quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

RÃ COM BERTALHA, RIM COM JILÓ, MIOLO COM ESPINAFRE

           Achava que tinha lido no Ruy Castro ou no Hermínio, mas andei buscando e não encontrei, uma estorinha deliciosa com Tom Jobim como personagem principal: diz que ele saiu de uma gravação no começo da madrugada com um amigo, e iam os dois caminhando por uma ruazinha lá pelos lados do Jardim Botânico, quando se depararam com um boteco já meio que fechando as portas. Viram que o boteco servia refeição, estavam com fome, entraram. O atendente (boteco tem garçom?), naquela já de querer se mandar, amarrou a cara, mas como a fome apertava, Tom ficou firme, perguntou se dava pra sair alguma coisa pra eles comerem.  Resposta positiva, diz que o maestro perguntou: “E o que que dá pra sair?” “Tudo”, foi a resposta convicta, de dentro da irritação do cara.  “Tudo? Então me traz rã com bertalha.”
            Não sei se Tom gostava de rã com bertalha, provavelmente não.  Pois o inusitado do prato me atrai, qualquer dia arrisco fazer.  Separadamente adoro tanto rã quanto bertalha, a combinação deve ficar interessante, mesmo no meio da madrugada.  Até porque uma receita clássica pra curar ressaca é canja de rã, uma delícia – sei lá se funciona pra ressaca, mas é ótima.  Um partido que Aniceto do Império cantava sempre, Candeia gravou, tem lá: “Você já começa a beber/vou lhe dar caldo de rã...” Já bertalha, a prima pobre do espinafre, que nunca teve um Popeye pra incentivar ser despejada goela abaixo da garotada, a pobre bertalha as pessoas nem sabem mais o que é, difícil até de achar pra comprar. É uma folhinha maravilhosa, trepadeira de verão, sobe em qualquer armação que se faça pra ela, até mesmo pelas paredes, como eu tinha aqui no meu brejo antes que a chuvarada de janeiro levasse tudo.



           A foto que ilustra esta postagem, tosca por conta única e exclusiva do fotógrafo aqui, não é de rã nem de bertalha.  É de miolo de boi.  Envolvido numa mistura de farinha de trigo com cerveja, temperada com sal e salsa, e frito em óleo bem quente.  Fiz aqui pra comer com um cremoso arroz de espinafre, por falar nele.  Aliás, miolo também é difícil, dificílimo de se conseguir, tem que encomendar com antecedência. No Rio eu comia às vezes no Cervantes, que tinha no cardápio (ainda tem?), com batatas fritas.  Cervantes, bom também para se comer rim, que lá eles fritam inteiro, com uma fatia de bacon.  Tinha também no Lucas, no Posto 6, que acabou. Rim é ótimo, gosto de preparar no vinho e comer com jiló lascado fininho e passado na chapa com cebola.
            Deve ter gente que, enojada, já parou há algum tempo de ler isto.  Uma amiga minha, que aliás é seguidora aqui do “Firma”, usou uma expressão ótima do marido para se recusar a comer certas coisas – eu estava explicando como preparo polvo: diz que o marido dela se recusa a comer “comida explícita”.  Uma outra amiga, que adora camarão, se recusa a comer se ele estiver inteiro, “com os olhos me condenando”.  Em compensação, uma antiga sogra, senhora portuguesa, só comia coelho “se eu mesma puder matar ou se puder ver matarem”.  Não compra coelho morto de jeito e maneira, acha sempre que é gato.          
            Engraçadas as diferentes relações que as pessoas mantêm com o que comem.  Acho que pelo que eu digo e escrevo,  as pessoas me têm na conta de um ogro, esganado e pantagruélico.  Talvez seja, mas sou um ogro de alimentação muito balanceada e equilibrada, dentro dos meus padrões.  Como de tudo, desde que considere bem feito, incluindo botecos que sei que tenham comida (PF que seja) de feitura caprichada, embora ainda não tenha encontrado nenhum que sirva rã com bertalha.  Passei alguns meses da minha vida sem comer carne, e muitos legumes que adoro, por conta de um tratamento alternativo que fiz, e não sofri grande coisa: eu mesmo cozinhava e podia confiar.  Na rua, sabia os lugares de boa comida alternativa, macrô ou vegetariana.  Comida bem feita me dá prazer. As comidas explícitas de que falo lá em cima me habituei desde cedo a comê-las, muito antes de serem consideradas “exóticas” ou “bizarras” – aliás, tem um três anos, se tanto, que descobri num programa de TV que eu comia “comidas bizarras”. 
            Mas não sou um devorador de “comidas bizarras” exclusivamente. Se bem que as pessoas tendem a considerar “bizarras” coisas como bertalha, acelga, funcho, aipo, maravilhosos vegetais que freqüentam sempre a minha mesa ao lado dos mais comuns alface, couve, couve-flor, agrião, rúcula... Rúcula que até alguns anos provavelmente seria considerada “bizarra”.  Bizarro talvez fosse o hábito de voltar à noite de Campo Grande a Niterói, ao volante, Avenida Brasil quase inteira,  devorando um molho de rúcula hidropônica, que era cultivada pelo marido de uma colega, e que de vez em quando me presenteava com essa delícia. Tinha uma amiga que às vezes voltava comigo e era parceira nessas bizarrices. E viva o comer bem!

10 comentários:

  1. Horrível. Um lado grita eca; outro, morre de vontade de comer. Que coisa.

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  2. Verônica,
    você não consegue gritar de boca cheia, consegue? Fará a opção certa.
    Um beijo do
    Roberto Bozzetti

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  3. Bertalha é algo maravilhoso, lembra minha avó. Caldo de rã nunca comi, mas de bertalha sim e é maravilhoso. Com relação às vísceras citadas acima, como todas e outras que não foram citadas, tais como língua, dobradinha... Hummm.
    Fiquei extemamente curioso com de comer o miolo de boi com espinafre. Nas férias prometo ir ao Cervantes para ver se tem rim. Se topar, está feito o convite!

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  4. com foto é sacanagem, Bozzetti!
    e eu com meu pf (com minúsculas mesmo)diário!

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  5. Amigos:
    Pedro, o Cervantes agora é um bocado longe, mas estando no Rio é sempre uma pedida, até pelos sanduíches. Quem sabe? ou quem sabe você não virá aqui provar do que eu faço?
    Fred,
    o convite é extensivo.
    Podemos combinar algo pelos FBs da vida.
    abraços aos dois do
    Bozzetti

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Vou experimentar usar essa mistura de cerveja com farinha de trigo, pois, empanava os miolos com ovos e farinha de rosca. A propósito,vc usa algum tabletinho de tempero pronto na água do pré-cozimento dos miolos que vc prepara? Se não, aí vai a dica,
    ficam muito bons.

    Bjk

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  8. Beth,

    obrigado pela dica.

    Um beijo do
    Bozzetti

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  9. Roberto, me chamo Elcio e tenho 34 anos!
    Eu falo para meus amigos que ADORO miolo de boi...que é uma das coisas mais gostosas que minha mãe me ensinou a comer e eles me chamam exatamente de ogro, de vicking etc etc...
    Eu tb estou para ir no mercado municipal de SP pois por perto de casa, NUNCA encontrei miolo para comprar !!!

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  10. Pois é, Elcio, eu tenho a impressão de que essas partes do boi hoje são cada vez mais difíceis porque entram pra ser processadas em tudo quanto é tipo de ração animal. Assim, miolo e testículo (também uma delícia, cujo gosto parece com o de miolo, e eu sempre suspeito que isso quer significar alguma coisa) são dificílimos de se achar. Mesmo rim e coração já não é muito fácil. E tem uma coisa que eu acho muito divertida: muqueca de miolo, um prato baiano muito gostoso, é o prato predileto do Caetano Veloso. No documentário "Coração vagabundo" tem uma hora que ele diz: "Eu sou pop pra tudo, menos pra comida." Acho fantástica essa preferência dele, até porque mocuqeca de miolo é de fato maravilhosa.
    Obrigado pelo comentário, prossiga aí nas suas descobertas gadtronômicas e não se renda ao trivial pobre do dia-a-dia.
    Um abraço do
    Roberto Bozzetti

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