poesia, literatura, música, futebol, comes e bebes, humor, bom humor, mau humor...
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
ESTAVA ESCRITO BOM DIA
E depois que se foi
a felicidade
a gente foi tateando
buscar nossos óculos
(os dedos pegajavam as lentes)
e rápido mas sem pressa saímos
recolhendo pelo chão
brincos
a cueca a calcinha
enroladas nos moletons
jeans, cálices
xícaras
sherry
café
maços e cinzeiros
lambuzados nos sabíamos
sem nenhuma vergonha
e também
que a felicidade se foi
mas vem de novo
embora pela janela nem desse sinal
a boca seca
o alho na porta da geladeira
a imagem do tálamo
tudo volta
antes de para
sempre
sábado, 27 de agosto de 2011
RUY ESPINHEIRA FILHO: DOIS POEMAS
OS BENS MAIORES
O que ficou
além do enlace
é o que mais foi
preso pelo gesto.
O que não foi
tocado é o que
deixou sua marca
mais nítida na mão.
A gaiola vazia
é onde habita
o que há de mais belo
em gorjeio e pássaro.
RELATO DE UM SÚDITO APÓS O PASSEIO MATINAL DO SOBERANO
Fui vê-lo atravessar
a cidade
mas os guardas vieram
e me bateram
até que o sangue jorrou
dos meus olhos
E o séquito imperial
sobre cavalos azuis
transformou-se numa nuvem
vermelha
que era um dragão.
In: Julgado do vento. Civilização Brasileira, 1979.
sábado, 20 de agosto de 2011
GIORGIO CAPRONI: DOIS POEMAS
NO ESTRIBO
“Vou-me”, disse.
“O que lhes deixo é tudo
o que levo em boa hora.
Tenham saúde. Cuidem
de si mais do que
de mim cuidei eu.
Vou-me para onde,
há tempo, Deus foi-se embora.”
SULLA STAFFA
“Me ne vado”, disse.
Quello che vi lascio, è tutto
quello che mi porto via.
Statemi sani. Abbiate
cura di voi, più di quanta
di me non ne ho avuta io.
Me ne vado dove,
da tempo, già se n’è andato Dio.”
CONCLUSÃO QUASE NO FIM DA SUBIDA
- Senhor, deve voltar ao vale.
O senhor procura à sua frente
o que deixou para trás.
CONCLUSIONE QUASE AL LIMITE DELLA SALITA
- Signore, deve tornare a valle.
Lei cerca davanti a sé
ciò che há lasciato alle spalle.
In: A coisa perdida: Agambem comenta Caproni. organização e tradução de Aurora Fornoni Bernardini. Ed. UFSC
domingo, 14 de agosto de 2011
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
VERANICO
Veranico de agosto
desviou a minha idade
eu jurava que agora
(agora que era agosto)
retomava a solitude
dissipando a neblinagem
onde guardara o que fui
Nunca disse onde era
pra que guardava também
inda mesmo que eu soubesse
veranico dissipou
cortou franjas de friagem
desfez a cama bem feita
avoado me deixou
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
A NOITE OBLÍQUA
Nem sonho nem vigília
serena inquietação
pelo que se quer
e não pode
ser a não ser
pleno agora
palma de mão
ilharga
pele macia
aos dedos os mamilos
sereno dentro e fora
o dia que não tarda
sobre os flancos da garoa
ilha redoma nicho
rede cama ninho
trama a iludir o sono
urdida pela saudade
fina linha de carinho
a hora de se ir já chega
à noite se achega
a manhã
devagarinho.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
DE SABIÁS, MARIPOSAS E OUTROS INSETOS
A classificação entomológica pouco ortodoxa aí do título vai em homenagem a Seu Antonio do Brejo, antigo morador destas paragens, morto há muito, que uma vez – eu era moleque ainda – louvando a “imundície de terras” do sitiante Mané Bento (isso tá parecendo caipira fake, mas juro que não só os nomes mas também o “causo” é verdade) disse “Lá ele tem de um tudo, tem porco, boi, vaca, cavalo e outros aninsetos...” Na época não me ocorreu que, à maneira de Rosa, Seu Antonio poderia estar adicionando o prefixo de negação para indicar que se tratava de não-insetos. Pensando bem, ainda bem que eu não tinha lido Guimarães Rosa ainda. Nem Seu Antonio o lera jamais. O fato é que Seu Antonio passou a ficar conhecido por mim como Seu Aniceto.
Pulo fora do causo pra umas anotaçõezinhas despretensiosas, que divido aqui com a paciência do leitor. É que depois de uma estação fria como há muito não fazia por estas bandas, aprendi duas maneiras de identificar que o frio maior já passou (infelizmente para mim) e já já começará pra valer a despedida do inverno. É quando os sabiás retomam o canto. Sábado anoitecia e vai que eu ouço aquele canto marcantemente monótono, destacando-se em meio a outras vozes menos privilegiadas. Engraçado é que de início achei que era de algum pássaro forasteiro (o que volta e meia ocorre), mas logo me toquei de sua autoria, me tocando ainda que fazia algum tempo que ele não soava. Por sinal que neste exato instante eis que de novo o ouço, são 5 e meia da tarde. É que os sabiás que ocorrem por cá (além do manjadíssimo sabiá-laranjeira, há ainda o sabiá-pardo e, mais raro, o sabiá-una) começam a cantar por agora, quando começam a se acasalar e vão até fins do ano, quando parece que os filhotes já se criaram e vai cada um tratar da sua vida sem muita cantoria. Cantam ao cair da tarde e ao amanhecer, o que ainda não ouvi desta vez. E no auge de sua felicidade conjugal cantam a qualquer hora do dia e duelam duelam duelam.
Outra maneira, bem menos bucólica, de identificar o fim do inverno exige rapidez e destreza dos meus dotes de cozinheiro. É a volta dos insetos, principalmente das mariposinhas pequenas que insistem em mergulhar à noite nas panelas, atraídas pela luz da cozinha e de seus fogos. Fazer comida aqui à noite de janelas abertas, a partir de agora até a volta do frio, exige que as luzes de fora estejam acesas e que sempre que possível eu tampe os recipientes onde estou cozinhando. Já perdi alguns azeites deliciosamente aromáticos, quando de seu aquecimento para receber os ingredientes do refogado, por conta dos mergulhos infaustamente suicidas de insetos que resolvem compartilhar comigo as delícias de minha rústica culinária campestre. Quando é só a água fervente eu lamento pelo pobre diabo mergulhador. Quando é algo mais, xingo em dobro.
Mais uns três meses chegarão as chuvas mais fortes e o retorno significativo da população de anuros. Li não sei onde que é uma população perigosamente ameaçada de extinção, no que acredito, uma vez que o uso de pesticidas em escala hiper-industrial certamente extermina os insetos de que eles se alimentam. Aqui mesmo onde moro, um brejo quase ex-brejo (só retoma sua perigosa dignidade de brejo quando das chuvas fortes), tinha há alguns anos muito mais sapos, rãs e pererecas do que hoje. Mas ainda eles pintam por cá quando o tempo fica mais úmido. E aí é a hora de prestar atenção para que não estejam sendo cobiçosamente seguidos por jararacas, urutus e outros rastejantes aninsetos. Mas aí já será outra estação do ano.
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