sábado, 19 de novembro de 2011

COMO ELAS SÓ

As senhoras católicas
como elas só
acordam cedo  saudosas
das próprias cólicas e vão
inquirir as alheias

vão catar as senhoras
católicas os piolhos infensos
a seu inseticida moral e pegajoso
entre pregas e pregações

após confrontar entre si
a áspera seda das mucosas
secas as senhoras com-
penetram-se  na missa domingueira
como elas só

manhã de domingo são
praticamente só elas mesmas
como elas só
na cidadezinha de vida besta de segunda
a segunda-feira e periférica

mas até as 8 não: elas
as senhoras católicas
ao deixarem o templo brilham
sua distinção pelas ruas vazias

adentram vendas e mercados
de portas recém-erguidas
lépidas recuperam uma agilidade
que se cria perdida
e se esgueiram entre prateleiras

como elas só
ratazanas matutinas
em seus passinhos trêfegos vãos
entre casas esquadrinham, vão
de volta à redoma herdada
(e quanto se gasta manter!)
enquanto a cidade cariada

se povoa
 da rude mulambada evangélica
sobraçando bíblias insondáveis
tais como antigos latinórios
o brilho apenas nos sapatos
e nos rútilos pés em havaianas
(as senhoras católicas mal os vêem
não fazem  parte da tradição política local
  ainda –e no futuro – que chegarão lá! –
 elas já estarão a salvo )
e dos herdeiros dos negros de ganho
que cultivam couve e aipim nas nesgas
do que a história lhes deixou na terra improdutiva
rondando a igreja na esperança
de algum almoço beneficente ou de sobras
da campanha do agasalho
(as senhoras católicas
por atavismo – como só ousam dizer as mais
avançadas – também nunca os viram
nem no eito, mas se queixam de que
não estão no eito)
e dos bêbados amanhecidos de noite
em claro e novo porre até o coma
ou a falta de dono que  lendariamente
carregam
(as senhoras católicas sabem
como elas só o quanto eles as cobiçam,
e lamentam que sejam imprestáveis para tanto)
e das furtivas namoradas
e dos comerciários de folga
e dos biscateiros mais o  apontador do bicho
e o vapor recém-fugido da zona oeste
e seus consumidores
e dos pequenos comerciantes em volta
da banca de jornais
e dos taxistas e o gerente da farmácia que se atrasou
e do açougue atendendo aos pedidos
dos churrasqueiros de domingo
e dos que vão mesmo em meio quilo
da moída de segunda –que hoje
é domingo –

enquanto o ângelus plange ao longe
mais ainda oprimindo o beco do mota
as senhoras católicas voltam
à ativa agora no telefone
noite a dentro atualizam a fofoca da TV o dia todo ligada
num verbo castiço que a cidade vulgar
jamais entenderia
perdeu perdeu!
você viu aquele filho da puta? perdeu!
Jesus se apiede da alma dele que se foda
queria ter dado essa sorte quando
Isaías o jardineiro me aprontou aquela
alguém que lhe metesse um tiro nos cornos
bem dado mas quem?
o inútil do meu Adolfo?
só você vendo ae
a cara do sacana na hora do flagra
enrabando o menino na moita de bambu
aquele não tem perdão nem que chupe
a piroca do frei Leovegildo que aliás
eu sei que gosta e enche a cara de cachaça também ele
vagabundo comuna degenerado
lobo em pele de pica
vai amanhecer presunto que o Dedé
não tá pra brincadeira e conhece os omi
e ele que não se meta por falar nisso
o prefeitinho vai fingir  austeridade
nas contas como se a gente não conhecesse
a cartilha
na festa da padroeira eu vou falar com ele
e ele vai ter que me ouvir

As senhoras católicas dormem
um sono de estrambólicas
patadas
não param de falar
galgam os últimos
degraus levando suas pragas
e promessas.


3 comentários:

  1. Inspiradíssimo e afiadíssmo nosso poeta! Gsotei! E muito! abs Beto Borges

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  2. Porra, q poema é esse, hein? Tava mais inspirado do que normalmente estás?

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