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sábado, 3 de setembro de 2016

CECÍLIA MEIRELES (1901-1964)



Do Romanceiro da Inconfidência

ROMANCE LXXXI OU DOS ILUSTRES ASSASSINOS

Ó grandes oportunistas,
sobre o papel debruçados,
que calculais mundo e vida
em contos, doblas, cruzados,
que traçais vastas rubricas
e sinais entrelaçados,
com altas penas esguias
embebidas em pecados!

Ó personagens solenes
que arrastais os apelidos
como pavões auriverdes
seus rutilantes vestidos,
- todo esse poder que tendes
confunde os vossos sentidos:
a glória, que amais, é desses
que por vós são perseguidos.
 
Levantai-vos dessas mesas,
saí das vossas molduras,
vede que masmorras negras,
que fortalezas seguras,
que duro peso de algemas,
que profundas sepulturas
nascidas de vossas penas,
de vossas assinaturas!
 
Considerai no mistério
dos humanos desatinos,
e no pólo sempre incerto
dos homens e dos destinos!
Por sentenças, por decretos,
pareceríes divinos:
e hoje sois, no tempo eterno,
como ilustres assassinos.

Ó soberbos titulares,
tão desdenhosos e altivos!
Por fictícia austeridade,
vãs razões, falsos motivos,
inutilmente matastes:
- vossos mortos são mais vivos
e, sobre vós, de longe, abrem
grandes olhos pensativos.



Cecília Meireles. Romanceiro da Inconfidência.  SP: Abril (Círculo do Livro), 1975.

 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

CECÍLIA MEIRELES

Max Beckmann



 MEMÓRIA
 

                        A José Osório

 

Minha família anda longe,
com trajos de circunstância:
uns converteram-se em flores,
outros em pedra, água, líquen;
alguns, de tanta distância,
nem têm vestígios que indiquem
uma certa orientação.

Minha família anda longe,
– na Terra, na Lua, em Marte –
uns dançando pelos ares,
outros perdidos no chão.

Tão longe a minha família!
Tão dividida em pedaços!
Um pedaço em cada parte...
Pelas esquinas do tempo,
brincam meus irmãos antigos:
uns anjos, outros palhaços...
Seus vultos de labareda
rompem-se como retratos
feitos em papel de seda.
Vejo lábios, vejo braços,
– por um momento persigo-os;
de repente, os mais exatos
perdem sua exatidão.
Se falo, nada responde.
Depois, tudo vira vento,
e nem o meu pensamento
pode compreender por onde
passaram nem onde estão.

Minha família anda longe.
Mas eu sei reconhecê-la:
um cílio dentro do oceano,
um pulso sobre uma estrela,
uma ruga num caminho
caída como pulseira,
um joelho em cima da espuma,
um movimento sozinho
aparecido na poeira...
Mas tudo vai sem nenhuma
noção de destino humano,
de humana recordação.
 
Minha família anda longe.
Reflete-se em minha vida,
mas não acontece nada:
por mais que eu esteja lembrada,
ela se faz de esquecida:
não há comunicação!
Uns são nuvem, outros, lesma...
Vejo as asas, sinto os passos
de meus anjos e palhaços,
numa ambígua trajetória
de que sou o espelho e a história.
Murmuro para mim mesma:
“É tudo imaginação!”
 
Mas sei que tudo é memória...


Cecília Meireles. Poesias completas v. 1; Viagem/Vaga música.  Civilização Brasileira, 1976.



quarta-feira, 6 de junho de 2012

CECÍLIA MEIRELES







ECO

Alta noite, o pobre animal aparece no morro, em silêncio.
O capim se inclina entre os errantes vaga-lumes;
pequenas asas de perfume saem de coisas invisíveis:
no chão, branco de lua, ele prega e desprega as patas, com sombra.

Prega, desprega e pára.
Deve ser água, o que brilha como estrela, na terra plácida.
Serão jóias perdidas, que a lua apanha em sua mão?
Ah! ... não é isso …

E alta noite, pelo morro em silêncio, desce o pobre animal sozinho.

Em cima, vai ficando o céu. Tão grande! Claro. Liso.
Ao longe, desponta o mar, depois das areias espessas.
As casas fechadas esfriam, esfriam as folhas das árvores.
As pedras estão como muitos mortos: ao lado um do outro, mas estranhos.
E ele pára, e vira a cabeça. E mira com seus olhos de homem.
Não é nada disso, porém …

Alta noite, diante do oceano, sente-se o animal, em silêncio.
Balançam-se as ondas negras. As cores do farol se alternam.
Não existe horizonte. A água se acaba em tênue espuma.

Não é isso! Não é isso!
Não é a água perdida, a lua andante, a areia exposta …
E o animal se levanta e ergue a cabeça, e late … late …

E o eco responde.

Sua orelha estremece. Seu coração se derrama na noite.
Ah! para aquele lado apressa o passo, em busca do eco.

In: Viagem/Vaga música. 1939.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

DE POETAS SOBRE POESIA II

Rainer Maria Rilke:“Ninguém o pode aconselhar ou ajudar – ninguém.  Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo.  Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma: confesse a si mesmo:  morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto, acima de tudo, pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: ‘Sou mesmo forçado a escrever?’ Escave dentro de si uma resposta profunda.  Se afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples ‘sou’, então construa a sua vida de acordo com essa necessidade.”            (In: Cartas a um jovem poeta)


T. S. Eliot: “A poesia não pode afastar-se muito da língua cotidiana que nós mesmos falamos e ouvimos falar.  A poesia – seja ela quantitativa ou silábica, rimada ou não rimada, de forma livre ou fechada – não pode perder o contato com a linguagem cambiante das ordinárias relações humanas.  Pode parecer estranho que, mesmo tendo me proposto a falar da “música” da poesia, eu insista particularmente na linguagem da conversação.  Mas antes de tudo gostaria de lembrar que a música da poesia não exciste independentemente do significado; do contrário, poderia produzir-se uma poesia de grande beleza musical,mas ausente de sentido, como jamais me ocorreu de ler.             (In: “Musicalidade da poesia”)



W. H. Auden: “Se se perguntasse quem disse ‘A Beleza é a Verdade, a Verdade, a Beleza!’, muitos leitores responderiam ‘Keats’, mas este não disse nada do tipo.  Trata-se do que ele disse que a Urna Grega dizia, sua descrição e crítica de certos tipos de obras de arte, o tipo do qual os males e os problemas desta vida, ‘ o coração desconsolado e exausto’ estão deliberadamente excluídos.  A Urna, por exemplo, retrata, entre outras belas paisagens, a cidadela de um povo na colina; ela não retrata a guerra, o  mal que torna necessária a cidadela. A Arte surge de nosso desejo de beleza e verdade e de nosso conhecimento de que elas não são idênticas."       (in: “A mão do artista”)



Maiakóvski: “Não se deve colocar em movimento uma grande usina poética, para fabricar isqueiros poéticos.  É preciso virar o rosto a tão irracional miuçalha.  Deve-se pegar da pena somente quando não existe outro meio de dizer o que se quer, a não ser o verso.  Devem-se elaborar objetos acabados somente quando se sente um encargo social bem claro.”  (in: "Como fazer versos")














Traduções utilizadas: Paulo Rónai e Cecília Meireles (Rilke), Affonso Romano de Sant'anna (Eliot), José Roberto O'Shea (Auden) e Boris Schnaiderman (Maiakóvski)