quarta-feira, 19 de novembro de 2014

VERA LÚCIA DE OLIVEIRA seis vezes

Ilustração de Talarico


1.

certas coisas é melhor olhar de longe
ver pela janela distante
ver pelo semáforo com pressa
ver pela fresta fria da noite
ver pelo meio no  lusco-fusco
ver sem ver, fazer que ver
 

2.

ver pela televisão o resto do mundo
ver nas vitrines o resto das coisas
ver nos cabides das lojas
o resto das roupas
ver o corpo frio do filho

 
3.

viu o fiapo da teia
e na ponta o inseto
lutando para viver
o corpo emaranhado
quanto mais preso
mais se debatia

pensou um salvar o bicho
lidou com o fio pegajoso
e o animal caiu
mas não voou
já estava dentro da morte
e não sabia

 
4.

saiu cedo para a missa
todo mundo dormia, só viu cães
farejando esquinas de casas
pardais em bandos e outros pássaros
festejando juntos aquele dia de Natal

 
5.

esperou que a dor parasse
quieto num canto
ninando o membro roto
esperou que o vissem gemer na noite
que o ouvissem morrer na noite
 

 
6.

como via um gato
miar de fome
se definhar
virar pelo e osso
Deus devia de vê-lo


Vera Lúcia de Oliveira.  O músculo amargo do mundo.  SP: Escrituras, 2014.

 
 
 


2 comentários:

  1. Obrigada Roberto!
    Um abraço grande da Italia,
    Vera

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    Respostas
    1. Eu é que agradeço a excelência dos poemas, Vera!

      Grande abraço
      Bozzetti

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