sexta-feira, 20 de julho de 2012

AQUELA BUNDA ERA DA ROSSANA PODESTÀ!!







Acabo de descobrir que o meu primeiro alumbramento (consultar Manuel Bandeira, se for o caso) cinematográfico, a primeira bunda, a primeira visão entre os reflexos de folhagem n’água, as refrações, o chiaroscuro contrastante  da luz a 24 quadros, naquele corpo roliço na exata dimensão,  e flutuante-rolante em meio líquido e na imaginação palpável do que se via era... Rossana Podestà!
Vagabundeando pela internet mais do que deveria,  nesta madrugada gélida e vadia aqui no brejo, namorando imagens de filmes e atrizes, eis que relembro  de uma estória,  verídica a mais não poder, de que andei me lembrando e contando recentemente a alguns amigos e amigas: a estória do meu primeiro nu cinematográfico.
Devia ser por volta de 1966 ou 67, no Grêmio Social Esportivo aqui do local, nome muito engraçado, pela pompa, de  uma construção inacreditavelmente precária e tosca que foi demolida não tem mais do que três anos. Sábados à noite era sessão de cinema, às 8.  Apenas um projetor, os filmes em quatro rolos eram interrompidos para a troca – momento em que a rapaziada aproveitava para fazer uma social.  Ali eu vi inúmeros filmes “históricos” italianos, uns épicos fuleiríssimos, aventuras de Sansão, Maciste, Golias, nomes que  acabavam rendendo apelidos,  distribuídos pela molequeira entre uns poucos agraciados – aqueles mais fortes de corpo ou mais valentes.  Vi também “O assalto ao trem pagador”, o ótimo filme de Roberto Farias, particularmente emocionante para todos nós, por ter cenas filmadas na subida desta serra – onde se dera efetivamente o assalto, factual – logo depois da estação de Japeri, antes de chegar a Mário Belo. Lembro que foi provavelmente o filme recebido com maior entusiasmo por todos nós, moleques (aqui não existe o termo “garotos” nem “meninos”) –,  o que me ajudou desde muito cedo a não nutrir nenhum tipo de preconceito contra o “cinema nacional”, essa expressão que assume ares terrivelmente pejorativos, quando é (ou era...) dita  com esgar de canto de boca por uma classe média urbana de zona sul carioca que era o meu “outro lado”, aquele de onde eu procedia.  Vi também no Grêmio Social Esportivo meu primeiro filme de terror, com uma cena em que um rosto aparecia desfigurado e que me valeu um susto medonho – que um amigo tratou de tentar dissipar, mostrando-me como era fácil de ser obtido o efeito com uma simples vela acesa sob o rosto (a câmera pegando o rosto também de baixo). Era um troço, o tal filme,  chamado “Raptus – o diabólico Dr. Hitchcok”, do qual o único vestígio que me ficou foi esse susto, por muito tempo, apesar dos esforços contrários do meu amigo para dissolvê-lo. 
Mas nada se compara à emoção do alumbramento em “A escrava de Roma”.  Pelos googles da vida leio tratar-se de um dos “épicos” (Sergio Leone, um dos meus mais amados diretores, começou dirigindo alguns desses épicos, foi a sua escola) italianos, um filme de 1961 – e leio mais: que Podestà havia já vivido   Helena de Tróia, num filme homônimo de Robert Wise, uns cinco anos antes, tendo sido também Nausicaa numa produção chamada “Ulisses”. Mas em “A escrava de Roma”... não, não lembro de absolutamente nada no filme,  a não ser A cena.  Ela (presumo que fosse a escrava) retira-se para banhar-se num rio, protegida por um guardião, que ficará de vigia.  A cena é manjadíssima em atmosfera barata de filmes de segunda, claro.  Devia rolar algum clima entre Rossana e seu guardião, claro também, mas não sou capaz de assegurar (e denegrir a imagem da deusa). Sei que  ela dirigia a ele algumas palavras, de dentro d’águia, virada para a câmera, acho que dava um sorriso e... virava-se de costas quase à flor da água, para nós, espectadores – de súbita respiração interrompida – ,   e ensaiava  umas braçadas!  o. O. O oO. O Ó OH, o OOOOOOOOOOOOHHHH o OOOOH sem limite sem trégua sem nada sem fim, a bunda ali quase à flor da água,  e ela nos oferece aquele dorso, aquele dorso, o dorso. Indescritível o que se passou então? Não, não é a palavra.  Indelével, sim. Gritos. E palmas. E urras. E assovios. Muitos. Mas muitos sobretudo risos de prazer. Muitos. E assovios urras palmas e gritos muitos gritos e gritos.  Coisa de torcida, de geral, de domingo.  Com quantos ali eu compartilhava aquele alumbramento? Certamente com muitos, e com os da minha idade, pouco mais pouco menos, certamente com todos. Ah, sim, o som ficou: cadeiras batiam no chão, freneticamente.  Explico: as cadeiras eram soltas, ficavam amontoadas num canto da “sala de projeção” e, ao entrarmos íamos lá e cada um pegava a sua e a punha onde bem escolhesse. Veio daí, acho, meu hábito me sentar na cadeira de frente para as costas dela.  Mas eu dizia: as cadeiras batiam no chão, movidas pelo nosso entusiasmo de possessos. Sou capaz mesmo de assegurar  que uma ou duas voaram no auge da nossa empolgação. Uma ou duas. Ou três, talvez. Não mais.  Talvez fosse mais aconselhável assegurar que todas as cadeiras voaram.  Seria falsamente hiperbólico, uma pobre licença realista, a passar quase despercebida.  Tolice, literatice.  A hipérbole foi interior:   Alumbramento, que por definição é indelével.
Lembro que saíamos do cinema lá pelas 10 e pouco,  e saíamos mimetizando as cenas vistas há pouco. Lutas de espada, duelos de revólver (engraçado que não lembro de nenhum faroeste marcante que tenha visto ali), frases, exclamações, golpes de pés e mãos recém aprendidos eram comuns.  Tais exercícios eram importantes também por duas razões: nas noites de inverno, era uma maneira de espantar o frio medonho; além disso, na época,  quase não havia luz na estrada (terminava uns 200 metros antes da minha casa), sendo, portanto, como o assovio, uma prática altamente recomendável para  espantar o medo.  Não lembro da algazarra na saída de “A escrava de Roma”.  O que será que levávamos daquele filme, tão impactante para nós, além da necessidade de espantar o frio e o medo? 
O professor moribundo do soberbo “As invasões bárbaras” de Arcand lembra-se de seu alumbramento com Inès Orsini, atriz que em filme marcante de sua infância,  representando Santa Maria Goretti,  a certa altura levanta a saia dentro d’água e mostra as canelas. O professor diz que verteu rios de esperma por conta dessa visão.  Não, eu não verti rios de esperma por Rossana Podestà.  Na ocasião eu tinha 10 ou 11 anos, era cedo ainda.  Mas a visão ficou. Não consegui, buscando pela internet,  o “still” daquela cena, nem sequer nenhum “still” de “A escrava de Roma”,   mas a visão ficou. 



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