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terça-feira, 25 de agosto de 2015

MEMÓRIA


                                        MARIA TERESA HORTA (1937)

 

Retenho com os meus
dentes
a tua boca entreaberta

 
e as palmas das mãos
dormentes
resvalam brandas e certas

 
As tuas mãos no meu peito

 
e ao longo
das minhas pernas

 

 

Maria Teresa Horta. Antologia pessoal + 22 inéditos. RJ: 7 Letras, 2006.

 
 

sexta-feira, 16 de março de 2012

MARIA TERESA HORTA






PEQUENOS DIZERES SOBRE A MULHER

I
Não come da
fome
nem come do medo

nem guarda na
arca
com a roupa o segredo


II
No armário
não tem vestido
mas também não tem o medo

na fome
os dentes vão lendo

no corpo
o frio vai cedendo


III
Há quem diga da mulher
e há quem conte a sua vida

Conforme o pão
a mulher

conforme a luta
é nascida

Há quem diga  dos seus
olhos
e há quem conte do seu ventre

conforme o peso
que arrasta

conforme o país
que sente


IV
Acolhe a mulher
o cântaro

na água acolhe
os joelhos

debruçada sobre
o balde
os anos acolhe inteiros

Acolhe a água
no cântaro

nos joelhos
a camisa

debruçada sobre
o tempo
acolhe a mulher a vida


V
Não há pranto que se ajuste
à fome de uma espingarda

nem porcelana que parta
os olhos da sua água

A mulher na sua casa
põe a frescura no cântaro

e o poente dobrado
depõe-no ela a um canto


in: Cem poemas [Antologia pessoal] + 22 inéditos.  7Letras, 2006.