sexta-feira, 11 de março de 2011

RICARDO PINTO DE SOUZA

ABERTURA # 2

Era uma casa de grandes portas
Onde se convidava
Lembro-me também
Das pessoas conversando
Hoje não há mais nada

Seus fantasmas às vezes
Chegam até mim em tristes ecos
Acusam-me
“Não te vi aqui, lá
Você sumiu” – e sumi
“Não falou nada, não viu nada
Você desapareceu” – e desapareci.

Nossa adolescência
Ainda é um sonho tranqüilo
Lembro-me também
Da timidez, do tesão, da tíbia
Vontade de humilhar o mundo

Hoje há muita coisa
Mas as portas são mais estreitas
E a vida é um relógio
contínuo, presente, urgente
Cheirando a máquina e a óleo
Antes era um rio e suor, líquidos
Como o desejo e a angústia
Antes não havia fim do mundo
Os portos passaram

No entanto nunca fui tão sábio
Como quando não sabia nada
e mesmo assim
            mesmo assim
                        mesmo assim
                        assim

               

                              In: Culturas. Oficina Raquel, 2006
                             
                              www.oficinaquel.com


5 comentários:

  1. Ricardo,
    do fundo do baú falando do mais fundo do baú. gosto muito desse texto.

    abração
    do Roberto

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  2. O Ricardo desperta nossas intimidades mais profundas. Muito bom, sempre!

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