sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

M. CAVALCANTI PROENÇA, A AMIZADE E A MORTE DESEJÁVEL



      Esta postagem remete à postagem do dia 28 de dezembro de 2014, em especial ao que nela é  dito a respeito de M. (Manuel) Cavalcanti Proença.  Para quem quiser, linko a postagem aqui http://robertobozzetti.blogspot.com.br/2014/12/militares-sergio-macaco-e-outros-dois.html

      Por ora apenas saúdo, ou mais que isso, festejo (quem ler a primeira postagem facilmente entenderá a razão) o que li em 3 Antônios e 1 Jobim recentemente.  Certo, o livro, assim como o documentário  que a ele se vincula, foi lançado há mais de 20 anos, em 1993, não sendo portanto uma novidade no mercado.  Para quem não sabe, tratou-se de uma reunião em fevereiro daquele ano  de Antônio Callado, Antonio Candido, Antônio Houaiss e Antônio Carlos Jobim.  Eu tinha  visto o filme  à época, agora ele circula na web (abaixo dou dois links que os leitores podem acessar; eu os acessei ainda hoje e neles está o filme completo).  O  livro, lançado ao mesmo tempo pela Relume-Dumará, uma espécie de transcrição do que foi filmado (mesmo o que não entrou na edição final), além de conter depoimentos individuais sob a forma de entrevista dos quatro Antônios, eu nem sabia que existia.  E ele guarda uma preciosidade que particularmente muito me gratificou, sobre Proença.  A cena ficou de fora da versão editada do filme, o que é pena.  É quando surge de repente nas palavras de Houaiss o nome de Proença, não por acaso no curso de uma conversa sobre as coisas brasileiras (quem leu o Roteiro de Macunaíma, do mestre Proença,  entende perfeitamente a conexão).  A fala  de Houaiss é imediatamente glosada por Antonio Candido,  e tudo o que se segue é uma delícia, de uma comovedora beleza que não resisto a transcrever aqui na íntegra.  Leia-se:

            “HOUAISS – Bem, eu queria contar uma história sobre o meu querido amigo Manuel Cavalcanti Proença.
            CANDIDO – Foi ele quem me disse a coisa mais bonita que já ouvi sobre a amizade... Certa vez José Aderaldo Castello organizou em São Paulo um curso sobre literatura e cangaço.  E eu fui ouvir a aula do Proença, mas tive que sair antes de terminar, por um trabalho a fazer...Passados dois dias encontro com ele e falo: ‘Proença, me desculpe, rapaz, você está dando aula há vários dias, eu só pude ir a uma;cheguei depois de começada, saí antes de terminar e além disso não te procurei...’ E ele me disse: ‘Não se preocupe.  Amizade boa é feito brasa embaixo da cinza, não precisa soprar, ela está sempre acesa.’
            HOUAISS – Um grande brasileiro. Eu o vi em 1964 no Clube Militar, indignado, coordenando uma reunião e se dirigindo aos militares como ‘seus gorilas’... e por aí afora... Foi uma admiração total. Era um conhecedor do Brasil como pouca gente.
            CANDIDO – Extraordinário conhecedor do Brasil e de literatura, um crítico de grande categoria, com uma capacidade analítica fora do comum.  O ensaio de interpretação crítica que ele lançou sobre Grande sertão: veredas logo após a publicação do romance é um monumento.  Manuel Cavalcanti Proença tinha um ouvido extraordinário para a prosa.
            HOUAISS – Tinha sim. 
            CANDIDO – Grande figura.  Quem o levou lá em casa foi o Francisco de Assis Barbosa.  Assim eu vim a conhecê-lo.  Ele tinha um jeito engraçado, de homem do interior. 
            HOUAISS – Você sabem que eu estava presente quando ele morreu?  Foi assim: Manuel estava no sofá, ao meu lado, com o braço estendido, conversando, e de repente ele tombou o rosto.  Supusemos que dormitava, tão tranqüila era a sua expressão.  E estava morto.
            CALLADO – Onde foi isso?
            HOUAISS – Nós estávamos numa casa, no Rio Comprido, entre familiares.  Foi uma das coisas mais pungentes que eu vivi... Ele estava literalmente morto e continuava sorrindo.  Não sofreu nada.
            CANDIDO – Que beleza de morte!
            HOUAISS – É a morte que a gente deseja.
            CANDIDO – É a morte que é desejável.

            HOUAISS -  Transitou de um papo para a morte sem nenhum escândalo para os companheiros. 

    (In: 3 Antônios e 1 Jobim: histórias de uma geração.  RJ: Relume-Dumará, 1993)




       Praticamente tudo o que é dito nessas poucas frases contém uma mistura generosa de dignidade, grandeza, sabedoria, tudo bem pesado entre a leveza da expressão e a gravidade do que é dito, mistura própria do brilho que emana de homens que foram grandes conversadores.  Mas além de tudo isso, chama-me ainda a atenção, pequeno detalhe, a afirmação  de Candido do “ouvido extraordinário para a prosa”, que ele  identifica no velho Manuel.    Em nossa atividade de professores de literatura quantas vezes recorremos a excessivas simplificações  - até porque os textos com que trabalhamos estão cheios delas, até porque é preciso mesmo muitas vezes ganhar tempo, até porque “ensinar literatura” ,  dependendo do ponto, não deixa de ser dobrar-se  de boa-fé a um logro com a só esperança de que aqueles  que "aprendem" descubram que é tudo infinitamente mais rico do que pensamos ensinar, até porque enfim... – e uma dessas simplificações é mostrar que uma das diferenças marcantes entre o verso e a prosa é que esta é guiada sobretudo pela semântica, pelo significado, ao passo que no verso  o som e o sentido tendem a se equilibrar.  É uma simplificação,  com fundo de verdade, claro, mas se levada às últimas conseqüências, ao pé da letra,  pode tornar surdo o leitor que não se abrir à sonoridade   que exigem obras em prosa do porte de Iracema, Os sertões, Macunaíma e Grande sertão: veredas, para ficarmos em alguns exemplos evidentes e  que mereceram a atenção analítica do mestre(assim como a áspera dicção “prosaica” dos versos de Augusto dos Anjos). 
         Pra encerrar, o dono deste blog sente-se um pouco mais confortado em se deparar com menção – de resto, hoje  tão rara... – a um autor  que preza tanto.  E aproveita para reiterar que, procurando uma fotografia na internet que patenteasse o caboclo de “jeito engraçado de homem do interior”, não encontrou uma só foto do velho Manuel.  Apenas fotografias de capas de algumas de suas obras, bem como retratos de seu filho Ivan, além de outros Proenças e nomes e assuntos conexos.  Mas fotografia não é tudo.  A obra de Proença fica.  Antônios sabem.
 Links para o documentário (acessados nesta data):


 



 
 
 
 


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