciam e pagavam dessa maneira a decisão de poupar-lhes a vida até a consumação dos séculos – ou da nossa velha casa, que eles vão destruindo poeticamente.”
“Buganvílias”.  In: Fala, amendoeira.

domingo, 11 de setembro de 2011

DRUMMOND: ALGUMAS “DRÁGEAS DE SUPOSTA SABEDORIA”




. Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo.  E sempre se pode deixar.
. Ao escrever, não pense que vai arrombar as portas do mistério do mundo.  Não arrombará nada.  Os melhores escritores conseguem apenas reforçá-lo, e não exija de si tamanha proeza.
. Leia muito e esqueça o mais que puder.
. Acha que sua infância foi maravilhosa e merece ser lembrada a todo momento em seus escritos? Seus companheiros de infância aí estão, e têm opinião diversa.
. Não cumprimente com humildade o escritor glorioso, nem o escritor obscuro com soberba.  Às vezes nenhum deles vale nada, e na dúvida o melhor é ser atencioso para com o próximo, ainda que se trate de um escritor.
. O porteiro do seu edifício provavelmente  ignora a existência, no imóvel, de um escritor excepcional.  Não julgue por isso que todos os assalariados modestos sejam insensíveis à literatura, nem que haja obrigatoriamente escritores excepcionais em todos os andares.  
. Faça fichas de leitura.  As papelarias apreciam esse hábito. As fichas absorverão o seu excesso de vitalidade e, não usadas, são inofensivas.
. Se sentir propensão para o gang literário, instale-se no seio de sua geração e ataque.  Não há polícia para esse gênero de atividade.  O castigo são os companheiros e depois o tédio.
. Evite disputar prêmios literários.  O pior que pode acontecer é você ganhá-los, conferidos por juízes que o seu senso crítico jamais premiaria.
. Antes de reproduzir na orelha de seu livro a opinião do confrade, pense, primeiro, que ele não autorizou a divulgação; segundo, que a opinião pode ser mera cortesia; terceiro, que você não admira tanto assim o seu confrade.
. Opinião duradoura é a que se mantém válida por três meses.  Não exija maior coerência dos outros nem se sinta obrigado intelectualmente a tanto.  E proceda à revisão periódica de suas admirações.
. Deixe-se fotografar à vontade, sem chamar os fotógrafos; não recuse autógrafos,  mas não se mortifique se não os pedirem.  Homero não deixou cartas nem retratos; Baudelaire deixou uns e outros.  O essencial se passa com outros papéis.

                        “A um jovem”.  In: A bolsa & a vida.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

De Drummond, "ROMARIA"

ROMARIA

Os romeiros sobem a ladeira
cheia de espinhos, cheia de pedras,
sobem a ladeira que leva a Deus
e vão deixando culpas no caminho.

Os sinos tocam, chamam os romeiros:
Vinde lavar os vossos pecados.
Já estamos puros, sino, obrigados,
mas trazemos flores, prendas e rezas.

No alto do morro chega a procissão.
Um leproso de opa empunha o estandarte.
As coxas das romeiras brincam no vento.
Os homens cantam, cantam sem parar.

Jesus no lenho expira magoado.
Faz tanto calor, há tanta algazarra.
Nos olhos do santo há sangue que escorre.
Ninguém não percebe, o dia é de festa.

No adro da igreja há pinga, café,
imagens, fenômenos, baralhos, cigarros
e um sol imenso que lambuza de ouro
o pó das feridas e o pó das muletas.

Meu Bom Jesus que tudo podeis,
humildemente te peço uma graça.
Sarai-me, Senhor, e não desta lepra,
do amor que eu tenho e que ninguém me tem.

Senhor, meu amo, dai-me dinheiro,
muito dinheiro para eu comprar
aquilo que é caro mas é gostoso
e na minha terra ninguém não pissui.

Jesus meu Deus pregado na cruz,
me dá coragem pra eu matar
um que me amola de dia e de noite
e diz gracinhas a minha mulher.

Jesus Jesus piedade de mim.
Ladrão eu sou mas não sou ruim não.
Por que me perseguem não posso dizer.
Não quero ser preso, Jesus ó meu santo.

Os romeiros pedem com os olhos,
pedem com a boca, pedem com as mãos.
Jesus já cansado de tanto pedido
dorme sonhando com outra humanidade.

                             Carlos Drummond de Andrade

(poema incluído em Alguma poesia, 1930)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A ESTÁTUA E OS ÓCULOS

Analfabeto não usa óculos
Careca não usa pente
Pra que que o banguela
Vai querer pasta de dente?
(quadra popular)

Os jornais falam sem alarde
que noite dessas, outra vez
defraudaram o velho gauche.
Coloquial, mas afinal
estátua, ainda que sem pose
e pedestal, não se conforma
condenado ao quieto no banco,
itamórfico, pétreo ante
a perpétua prisão do mar
às costas e os aposentados
do Posto Seis jogando damas.
Será que pode agora a mídia
fazê-lo de seu bom velhinho
finalmente Quintana avô
da Bruna? Detido que está
em fôrma, solidário às levas
de pingüins que traz o mar, ele,
velho urso vindo das geraes,
dispõe-se a retratos, no entanto
escassos se desoculado.
Ora, Drummond se emputeceu
e ele mesmo escondeu os aros
e as hastes da armação de bronze.
Será a terceira ou quarta vez
que desaparece a relíquia,
súbito patrimônio histórico.
Da primeira vez manhã cedo
alguém notou e trombeteou,
jornalistas deram alarme
muito embora os pombos à tarde
nem dessem pelo sucedido
sugerido pelo sardônico
ar titânico do poeta.
Mais uma vez a mídia em ohs!
pranteou a deseducação
endêmica e tão brasileira,
e nós, que ao longo desses anos
deveríamos ter fingido
melhor amar essa poesia
farmacéltica e farmacêutica.
Castelo que foi à penhora,
ao longo do século cético,
a estátua não declarou nada
mas de dentro dos versos duros
tão pouco dúcteis quanto doces
a forma impalpável de Carlos
solidária sorriu aos vândalos.
Claro, não disse nada, não
assim diretamente como
o insubordinado mental
incorrigível de Friburgo.
Achou que o roubo contumaz
rotinizaria as retinas
cansadas dos concidadãos
e lhe parece haver ainda
muito barulho por tão pouco.
O poder público promete
24 horas por dia
monitoração eletrônica
e se a promessa for cumprida
a estátua do gauche fará
ao vivo o tresloucado gesto.


                                   Roberto Bozzetti
                                   (in: Firma irreconhecível. Oficina Raquel, 2009)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

DE "DIVAGAÇÃO SOBRE AS ILHAS"

               Por aí se observa que a ilha mais paradisíaca pede regulamentação, e que os perigos da convivência urbana estão presentes.  Tanto melhor, porque não se quer uma ilha perfeita, senão um modesto território banhado de água por todos os lados e onde não seja obrigatório salvar o mundo.
                A idéia de fuga tem sido alvo de crítica severa e indiscriminada nos últimos anos, como se fosse ignominioso, por exemplo, fugir de um perigo, de um sofrimento, de uma caceteação.  Como se devesse o homem consumir-se numa fogueira perene, sem carinho para com as partes cândidas ou pueris de si mesmo, que cumpre preservar principalmente em vista de uma possível felicidade coletivista no futuro.  Se se trata de harmonizar o homem com o mundo, , não se vê por que essa harmonia só será obtida através de um extermínio generalizado e de autopunição  dos melhores.  Pois, afinal, o que se recomenda aos homens é apenas isto: “Sejam infelizes, aborreçam o mais possível aos seus semelhantes, recusem-se a qualquer comiseração, façam do ódio um motor político.  Assim, atingirão o amor.” Obtida a esse preço a cidade futura, nela já não haveria o que amar.
                Chega-se a um ponto em que convém fugir menos da malignidade dos homens do que da sua bondade incandescente.  Por bondade abstrata nos tornamos atrozes.  E o pensamento de salvar o mundo é dos que acarretam as mais copiosas – e inúteis – carnificinas.
                Estas reflexões descosidas procuram apenas recordar que há motivos para ir às ilhas, quando menos para não participar de crimes e equívocos mentais generalizados.  São motivos éticos, tão respeitáveis quanto os que impelem à ação o temperamento sôfrego.  A ilha é meditação despojada, renúncia ao desejo de influir e de atrair.  Por ser muitas vezes uma desilusão, paga-se relativamente caro.  Mas todo o peso dos ataques desfechados contra o Robinson moderno, que se alongou das rixas miúdas, significa tão-somente que ele tinha razão em não contribuir para agravá-las.  Em geral, não se pedem companheiros, mas cúmplices.  E este é o risco da convivência ideológica.  Por outro lado, há certo gosto em pensar sozinho.  É ato individual, como nascer e morrer.
                A ilha é, afinal de contas, o refúgio último da liberdade, que em toda parte se busca destruir.  Amemos a ilha.

                             Carlos Drummond de Andrade (In: Passeios na ilha)