domingo, 17 de julho de 2011

SEIS NOTURNOS DO BINGEN

Ela é virtual ela me deixa insone
Cafeinômana e tão bonita
Acordo cedo e grogue
Tomo o meu café mas quero o dela
Ela deve ser tão gostosa e nem o cheiro
dela e nem o do café preenchem o sono
que ela me furta e que eu entrego
sem resistência e sem recompensa
e sem sombra de dúvida ou certeza




II
Súbito ela some
se apaga
silencia
Uma ave noturna ecoa e pousa
mas é lá fora, longe dos meus umbrais
Ela está viva, mas não aqui
Adivinho-lhe a carne, doce como bom vinho
para quem até ao fundo vai
de uma taça de onde a noite escoa
e só de manhã revela seus resíduos.  




III
Noctâmbula na névoa que desfaz
a sinuosidade do rio conduzindo postes
ela acrescenta à minha névoa a fumaça
dos cigarros, e eu me confundo
como se fosse o tempo
que indistinguisse o que passei
o que amarei, o que serei
na bruma – sem drama! – que apenas me toma
pela mão e que me diz seu nome:
ausência.



IV
O que é rascunho é isso assim
é este isso é não ter um fim o óbvio de ir
vivendo e não ter como aprender e tanto
se afastar do que se traça ao ver
que as traças aproveitam mais dos livros
do que a pretensa sabedoria que eles me infundissem
quando me vejo na noite, só – e vão ruindo
em estardalhaço de silêncio
todos os sentidos das palavras
Por mais que eu apure os sentidos
ficam só os sons, ficam só os sons
ficam só os sons




V
As estruturas cumulativas da língua
todas as aditivas, a cambulhada, a pletora
a entropia, o aluvião, tudo varre
Se acaso eu achasse um lugar-comum a salvo
onde me agarrasse como a uma costela
de prata e isso me patenteasse que o Bingen
é apenas uma lembrança de névoa, lama
e fantasmagoria, que mesmo ela é só
um pouco mais que isso, mas que agora
se tornou estranhamente espessa
nesta tela onde a entrevejo e lhe escrevo
e a quero
como a quero




VI
Nem as traças tirarão proveito
(Da eternidade não ouço que elas riam)
É provável que vírus  farão melhor
do que o café e o vinho poderiam dar
 – que nem bebi –  já que apenas resíduos
de suas letras são proveito para mim
que não creio na eternidade
Já que amanhece, também a hora de noturnos
passou

4 comentários:

  1. Olá, Roberto! Mais um belo texto...
    Eu enviei, conforme acertado, um e-mail para você, solicitando sua participação no concurso de poesia. Você chegou a recebê-lo? Por favor, confirme comigo.

    Um grande abraço do
    Lohan.

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  2. saudades do senhor. é verdade que está às voltas com vacas, galinhas e afins? beijos :*

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  3. Obrigado, amigos,

    Lohan, recebi sim, é que estou esta semana em Curitiba, inclusive com alguma dificuldade para postar comentários aqui no blog. Mas este fim de semana mesmo devo ler com calma e faço contato.
    Sim, Cecília, lá estou eu, com afins e afins. beijos, querida

    Roberto Bozzetti

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