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domingo, 11 de setembro de 2016

MURILO MENDES (1901-1975)

Ilustração de  Talarico






MURILO MENDES (1901-1975)

 

A LAGARTIXA

Sentado ao sol num banco de jardim romano observo uma lagartixa no seu contínuo vaivém.  Tento inutilmente agarrá-la; mesmo que sim, ela escorregaria logo das minhas mãos; digo escorreria porque a lagartixa tem algo de líquido.

Inaferrável pequeno sáurio! procuro captar um milésimo-luz do seu olhar, certamente de uma estranheza sem igual.

Que brinquedo propor à lagartixa?  Cabra-cega, pique, chicote-queimado, talvez os únicos brinquedos adaptáveis à sua condição, forma, agilidade, e aos seu gosto do enigma.  O ideal seria dançar com ela uma ciranda, mas afasto este pensamento cruel: a lagartixa não tem mãos como as nossas.  Além disso, trata-se de uma anarco-individualista: nunca vi lagartixas em bando; magnificamente só, a lagartixa esgueira-se entre as pedras, os muros, as folhagens, perseguindo não se sabe bem o quê; indecisa entre o sol e a sombra, talvez encontre na pedra a síntese que mira: com efeito, a pedra resume unidade e dureza.

Falando lagartixa,  falo infância onde lagartixa foi doce companheira  das minhas horas juiz-foranas, nos jardins e pomares daquele tempo.  Falando infância, (adolescência, mocidade, madureza e próxima velhice), não poderia deixar de apontar aqui uma figura feminina; sem as figuras femininas duraria o mundo, de que também a lagartixa é flexível comparsa?

**

É a tarde de uma segunda-feira de carnaval; devo ter doze anos; estou sentado ao sol num banco, no pomar da casa paterna, considerando os movimentos de uma lagartixa  que espreitava desde semanas.  Isto é, seria a mesma de antes?  Quem distingue ao certo as lagartixas, quem distinguiria as meninas chinesas?  E se houver lagartixas chinesas, meu Deus! então o caso se complicará muitíssimo.  Eu, que gosto de dar nome a todas as coisas, não poderia batizar uma lagartixa.  Assim, quantas Heloísas, Elisabetes e Mercedes não-nascidas!

De repente desponta entre os jambeiros e os cambucazeiros minha namorada Dolores, filha do advogado N... Vieira, fantasiada de princesa oriental; um vestido com muitos babados e refolhos, entre verde, vermelho, azul, alaranjado; coberta de lantejoulas; à cabeça um turbante de seda amarela.  Eu gostava de Dolores, gostava demais do carnaval, gostava de fantasias (se bem que nunca as usasse) mas não pude tolerar aquele absurdo travesti que desfigurava minha linda ex-amiga, dando-lhe mesmo – coisa terrível – um ar flácido.

Súbito Dolores passou a inexistir para mim.  Refletida nas lantejoulas eu via a vulgaridade do clã Vieira.  A lagartixa ia e vinha; não parou;indiferente em absoluto à fantasia de Dolores, revelava, sem querer, bom gosto.  Resolvi seguir sua lição, passando-a para o plano dos homens.

A menina-moça voltou para mim surpreendida:

- Estão todos te esperando para a batalha de confete na rua Halfeld.

Lancei os dados, decidido a intransigir, a quebrar a rotina, a me afirmar como gente:

- Desculpe, Dolores, mas não posso ir.

- Porque?

- Estou muito interessado em estudar os movimentos daquela lagartixa.

Dolores nem mordeu os lábios, como de praxe: partiu a todo o galope para avisar a minha tribo que eu enlouquecera. Vieram todos, arlequins, pierrôs, pierretes, colombinas, dominós, índios, feiticeiras, rajás armados de lanças-perfume, sacos de confete, rolos de serpentinas; rodeando-me entre afeto, censura e espanto.

Confirmei minha informação anterior; ninguém conseguiu me arrancar dali. Com a movimentação em torno dela, minha querida lagartixa, sardanita ou sardanisca, desapareceu.  Voltei em vão ao pomar nos dias sucessivos; e perdi Dolores para sempre.

Murilo Mendes. A idade do serrote. RJ: Sabiá, 1968.

sábado, 2 de janeiro de 2016

DOIS POEMAS DE O VISIONÁRIO (1937), MURILO MENDES


A VAMP

 

A camisinha de rendas
Que usava
A irmã que morreu de amor.
Ligas misturadas
Antes da paixão
Com uma lata de talco
E um retrato de Nossa Senhora
Construído com borboletas.
Uma flauta no cabide
Fez a guerra do Paraguai
Quando não havia petróleo
- Pertenceu a meu avô –,
A dama chegou no tufão,
Vestida de dominó
Despe o dominó
Tem quatro braços
Traz a vertigem
Está com febre
Me pega o amor
Tem quatro braços
Não posso mais
Quatro sovacos
Aí vem a manhã
Clareia o quarto
Allegro aleluia
Allegro da Aurora
O sol ilumina
O mundo sem amor.


"Mulher sentada com ramo de flores", Ismael Nery, 1927



 

FIM E PRINCÍPIO

 

Espírito pavoroso do século,
Não te dedicaria pianos
Nem harmonias de sirenes
Se os demônios não quisessem.
Entretanto chora o mar,
Choram noivas, peixes, mães,
Desde o princípio do mundo;
Apitos de máquinas levarão
Desde o pólo ao equador
Até o final dos tempos
Lamentações de novilhas,
De cegos, órfãos e plantas.



 
Murilo Mendes. Poesia completa e prosa. Nova Aguilar, 1994.


quarta-feira, 15 de abril de 2015

MURILO MENDES





O GALO

Quando eu era menino, acordando cedo de madrugada, ouvia o galo cantar longíssimo, o canto forte diluía-se na distância, talvez viesse das abas redondas de Chapéu d’Uvas, ou das praias que eu imaginava no Mar de Espanha, sei lá, no cornimboque do diabo.  Nesse tempo não existiam galos no nosso terreiro.

*

         Até que um dia lá chegou um galo soberbo, fastoso, corpo real, portador de plumagem azul-verde-vermelha.  Seu canto era agressivo: napoleônico.  Os galos da distância cederam o passo a este outro próximo, tocável, fichável.  Aproximei-me muitas vezes do galo, testando-o; ele baixava a cabeça para examinar-me, conferenciava com as galinhas d’angola, bicando qualquer grão ou cisco; depois voltava a mim, levantando já agora a cabeça para marcar sua superioridade, talvez de tribuno, barítono, boxeador; desafiando-me a que com a crista?  O galo me atraía e repelia; eu receava que me bicasse, ou que me disparasse um jato de dejeções.  Embora admirando-os, nunca me senti muito à vontade com os bichos; mesmo algumas plantas ou certos frutos, por exemplo a begônia e o maracujá causavam-me receio.  Desde o começo a natureza pareceu-me hostil.

*

         Um dia abeirei-me do galinheiro manejando um bilboquê diante do galo; quis mostrar-lhe que o dominava, que ele seria incapaz de jogar bilboquê, jogo da moda.  O galo farejou o objeto; julgando-o certamente esotérico sacudiu a plumagem, empinou a crista, abanou a cabeça rindo, um riso voltaireano, adstringente.  Polígamo que era, atacou à minha vista, alternativamente, duas galinhas carijó, cobrindo-as, contundente, claro que para me fazer despeito.  Atirei o bilboquê no chão, arma inútil, vencida.   

                   Do “Setor Microzoo” do livro Poliedro  (1972)


Murilo Mendes.  Poesia completa e prosa.  RJ: Nova Aguilar, 1994.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

MURILO MENDES

Óleo de De Chirico


 

INSÔNIA

 
Ao longe um cão branquíssimo latindo
Divide a noite em duas.
Se aquele cão fosse negro
Talvez que eu pudesse dormir.

Pressinto uma bomba atômica
Adormecida no bosque.

Vivo ou morto estarei, inculpe ou réu?
Visito-me ao espelho: sem algemas.
Munido de passaporte para este mundo, ou não?

 
          

                        Murilo Mendes. Poesia completa e prosa.  Rio: Nova Aguilar, 1994.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

MURILO MENDES

Ilustração de Talarico
 
 

O poema abaixo encerra o livro Tempo espanhol,  publicado por Murilo Mendes em Portugal   (Lisboa, Morais Editora) em 1959, em plena ditadura franquista.

 
 

O CRISTO SUBTERRÂNEO

Descubro um Cristo secreto
Que nasce na Espanha súbito.
 
Não é o Cristo vitorioso
Dos afrescos catalães,
Nem o Cristo de Lepanto
Suspenso por uma torre
De espadas, velas, paixões.
Não investe uma colina,
Não brilha no meio do altar
Entre ornamentos de prata.
Nem no palácio dos ricos,
Nem no báculo dos bispos.
É um Cristo quase secreto
Que nasce das catacumbas
Da Espanha não-oficial.
Nasce da falta de pão,
Nasce da falta de vinho,
Nasce da funda revolta
Contida pela engrenagem
Da roda de compressão.
Nasce da fé maltratada,
Vagamente definida.
 
É um Cristo dos operários
Atentos, em pé de greve,
Filhos de outros operários
Mortos na guerra civil.
É um Cristo dos estudantes
Sem dinheiro para as taxas.
É um Cristo dos prisioneiros
Que no silêncio cultivam
A pura flor da esperança.
É um Cristo de homens-larvas
Famintos, inacabados,
Morando em covas escuras
De Barcelona e Valência.
É um Cristo da experiência 
De padres inconformistas
Que não abençoam espadas
Nem incensam o ditador.
É um Cristo do tempo incerto.
É um Cristo do vir-a-ser,
Formado nos corações
Da Espanha que não se vê.
 

 

Murilo Mendes. Poesia completa e prosa.  RJ: Nova Aguilar, 1994.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

MURILO MENDES



A MULHER ANÔNIMA

 

Lembra-te daquela mulher
Que um dia te acenou do alto de uma varanda.
Daquela forma admirável mas sem nome
Que uma tarde te disse adeus
Enquanto o automóvel parou um minuto na estrada.


Lembra-te da mulher pouco decorativa, mulher simples
Que não tiveste coragem de arrancar violento ao espaço
E que certamente nunca mais tornarás a ver.
Lembra-te da bela mulher que estremeceu por ti
E sê-lhe fiel até o último dia da tua vida.
 

Murilo Mendes. Poesia completa e prosa. RJ: Nova Aguilar, 1994.

Ilustração de Talarico
 

sábado, 6 de julho de 2013

GRACILIANO


            Uma das primeiras postagens deste blog foi sobre Graciliano Ramos, visto por seu filho, o também escritor Ricardo Ramos, num valioso livro dedicado às lembranças de seu convívio com o velho,  Retrato fragmentado. 
http://robertobozzetti.blogspot.com.br/2010/12/graciliano-em-dois-fragmentos.html Arrumando estantes aqui,  e aproveitando que a FLIP deste ano é dedicada a Graciliano,  um dos escritores do meu fatal lado esquerdo, resolvi vadiar um pouco pelo livro de Ricardo.  E por outras páginas, alusivas ao mestre alagoano.   Ficam sendo fragmentos dos fragmentos e de outros fragmentos...

             Na página 32 de Retrato fragmentado leio:

             “A linguagem, para Graciliano, era um problema.  Ou casos a resolver, e não dos mais corriqueiros.  Tanto que demandava pesquisa, de raízes ou eufonias, sem muito a ver com as tendências de época…  meu cunhado James Amado me relembra um diálogo, bastante longo, em que ele descartava o modernista “me dê”, por não encontrar base na sua realidade oral, nem na gramática, em benefício de um “dê cá”, real e fluente.
            Há outros exemplos, inúmeros, que pedem somente esforço de memória.  Um deles meu pai me contou, reconstituindo o tempo em que escrevia São Bernardo na língua de Paulo Honório.  Estava sentado na varanda da casa de Palmeira dos Índios, trabalhando, quando chega Clóvis, um dos seus irmãos mais moços, fazendeiro, eventual consultor para assuntos do agreste e se apeia afogueado, suando. Papai o chama. Esbaforido meu tio o atende, ouve a pergunta que o surpreende, dá de ombros, responde atravessado:
            - Ora, Grace! Quem pariu mateus que o balance!
            Ele dá uma gargalhada e agradece:
            - Obrigado, Clóvis. Era isso que eu queria.”

 

 


Mais adiante, na 191:
   

            “Logo após sua morte foi publicado “Máscara mortuária de Graciliano Ramos” soneto de Vinícius de Moraes; o poema “Graciliano Ramos”, de João Cabral de Melo Neto, saiu a seguir.

            O verso inicial de Vinícius, “Feito só, sua máscara paterna”, diz bem das suas relações com Graciliano.  Durante a doença do Velho, ele nos visitava regularmente.  Chegava educado, atencioso, encantador, ficava o tempo requerido, nem muito nem pouco, a nos entreter amável e inteligente.  Era uma presença que fazia bem a meu pai, a todos nós.  E continuou além dele, ainda que mais espaçada, no convívio conosco.  Bar, livraria, jantar de amigos.  Um dos nossos últimos encontros, já vivia sua temporada baiana, aconteceu num almoço na casa de Jenner Augusto, com muita bebida, piscina, comida, interminável e caloroso. Ele me convidou, fosse vê-lo, matar saudades.  Deu o endereço, combinamos.  Eu de férias, pouco depois ia procurá-lo, em Itapuã.  Cheguei, toquei a campainha, passei o portão.  E me surgiu um cachorro enorme, ladrando, ameaçador.  Congelei, de susto ou medo, quando ouvi o grito:
           - Graciliano!
            O bicho aquietou-se, Vinícius apareceu.  Fomos entrando.  Ainda meio arisco, perguntei:
            - Ele se chama Graciliano?
            E Vinícius, no seu natural carinhoso:
            - Claro.  É um São Bernardo.”  
        
 
           Aqui o belo soneto de Vinícius, que, não sei por que, ao relê-lo agora, me ecoou um tanto o  “Le tombeau d’Edgar Poe”, de Mallarmé - releio-o de novo: não.  Acho que só o motivo.  Talvez o primeiro verso.   Eis o  soneto de Vinícius:


MÁSCARA MORTUÁRIA DE GRACILIANO RAMOS

Feito só, sua máscara paterna,
Sua máscara tosca, de acre-doce
Feição, sua máscara austerizou-se
Numa preclara decisão eterna.

Feito só, feito pó, desencantou-se
Nele o íntimo arcanjo, a chama interna
Da paixão em que sempre se queimou
Seu duro corpo que ora longe inverna.

Feito pó, feito pólen, feito fibra
Feito pedra, feito o que é morto e vibra
Sua máscara enxuta de homem forte.

Isto revela em seu silêncio à escuta:
Numa severa afirmação da luta,
Uma impassível negação da morte.

 

 

          Na seqüência, leio ainda no belo livro de Ricardo Ramos:


           "João Cabral de Melo Neto, apesar de visível desde os meus começos, sempre foi mais uma admiração a distância que um particular de pessoal, entretanto alimentado na substância das afinidades.  Aquilo de nordestino afiado, só lâmina, que apura a palavra escrita e a esgota, quase nunca a diz.  Um errante por profissão, um erradio por formação ou destino.  Atribuí os nossos desencontros a tais fados, que nos evitavam, limitavam  meus desejados contatos a breves encontros no Rio, quatro dias no Porto, ligeiras aparições em São Paulo.  E no entanto, para mim, tudo era ontem.
            O poema sobre Graciliano é definitivo.  Como iluminação do escritor, como sentido e afirmação da obra.  Somente um oficial do mesmo ofício, irmão de opa, seria tão preciso.  A precisão, aliás, marca de João Cabral.  Ou de Graciliano. Esse despojamento, que despreza os enfeites, emblema de um e outro.  Irmanados, João Cabral e Graciliano, um interpreta o outro.  ‘Falo somente com o que falo:/Falo somente do que falo:/Falo somente por quem falo:/Falo somente para quem falo.’ Os dois pontos dão seqüências.  Mínimas, essenciais.  Do seco e de suas paisagens.
            Sentados num corredor de hotel, enquanto lá dentro jantavam, animados, escritores de várias instâncias literárias, João Cabral e eu nos abstínhamos, enfastiados.  Um pelo temperamento, outro pela rotina.  Aí falamos de meu pai.  E João Cabral, inesperado, me declarou:
            - Eu não o conheci.
            Surpreso, pois até eu vinha com João desde longe, reagi:
            - Não é possível!
            João Cabral simplesmente declarou:
            - Eu o via na José Olympio e não me aproximava. Por mais que quisesse, era inatingível.  Nunca cheguei nem perto.
            Eu disse o que devia, ou podia.  Duas almas gêmeas.  Muito possivelmente, íntimas.  Se Graciliano fosse poeta, estaria próximo de João Cabral.  Se João Cabral fosse prosador, se avizinharia de Graciliano.  Entre um e outro, os imponderáveis.  Que nós pesamos, pensativos.  Sem concluir, decerto, mas com aquela sensação de penoso desencontro. ‘O que é sinônimo da míngua.’”
 
 
  A íntegra do extraordinário poema de João Cabral:
GRACILIANO RAMOS:
 
Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:

 
de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.
               ***
Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:

 
que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se a fraude.
                ***
 Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:

 
e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo da míngua.
              ***
Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:

 
que é quando o sol é estridente,
a contrapelo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
quem bate numa porta a socos.
Ricardo Ramos

 
 

 
Ricardo nasceu no começo do mesmo 1929 em que seu pai Graciliano foi prefeito em Palmeira dos Índios, Alagoas. A  passagem de  27 meses do Velho pelo cargo  é conhecida de todos os que sabem o mínimo sobre ele, pois foi graças aos relatórios que enviou ao governo daquele  estado que sua escrita precisa, firme, sem rodeios e rebuços indicou  ao Sul maravilha que ali estava um escritor – e que escritor! – inédito ainda àquela altura.  Não me estendo aqui sobre a passagem, de resto facilmente encontrável em suas linhas gerais nas biografias disponíveis,  inclusive na internet.  Mas não se pode deixar de frisar e repisar que a herança deixada, se não frutificou – e não frutificou mesmo, não digo apenas em Alagoas, mas no Brasil todo – é exemplar por seu espírito republicano, por sua integridade, por sua inteireza de límpida transparência na função de homem público.  Como sua escrita, diga-se. 
            Ricardo, p. 111:
            “Dois anos mais tarde, (...) ele me encontrou lendo direito comercial.  E veio me ensinando, muito pai que acha um jeito de confraternizar.  Indireto, mas educativo.  Foi minha vez de rir e perguntar:
            - Onde diabo você aprendeu isso?
            E ele, reflexivo, me respondeu:
            - Em 29 eu agüentei a crise, a prefeitura de Palmeira e você.
            Fora o ano em que nasci.  Acidente, mas contornável.  Tanto que seguiu, concluindo:
            - Se não soubesse um pouco de direito comercial, de escrituração, eu tinha falido.  Mas não, sobrevivi.  Porque não mandei fazer por mim.”
 
            Os relatórios do prefeito Graciliano foram incluídos no volume Viventes das alagoas, mas podem ser acessados na internet no site da excelente Revista de História. Para o Relatório de 1929: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/conteudo-complementar/relatorio-da-prefeitura-municipal-de-palmeira-dos-indios-1929

 

Para quem não os conhece, não resisto e adianto alguns trechos.  Do relatório referente a 1929, veja-se a abertura, na qual a “capilaridade”  do poder é absolutamente perversa, por remeter sempre, inexoravelmente, ao pretenso “poder absoluto” de cada um.  É a situação, familiar para  nós brasileiros, de que o guarda da esquina tem mais poder que um juiz, na medida em que ele, o guarda, é o juiz.  O que se contrapõe a isso, que se reforça com a famosa “falta de vontade política” de quem poderia mudar tal situação, é a conformidade com os “desígnios do Senhor”.  Leia-se:

“COMEÇOS

O principal, o que sem demora iniciei, o de que dependiam todos os outros, segundo creio, foi estabelecer alguma ordem na administração.
Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante de Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do Município tinha a sua administração particular, com Prefeitos Coronéis e Prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam.
Para que tal anomalia desaparecesse lutei com tenacidade e encontrei obstáculos dentro da Prefeitura e fora dela – dentro, uma resistência mole, suave, de algodão em rama; fora, uma campanha sorna, oblíqua, carregada de bílis. Pensava uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro.
Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restam poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Devo muito a eles.
Não sei se a administração do Município é boa ou ruim.
Talvez pudesse ser pior."

             Ainda no mesmo relatório, a inevitável necessidade de ter que indispor-se com todo o sistema da cordialidade brasileira, que Sérgio B. de Holanda formulou e explicou como funciona, partindo do sentido etimológico: é relativa ao coração, como sede dos afetos (bons e maus), e é herança da sociedade patriarcal, pré-moderna,  opondo-se ao domínio do racional e do impessoal próprio das relações modernas. A cordialidade faz com que a lei seja secundária, relativa, flexível e  frouxa, valendo o princípio das relações estabelecidas com aqueles aos quais cabem empregá-la, não com ela propriamente.  Leva a lei ao ponto certo, emprega-a de maneira a não favorecer os que dela se beneficiam ou burlam?  A “amizade” torna-se de súbito inimizade, dessa vez sem aspas. É o que temos na conclusão do primeiro relatório:

 

CONCLUSÃO
Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abriram só há curvas onde as retas foram inteiramente impossíveis.
Evitei emaranhar-me em teias de aranha.
Certos indivíduos, não sei por que, imaginam que devem ser consultados; outros se julgam autoridade bastante para dizer aos contribuintes que não paguem impostos.
Não me entendi com esses.
Há quem ache tudo ruim, e ria constrangidamente, e escreva cartas anônimas, e adoeça, e se morda por não ver a infalível maroteirazinha, a abençoada canalhice, preciosa para quem a pratica, mais preciosa ainda para os que dela se servem como assunto invariável; há quem não compreenda que um ato administrativo seja isento de lucro pessoal; há até quem pretenda embaraçar-me em coisas tão simples como mandar quebrar as pedras dos caminhos. Fechei os ouvidos, deixei gritarem, arrecadei 1:325$500 de multas.
Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram da inteligência, que é fraca.
Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta.
Há descontentamento. Se a minha estada na Prefeitura por estes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos. Paz e prosperidade.


 

            Voltando à p. 33 do Retrato fragmentado, conta o narrador, como um  exemplo perfeito do que expus acima:

            “Às vezes eram lembranças que ficariam inéditas:
            - Logo que cheguei à prefeitura, proibi animais soltos na cidade.  Palmeira era um pasto de bois, cavalos, porcos e cabras, uma sujeira grossa. Na primeira infração, o dono pagava multa; se reincidisse, os bichos iam a leilão.  Foi aquele escarcéu.  Eu agüentei firme, praça pública não é fazenda de ninguém.  A maioria meteu o rabo entre as pernas, diminuiu muito a invasão, mas não terminou. Muritiba chegava todo santo dia com o maço de multas.  Uma ocasião ficou-me rondando, meio sem jeito. ‘Que aconteceu, homem?’ Ele me informou que achara umas vacas de meu pai, juntas das amigas, zanzando à toa.  ‘E você?’ Respondeu: ‘Não fiz nada não.’  Emntão eu mandei: ‘Pois faça, lavre a multa.  Prefeito não tem pai.’  Dito e feito.   Eu paguei a multa, peguei o recibo, de noite falei com seu Sebastião: ‘Olhe aqui, veja, hoje encontramos umas vacas suas fazendo footing.  Se mandasse lhe entregar a multa, o senhor tinha um ataque do coração.  Por isso eu mesmo paguei.’ O velho impou, estourou esbravejando, suviu nas tamancas.  E terminou me devolvendo o dinheiro.  Depois, a vaca dele nunca mais visitou o centro.” 

 
            Não há frase mais exemplar da anticordialidade, do espírito certeiro capaz de diferenciar o público do privado (diferenciação cuja falta assombra mais e mais este país torto na entrada do terceiro milênio) do que “Prefeito não tem pai.”.  Uma lição assombrosa, se pensarmos em Alagoas 1929,  de modernidade.  A seco. Precisa. A retórica da anti-retórica, remédio  contra a verborragia que nos assola ainda hoje.  E em Graciliano todo este arsenal extraordinário de linguagem é posto sempre a serviço do diagnóstico preciso de nossas mazelas, das necessidades de superarmos os incríveis déficits que ainda hoje trazemos enquanto nação.   Veja-se a passagem a seguir do 2º. Relatório:

 
"MIUDEZAS
Não pretendo levar ao público a idéia de que os meus empreendimentos tenham vulto. Sei perfeitamente que são miuçalhas. Mas afinal existem. E, comparados a outros ainda menores, demonstram que aqui pelo interior podem tentar-se coisas um pouco diferentes dessas invisíveis sem grande esforço de imaginação ou microscópio.
Quando iniciei a rodovia de Sant’Ana, a opinião de alguns munícipes era de que ela não prestava porque estava boa demais. Como se eles não a merecessem. E argumentavam. Se aquilo não era péssimo, com certeza sairia caro, não poderia ser executado pelo Município.
Agora mudaram de conversa. Os impostos cresceram, dizem. Ou as obras públicas de Palmeira dos Índios são pagas pelo Estado. Chegarei a convencer-me de que não fui eu que as realizei."
 
        A situação absurda de não crer em nossa própria capacidade de realizar obras de cidadania, ações que nos dignifiquem enquanto povo, sociedade, ou como se queira chamar, é outro traço persistente em nosso “complexo de vira-latas” (que parece estar sempre à espreita, quando pensamos tê-lo superado), na forma de uma  idéia insistente de que nunca poderemos estar à altura de nós mesmos.  Graciliano é também desde aquela época o contra-exemplo perfeito disso – e a consciência de ser esse contra-exemplo.  Afinal, valha aqui o truísmo, é ele o autor da extraordinária obra que deixou, onde, bem observados, esses traços comparecem em tempo integral.

De modo a encerrar aqui  esses rabiscos, remeto ao poema que Murilo Mendes lhe dedicou, dez anos depois de sua morte, e publicou no seu livro de 1970, Convergência:

           
Murilo Mendes


MURILOGRAMA  A GRACILIANO RAMOS

                                              

1

Brabo. Olhofaca. Difícil.
Cacto já se humanizando,

Deriva de um solo sáfaro
Que não junta, antes retira,

Desacontece, desquer.

2

Funda o estilo à sua imagem:
Na tábua seca do livro

Nenhuma voluta inútil,
Rejeita qualquer lirismo.

Tachando a flor de feroz.

3

Tem desejos amarelos.
Quer amar, o sol ulula,

Leva o homem do deserto
(Graciliano-Fabiano)
 
Ao limite irrespirável.

4

Em dimensão de grandeza
Onde o conforto é vacante,
 
Seu passo trágico escreve
A épica real do BR

Que desintegrado explode.

 

 

Pessoa não identificada, Graciliano, Neruda, Portinari e Jorge Amado
 

 
Ricardo Ramos.  Retrato fragmentado. Siciliano, 1992.
Vinícius de Moraes. Poesia completa e prosa. Nova  Aguilar, 1987.
João Cabral de Melo Neto. Obra completa. Nova Aguilar, 1994.
Murilo Mendes. Poesia completa e prosa. Nova Aguilar, 1994.