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domingo, 13 de setembro de 2015

AH, UM SONETO... DE MÚCIO TEIXEIRA (1857-1928)


POMBAS E FRUTAS

 

Vem-se a primeira moça, envergonhada,
Vem-se outra mais, mais outra... enfim dezenas
De cabaços se vão, vindo-se apenas
Sentem na vulva a rija caralhada.

E à noite, quando a porra envernizada
Deixa em brasas a crica das morenas,
Roçam pelos colhões, quais leves penas,
Os fios dos pentelhos em revoada.

As bimbas no prepúcio se abotoam;
Os beiços pelos seios roçam, voam,
Como voam as pombas nos pombais...

Os que fodem demais, ficam fodidos;
Mas, se a foda nos deixa sem sentidos,
Tome sentido o que foder demais

 
In: Eliane Robert Moraes (org.). Antologia da poesia erótica brasileira.  Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2015.
Ilustração de Talarico
 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

AH, DOIS SONETOS... E O SÉCULO XVIII
















Observação inicial: o título desta postagem estava errado.  Agora foi feita a correção. Embora o século 18 seja central aqui, como ideário, a nortear os comentários a respeito dos dois sonetos, o do Parnasse Satyrique é do século 17, conforme se lerá ao final. Por isso mesmo, penso ser  fundamental proceder à correção. 

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... DE CLÁUDIO MANUEL DA COSTA


Não vês, Lise, brincar esse menino
Com aquela avezinha?  Estende o braço;
Deixa-a fugir; mas apertando o laço,
A condena outra vez ao seu destino?


Nessa mesma figura, eu imagino,
Tens minha liberdade; pois ao passo,
Que cuido, que estou livre do embaraço,
Então me prende mais meu desatino.


Em um contínuo giro o pensamento
Tanto a precipitar-me  se encaminha,
Que não vejo onde pare o meu tormento.


Mas fora menos mal esta ânsia minha,
Se me faltasse a mim o entendimento,
Como falta a razão a esta avezinha.


                                        Pong..!
                            

                            do PARNASSE SATYRIQUE

                            Amo flagrar nos bosques a aventura
                            da traseira a pastora ao pastor dando
                            tanto e tão bem que o gozo culminando
                            desmaiam mortos ambos na natura


                            amo dos campos ver não a pintura
                            mas um carneiro à fêmea então carcando
                            mesmo o bode que à cabra enfim montando
                            não lembra mais de prado e de verdura

                            amo ver na campina todo o empenho
                            da vaca sob touro tão ferrenho
                            que a vararia e em duas se pudesse


                            foder é a nossos olhos primavera
                            tão vária que se nada mais fodesse
                            campina campo e tudo mais já era
                       
(soneto do século 17 do Parnasse Satyrique, anônimo, traduzido por Marcelo Diniz)


J’ayme dedans un bois à trouver d’aventure,
Dessus une bergère un berger culetant,
Qu’il attaque si bien et l’escarmouche tant,
Qu’ils meurent à la fin au combat de nature.


     J’ayme voir dans les champs non la belle peinture,
     Mais un bélier cornu sa femmelle foutant
     Et le bouc éschauffé sur la sienne montant
     Par un si doux plaisir oublier sa pasture.
 


J’ayme voir sur un pré à un pareil effort
Le taureauqui se joint à la vache si fort,
Qu’il voudroit s’il pouvoit la percer d’outre en outre.

     Le foutre est à nos yeux un printemps diapré,
     Au coeur un paradis, mais si je ne vois foutre
     Je n’ayme point ny champs, ny campagnes, ny pré.












            Pensei em dar a  esta postagem o título de algo como “Viva o século 18!”.  Mas aí resolvi inseri-la na série “Ah, sonetos...” Seja como for,  o espírito dela  é mesmo de celebração do glorioso século quando se completou o que Max Weber chamou de “desencantamento do mundo”, que nos deixou de herança o que de melhor se poderia ter feito da modernidade, com a separação das esferas do saber e o fim das crenças na “magia do Universo” ou coisa que o valha.  Se tanto se desvirtuou de seu legado, talvez possamos culpar de saída a moralidade burguesa que se estabeleceu pelo século seguinte e, que óbvio, é parte do mesmo legado.  Pois na verdade o soneto do Parnasse Satyrique, prenuncia com um século de antecedência o caráter libertário e libertador do ideário iluminista.  Ele se entronca numa tradição genealógica que vem subterrânea desde os gregos e passa por Rabelais, Ronsard, tanto outros.  No século 18 continua subterrânea, certo, mas o veio é muito forte (lembremos do português Bocage e o círculo neoclássico português).  Seja como for, aprendeu muito o homem no século 18, sobretudo por retomar a antiga lição racionalista grega ao observar as relações existentes no mundo natural e, em esforços especulativos, deslindar,  por rebatimentos e contrastes, natureza e cultura.  E quanto a aprendizados:  Cláudio Manuel da Costa, um dos nossos inconfidentes de Minas, aprende algo da vivência amorosa – em especial o sofrimento –  ao ver a perversidade mesmo que – ou justo porque – carinhosa da criança que brinca de aprisionar e libertar uma pobre avezinha. Lições de amor, agora em linguagem, digamos, menos decorosa, (que se manteria debaixo do tacão censório pelos tempos afora) é o que também está no poema anônimo francês traduzido por Marcelo Diniz, em que a primavera desperta o cio por toda parte - e ai se não despertasse!  A relação interior natureza/subjetividade, em tonalidade pré-romântica desponta neste deliciosamente obsceno soneto seiscentista (em tradução de cunho emulatório de Diniz,  que parece mesmo superar o original), tanto quanto os dilemas de fundo cultista entre razão e desrazão estão no de Cláudio Manuel.  Lógico que se sempre se poderá argumentar  qualquer coisa a favor do século 18 – e mesmo contra, que neste mundo nada é mesmo simples – mas convém não esquecer que a tônica aqui vai sobretudo para o sortilégio (palavra tão pouco iluminista!) verbal próprio de poesia tão boa – incluindo, claro, a excelência da tradução.

 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

LA FONTAINE

 

EPIGRAMA

 

Amar, foder: uma união
De prazeres que não separo.
A volúpia e os desejos são
O que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os crentes censuram, os loucos.
Reflete nisto, oh, minha amada:
Amar sem foder é bem pouco,
Foder sem amar não é nada.
 

Tradução de José Paulo Paes

 

ÉPIGRAMME

 

Aimons, foutons, ce sont plaisirs
Qu’il ne faut pas que l’on separe;
La jouissance et les désirs
Sont ce que l’âme a de plus rare.
D’un vit, d’un con, et de deux coeurs,
Naît un accord plein de douceurs,
Que les dévôts blâment sans cause.
Amarillis, pensez-y bien:
Aimer sans foutre est peu de chose
Foutre sans aimer ce n’est rien.
 
 

 

José Paulo Paes (sel. trad. org. e notas).  Poesia erótica em tradução.  SP: Companhia das Letras, 1990.
 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

NEI LEANDRO DE CASTRO

DOIS DÍSTICOS DE ROMEU E JULIETA



Ilustração de Joaquim Pêcego


in: Neil de Castro.  Zona Erógena. Ed.Eros, 1981.

sábado, 5 de outubro de 2013

AH, UM SONETO... DE MANUEL BANDEIRA


A CÓPULA

 

Depois de lhe beijar meticulosamente
O cu, que é uma pimenta, a boceta, que é um doce,
O moço exibe à moça a bagagem que trouxe:
Colhões e membro, um membro enorme e turgescente. 

Ela toma-o na boca e morde-o.  Incontinenti,
Não pode ele conter-se, e, de um jato, esporrou-se.
Não desarmou, porém. Antes, mais rijo, alteou-se
E fodeu-a.  Ela geme, ela peida, ela sente 

Que vai morrer: - “Eu morro! Ai, não queres que eu morra?!”
Grita para o rapaz que, aceso como um diabo,
Arde em cio e tesão na amorosa gangorra 

E titilando-a nos mamilos e no rabo
(Que depois irá ter sua ração de porra),
Lhe enfia cona adentro o mangalho até o cabo.

 

In: Antologia pornográfica: de Gregório de Mattos a Glauco Mattoso. Sel. e org.  Alexei Bueno. Nova Fronteira, 2004.

 

terça-feira, 9 de abril de 2013

LAURINDO RABELO


Mote
Porra no cu não é festa.


Glosa
Em noite do Espírito Santo
Comia certo fanchono
Um sacana de alto abono
De uma barraca no canto;
Já lhe tinha um tanto ou quanto
Entrado do cu na fresta;
Troam foguetes... “E esta!
(diz o puto em repiquetes)
A que vem estes foguetes?
Porra no cu não é festa.”



Alexei Bueno (org.). Antologia pornográfica: de Gregório de Mattos a Glauco Mattoso. Nova Fronteira, 2004.

domingo, 24 de abril de 2011

GREGÓRIO DE MATOS, O FERO

Waly Salomão no papel de Gregório, no filme de Ana Carolina T. Soares

A CERTO FRADE NA VILA DE SÃO FRANCISCO, A QUEM UMA MOÇA FINGINDO-SE AGRADECIDA  A SEUS REPETIDOS GALANTEIOS, LHE MANDOU EM SIMULAÇÕES DE DOCE UMA PANELA DE MERDA

Reverendo Frei Antonio,
se vos der venérea fome,
praza a Deus, que Deus vos tome,
como vos toma o demônio:
uma purga de antimônio
devia a moça tomar,
quando houve de vos mandar
um mimo, em que dá a entender,
que já vos ama, e vos quer
tanto, como o seu cagar.

Foste-vos mui de lampeiro
vós, e os amigos de cela
ao miolo da panela,
e achastes um camareiro
de que vos desenganásseis,
e foi bem feito, que achásseis
cagalhões, que então sentistes,
porque, aquilo, que não vistes,
quis o demo que cheirásseis.

A hora foi temerária,
o caso tremendo, e atroz,
e essa merda para vós
se não serve, é necessária:
se a peça é mui ordinária,
eu de vós não tenho dó:
e se não dizei-me: é pó
mandar-vos a ponto cru
a Moça prendas do cu,
que tão vizinho é do có?

Se vos mandara primeiro
o mijo num panelão,
não ficáreis vós então
mui longe do mijadeiro:
mas a um Frade malhadeiro
sem correia, nem lacerda,
que não sente a sua perda,
seu descrédito, ou desar,
que havia a Moça mandar,
senão merda com mais merda?


Dos cagalhões afamados
diz esta plebe inimiga,
que eram de ouro de má liga
não dobrões, porém dobrados:
aos Fradinhos esfamiados,
que abrindo a panela estão,
dai por cabeça um dobrão,
e o mais mandai-o fechar;
que por isso, e por guardar,
manhã sereis guardião.

Se os cagalhões são tão duros,
tão gordos, tão bem dispostos,
é porque hoje foram postos
e ainda estão mal maduros:
repartam-se nos monturos,
que nas enxurradas dos tais
é de crer que abrandem mais,
porque a Moça cristamente
não quer que quebreis um dente
mas deseja que os comais.

(in: Gregório de Matos: Antologia.  org. Higino Barros. Porto Alegre: L&PM)