terça-feira, 7 de dezembro de 2010

GRACILIANO EM DOIS FRAGMENTOS

                
                 Livro bom de ler é Graciliano: retrato fragmentado, escrito por seu filho, o também escritor Ricardo Ramos, morto em 1992 (Graciliano morreu em 1953).  Sem pretender ser uma biografia, para além de ser um depoimento de filho sobre o pai ilustre,  é um enriquecedor depoimento de um escritor filho de escritor.  Há várias passagens marcantes sobre a figura de Graciliano; abaixo vai uma, deliciosa:
                “E no cinqüentenário do Correio da Manhã, comemorado com larga programação, transformado em feriado, meu pai ficou em casa, de pijama, para no outro dia chegar ao jornal e ouvir de Paulo:
                − Graciliano, você me fez uma!
                − Quê?
                − Não foi à missa.
                − Eu sou lá homem de missa?
                − Não foi ao banquete.
                − Eu não sabia.
                − Seu lugar ficou vazio, ao meu lado.
                − Bem feito.  Eu não me sento ao lado de patrão.
                − Mas eu sou um patrão diferente.
                − Você que pensa.  Todo patrão é filho da puta.
               
                Paulo Bittencourt deu uma gargalhada.  Papai também.  Depois, muito provavelmente, foram beber.”

                Quanto ao aspecto de ser um livro de escritor sobre o pai escritor, vai esta passagem:
               
                “Creio que todos nós, perturbados pela literatura, muitas vezes nos interrogamos sobre as intenções do autor. Não me refiro às centrais, mais ou menos óbvias, mas às secundárias e, particularmente, àquelas que ficam na sombra e pouco se revelam.  Esse lado um tanto obscuro, que na obra de Graciliano é território vasto.  E a respeito do qual ele falava muito.
                Vidas secas, por exemplo.  O soldado amarelo representa a força que sustenta o fazendeiro, que não faz as contas direito, e a sequência inteira, até a prisão do vaqueiro e a surra, está bastante clara.  Já não fica tão fácil, de um prisma histórico, localizar a mulata sinha Vitória e o alourado Fabiano em plena ascensão do fascismo, com o mito da superioridade racial ariana, ela cafuza e inteligente a dirigir o marido branco e bruto.  Mais que isso, o que poucos percebem, capaz de enganá-lo. (Como é que ia saber da cama de couro de seu Tomás da bolandeira?).”

3 comentários:

  1. Nossa!! Como ela sabe da cama??!
    Rapariga safada. hahahaha

    Vidas Secas é mto bom!

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  2. Caio,

    Graciliano é um escritor fundamental, sempre. Não tenho ídolos, mas se os tivesse, ele seria um dos mais próximos disso.
    Obrigado pelo comentário,

    um abraço
    Bozzetti

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  3. Como todo patrão, todo ídolo também é um filho da puta. Só precisam de uma ocasião. Ele, certamente, não se sentiria bem em nenhum "altar".

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